Sweet Ruin
Sombras Sob o Dossel de Seda
A carruagem balançava ritmadamente enquanto cruzava as ruas lamacentas em direção à mansão dos Gerard. Dentro dela, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som da chuva fina que começava a fustigar as janelas de vidro. Genevieve estava sentada o mais longe possível de Niklaus, comprimida contra a porta, sentindo o frio do metal atravessar o veludo de sua capa.
Klaus, por outro lado, parecia perfeitamente à vontade. Ele observava a paisagem noturna com um meio sorriso, como um proprietário avaliando suas terras. Para quem o visse de fora, ele era apenas um nobre excêntrico; para Genevieve, ele era o abismo.
— Você está muito silenciosa, Genevieve — comentou ele, sem desviar os olhos da janela. — Eu esperava mais... fogo. Mais insultos sobre minha falta de berço ou minha natureza animal.
Genevieve apertou as mãos no colo até que as unhas marcassem a palma.
— O senhor já deixou claro o que é — respondeu ela, a voz saindo mais fria do que pretendia. — Por que eu gastaria fôlego com alguém que não possui alma para entender o que eu digo?
Klaus soltou uma risada curta, um som seco que não chegou aos olhos.
— Alma. Um conceito tão humano e tão... limitante. Eu prefiro a lealdade. Ou, na falta dela, o medo. O medo é muito mais honesto, não acha?
— O medo é para os fracos.
— Então por que seu coração bate como o de um pássaro enjaulado? — Ele se inclinou para frente, invadindo o espaço dela. — Eu posso ouvir, sabia? Cada batida frenética. É um som delicioso.
Genevieve sustentou o olhar, embora cada fibra de seu ser quisesse recuar.
— Se o senhor espera que eu me ajoelhe e implore por misericórdia todos os dias, vai se decepcionar amargamente.
— Oh, eu não quero que você se ajoelhe por medo — sussurrou ele, os olhos brilhando naquela tonalidade perigosa. — Eu quero que você se ajoelhe porque percebeu que, neste mundo de lama e hipocrisia, eu sou a única coisa real que você tem.
A carruagem parou diante da mansão. Sem esperar que o lacaio abrisse a porta, Klaus saltou e, com uma cortesia irônica, estendeu a mão para ajudá-la a descer. Genevieve ignorou o gesto, saltando sozinha e sujando a barra de suas botas de montaria na lama.
Ao entrarem no hall, o Governador Gerard os esperava, segurando uma taça de conhaque. Seu rosto se iluminou ao ver Klaus, mas escureceu ao notar o estado da filha.
— Genevieve! Onde você estava? E o que significa esse traje? — perguntou o pai, a voz carregada de uma autoridade que soava oca diante da presença de Klaus.
— A senhorita Gerard teve a gentileza de me mostrar os arredores da capela velha — interveio Klaus, antes que ela pudesse falar. — Uma exploração noturna fascinante. Embora tenhamos encontrado alguns... elementos indesejáveis pelo caminho.
O Governador empalideceu levemente.
— Elementos indesejáveis?
— Apenas um soldado desgarrado — disse Klaus, lançando um olhar de soslaio para Genevieve. — Ele parecia confuso sobre seu posto. Eu o aconselhei a deixar a cidade imediatamente para o bem de sua saúde. Tenho certeza de que ele seguiu meu conselho.
Genevieve sentiu uma náusea súbita. Ela sabia que Klaus estava marcando território, humilhando-a diante de seu próprio pai.
— Se me dão licença — disse ela, a voz trêmula —, estou exausta.
Ela subiu as escadas sem olhar para trás, mas ao chegar ao corredor do segundo andar, foi interceptada por Rebekah. A Mikaelson estava encostada em uma pilastra, observando a cena lá embaixo com uma expressão de profundo tédio que rapidamente se transformou em preocupação ao ver a amiga.
— O que ele fez, Vee? — perguntou Rebekah em voz baixa, puxando-a para o canto.
— Ele é um monstro, Rebekah. Ele... ele quase matou o Julian.
Rebekah suspirou, uma expressão de cansaço secular cruzando seu rosto jovem.
— Eu avisei. Niklaus não entende o conceito de partilha. Para ele, se algo brilha, tem que ser dele e de mais ninguém.
— Eu o odeio — sussurrou Genevieve, as lágrimas finalmente vencendo sua resistência. — Eu o odeio com cada fibra do meu ser.
— O ódio é um começo perigoso — disse Rebekah, limpando uma lágrima do rosto de Genevieve. — Mas escute: Julian está vivo. Isso é mais do que a maioria consegue depois de enfrentar meu irmão. Agora, você precisa ser inteligente. Se você lutar contra ele abertamente, ele vai te esmagar.
— E o que eu devo fazer? Ser a boneca dele?
— Seja o que ele espera que você seja, até encontrar a fraqueza dele — aconselhou Rebekah. — E, enquanto isso, vamos focar em algo que Niklaus não pode controlar: a nossa amizade. Amanhã haverá um baile na casa dos LaLaurie. Vamos nos vestir como rainhas e mostrar a esta colônia que os Mikaelson e os Gerard são os novos donos do mundo.
No dia seguinte, a mansão estava um caos de preparativos. O Governador havia decidido que o baile seria a oportunidade perfeita para consolidar sua aliança com os Mikaelson. Para Genevieve, parecia mais um desfile de gado, onde ela era o prêmio principal.
Enquanto Annette apertava seu espartilho, Genevieve olhava pela janela. No pátio lá embaixo, ela viu Klaus treinando o garoto, Marcellus.
O menino estava com uma espada de madeira, tentando atingir Klaus, que se movia com uma facilidade irritante, desviando de cada golpe sem sequer despentear os cabelos.
— De novo! — ordenava Klaus. — Mais força! Se você for lento, você morre. O mundo não tem pena dos órfãos, Marcellus. Você tem que ser o predador.
O garoto rosnou e avançou novamente. Havia algo na determinação daquela criança que incomodava Genevieve. Ela via a si mesma naquele garoto — alguém lutando por um lugar em um mundo que não o queria. Mas ela também via o veneno de Klaus sendo injetado na alma do menino.
— Ele não passa de um brinquedo para o Lorde Niklaus, não é, mademoiselle? — comentou Annette, seguindo o olhar da patroa.
— Um brinquedo ou uma arma — respondeu Genevieve. — Niklaus não faz nada sem um propósito cruel.
À noite, a residência dos LaLaurie brilhava com mil velas. O perfume de gardênias e o cheiro de pólvora dos fogos de artifício enchiam o ar. Genevieve usava um vestido de seda dourada, com fios de ouro entrelaçados em seus cabelos loiros. Ela parecia uma deusa de um panteão antigo, mas seus olhos eram pedras frias.
Ao entrar no salão, o silêncio se espalhou por um momento. Ela era a rainha legítima daquela sociedade, e todos sabiam disso. Mas ao seu lado, caminhando com uma arrogância imperial, estava Niklaus.
Elijah aproximou-se deles, impecável em seu traje preto.
— Você está magnífica, Genevieve — disse ele, pegando sua mão e curvando-se. — Uma visão de pureza em meio a tanta... ostentação.
— Agradeço o elogio, Lorde Elijah — respondeu ela. — É bom saber que alguém nesta família ainda valoriza a civilidade.
Klaus bufou ao lado dela.
— Civilidade é apenas uma máscara para a fraqueza, Elijah. Não canse a moça com seus modos de abade.
— Pelo contrário, Niklaus — rebateu Elijah, mantendo a calma — , a civilidade é o que nos separa dos animais que você tanto admira.
A música começou — uma valsa lenta e envolvente. Klaus estendeu a mão para Genevieve.
— Concede-me esta dança, Mademoiselle Gerard? Ou prefere que eu a arraste para a pista?
— Não seria a primeira vez que o senhor usa a força para conseguir o que quer — disse ela, mas aceitou a mão dele.
Eles começaram a girar pelo salão. Klaus dançava com uma graça inesperada, conduzindo-a com firmeza. Por um momento, Genevieve esqueceu quem ele era. O calor de sua mão em sua cintura, o ritmo da música, o modo como o mundo parecia desaparecer ao redor deles... era inebriante.
— Você dança como se estivesse em guerra — sussurrou Klaus perto de seu ouvido.
— Talvez eu esteja.
— Então você está perdendo — disse ele, puxando-a para mais perto, quebrando o protocolo da distância social. — Porque, enquanto você luta contra mim, esquece de olhar para os lados. Veja seu pai.
Genevieve olhou por cima do ombro de Klaus. O Governador Gerard estava em um canto, conversando animadamente com um grupo de mercadores de escravizados e oficiais graduados. Ele parecia estar fechando um acordo, e os olhares que lançava para Klaus e Genevieve eram de puro cálculo financeiro.
— Ele está negociando — percebeu Genevieve, o coração afundando.
— Ele está vendendo você — corrigiu Klaus. — Ele quer garantir que a linhagem Gerard se funda com a minha fortuna. Ele não se importa com o seu soldado ou com o seu coração. Ele quer o império.
— E o senhor? O que o senhor quer?
Klaus parou de dançar abruptamente, embora a música continuasse. Ele a encarou com uma intensidade que parecia queimar.
— Eu quero tudo o que este lugar pode oferecer. E eu quero alguém que seja forte o suficiente para ficar ao meu lado enquanto eu queimo o que não presta.
— Eu nunca ficarei ao seu lado — cuspiu ela.
— Veremos — disse ele, soltando-a. — A noite é longa, Genevieve. E a vida é muito mais longa do que você pode imaginar.
Ele se afastou, deixando-a sozinha no meio da pista de dança. Genevieve sentiu os olhares de fofoca sobre si, o peso das expectativas da elite de Nova Orleans. Ela caminhou em direção à varanda, precisando de ar.
Lá fora, a escuridão do jardim era um alívio. Mas ela não estava sozinha.
— Ele é perturbador, não é? — a voz de Emil surgiu das sombras.
O irmão aproximou-se, segurando uma taça de vinho. Ele parecia preocupado.
— Emil... eu não aguento mais isso. O papai está tentando me vender para ele como se eu fosse um fardo de tabaco.
Emil suspirou e colocou a mão no ombro da irmã.
— Eu sei, Vieve. Eu tentei falar com ele, mas o pai está cego pelo ouro dos Mikaelson. Ele acredita que esses homens são a salvação da nossa família.
— Eles são a nossa ruína — disse ela. — Você viu o que ele fez com aquele menino? Marcellus? Ele o trata como um animal de estimação.
— O menino é forte — disse Emil, pensativo. — Há algo nele... eu não sei explicar. Mas você tem razão sobre Niklaus. Ele é perigoso. Mas Elijah... Elijah parece ser um homem de honra. Talvez possamos usar isso a nosso favor.
— Honra é uma moeda que não circula nesta família, Emil.
Enquanto conversavam, Genevieve notou um movimento perto do portão do jardim. Uma figura pequena e ágil esgueirava-se entre os arbustos. Era Marcellus.
O menino parecia estar procurando por algo. Curiosa, Genevieve desceu os degraus da varanda e o seguiu silenciosamente. Ela o viu parar diante de uma estátua de mármore e cavar um buraco pequeno na terra. Ele depositou algo lá e cobriu rapidamente.
— O que você está fazendo? — perguntou ela, fazendo o menino pular de susto.
Marcellus olhou para ela com olhos arregalados, mas logo recuperou a postura defensiva que Klaus lhe ensinara.
— Nada que seja da sua conta, senhorita.
— Você está na minha casa, rapaz. Tudo aqui é da minha conta.
Marcellus mediu-a com o olhar. Ele parecia ver através da seda e do ouro de seu vestido.
— O mestre Klaus disse que pessoas como você só se importam com o que brilha. Eu estava apenas escondendo o que é meu.
Genevieve sentiu uma pontada de curiosidade.
— E o que é seu?
O menino hesitou, mas depois abriu a mão, revelando uma pequena medalha de lata, gasta e sem valor comercial.
— Era da minha mãe — disse ele, a voz falhando por um milissegundo antes de endurecer novamente. — O mestre Klaus disse que sentimentos são fraquezas, então eu a escondi para que ele não a tire de mim.
Genevieve sentiu um aperto no peito. Aquele garoto, que ela desprezava por ser um "bastardo de rua", estava fazendo exatamente o que ela fazia: escondendo sua humanidade de um monstro.
— Ele não vai encontrar — disse ela, suavizando a voz. — Eu prometo que não direi a ele.
Marcellus assentiu brevemente e saiu correndo em direção às sombras da mansão.
Genevieve ficou ali, sozinha no jardim, enquanto a música do baile ecoava ao fundo como um deboche. Ela percebeu que a colônia de Nova Orleans não era mais o seu parquinho de diversões. Era uma selva. E se ela quisesse sobreviver, teria que aprender a jogar o jogo de Klaus.
Ela voltou para o salão, o queixo erguido, a arrogância Gerard brilhando mais forte do que nunca. Ela encontrou Klaus perto da mesa de bebidas, conversando com seu pai.
— Ah, aqui está ela! — exclamou o Governador. — Niklaus estava justamente comentando como você é uma anfitriã excepcional.
Genevieve forçou um sorriso perfeito, o tipo de sorriso que ela sabia que Klaus odiaria por ser tão falso quanto as promessas dele.
— O senhor é muito gentil, Lorde Niklaus — disse ela, aproximando-se e pegando uma taça. — Eu estava apenas refletindo sobre o que o senhor disse. Sobre o futuro.
Klaus arqueou uma sobrancelha, interessado.
— E a que conclusão chegou, amor?
— Que o senhor tem razão. O poder exige sacrifícios. E eu estou pronta para fazer os meus. Mas não se engane... eu não sou uma peça de xadrez que se move ao seu comando. Eu sou a rainha. E neste tabuleiro, a rainha é a peça mais perigosa.
Klaus soltou uma gargalhada genuína, atraindo a atenção de metade do salão. Ele ergueu a taça em direção a ela.
— Um brinde à rainha de Nova Orleans, então. Que o seu reinado seja tão sangrento quanto belo.
Genevieve brindou, o som do cristal batendo soando como o início de uma guerra. Ela olhou para o irmão, para o pai ganancioso e para o monstro à sua frente. Julian estava longe, a salvo. Marcellus tinha seu segredo enterrado. E ela? Ela tinha o ódio.
E em 1819, em uma cidade construída sobre pântanos e pecados, o ódio era a única coisa que realmente durava.