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Sweet Ruin

O Brilho do Ouro e o Gosto do Ferro

A manhã em Nova Orleans nasceu tingida por um laranja doentio, o tipo de luz que só o delta do Mississippi consegue produzir quando a umidade é tão densa que se pode quase mastigá-la. Genevieve acordou com o som de marteladas rítmicas vindo das docas distantes e o grito das gaivotas, mas sua mente ainda estava presa ao corredor escuro da noite anterior. As palavras de Niklaus Mikaelson — o cheiro de pólvora e tabaco barato — ecoavam como um veredito.

Ela se levantou e caminhou até a penteadeira de carvalho francês. Sua imagem no espelho era a mesma: a pele de porcelana, os cachos loiro-mel caindo sobre os ombros, a aparência de uma boneca que nunca conheceu o esforço. Mas seus dedos, ao tocarem o tampo de madeira, tremiam levemente. Klaus era uma ameaça que ela não sabia como classificar. Ele não era como os pretendentes que seu pai tentava lhe impor, homens que ela podia dobrar com um sorriso ou um insulto bem colocado. Niklaus parecia ver através dela, como se sua alma fosse feita de vidro.

— Mademoiselle, seu pai solicita sua presença no desjejum. Ele diz que é urgente — anunciou Annette, a criada pessoal de Genevieve, entrando no quarto com uma bacia de água morna.

— Urgente para meu pai significa que ele encontrou uma nova forma de gastar dinheiro ou de bajular os Mikaelson — respondeu Genevieve, recuperando sua máscara de arrogância. — Ajude-me com o vestido verde, Annette. O de seda selvagem. Se vou ser cercada por abutres europeus, quero parecer alguém que pode envenená-los.

Minutos depois, Genevieve desceu a grande escadaria, o farfalhar de suas saias sendo o único som no hall silencioso. Ao entrar na sala de jantar, encontrou a cena que mais temia: seu pai, o Governador Gerard, rindo abertamente de algo que Elijah Mikaelson dizia, enquanto Niklaus observava a interação com um tédio perigoso, cortando uma fruta com uma precisão cirúrgica.

— Ah, minha joia! — exclamou o Governador, levantando-se para beijar a testa da filha. — Sente-se. Estávamos discutindo o futuro desta colônia. Lorde Elijah tem visões fascinantes sobre a expansão do comércio de peles.

— Imagino que sim — disse Genevieve, sentando-se e ignorando deliberadamente o olhar de Klaus. — Lorde Elijah parece ser o tipo de homem que tem visões para tudo o que é civilizado. Já o seu irmão... — Ela lançou um olhar rápido para Niklaus. — ...parece mais interessado no que está escondido sob a terra.

Klaus deu um sorriso lento, mostrando dentes perfeitamente brancos.

— O que está sob a terra é o que sustenta o que está acima dela, amor — disse ele, a voz como um ronronar. — Raízes, segredos... e, às vezes, corpos.

O Governador engasgou levemente com o vinho, mas forçou uma risada.

— Niklaus tem um senso de humor peculiar, Genevieve. Mas ele tem razão. A base de tudo é o controle. E por falar nisso, recebi notícias de que houve um pequeno distúrbio na guarnição ontem à noite. Alguns soldados foram vistos fora de seus postos.

O coração de Genevieve falhou uma batida. Ela sentiu o olhar de Klaus queimar em seu rosto, esperando uma reação.

— Soldados são homens rudes, papai — disse ela, mantendo a voz firme enquanto servia-se de um pedaço de pão. — Provavelmente estavam em alguma taverna barata brigando por moedas de cobre.

— Talvez — comentou Klaus, limpando os dedos em um guardanapo de linho. — Ou talvez estivessem em busca de algo que não lhes pertence. O desejo é um mestre cruel para os homens pobres.

— Chega de política e disciplina por hoje — interveio Rebekah, entrando na sala com um vestido amarelo que parecia capturar todo o sol da manhã. — Genevieve, prometeu que me mostraria o mercado hoje. Estou morrendo de tédio nesta casa e não aguento mais ouvir sobre exportações.

— Seria um prazer, Lady Rebekah — respondeu Genevieve, grata pela interrupção. — Nova Orleans tem coisas que o Velho Mundo jamais ousaria produzir.

O mercado da Place d'Armes era um caos vibrante de cores, cheiros e sons. Escravizados vendendo temperos, mercadores franceses gritando preços de tecidos e o cheiro onipresente de café e peixe frito. Genevieve e Rebekah caminhavam com dois guardas a uma distância respeitosa, mas a presença daquelas duas mulheres — uma a princesa local, a outra uma estrangeira de beleza estonteante — abria caminho na multidão como uma lâmina.

— Você não gosta dele, não é? — perguntou Rebekah de repente, parando diante de uma banca de rendas. — Do meu irmão Nik.

— Ele é... arrogante — disse Genevieve, escolhendo as palavras com cuidado. — Ele trata esta cidade como se fosse um tabuleiro de xadrez que ele acabou de comprar. Ele não tem respeito pelas linhagens que construíram este lugar.

— Niklaus não tem respeito por nada que não possa dominar — suspirou Rebekah. — Mas ele é persistente. Se ele fixou os olhos em você, Vee, é porque viu algo que o intriga. E Niklaus intrigado é a coisa mais perigosa que existe.

— Ele não me intimida — mentiu Genevieve, embora sentisse o peso do segredo de Julian em seus ombros.

Enquanto Rebekah negociava uma peça de renda, Genevieve se afastou alguns passos, seus olhos procurando por um uniforme específico entre a multidão. Ela sabia que Julian deveria estar de guarda perto do arsenal hoje. E lá estava ele, encostado em uma coluna de pedra, o chapéu de feltro escondendo parte de seu rosto.

Seus olhos se encontraram por um breve segundo. Foi o suficiente. Um sinal silencioso de que ele estaria no lugar de sempre ao cair da tarde. Mas, ao desviar o olhar, Genevieve sentiu um frio na nuca.

A poucos metros de Julian, parado na sombra de uma arcada, estava Klaus. Ele não estava olhando para ela. Ele estava olhando para Julian.

O pânico subiu pela garganta de Genevieve. Klaus não estava ali por acaso. Ele estava caçando.

— Rebekah, acho que devemos voltar — disse Genevieve, a voz subitamente aguda. — O sol está ficando forte demais e sinto uma enxaqueca começando.

— Mas acabamos de chegar! — protestou Rebekah, mas, ao ver a palidez no rosto da amiga, cedeu. — Está bem, você parece ter visto um fantasma. Vamos.

O caminho de volta foi um borrão. Genevieve mal ouvia o que Rebekah dizia. Ao chegar na mansão, ela se trancou em seu quarto, o peito subindo e descendo com força. Ela precisava avisar Julian. Precisava tirá-lo da cidade. Se Klaus decidisse que o soldado era um brinquedo para seu entretenimento, Julian não teria chance.

Por volta das quatro da tarde, quando a casa parecia ter caído no torpor do calor pós-almoço, Genevieve ouviu um barulho vindo do jardim. Ela correu até a janela e viu seu pai e Emil conversando com um jovem que ela nunca tinha visto antes.

Era um garoto, não devia ter mais de dez ou doze anos, com pele bronzeada e olhos que brilhavam com uma inteligência selvagem. Ele vestia roupas simples, quase trapos, mas se mantinha ereto diante do Governador.

— Onde o encontrou, Emil? — perguntou o Governador, olhando o menino com uma mistura de nojo e curiosidade.

— Ele estava tentando roubar um dos cavalos nas cavalariças reais, pai — respondeu Emil, segurando o garoto pelo braço. — Disse que não tem nome, apenas que vive nas ruas. Ia mandá-lo para o chicote, mas ele lutou como um demônio. Derrubou dois dos meus homens antes de ser contido.

Genevieve observou a cena, sentindo uma pontada de pena. O garoto não parecia ter medo. Ele encarava o Governador com um desafio que lembrava... a ela mesma.

— Um órfão comum — resmungou o Governador. — Jogue-o em uma das celas do forte. Talvez o trabalho forçado o ensine modos.

— Espere — a voz de Klaus ecoou pelo pátio.

Ele saiu das sombras da varanda, caminhando com a elegância de um gato. Ele parou diante do menino e inclinou a cabeça.

— Como você se chama, pequeno guerreiro? — perguntou Klaus, sua voz desprovida do sarcasmo habitual.

O menino cuspiu no chão, aos pés de Klaus. Emil fez menção de bater nele, mas Klaus levantou uma mão, detendo-o.

— Ele não tem nome, Lorde Niklaus — disse Emil. — É apenas um bastardo de rua.

Klaus sorriu, mas desta vez o sorriso não era cruel. Era algo novo, algo que Genevieve não conseguia decifrar.

— Um bastardo sem nome em uma terra de tiranos — murmurou Klaus. Ele estendeu a mão e, para surpresa de todos, tocou o ombro do menino. — Eu gosto dele. Governador, eu gostaria de levar este garoto sob minha proteção. Ele tem um fogo que é raro encontrar nesta colônia de gente mansa.

— O senhor quer... adotar um órfão de rua? — o Governador perguntou, incrédulo. — Ele é um criminoso, Lorde Niklaus!

— Ele é um sobrevivente — corrigiu Klaus. — E a partir de hoje, ele será treinado por mim. Ele terá um nome. Marcellus. Já que o encontrei perto do arsenal de Marte.

Genevieve, da janela, sentiu uma repulsa imediata. Klaus estava colecionando pessoas. Primeiro tentava cercá-la, agora pegava um órfão de rua para transformar em quê? Em um soldado? Em um monstro como ele? Ela via o modo como o menino olhava para Klaus — com uma mistura de desconfiança e uma esperança faminta.

— Mais um capricho de um nobre entediado — sussurrou ela para si mesma, fechando as cortinas.

Ela não fazia ideia de que aquele "órfão de rua" carregava o mesmo sangue que corria em suas próprias veias. Ela não sabia que Marcellus era o fruto do pecado de seu pai com uma mulher que a história tentava apagar. Para ela, ele era apenas mais uma peça no jogo de Klaus.

A noite caiu pesada e sem estrelas. Genevieve não esperou pelo sinal. Ela vestiu uma capa escura por cima de um traje de montaria e saiu pela janela, usando a trepadeira de jasmim como apoio. Seus pés tocaram o solo úmido e ela correu.

O encontro não seria no pântano desta vez. Julian havia sugerido uma velha capela abandonada na periferia da cidade, um lugar que os locais evitavam por acreditarem ser assombrado por espíritos do vodu.

Quando ela entrou na capela, o cheiro de incenso velho e mofo a atingiu. Julian estava lá, a única luz vindo de uma pequena lanterna no chão.

— Vieve! Você não deveria ter vindo — disse ele, correndo para abraçá-la. — Há patrulhas por toda parte. O Governador está furioso com o roubo nas cavalariças.

— Julian, escute-me — disse ela, segurando o rosto dele com as mãos trêmulas. — Você precisa ir embora. Agora. Pegue um barco para Biloxi ou suba o rio.

— Do que você está falando? Eu não posso te deixar.

— Niklaus sabe — sussurrou ela. — Ele nos viu, Julian. Ou ele suspeita o suficiente para ser fatal. Eu o vi vigiando você no mercado hoje. Ele é um monstro, você não entende. Ele não é apenas um lorde europeu. Há algo de errado com ele, algo... inumano.

Julian franziu a testa, seu orgulho de soldado ferido.

— Ele é apenas um homem com muito ouro, Vieve. Eu não tenho medo dele. Se ele tentar algo, eu tenho minha espada e meus companheiros.

— Suas espadas não significam nada para ele! — gritou ela em um sussurro desesperado. — Por favor, se você me ama, fuja. Eu encontrarei um jeito de ir atrás de você. Eu roubarei as joias da minha mãe, eu...

— Que cena tocante — uma voz vinda do fundo da capela fez o sangue de Genevieve congelar.

Klaus saiu das sombras de um confessionário em ruínas. Ele batia palmas lentamente, o som ecoando nas paredes de pedra.

— Eu sempre fui um fã de tragédias românticas — disse Klaus, caminhando em direção ao círculo de luz. — O soldado corajoso e a princesa rebelde. Realmente, Genevieve, você tem um gosto impecável para o drama.

Julian desembainhou a espada em um movimento rápido, colocando-se à frente de Genevieve.

— Afaste-se, Lorde Niklaus! — ordenou Julian. — A senhorita Gerard está sob minha proteção.

Klaus soltou uma gargalhada que não tinha nada de humana. Era um som que parecia vir de séculos de escuridão.

— Sua proteção? — Klaus parou a poucos centímetros da ponta da espada de Julian. — Diga-me, soldado, você acha que um pedaço de ferro pode deter o que eu sou?

— Julian, não! — gritou Genevieve, tentando segurar o braço do amante.

Mas Julian, movido pelo instinto e pelo medo, atacou. Ele desferiu um golpe em direção ao peito de Klaus. O que aconteceu a seguir foi rápido demais para os olhos humanos de Genevieve acompanharem.

Klaus não se moveu para o lado. Ele simplesmente estendeu a mão e segurou a lâmina da espada com os dedos nus. O metal rangeu, mas não cortou a pele dele. Com um movimento casual, Klaus torceu a espada, partindo o aço como se fosse vidro seco.

Julian recuou, horrorizado, olhando para o punho quebrado em sua mão.

— O que... o que é você? — gaguejou o soldado.

Klaus sorriu, e desta vez Genevieve viu. Viu as veias negras surgirem sob os olhos dele, viu a íris mudar para um tom de âmbar selvagem e as presas se projetarem.

— Eu sou o seu pior pesadelo, rapaz — disse Klaus.

Ele agarrou Julian pelo pescoço e o levantou do chão com uma única mão. Genevieve caiu de joelhos, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Não! Niklaus, por favor! Eu faço o que você quiser! — gritou ela, agarrando-se à casaca de veludo dele. — Eu me caso com quem você mandar, eu saio da cidade, mas não o mate! Por favor!

Klaus olhou para ela, e por um segundo, a fúria em seus olhos pareceu vacilar diante do desespero puro de Genevieve. Ele olhou para Julian, que lutava para respirar, e depois voltou para a garota.

— Você faria qualquer coisa por ele? — perguntou Klaus, sua voz agora baixa e perigosa.

— Sim! Qualquer coisa! — soluçou ela.

Klaus soltou Julian, que caiu no chão, tossindo violentamente e segurando a garganta.

— Muito bem — disse Klaus, limpando uma gota invisível de poeira de sua manga. — Ele viverá. Por enquanto. Mas ele sairá de Nova Orleans esta noite. Se eu o vir novamente, Genevieve, eu não serei tão misericordioso. Eu o farei assistir enquanto eu arranco o coração dele e o dou de comer aos jacarés.

Ele se inclinou e pegou o queixo de Genevieve, forçando-a a olhar para ele.

— E quanto a você, amor... você agora me pertence. Cada pensamento, cada suspiro, cada centímetro desse seu orgulho ferido. Você queria saber o que está sob a terra? Bem-vinda ao meu mundo.

Klaus virou-se e saiu da capela, desaparecendo na noite com a mesma velocidade sobrenatural com que aparecera.

Genevieve rastejou até Julian, abraçando-o enquanto ele ainda tentava recuperar o fôlego. Eles estavam vivos, mas ela sabia que o preço havia sido alto demais. O mundo de luxo, bailes e caprichos de "filhinha do papai" havia morrido ali, naquele chão de pedra fria.

Ela olhou para a porta da capela, por onde Klaus saíra. O ódio que ela sentia por ele agora estava misturado com um terror paralisante, mas também com algo mais sombrio. Ele a queria. E em Nova Orleans, o que Niklaus Mikaelson queria, ele acabava por possuir.

Mas Genevieve Gerard ainda era uma Gerard. E se ela tinha que viver em um mundo de monstros, ela aprenderia a ser o mais perigoso de todos eles.

— Vá, Julian — sussurrou ela, beijando-o pela última vez. — Fuja. E nunca olhe para trás.

Enquanto Julian desaparecia nas sombras, Genevieve levantou-se e limpou as lágrimas. Ela ajeitou sua capa e caminhou de volta para a mansão. Ela tinha um reino para proteger, um irmão bastardo que ainda não conhecia e um demônio loiro para enfrentar todas as manhãs no desjejum.

A história de Nova Orleans estava apenas começando, e ela seria escrita com sangue, ouro e o fim da inocência.