Sweet Ruin
O Véu das Máscaras e a Dança das Serpentes
O sol da manhã seguinte não trouxe clareza, apenas um calor sufocante que parecia prender os pecados da noite anterior sob a névoa do pântano. Genevieve estava sentada em sua varanda privada, observando o movimento frenético no pátio da mansão Gerard. Caixotes de carvalho pesado, marcados com o selo da família Mikaelson, estavam sendo descarregados. O ouro estava chegando, e com ele, a sentença de que sua vida nunca mais pertenceria apenas a si mesma.
— A senhorita parece ter perdido o apetite pelas notícias da manhã — a voz de Elijah Mikaelson surgiu da porta aberta, suave e polida como o mármore.
Vieve não se virou. Ela continuou observando os homens lá embaixo.
— É difícil digerir qualquer coisa quando se sente o gosto de ferro na boca, Lorde Elijah. Sua família tem um hábito curioso de ocupar espaços que não lhes foram oferecidos.
Elijah aproximou-se, parando a uma distância respeitosa. Ele trajava um casaco de linho impecável, apesar da umidade que já fazia o cabelo de Genevieve ondular de forma rebelde.
— Meu irmão é... impetuoso. Ele vê potencial onde outros veem apenas lama. Mas eu lhe asseguro, Mademoiselle, que minhas intenções são puramente voltadas à estabilidade. Nova Orleans é uma joia bruta. Precisa de lapidação, não de destruição.
— E quem decide o que deve ser lapidado e o que deve ser jogado fora? — Genevieve finalmente o encarou, seus olhos azuis faiscando. — Niklaus? Ele decidiu que um soldado honesto era lixo e que um órfão de rua era um diamante. Ele brinca de Deus com as vidas alheias.
Elijah suspirou, um som carregado de séculos de paciência exaurida.
— Niklaus busca lealdade porque nunca a teve de forma gratuita. Ele a compra ou a impõe. Eu, por outro lado, prefiro conquistá-la. Se houver algo que eu possa fazer para mitigar o desconforto de sua estadia, peço que me diga.
Genevieve suavizou a expressão por um segundo. Havia uma dignidade em Elijah que a desarmava, um contraste gritante com a brutalidade sarcástica de Klaus.
— Proteja o menino, Marcellus — disse ela, surpreendendo a si mesma. — Niklaus vai transformá-lo em algo que o garoto não deveria ser.
— Niklaus já o vê como um filho — respondeu Elijah, com um brilho enigmático nos olhos. — E meu irmão é terrivelmente protetor com o que considera seu.
A conversa foi interrompida pelo som de gargalhadas vindas do andar de baixo. Rebekah e o Governador Gerard subiam as escadas, seguidos por um Niklaus que parecia radiante em sua própria arrogância.
— Genevieve! — exclamou o pai, os olhos brilhando com uma ganância que ele mal tentava esconder. — Lorde Niklaus acaba de sugerir uma recepção íntima nas docas hoje à noite. Ele quer inaugurar o novo armazém que financiou. É uma oportunidade de ouro para mostrarmos nossa união à elite comercial.
— Outra festa, papai? — Vieve levantou-se, ajeitando as saias com um desdém calculado. — A colônia vai acabar acreditando que os Mikaelson são nossos donos, e não nossos hóspedes.
— E quem disse que há uma diferença, amor? — Klaus interveio, encostando-se no batente da porta com uma insolência que fez o sangue de Vieve ferver. — O dono é aquele que paga as contas e limpa a sujeira. E eu tenho feito ambas as coisas com bastante eficiência.
Genevieve caminhou até ele, parando a poucos centímetros de seu rosto. O cheiro de sândalo e algo metálico, como sangue seco, emanava dele.
— O senhor pode comprar os armazéns, as ruas e até a vontade do meu pai — sibilou ela —, mas cada vez que eu olhar para o senhor, Niklaus, só verei um invasor que precisa de ouro para esconder a própria insignificância.
O sorriso de Klaus não vacilou; pelo contrário, alargou-se, revelando uma covinha que parecia um insulto.
— Sua língua é a única coisa nesta cidade que ainda me diverte, Genevieve. Não a perca. Seria um desperdício ter que silenciá-la.
— Experimente — desafiou ela, antes de passar por ele, esbarrando propositalmente em seu ombro.
O resto do dia foi um borrão de preparativos. Rebekah insistiu em ajudar Genevieve a se vestir, trazendo consigo um conjunto de joias que pareciam valer mais do que todo o quarteirão.
— Use estas esmeraldas, Vee — disse Rebekah, prendendo o colar no pescoço da amiga. — Elas combinam com o veneno que você destila quando olha para o meu irmão.
— Eu não entendo como você o suporta, Bekah. Ele é... impossível.
— Ele é família — respondeu Rebekah, sua voz subitamente séria enquanto olhava o reflexo de ambas no espelho. — Nós somos ligados por algo que você não entenderia agora. Mas acredite, eu sei o que é amar alguém que o mundo desaprova.
Genevieve parou, as mãos congeladas sobre o pente de marfim.
— Você sabe sobre Julian?
— Eu tenho olhos, querida. E Niklaus tem ouvidos em cada sombra. Julian está vivo e fora da cidade. É o melhor que você poderia esperar. Agora, foque no presente. Se você quer derrotar o Nik, precisa ser mais esperta que ele. Use o que ele sente por você.
— Ele não sente nada por mim além de um desejo sádico de controle.
— Ah, você se subestima — Rebekah sorriu, um sorriso triste. — Niklaus nunca olhou para uma mulher humana com tanto ódio. E, para ele, o ódio é apenas o prelúdio de uma obsessão da qual ninguém escapa.
A noite nas docas era abafada. Tochas de resina iluminavam o novo armazém de madeira maciça, onde a música de violinos tentava competir com o som das águas do rio. A aristocracia de Nova Orleans estava presente em peso, todos curvando-se diante do ouro dos Mikaelson.
Genevieve circulava com a graça de uma pantera, aceitando cumprimentos e sorrindo de forma gélida. Ela viu Emil em um canto, conversando com alguns oficiais, seu semblante tenso. Ele se aproximou dela assim que Klaus se afastou para falar com o mestre de obras.
— Vieve, você precisa ter cuidado — sussurrou Emil, puxando-a para perto de uma pilha de sacos de café. — O pai está falando em um contrato de noivado. Ele e Niklaus estão trancados em negociações que vão além de armazéns.
— Ele não ousaria — disse ela, embora soubesse que o pai ousaria qualquer coisa por status.
— Ele já ousou. Ouvi-os mencionando o dote. Niklaus quer você, Vieve. Não como uma esposa, mas como um troféu para selar o domínio dele sobre esta terra.
Genevieve sentiu o chão oscilar. Ela olhou para o outro lado do salão e encontrou os olhos de Klaus. Ele ergueu uma taça de cristal para ela, um gesto de triunfo silencioso.
— Eu não vou permitir — declarou ela, a voz firme apesar do pânico. — Se ele quer uma guerra, ele terá uma.
Ela se afastou de Emil e caminhou em direção à saída, precisando de ar puro. As docas estavam desertas naquela área, o luar refletindo-se na água barrenta do Mississippi. Ela caminhou até a ponta do píer, sentindo a brisa marítima tentar dissipar o cheiro de opressão que a cercava.
— Fugindo de suas próprias celebrações, Mademoiselle? — a voz de Klaus surgiu das sombras atrás dela.
Vieve não se assustou. Ela já esperava por ele.
— Eu estava apenas imaginando quanto tempo levaria para o rio engolir toda essa sua estrutura de madeira e arrogância.
Klaus caminhou até ficar ao lado dela, observando a correnteza.
— O rio é paciente, Genevieve. Mas eu não sou. Seu pai e eu chegamos a um acordo muito satisfatório hoje.
— Eu não sou uma propriedade para ser negociada entre dois homens sem escrúpulos.
— Ah, mas você é — Klaus virou-se para ela, a luz da lua acentuando os ângulos cruéis de seu rosto. — Nesta colônia, você é o símbolo do antigo poder. Eu sou o novo. A união é inevitável.
— Eu prefiro me jogar neste rio a me tornar sua — cuspiu ela.
Klaus deu um passo rápido, segurando-a pelos braços com uma força que a impediu de se mover. Suas mãos eram como algemas de ferro.
— Você fala de morte com uma facilidade que só os jovens e tolos possuem — sussurrou ele, o rosto a milímetros do dela. — Eu vi impérios caírem e rainhas implorarem por suas vidas. Você acha que seu pequeno orgulho me detém? Eu poderia tirar tudo de você em um estalar de dedos. Seu irmão, seu pai, aquele menino que você tenta proteger...
— Você não tocaria no Marcellus — disse ela, a voz falhando. — Você gosta dele.
— Eu gosto do que ele pode se tornar. Assim como gosto do que você pode se tornar se parar de lutar contra o óbvio. Você me odeia porque eu sou o único que vê quem você realmente é sob essa seda parisiense. Você é ambiciosa, Genevieve. Você quer este reino tanto quanto eu.
— Eu quero a minha liberdade!
— A liberdade é uma ilusão que os pobres usam para se consolar — Klaus soltou-a, mas não se afastou. — O poder é a única coisa que importa. Junte-se a mim, e Nova Orleans será o seu jardim. Oponha-se a mim, e eu farei deste lugar o seu túmulo.
Genevieve respirou fundo, recuperando sua postura. Ela limpou o local onde ele a tocara, um gesto de desprezo que fez os olhos de Klaus brilharem com divertimento.
— O senhor fala muito de poder, Lorde Niklaus, mas esquece que até os tiranos dormem. E eu garanto ao senhor... se eu for forçada a entrar no seu mundo, eu serei o pesadelo que o manterá acordado.
Klaus soltou uma risada genuína, um som que ecoou pelo rio silencioso.
— É por isso que eu a escolhi. A maioria das mulheres desmaiaria diante de um terço do que eu lhe mostrei. Você? Você me ameaça. É quase adorável.
Ele fez uma reverência irônica e começou a caminhar de volta para o armazém.
— O contrato será assinado em três dias, Genevieve. Sugiro que comece a praticar seu sorriso de noiva. Seria uma pena se os convidados percebessem que a futura Lady Mikaelson está planejando o meu assassinato antes mesmo das núpcias.
Vieve ficou sozinha no píer, o coração batendo com uma fúria fria. Ela olhou para as águas escuras e, pela primeira vez, não pensou em Julian. Ela pensou em Marcellus, escondendo sua medalha na terra. Pensou em Rebekah e em seus segredos. E pensou em Elijah, com sua honra silenciosa.
Ela não seria uma vítima. Se ela era a rainha do tabuleiro, como dissera a Klaus, estava na hora de começar a mover as peças.
Ao voltar para a festa, ela encontrou Marcellus sentado em um caixote, observando os nobres com um olhar de puro desdém. Ele parecia deslocado, uma criança de rua em meio a sedas e joias.
— Marcellus — chamou ela, aproximando-se.
O menino levantou o olhar, na defensiva.
— O mestre disse que eu deveria observar. Ele disse que as pessoas mostram quem são quando estão bêbadas e felizes.
— Ele tem razão — disse Genevieve, sentando-se ao lado dele, ignorando a sujeira do caixote em seu vestido de seda. — E o que você viu?
— Vi que seu pai tem medo do mestre Klaus. E vi que você tem raiva. Mas não é a raiva que faz as pessoas gritarem. É a raiva que faz as pessoas esperarem.
Genevieve olhou para o menino com um novo respeito.
— Você é muito observador para a sua idade.
— Eu tive que ser para não morrer — respondeu ele de forma simples.
— Escute-me, Marcellus. O mestre Klaus vai tentar ensinar você a ser como ele. Ele vai dizer que sentimentos são fraquezas. Mas eu quero que você se lembre daquela medalha enterrada no jardim.
Marcellus ficou tenso.
— Você prometeu não contar.
— E eu não contei. Mas quero que você entenda que em um mundo de monstros, a única coisa que nos mantém humanos é o que escondemos deles. Não deixe que ele tire tudo de você.
O menino assentiu lentamente, um vínculo silencioso formando-se entre a princesa da colônia e o bastardo de rua.
A festa continuou até altas horas. O Governador Gerard, já sob o efeito do vinho, anunciou o noivado oficial diante de toda a elite presente. Os aplausos foram ensurdecedores, mas para Genevieve, soaram como o bater de tambores de uma execução.
Klaus aproximou-se dela diante de todos, pegando sua mão e depositando um beijo demorado em seus nós dos dedos. Os olhos dele nunca deixaram os dela.
— Para um futuro brilhante, Mademoiselle — disse ele, alto o suficiente para que todos ouvissem.
— Para um futuro inesquecível, Lorde Niklaus — respondeu ela, com um sorriso tão perfeito que até Klaus pareceu surpreso.
Naquela noite, ao retornar para casa, Genevieve não chorou. Ela entrou em seu quarto, dispensou Annette e caminhou até a janela. Ela viu a silhueta de Klaus no jardim, conversando com Elijah sob a luz da lua.
Ela sabia que a batalha estava apenas começando. Klaus achava que a havia capturado. Ele achava que o ouro e o medo seriam suficientes para dobrá-la. Mas ele não conhecia a resiliência de uma Gerard.
Ela pegou um pequeno frasco de tinta e uma pena, escrevendo um bilhete curto que seria entregue a um contato de confiança na manhã seguinte. Se ela ia ser a Lady Mikaelson, ela o faria sob seus próprios termos.
Nova Orleans estava prestes a descobrir que o pântano escondia perigos muito maiores do que jacarés e sombras. Escondia uma mulher que acabara de descobrir que o ódio era uma fonte de poder muito mais inesgotável do que o amor.
E enquanto Niklaus Mikaelson construía seu império de pedra e sangue, Genevieve Gerard começava a tecer sua teia de seda e espinhos. A dança das serpentes havia começado, e nenhum dos dois pretendia ser o primeiro a cair.