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Suyo

O Peso do Sangue Frio

O motor do utilitário rugia em rotação alta, cortando a névoa fria que rastejava sobre o asfalto úmido da madrugada. Dentro do veículo, no entanto, o som mais alto era o da respiração entrecortada e febril de Tatsuyo.

A cada solavanco da suspensão contra as imperfeições da pista, um espasmo violento sacudia o corpo miúdo da garota. Ela continuava encolhida no banco do passageiro, com os joelhos pressionados com força desesperada contra o peito e a jaqueta de hóquei de Kuro cobrindo-a como uma armadura inútil. As unhas curtas cravavam-se no tecido cinza do moletom emprestado, bem na altura da virilha, numa tentativa inconsciente e dolorosa de conter o que se passava ali dentro.

A dor interna não dava trégua. Pelo contrário: parecia se aprofundar, ramificando-se pelo ventre em pontadas quentes e cortantes. A sensação era de que sua carne havia sido lacerada por vidro moído; qualquer contração involuntária dos músculos pélvicos arrancava-lhe arfadas curtas e sibilantes. Sob o tecido grosso da calça, uma mancha escura e viscosa começava a se espalhar silenciosamente, denunciando uma hemorragia que não estancava. Tatsuyo sentia o líquido quente escorrer devagar pela parte interna de suas coxas, misturando-se a um ardor insuportável que a fazia queimar por dentro.

Seus olhos pretos estavam fixos no painel iluminado, mas não enxergavam ponteiros nem números. As lágrimas haviam secado em crostas salgadas sobre a pele parda de suas bochechas, deixando espaço apenas para um suor frio que colava os fios ondulados de seu longo cabelo escuro ao pescoço machucado.

— Tá... queimando... — a voz dela escapou em um sussurro arrastado, desprovido de fôlego, quase imperceptível. — Kuro... tá rasgando... apaga... pede pra ele sair de cima...

Kuro não tirava os olhos da avenida deserta, mas cada palavra que saía daqueles lábios ressecados atingia seu peito como um golpe de taco de hóquei em cheio nas costelas. O rapaz de dezoito anos mantinha os nós dos dedos brancos de tanta força que aplicava sobre o volante de couro. O maxilar quadrado estava tão travado que os músculos da face tremiam sob a pele alva. Sob a franja curta e branca, seus olhos castanhos escuros cintilavam com uma mistura dilacerante de desespero e ódio puro.

— Aguenta, Tatsuyo. Por favor, aguenta firme — disse Kuro, a voz soando rouca, estrangulada pelo esforço descomunal de não desabar ou gritar. — Faltam menos de cinco minutos. A gente tá chegando no Regional. Eles vão cuidar de você.

Ele estendeu a mão direita por um breve segundo, querendo confortá-la, mas a recolheu antes mesmo de encostar na manga da jaqueta. Lembrava-se do pavor nos olhos dela toda vez que alguém se aproximava. Não podia correr o risco de fazê-la recuar e agravar ainda mais o sofrimento daquele corpo frágil.

No banco de trás, o silêncio era uma cova aberta.

Nico estava sentado na extremidade oposta, esmagado contra a porta traseira, com as pernas encolhidas e a cabeça enterrada entre as palmas das mãos. O garoto de dezesseis anos tremia tanto quanto a irmã, mas seu tremor vinha de uma culpa monstruosa que parecia triturar seus órgãos internos um a um. Seus olhos pretos, inchados e vermelhos de tanto chorar, encaravam o encosto do banco da frente.

Ele via as pontas dos cabelos pretos de Tatsuyo caídas sobre o ombro da jaqueta de Kuro. Via os hematomas escuros que manchavam a nuca dela. E, para seu terror absoluto, ao baixar a vista para o vão entre os bancos dianteiros, notou o tom rubro que umedecia a lateral do estofamento claro onde ela estava sentada.

O ar sumiu da garganta de Nico. Um soluço agudo e desesperado escapou por entre seus dedos.

— Tats... — balbuciou ele, a voz quebrando em um choro infantil, despido de qualquer pose ou arrogância. — Tatsuyo, olha pra mim... me perdoa... por Deus, me perdoa... eu não sabia, eu juro que não sabia...

A reação de Tatsuyo ao som da voz do irmão foi imediata e aterradora.

Ao ouvir o timbre que outrora representava a sua única família, o corpo dela enrijeceu em um espasmo de puro pânico. Tatsuyo tentou afastar-se na direção da porta do passageiro, mas o movimento brusco tensionou brutalmente sua região pélvica. Um grito lancinante, rouco e sufocado pela garganta machucada rasgou o interior do veículo. Suas mãos subiram desajeitadas para a cabeça, puxando os próprios cabelos enquanto seu tronco se dobrava sobre os joelhos.

— Não! Não me chama... o corredor tava escuro, Nico! — ela começou a murmurar num delírio frenético, balançando o tronco para a frente e para trás, os dentes batendo ruidosamente. — Você mandou... você disse que tava passando mal... ele tava rindo, Nico... tava doendo tanto... tá rasgado aqui dentro... tá sangrando muito... fecha a porta... não deixa ele entrar de novo...

— Tatsuyo, pelo amor de Deus, me escuta! — Nico inclinou-se para a frente, desesperado, estendendo a mão para tentar tocar o ombro dela através do espaço entre os bancos. — Sou eu! Seu irmão!

— TIRA A MÃO DELA! — o rugido de Kuro ecoou como um trovão dentro do espaço confinado do carro.

Num reflexo violento, Kuro jogou o braço direito para trás, desferindo um empurrão pesado contra o peito de Nico. A força do impacto fez o garoto de dezesseis anos colidir duramente contra as costas do banco traseiro, batendo a cabeça no vidro lateral.

— Não encosta nela, seu merda! — sibilou Kuro, os olhos chamejando através do espelho retrovisor, veias grossas pulsando em sua têmpora. — Você não escutou o que ela disse?! Toda vez que você abre essa boca imunda, você piora o estado dela! Cala a porra da boca e fica no seu canto se não quiser que eu te jogue pra fora desse carro em movimento!

Nico encolheu-se no banco de trás, puxando os joelhos contra o peito e afundando o rosto nas calças jeans. Os soluços sacudiam seus ombros magros de maneira patética. A verdade era um veneno que corria em suas veias: ele era o responsável. Ele havia entregado a garota que acordava cedo para fazer seu café, que trabalhava para pagar o aluguel, que o protegera a vida inteira. Tudo por causa de uma aprovação vazia de veteranos que nem sequer sabiam o seu sobrenome direito.

O utilitário fez uma curva brusca à esquerda, os pneus cantando no asfalto molhado. As luzes de néon azul e vermelho do setor de emergência do Hospital Regional surgiram no final da descida, cortando a escuridão da noite.

Kuro não procurou vaga. Ele avançou diretamente sobre a baia reservada para as ambulâncias, freando o veículo de forma abrupta em frente às portas automáticas de vidro. O carro parou com um solavanco, e o motor morreu com o giro seco da chave.

— Chegamos — disse Kuro, sua voz descendo para um tom tenso, mas deliberadamente suave ao se virar para Tatsuyo. — Tatsuyo, a gente tá no hospital. Olha pra mim... só por um segundo, olha pra mim.

Tatsuyo não olhou. A respiração dela tornara-se superficial e rápida, o peito subindo e descendo num ritmo quebrado. Os lábios estavam perdendo a cor natural, adquirindo uma tonalidade pálida e arroxeada, sintoma claro do choque hipovolêmico que se instalava lentamente. Quando ela tentou relaxar as pernas para se mover, uma nova pontada aguda fez sua visão escurecer; ela arquejou, o corpo caindo de lado contra o apoio de braço, incapaz de sustentar o próprio peso. A dor interna era profunda demais, como se suas entranhas tivessem sido desfeitas por dentro.

Kuro saltou do carro sem fechar a porta. A chuva fina começava a cair, molhando seus cabelos brancos e seu rosto tenso enquanto ele contornava a dianteira em passos largos e firmes. Nico saiu logo atrás, cambaleando sobre as pernas bambas, os olhos fixos na irmã com uma expressão de terror estúpido, como se estivesse presenciando a própria alma apodrecer.

— Fica aí — ordenou Kuro friamente para o garoto, abrindo a porta do passageiro com extremo cuidado.

O cheiro metálico de sangue morno misturado ao aroma do couro fechado atingiu o olfato do atleta assim que ele se inclinou para dentro. Sob o corpo de Tatsuyo, o assento do banco exibia uma poça escura que já havia encharcado a lateral da calça de moletom. O sangramento não era superficial; era abundante e vinha de lesões profundas no canal vaginal, causadas pela violência desmedida da agressão.

— Tatsuyo... eu preciso tirar você daqui — disse ele, a voz tremendo levemente pela primeira vez. — Eu vou te pegar no colo. Vai doer um pouco, mas eu preciso te levar pra dentro. Você confia em mim?

Ela piscou devagar, as pálpebras pesadas. Através da névoa de dor insuportável e confusão mental, seus olhos negros encontraram o rosto pálido e os traços fortes de Kuro. Não havia malícia ali. Não havia o sorriso doentio e ébrio de Hidan. Havia apenas uma dor que parecia espelhar a dela e um cuidado desesperado.

— Kuro... — sussurrou ela, as lágrimas voltando a brotar dos cantos de seus olhos. — Dói... aqui dentro... dói tanto...

— Eu sei, meu amor. Eu sei — a confissão escapou de seus lábios sem que ele pudesse conter, impulsionada pelo terror de vê-la esvair-se em seus braços. — Eu tô aqui. Ninguém nunca mais vai tocar em você.

Com a máxima delicadeza que sua estrutura atlética de um metro e oitenta permitia, Kuro passou um braço firme sob as costas miúdas de Tatsuyo e o outro sob a dobra de seus joelhos. No instante em que os quadris dela se moveram para que ele a erguesse, a tensão muscular comprimiu as feridas internas. Tatsuyo soltou um lamento agudo e desesperado, cravando as unhas no peito de Kuro enquanto a cabeça dela tombava para trás, o corpo inteiro tremendo em convulsões de agonia física.

— Kuro! — Nico deu um passo à frente, as mãos estendidas, o pavor tomando conta de suas feições. — Ela tá desmaiando! Ela tá...

— Sai da porra da minha frente! — rugiu Kuro, empurrando o garoto com o ombro enquanto girava com Tatsuyo nos braços.

Ele avançou a passos rápidos em direção às portas automáticas, que se abriram com um zumbido mecânico. O calor artificial e a iluminação fluorescente e impiedosa do pronto-socorro engoliram o trio instantaneamente. O cheiro de álcool antisséptico e éter substituiu a brisa fria da rua.

A recepção estava relativamente vazia, com apenas um casal idoso esperando em bancos plásticos, mas a visão de um jovem musculoso de cabelos brancos ensopados, carregando uma garota quase inconsciente enrolada em uma jaqueta ensanguentada, quebrou a calmaria da triagem em uma fração de segundo.

— Socorro! — a voz de Kuro ecoou pelo saguão, forte e autoritária, não mais como a de um adolescente, mas como a de um homem desesperado exigindo a vida de quem amava. — Alguém ajuda aqui, caralho! Ela tá sangrando muito!

Uma enfermeira chefe de meia-idade, com cabelos presos em um coque rigoroso, ergueu os olhos do balcão e, ao notar o estado de Tatsuyo e as manchas vermelhas escorrendo pelo moletom até os braços de Kuro, acionou imediatamente o botão de emergência na parede.

— Maca! Tragam uma maca agora para a sala de trauma três! — gritou a mulher, contornando a bancada a passos ligeiros.

Em menos de vinte segundos, dois enfermeiros surgiram empurrando uma maca metálica com rodízios barulhentos.

— Coloque-a aqui, devagar, com a cabeça voltada para cá — orientou a enfermeira, os olhos experientes já avaliando os sinais clínicos: a palidez acentuada da pele parda, a respiração entrecortada, os hematomas no pescoço. — O que aconteceu com ela?

Kuro depositou Tatsuyo sobre o lençol branco com o maior cuidado do mundo, mas o contato do corpo dela com a superfície plana arrancou outro gemido dilacerado da jovem. Suas pernas tentaram se recolher instintivamente para proteger a região ferida, o sofrimento interno tornando quase impossível mantê-la estendida.

— Ela... ela foi violentada — a voz de Kuro falhou, as palavras saindo secas, com o gosto de cinzas. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo, os nós dos dedos manchados pelo sangue dela. — O desgraçado agrediu ela. Ela tá sangrando por dentro. Tá com muita dor na parte íntima, não consegue esticar as pernas.

A enfermeira assentiu com gravidade profissional, sem tempo para julgamentos. Ela colocou os dedos no pulso fino de Tatsuyo.

— Taquicardia severa. Pressão arterial caindo — disse ela rapidamente para os colegas. — Precisamos de acesso venoso imediato. Chamem o cirurgião ginecológico de plantão agora! Temos uma suspeita de laceração vaginal de alto grau com hemorragia ativa. Preparem o kit de profilaxia e solicitem duas bolsas de sangue para tipagem.

— Não... — Tatsuyo balbuciava no colchão, a mão trêmula tentando afastar as luvas de látex que cortavam a lateral do moletom para ter acesso às suas pernas. Os olhos dela giravam no teto brilhante, perdidos num turbilhão de memórias do quarto escuro de Hidan. — Por favor... não me prende... Kuro... dói muito... tá queimando tudo...

Kuro deu um passo à frente, esquecendo os enfermeiros, esquecendo o mundo ao redor. Ele segurou a mão pequena e fria de Tatsuyo entre as suas, ignorando as manchas vermelhas que sujavam seus próprios dedos.

— Eu tô aqui, Tatsuyo — ele disse, inclinando-se perto do rosto dela, permitindo que ela visse seus olhos castanhos cheios de lágrimas não derramadas. — Eles são médicos. Vão fazer a dor parar. Eu prometo que a dor vai parar. Você tá segura agora.

Ela apertou os dedos dele com uma força surpreendente para o estado em que se encontrava, um último refúgio de consciência antes que a dor insuportável e a perda de sangue começassem a arrastá-la para a escuridão do desmaio.

— Rápido, levem-na para a sala três! — ordenou o médico que acabara de entrar correndo pelo corredor interno, ajustando o estetoscópio.

A maca começou a se mover com velocidade, os rodízios cantando sobre o chão brilhante. Kuro tentou acompanhar, mantendo a mão dela presa à sua pelo máximo de tempo possível, mas a enfermeira chefe colocou o braço firme contra o peito dele, bloqueando seu caminho nas portas duplas que davam acesso à ala cirúrgica restrita.

— Daqui você não pode passar, rapaz — disse ela com firmeza, mas com um toque de compaixão no olhar. — Nós vamos cuidar dela. Fique na sala de espera.

— Ela precisa de mim! — protestou Kuro, a voz falhando em um desespero cru, os músculos dos braços tensos como se fosse empurrar a porta de ferro à força.

— Ela precisa de cirurgia e estancamento agora, e você só vai atrapalhar a equipe estéril — respondeu a mulher, com uma rigidez necessária. — Espere lá fora.

As portas bateram com força, trancando-se automaticamente com um clique magnético. A pequena janela de vidro armado mostrava apenas vultos brancos e verdes correndo ao redor da maca de Tatsuyo antes que uma cortina azul fosse puxada, bloqueando completamente a visão.

O silêncio do corredor caiu sobre Kuro como uma tonelada de chumbo.

Ele permaneceu parado em frente às portas fechadas, os braços pendendo ao lado do corpo. Olhou para as próprias mãos. A pele branca de seus nós dos dedos e de suas palmas estava manchada com o sangue escuro de Tatsuyo. O sangue da garota tímida que ele observava da pista de gelo, a garota que ele deveria ter protegido antes que o pior acontecesse. Um tremor involuntário subiu por seus braços musculosos, a fúria e o horror disputando espaço em sua garganta em um nó sufocante.

Passos hesitantes ecoaram atrás dele.

Nico estava parado a poucos metros de distância, no meio do corredor vazio. O garoto de dezesseis anos parecia ter encolhido. Seus ombros estavam caídos, os braços cruzados sobre a barriga como se tentasse conter as próprias entranhas que se reviravam. Seu rosto moreno claro estava lavado por lágrimas contínuas, e ele encarava as portas trancadas com um terror que o impedia até mesmo de respirar direito.

— Ela... ela vai morrer? — perguntou Nico, a voz saindo fina, fraca, desprovida de qualquer vestígio da soberba que ele ostentava horas antes na festa.

Kuro virou-se devagar. Seus olhos castanhos, antes carregados de zelo e afeto por Tatsuyo, pousaram sobre Nico como duas lâminas em brasa. Ele deu dois passos lentos na direção do garoto mais jovem, que recuou até suas costas baterem contra a parede gélida de azulejos do hospital.

— Se ela morrer... — Kuro falou tão baixo que o som parecia vir do fundo de uma sepultura, o rosto a centímetros do de Nico, a respiração quente e perigosa. — ...eu mato o Hidan com as minhas próprias mãos. E depois eu volto pra acabar com você.

Nico não rebateu. Não tentou se defender, não tentou inventar mais desculpas sobre brincadeiras idiotas de time. Ele simplesmente deslizou as costas pela parede fria até cair sentado no chão do corredor, cobrindo o rosto com as mãos ensanguentadas que haviam encostado no banco do carro, afundando em um choro mudo e doentio.

Kuro virou as costas para ele e caminhou até as cadeiras de plástico da sala de espera. Ele sentou-se na beirada do assento, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e enterrou os dedos nos cabelos brancos e repicados, encarando as portas duplas fechadas enquanto o relógio de parede marcava os segundos em um ritmo impiedoso. Ali dentro, Tatsuyo lutava contra as marcas indeléveis deixadas na carne e na alma; ali fora, a vida de todos eles havia sido irrevogavelmente destruída.

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