Swat
O Peso do Silêncio e a Força da Verdade
A tensão no ar do QG da SWAT era quase palpável, mas não era nada comparado ao caos que emanava dos monitores. O Comandante Hicks e a Capitã Cortez estavam com os olhos fixos nas telas, coordenando a operação em tempo real. Uma rebelião em larga escala em uma das prisões de segurança máxima de Los Angeles havia se transformado em uma guerra campal entre duas gangues rivais.
— Equipe 20, ouçam bem — a voz de Hicks ecoou pelos comunicadores. — Temos dois focos principais de conflito. Hondo, você leva Hatake, Tan e Cris pela ala leste para interceptar os "Kings of Hill". Deacon, você pega Luca, Street e Nakamura e entra pelo bloco oeste para conter os "Raza Unida". O objetivo é isolar as lideranças e evitar que os detentos cheguem à enfermaria.
— Entendido, Comandante — respondeu Hondo, ajustando seu rifle. — Equipe, em movimento.
Kuro Hatake sentiu um frio na espinha que nada tinha a ver com o perigo da missão. Ele olhou para Tatsuyo, que terminava de ajustar a proteção de pescoço. Seus olhos se encontraram por um breve segundo. Ele queria dizer para ela tomar cuidado, queria gritar que ela não deveria estar ali, carregando o herdeiro deles em meio a uma chuva de estilhaços e fúria. Mas ele apenas assentiu, um gesto profissional que escondia um coração martelando desesperado.
As equipes se dividiram. Hondo liderou seu grupo pelos corredores escuros e úmidos da ala leste, onde o cheiro de gás lacrimogêneo e fumaça já começava a se impregnar nos uniformes. Do outro lado, Deacon avançava com cautela.
O Bloco Oeste era um labirinto de metal e concreto. Gritos ecoavam pelas paredes, e o som de grades sendo batidas criava uma cacofonia ensurdecedora.
— Mantenham a formação! — ordenou Deacon. — Street, cubra a esquerda. Nakamura, comigo na ponta!
Eles avançaram por um corredor estreito quando uma emboscada aconteceu. Detentos armados com estoques improvisados e pedaços de cano saltaram de uma das celas que teve a tranca serrada. A luta foi brutal e corpo a corpo. Tatsuyo se moveu com a agilidade de sempre, mas o chão estava escorregadio devido ao óleo derramado pelos presos.
Ao desviar de um golpe, seu pé cedeu. Ela caiu pesadamente de lado, e um detento aproveitou a oportunidade para lançar um banco de metal pesado em sua direção. O objeto a atingiu no flanco, jogando-a contra a parede de concreto.
— Nakamura! — gritou Street, disparando sua arma de ar comprimido para afastar os agressores.
Luca e Deacon rapidamente neutralizaram o restante dos criminosos, criando um perímetro. Deacon ajoelhou-se ao lado de Tatsuyo, que estava pálida, com a mão pressionando as costelas, os olhos lutando para permanecerem abertos.
— Eu estou... estou bem — ela ofegou, mas a dor em seu rosto dizia o contrário.
— Negativo. Luca, Street, vamos tirá-la daqui agora! — Deacon comandou pelo rádio. — Hicks, temos um oficial ferido. Bloco Oeste limpo, mas Nakamura está fora de combate. Estamos saindo para o ponto de extração médico.
Enquanto isso, na ala leste, Hondo e sua equipe ainda estavam atolados em um confronto prolongado. Kuro ouviu a mensagem pelo rádio. Seu mundo parou. O som dos tiros ao seu redor tornou-se um zumbido distante. Ele queria correr, queria atravessar as paredes para chegar até ela, mas Hondo o segurou pelo ombro.
— Hatake! Foca aqui! A gente termina isso e vai direto para lá. Ela está com o Deac, ela está segura.
Kuro não respondeu. Ele apenas lutou. Ele lutou com uma ferocidade que assustou até Tan. Ele era um borrão de cabelos brancos e movimentos precisos, derrubando qualquer um que estivesse no caminho, mas não havia piadas. Não havia o "Kuro engraçadinho". Havia apenas um homem operando no automático, consumido pelo terror silencioso.
Do lado de fora, Deacon e Street ajudaram os paramédicos a colocarem Tatsuyo na ambulância. Ela estava consciente, mas a preocupação com o bebê a deixava em um estado de pânico contido que ela tentava esconder dos colegas.
— Vai ficar tudo bem, Tats — disse Street, apertando a mão dela antes das portas fecharem. — A gente espera o resto do time e vai direto para o hospital.
Cerca de quarenta minutos depois, a equipe de Hondo finalmente emergiu dos portões da prisão, cobertos de fuligem e suor. Hondo procurou Deacon imediatamente.
— Como ela está? — perguntou Hondo, a voz rouca.
— Levada para o Memorial. Ela sofreu um impacto forte lateral. Estava com muita dor, mas consciente — respondeu Deacon.
Kuro estava parado atrás deles. Ele não perguntou nada. Ele não disse "eu avisei". Ele apenas caminhou em direção ao SUV da SWAT, seus olhos castanhos escuros fixos no horizonte, vazios de qualquer brilho. O silêncio dele era mais alto que qualquer sirene.
Durante todo o trajeto até o hospital, o time 20 manteve um silêncio respeitoso, achando que Kuro estava apenas abalado pelo ferimento de uma colega querida. Mal sabiam eles que ele estava contando cada batida do próprio coração, rezando para que duas vidas ainda estivessem intactas.
Ao chegarem ao hospital, a recepção estava agitada. Hicks e Cortez já estavam lá, aguardando notícias. Hondo liderou o grupo até o balcão.
— Equipe da SWAT para ver Tatsuyo Nakamura — disse Hondo.
Uma enfermeira saiu da área interna, consultando uma prancheta.
— Ela está estável, mas precisamos de um acompanhante imediato para assinar alguns termos e acompanhar a ultrassonografia de emergência que foi solicitada devido a... algumas complicações mencionadas.
Antes que Hondo ou Hicks pudessem dar um passo à frente como superiores, Kuro Hatake se levantou da cadeira de plástico onde estava sentado. Ele não pediu permissão. Ele não olhou para trás. Seus 1,80m de altura pareciam carregar o peso do mundo enquanto ele caminhava em direção à enfermeira.
— Eu vou — disse ele, a voz baixa e absoluta.
Hondo franziu a testa, trocando um olhar confuso com Deacon, mas ninguém o impediu. Havia algo na postura de Kuro que não admitia contestação.
Kuro entrou no quarto. O som rítmico do monitor cardíaco era a única música ali. Tatsuyo estava deitada, com um acesso venoso no braço, a pele parda um pouco mais pálida que o normal. Quando ela viu Kuro entrar, seus olhos pretos se encheram de lágrimas.
— Kuro... — ela sussurrou.
Ele não disse nada. Ele apenas caminhou até a lateral da cama, pegou a mão dela entre as suas e a beijou com uma reverência desesperada. Ele encostou a testa na mão dela e finalmente soltou o ar que parecia estar preso desde o chamado no rádio.
— O bebê... — ela murmurou, a voz trêmula.
— A enfermeira disse que o batimento está forte, Tats — Kuro finalmente falou, a voz falhando. — O impacto foi nas costelas inferiores, o colete absorveu a maior parte. Ele está bem. Vocês dois estão bem.
Eles ficaram assim por um longo tempo, apenas sentindo a presença um do outro, até que o médico deu o aval para que o restante da equipe entrasse para uma visita rápida.
Quando Hondo, Deacon, Luca, Street, Tan e Cris entraram no quarto, a cena que encontraram os fez parar bruscamente.
Tatsuyo estava sentada na cama, parecendo muito mais calma e recuperada. E Kuro, o cara que nunca ficava parado, o palhaço do grupo, estava em pé ao lado dela, com os dedos firmemente entrelaçados aos dela, sem qualquer intenção de soltar. A intimidade da cena era óbvia demais para ser ignorada.
— Nakamura, que susto você deu na gente — começou Hondo, mas sua voz perdeu força ao notar a mão de Kuro acariciando o polegar de Tatsuyo. — Hatake?
Tatsuyo olhou para Kuro e assentiu levemente. Não dava mais para esconder. O susto tinha sido o limite.
— Pessoal, antes de qualquer coisa... eu estou bem. O susto foi maior que o dano físico — disse Tatsuyo, com a voz firme.
— A gente ficou preocupado, parceira — disse Luca, limpando o suor da testa. — O Hatake então, parecia que tinha visto um fantasma.
Kuro deu um passo à frente, ainda segurando a mão dela. Ele olhou para cada um de seus companheiros, seus irmãos de armas.
— Temos algo para contar a vocês — disse Kuro. O tom brincalhão tinha sumido, substituído por uma seriedade orgulhosa. — E sabemos que isso vai contra as regras do Hicks e da Cortez, mas depois de hoje... não dá mais para fingir.
Tatsuyo respirou fundo e completou:
— Kuro e eu... somos noivos. Já faz alguns meses.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Street abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Cris olhou de um para o outro, os olhos arregalados. Hondo cruzou os braços, processando a informação, sua expressão mudando de choque para uma compreensão profunda de todos os comportamentos estranhos das últimas semanas.
— Noivos? — Tan engasgou. — Debbaixo do nosso nariz?
— E tem mais — continuou Kuro, e um sorriso pequeno e emocionado finalmente apareceu em seu rosto enquanto ele olhava para a barriga de Tatsuyo. — Estamos esperando um bebê. Três meses.
Desta vez, o choque foi acompanhado por um suspiro coletivo. Deacon, o pai do grupo, foi o primeiro a sorrir abertamente.
— Por isso o Hatake estava agindo como um escudo humano hoje — murmurou Deacon, balançando a cabeça. — Meu Deus, parabéns!
— Um bebê? — Street finalmente recuperou a voz. — Cara, o Hatake vai ser pai? A criança vai nascer fazendo piada de tiozão!
A tensão no quarto quebrou em uma onda de risadas e exclamações de alegria. Cris se aproximou para abraçar Tatsuyo cuidadosamente, enquanto Luca dava um tapa amigável — e forte — nas costas de Kuro.
Hondo, que permaneceu em silêncio por alguns segundos, deu um passo à frente. Todos se calaram, esperando a reação do líder. Hondo olhou para as mãos unidas dos dois e depois para o rosto de Kuro.
— Eu deveria estar furioso por vocês terem quebrado o protocolo — disse Hondo, a voz grave. — E o Hicks provavelmente vai ter um ataque cardíaco quando souber.
Ele fez uma pausa, e então um sorriso largo e genuíno iluminou seu rosto.
— Mas eu nunca vi vocês dois tão felizes. E, sinceramente, em um trabalho onde a gente vê tanta coisa ruim... saber que uma vida nova está vindo de dois dos meus melhores oficiais? É a melhor notícia que eu recebi em anos. Parabéns, Hatake. Parabéns, Nakamura.
Kuro sentiu um nó na garganta. Ele olhou para Tatsuyo, que sorria radiantemente, as lágrimas agora sendo de pura felicidade.
— Obrigado, Hondo — disse Kuro, recuperando um pouco de seu brilho habitual. — Mas só para constar, se o bebê tiver o meu abdômen e os olhos dela, ele vai ser a criança mais perigosa de Los Angeles.
— E lá volta o Hatake que a gente conhece — riu Tan.
— Só espero que ele não tenha o seu senso de humor, Kuro — brincou Tatsuyo, apertando a mão dele.
Enquanto a equipe conversava e planejava como convencer Hicks a não demiti-los, Kuro se inclinou e sussurrou no ouvido de Tatsuyo:
— Eu te disse que ficaria tudo bem.
— Você sempre diz isso — ela respondeu.
— É, mas desta vez, eu tinha uma testemunha — ele disse, colocando a mão livre sobre o ventre dela.
Naquele quarto de hospital, cercados pela família que escolheram, o segredo que tanto os assombrava transformou-se na força que os uniria para sempre. O futuro na SWAT era incerto, mas enquanto estivessem juntos, Kuro e Tatsuyo sabiam que nenhuma rebelião ou regra poderia derrubá-los.