Taekookmin
Entre o Veludo e o Aço
A manhã seguinte ao incidente com Kang Sora trouxe uma atmosfera diferente para a cobertura. O sol de Seul filtrava-se pelas enormes janelas de vidro, iluminando o café da manhã que Jungkook insistira em preparar — o que resultou em algumas torradas levemente queimadas e em um Taehyung rindo baixinho enquanto tentava salvar os ovos mexidos. Jimin, vestida apenas com uma camisa social de seda de Taehyung que ficava enorme nela, observava os dois com um sorriso contido. A tensão da noite anterior havia se dissipado, mas a resolução no olhar de seus homens permanecia intacta.
Entretanto, o mundo corporativo não esperava pelo tempo do coração. Às oito da manhã, o "modo profissional" precisou ser reativado.
— Você tem certeza de que quer ir hoje? — Jungkook perguntou, terminando de dar o nó na gravata enquanto olhava para Jimin pelo reflexo do espelho do closet. — Podemos inventar que você está resfriada. Eu e o Tae damos conta das reuniões.
Jimin aproximou-se, afastando as mãos dele e refazendo o nó da gravata com perfeição.
— E deixar vocês dois sozinhos com os lobos? Nem pensar, Jeon — ela disse, dando um tapinha leve no peito dele. — Eu sou a secretária particular de vocês. Se eu faltar depois do que aconteceu ontem, os rumores vão voar. Vou entrar naquele prédio de cabeça erguida.
Taehyung apareceu na porta, vestindo um terno cinza chumbo que o deixava com um ar perigosamente aristocrático. Ele caminhou até Jimin e depositou um beijo demorado em sua têmpora.
— Essa é a minha garota — sussurrou ele. — Mas lembre-se: a partir de hoje, as coisas mudam. Você não é um escudo para nós, Jimin. Você é o motivo pelo qual o escudo existe.
O trajeto até a sede da Jeon-Kim Enterprises foi silencioso, mas não desconfortável. No elevador privativo, as mãos se soltaram e as expressões se fecharam em máscaras de eficiência. Quando as portas se abriram no trigésimo andar, Jimin saiu primeiro, seus saltos ditando o ritmo do dia.
— Bom dia, senhorita Park — cumprimentou a recepcionista do andar, com um olhar curioso que Jimin detectou imediatamente.
— Bom dia, Minhee. Por favor, traga a agenda de contratos internacionais para a minha mesa em dez minutos — respondeu Jimin, sem diminuir o passo.
O dia transcorreu como um campo de batalha silencioso. O boato de que Jungkook havia "encerrado abruptamente" o jantar com a herdeira da Kang Corp já circulava pelos corredores. Funcionários cochichavam nos bebedouros, e o clima estava elétrico.
Por volta das onze horas, o interfone na mesa de Jimin tocou. Era Taehyung.
— Senhorita Park, venha à minha sala, por favor. E traga o arquivo da nova contratação de suporte administrativo.
Jimin pegou a pasta e entrou. Para sua surpresa, Jungkook também estava lá, sentado no braço do sofá de couro de Taehyung, com uma expressão sombria.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, fechando a porta e abandonando a formalidade por um instante.
— Sora ligou — Taehyung disse, girando a cadeira para encará-la. — Ela não aceitou bem a rejeição de ontem. Está ameaçando retirar o apoio logístico para o projeto de Busan se não pedirmos desculpas formalmente.
Jungkook soltou um bufo de indignação.
— Pedir desculpas? Eu quase quebrei uma taça de cristal quando ela sugeriu que você era apenas "alguém descartável", Jimin. Eu não vou pedir desculpas por proteger o que é meu.
— Mas Busan é um projeto de bilhões, Jungkook — Jimin lembrou, a voz calma, embora o estômago desse um nó. — Se o apoio logístico cair agora, o cronograma atrasa seis meses.
— Deixe que atrase — Taehyung declarou, levantando-se e caminhando até ela. — Já entramos em contato com o grupo Min. Eles são concorrentes dos Kang e estão ávidos por uma brecha. Mas não é por isso que te chamei aqui.
Ele pegou a pasta das mãos dela e a colocou sobre a mesa, ignorando-a.
— Quero que você selecione sua nova assistente hoje. Escolha alguém de extrema confiança. A partir da semana que vem, você não será mais responsável pela nossa agenda miúda. Você passará a atuar como Consultora Estratégica da presidência.
Jimin piscou, surpresa.
— O quê? Taehyung, eu não posso simplesmente mudar de cargo assim, as pessoas vão...
— As pessoas vão entender que você é competente demais para ser apenas uma secretária — Jungkook interrompeu, aproximando-se e cercando-a pelo outro lado. — E isso te dá um nível de autoridade que vai calar a boca de qualquer "herdeira" que entrar por aquela porta achando que pode te dar ordens.
Jimin sentiu o coração acelerar. Era um gesto de proteção, sim, mas também de reconhecimento. Eles estavam elevando-a para que ela estivesse, tecnicamente, mais próxima do nível deles aos olhos da empresa.
— Vocês dois são impossíveis — ela murmurou, um sorriso começando a surgir.
— Somos determinados — corrigiu Taehyung, roçando o nariz no dela.
O momento de ternura foi interrompido por uma batida forte na porta. Antes que Jimin pudesse se afastar, a porta se abriu. Não era um funcionário. Era Kang Sora, e ela parecia furiosa.
A executiva parou no meio da sala, os olhos arregalados ao ver a proximidade física entre os três. Jimin não se encolheu. Pelo contrário, ela endireitou os ombros e permaneceu exatamente onde estava, entre os dois homens mais poderosos da Coreia.
— Eu sabia — sibilou Sora, a voz tremendo de raiva. — Eu senti que havia algo errado ontem. Então é isso? Os grandes CEOs da Jeon-Kim dividem a secretária? Que escândalo delicioso isso vai ser para os tabloides.
Jungkook deu um passo à frente, sua aura de mafioso — o lado que ele raramente mostrava a Jimin — vindo à tona. Seus olhos ficaram frios como gelo.
— Escolha suas próximas palavras com muito cuidado, Sora — disse Jungkook, a voz baixa e letal. — Porque o que você chama de escândalo, eu chamo de vida privada. E eu garanto que tenho muito mais sujeira sobre a contabilidade da sua família do que você tem sobre a nossa vida amorosa.
Sora recuou um passo, mas tentou manter a pose.
— Você está me ameaçando por causa dela? Uma funcionária qualquer?
Taehyung deu um riso seco, um som que não tinha nenhuma alegria.
— Ela não é uma funcionária qualquer. Ela é o coração desta empresa e das nossas vidas. E se você acha que pode usar o projeto de Busan para nos chantagear, está enganada. O contrato com o Grupo Min foi assinado há dez minutos, eletronicamente. Você está fora, Sora. Da empresa e do nosso círculo.
Jimin observava a cena, sentindo uma mistura de triunfo e apreensão. Ela deu um passo à frente, saindo da proteção dos dois e encarando Sora nos olhos.
— Senhorita Kang — começou Jimin, sua voz soando cristalina e firme —, a segurança vai acompanhá-la até a saída. Seus pertences que ficaram na sala de reuniões ontem serão enviados por estafeta. Tenha um bom dia.
Sora abriu a boca para retrucar, mas ao ver a expressão implacável de Jungkook e o desdém silencioso de Taehyung, ela percebeu que havia perdido. Com um ganido de frustração, ela girou nos calcanhares e saiu, batendo os saltos com força no mármore.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Jimin soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
— Ela vai falar, não vai? — perguntou Jimin, olhando para os dois.
— Deixe que fale — Jungkook deu de ombros, puxando Jimin para um abraço apertado. — Nós somos donos do nosso destino, Minnie. Se o mundo souber, que saiba. Eu estou cansado de me esconder.
— Vai haver um alvoroço — Taehyung ponderou, cruzando os braços —, mas nós controlamos a narrativa. Sempre controlamos.
Jimin encostou a cabeça no peito de Jungkook, sentindo a batida forte do coração dele.
— Eu não quero que vocês percam tudo por minha causa.
Taehyung aproximou-se, abraçando os dois por trás, formando aquele círculo de proteção que era o único lugar onde Jimin se sentia verdadeiramente segura.
— Nós não estamos perdendo nada, Jimin-ah — Taehyung disse suavemente no ouvido dela. — Estamos apenas limpando o lixo para que possamos construir algo real.
***
O resto da tarde foi um borrão de reuniões de contenção de danos e telefonemas. A notícia da ruptura com a Kang Corp se espalhou, mas, para a surpresa de Jimin, a reação do mercado foi de respeito pela "postura firme" da Jeon-Kim. A narrativa oficial era de que a Kang Corp havia tentado impor termos inaceitáveis, e os CEOs haviam priorizado a integridade da empresa.
Por volta das sete da noite, o andar estava quase vazio. Jimin estava terminando de organizar os arquivos para a nova assistente quando a luz de sua mesa foi obscurecida por duas sombras.
— A secretária ainda está trabalhando? — perguntou Jungkook, com um sorriso travesso. Ele segurava um buquê de tulipas amarelas — as favoritas dela.
— A secretária está exausta — respondeu Jimin, aceitando as flores e sentindo o perfume doce. — E a nova Consultora Estratégica está com fome.
Taehyung, que segurava uma sacola de veludo preta, colocou-a sobre a mesa.
— Um bônus por ter enfrentado a vilã de terno vermelho com tanta classe — disse ele.
Jimin abriu a sacola e encontrou uma pulseira de platina com três pequenos pingentes entrelaçados: um coelho, um tigre e um pequeno pintinho. Ela sentiu os olhos marejarem.
— É linda...
— É para você nunca se esquecer — Jungkook disse, segurando a mão dela e ajudando-a a colocar a joia — que não importa o que aconteça lá fora, ou quem entre naquela sala, você é a nossa prioridade. Sempre.
Jimin olhou para os dois, sentindo uma onda de amor tão intensa que quase a deixou sem fôlego. O ciúme que sentira, o medo de ser invisível, a dor de ser tratada como inferior... tudo parecia pequeno diante da devoção que brilhava nos olhos de Taehyung e Jungkook.
— Eu tenho uma ideia para aquela viagem — Jimin disse, limpando uma lágrima solitária e sorrindo. — Que tal a Islândia? Longe de tudo, apenas nós e as luzes do norte.
— Islândia parece perfeito — concordou Taehyung. — Mas antes...
Ele olhou para Jungkook, que entendeu o sinal imediatamente. Jungkook sentou-se na mesa de Jimin, puxando-a para entre suas pernas, enquanto Taehyung se posicionou atrás dela, as mãos descendo possessivamente por sua cintura.
— Antes — continuou Jungkook, a voz descendo uma oitava, tornando-se perigosamente rouca —, eu acho que a Consultora Estratégica nos deve um relatório detalhado sobre o quanto ela nos ama.
Jimin riu, jogando a cabeça para trás no ombro de Taehyung, sentindo o calor de Jungkook à sua frente.
— Isso pode levar a noite toda, senhores — ela provocou.
— Temos todo o tempo do mundo — Taehyung sussurrou, beijando o pescoço dela.
Naquela sala de vidro, no topo de Seul, o poder não vinha dos contratos ou das ações na bolsa. Vinha daquela conexão inquebrável, da cumplicidade de três almas que haviam decidido que as regras do mundo não se aplicavam a elas.
Jimin sabia que os rumores continuariam, que Sora poderia tentar se vingar e que o escrutínio da imprensa seria implacável se a verdade viesse à tona. Mas, enquanto sentia as mãos de Jungkook em seu rosto e os braços de Taehyung envolvendo-a, ela percebeu que não era mais apenas a secretária ou a namorada secreta.
Ela era a peça central. A força que mantinha os dois gigantes em pé. E, pela primeira vez, ela não tinha medo de que o mundo visse seu brilho.
— Eu amo vocês — ela disse, a voz firme e cheia de promessa. — E não há contrato no mundo que possa mudar isso.
— Nem tente — Jungkook brincou, antes de selar os lábios dela com um beijo que prometia muito mais do que apenas palavras, enquanto Taehyung os abraçava, selando aquele pacto silencioso de que, a partir de agora, eles enfrentariam o mundo exatamente daquela forma: juntos, sem sombras, apenas a luz crua e intensa do que haviam construído.
A noite em Seul estava apenas começando, e para Jimin, Taehyung e Jungkook, o futuro nunca parecera tão brilhante, mesmo cercado pelo caos do poder. Porque no final, o amor deles era a única moeda que realmente importava.