Sweet Ruin
Entre Taças de Cristal e Promessas de Sangue
O jantar na mansão Gerard naquela noite era uma exibição de opulência que beirava o obsceno, considerando que, do lado de fora dos portões de ferro, a cidade de Nova Orleans ainda lutava para não ser engolida pelo lodo do Mississippi. Velas de cera de abelha, caras e raras, iluminavam o salão de jantar, fazendo com que a prataria polida brilhasse sob os olhares atentos dos novos hóspedes.
Genevieve estava sentada à direita de seu pai, vestindo um novo traje de seda carmesim que realçava a palidez de sua pele e o brilho desafiador em seus olhos. Ela mal tocara na vitela. Sua atenção estava dividida entre o desprezo que sentia por Niklaus, que se sentava diretamente à sua frente, e a curiosidade que nutria por Rebekah e Elijah.
O Governador Gerard, entretanto, parecia ter rejuvenescido dez anos. Ele gesticulava com entusiasmo, sua peruca empoada levemente torta enquanto tentava impressionar os Mikaelson.
— Devo dizer, Lorde Niklaus, que sua proposta de investimento nas docas é exatamente o que a colônia precisa para se desvencilhar da dependência total da coroa — declarou o Governador, erguendo sua taça. — Com o seu ouro e a minha autoridade, faremos desta lama um império.
Klaus, que girava uma faca de prata entre os dedos com uma destreza perturbadora, lançou um olhar de soslaio para Genevieve antes de responder ao pai dela.
— O ouro é a parte fácil, Governador. O difícil é encontrar pessoas com a fibra necessária para governar — disse Klaus, sua voz arrastada, carregada de um subtexto que Genevieve sentiu como um insulto direto. — Muitos se perdem em pequenos luxos e esquecem que o poder exige... sacrifícios.
— Sacrifícios que o senhor parece muito disposto a exigir dos outros, mas raramente de si mesmo, presumo — rebateu Genevieve, cortando o silêncio que se seguiu à fala de Klaus.
O Governador pigarreou, nervoso.
— Genevieve, por favor. Lorde Niklaus é nosso convidado.
— Está tudo bem, Gerard — interveio Elijah, sua voz calma agindo como um bálsamo sobre a tensão da mesa. — Minha irmã e eu estamos encantados com a hospitalidade. De fato, a senhorita Genevieve possui uma sagacidade que é rara de se encontrar, tanto aqui quanto no velho continente.
Genevieve ofereceu a Elijah um sorriso genuíno, o primeiro da noite.
— O senhor é um observador atento, Lorde Elijah. É um alívio ver que a cortesia não foi totalmente esquecida na viagem através do Atlântico.
Rebekah, sentada ao lado de Elijah, soltou uma risadinha abafada por trás de sua taça de vinho. Ela parecia estar se divertindo imensamente com o duelo verbal.
— Oh, Elijah é o santo da família, Vee — disse Rebekah, piscando para a nova amiga. — Se dependesse de Niklaus, estaríamos todos vivendo em uma fortaleza cercada por fossos e espinhos, apenas para garantir que ninguém desobedeça às suas ordens.
— Um conceito interessante — comentou Klaus, os olhos fixos em Genevieve, brilhando com uma intensidade predatória. — Mas alguns espinhos são necessários para proteger as rosas mais... selvagens. Não concorda, Mademoiselle?
Genevieve sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não de medo. Era uma fúria incandescente. Ela detestava o modo como ele parecia ler suas intenções, como se soubesse que, sob aquela fachada de porcelana, havia uma mulher que escapava pela janela para encontrar um soldado pobre nas sombras do pântano.
— Eu prefiro as flores que crescem livres, Lorde Niklaus. Aquelas que morrem se tentarem ser enjauladas — respondeu ela, mantendo o contato visual.
— Que desperdício — murmurou Klaus, levando o vinho aos lábios. — Eu sempre achei que a beleza capturada é muito mais gratificante.
O jantar prosseguiu entre discussões sobre comércio, política e a construção de um novo teatro na cidade. Emil, o irmão de Genevieve, tentava manter uma conversa educada com Elijah sobre os métodos de defesa da colônia, mas seus olhos frequentemente voltavam-se para a irmã, percebendo o desconforto dela com as investidas de Klaus.
Ao final da refeição, enquanto os homens se retiravam para o escritório do Governador para fumar charutos e discutir "assuntos de Estado", Rebekah puxou Genevieve para o jardim interno da mansão.
— Finalmente — suspirou Rebekah, respirando o ar úmido da noite. — Se eu tivesse que ouvir mais um minuto sobre taxas de importação de tabaco, eu mesma atearia fogo naquelas plantações.
Genevieve riu, sentindo-se relaxar pela primeira vez desde que os Mikaelson haviam cruzado sua porta.
— Eles podem ser exaustivos. Meu pai acredita que o mundo é feito de papel e selos de cera.
— E você, Vee? De que acha que o mundo é feito? — perguntou Rebekah, observando as fontes de pedra que decoravam o pátio.
Genevieve hesitou. Ela pensou em Julian, no cheiro de pólvora e suor que emanava dele, no modo como ele a segurava como se ela fosse a única coisa real em um pântano de ilusões.
— De vontade — respondeu Genevieve com firmeza. — E de segredos.
Rebekah sorriu, um sorriso que não chegava a ser alegre, mas sim compreensivo.
— Então temos muito em comum. Niklaus é um monstro, não se engane. Ele gosta de quebrar coisas bonitas só para ver como elas se reconstroem. Mas ele também é terrivelmente solitário. Não que isso seja uma desculpa para a grosseria dele.
— Ele não vai me quebrar, Rebekah — afirmou Genevieve, o orgulho Gerard falando mais alto. — Ele pode ter o ouro, mas esta é a minha cidade. Eu conheço cada beco, cada traição e cada desejo que move este lugar.
— Gosto desse fogo em você — disse a Mikaelson. — Mas tenha cuidado. Meu irmão não está acostumado a perder. E quando ele encontra algo que não pode ter, ele tende a destruir para que ninguém mais o possua.
As duas mulheres caminharam pelo jardim, trocando fofocas sobre a aristocracia local e os escândalos que Genevieve conhecia tão bem. Para Genevieve, Rebekah era uma lufada de ar fresco; alguém que entendia o peso de ser uma mulher em um mundo de homens poderosos e violentos.
No entanto, o momento de paz foi interrompido por um movimento nas sombras perto do muro dos fundos. Genevieve reconheceu o sinal: um assobio baixo, quase imperceptível. Era Julian.
Seu coração deu um salto. Ela precisava ir até ele, mas Rebekah ainda estava ali.
— Algum problema? — perguntou Rebekah, notando a distração da amiga.
— Nenhum. Apenas... o cansaço do dia — mentiu Genevieve. — Acho que vou me recolher mais cedo. O calor da Louisiana pode ser opressor para quem não está acostumado.
Rebekah a observou com um olhar astuto, mas não fez perguntas.
— Claro. Vá descansar, Vee. Teremos muito tempo para explorar esta cidade juntas.
Genevieve despediu-se e entrou na casa, mas, em vez de subir para seus aposentos, esgueirou-se pela despensa e saiu pela porta dos fundos, onde os escravizados e servos circulavam durante o dia. A noite estava escura, a lua escondida por nuvens pesadas que prometiam tempestade.
Ela correu em direção à orla do pântano, onde as árvores de carvalho cobertas de musgo criavam cortinas naturais. Julian estava lá, esperando-a sob a sombra de um velho salgueiro.
— Você veio — disse ele, envolvendo-a em um abraço urgente.
— Eu sempre venho, Julian — sussurrou ela, escondendo o rosto no pescoço dele. — Mas as coisas mudaram. Há pessoas novas na casa. Pessoas perigosas.
— Os nobres europeus? — Julian afastou-se um pouco para olhar nos olhos dela. — Ouvi boatos na guarnição. Dizem que trouxeram ouro suficiente para comprar a colônia inteira. E que o seu pai está... encantado.
— Meu pai é um tolo ganancioso — disse Genevieve com desprezo. — Mas aquele homem, Niklaus... há algo nele que me dá arrepios. Ele olha para as pessoas como se fossem objetos de curiosidade, não seres humanos.
— Ele não vai tocar em você, Vieve — prometeu Julian, a mão repousando no punho de sua baioneta. — Eu juro pela minha vida.
— Não prometa coisas que podem te matar, Julian — ela pediu, a voz embargada por uma preocupação que raramente demonstrava. — Se meu pai descobrir sobre nós, ele te mandará para as galés ou pior. E se Niklaus perceber... eu não sei do que ele é capaz.
Eles ficaram ali por um tempo, protegidos pela escuridão, trocando promessas sussurradas e beijos roubados. Para Genevieve, aqueles momentos eram sua única verdade. O resto — os vestidos de seda, os jantares formais, as manipulações políticas — era apenas um teatro onde ela era a atriz principal.
Quando ela finalmente voltou para a mansão, entrando silenciosamente pela mesma porta lateral, a casa parecia mergulhada em um silêncio sepulcral. Ela subiu as escadas de madeira, evitando os degraus que sabia que rangiam.
Ao chegar ao topo da escada, no entanto, ela parou bruscamente.
Niklaus Mikaelson estava encostado na parede do corredor, bem em frente à porta do quarto dela. Ele não usava mais a casaca formal; sua camisa de linho estava entreaberta no pescoço, e ele segurava um esboço em papel e um pedaço de carvão.
— Passeios noturnos parecem ser um hábito seu, Mademoiselle Gerard — disse ele, a voz ecoando suavemente no corredor vazio.
Genevieve sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas recuperou a compostura em um segundo.
— Eu não sabia que os hóspedes agora serviam como vigias noturnos, Lorde Niklaus.
Klaus deu um passo à frente, entrando no círculo de luz de uma única vela que queimava em um suporte na parede. Ele estendeu o papel para ela. Era um esboço rápido, mas magistral, de uma mulher correndo entre as árvores, as saias levantadas, a expressão de urgência capturada com uma precisão assustadora.
— O pântano é um lugar perigoso para uma dama tão... valiosa — comentou ele, o sorriso sarcástico voltando aos lábios. — Há jacarés, cobras e homens que não têm nada a perder.
— Eu sei me cuidar — rebateu ela, tentando passar por ele para entrar em seu quarto.
Klaus bloqueou o caminho, colocando a mão na moldura da porta. Ele estava tão perto que ela podia sentir o calor que emanava dele, um contraste estranho com a aura fria que ele projetava.
— O cheiro de pólvora e tabaco barato não combina com você, Genevieve — sussurrou ele, inclinando-se para perto do ouvido dela. — É o cheiro de um soldado. Um entretenimento perigoso para uma filha de governador, não acha?
Genevieve sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele sabia. Ou, pelo menos, suspeitava.
— O que o senhor quer? Dinheiro? Chantagem? — perguntou ela, a voz firme apesar do medo.
Klaus soltou uma risada baixa, um som que vibrou no ar.
— Eu tenho todo o ouro do mundo, meu amor. O que eu quero... ah, o que eu quero é muito mais interessante. Eu quero ver até onde essa sua rebeldia vai te levar. E quero estar lá para ver o momento em que você perceberá que o seu pequeno mundo de lama e seda é pequeno demais para alguém como eu.
Ele se afastou, fazendo uma reverência exagerada e zombeteira.
— Durma bem, Genevieve. Tente não sonhar com sentinelas. Eles costumam ter finais muito trágicos em histórias como a sua.
Klaus virou as costas e caminhou pelo corredor, desaparecendo nas sombras antes que ela pudesse responder.
Genevieve entrou no quarto e trancou a porta, as mãos tremendo enquanto se encostava na madeira fria. Ela olhou para o espelho, vendo a imagem da "princesa da colônia" que todos esperavam que ela fosse. Mas, pela primeira vez na vida, ela sentiu que as paredes daquela mansão estavam se fechando.
Niklaus Mikaelson não era apenas um nobre arrogante. Ele era um predador que acabara de encontrar uma nova presa. E Genevieve, com todo o seu orgulho e sua inteligência, percebeu que a guerra pelo seu destino não seria travada em campos de batalha ou salões de baile, mas nas sombras de uma cidade que estava apenas começando a revelar seus monstros.
Lá fora, a chuva finalmente começou a cair, lavando a lama das ruas de Nova Orleans, mas incapaz de limpar as manchas que o poder e o desejo estavam prestes a deixar na vida de Genevieve Gerard.