Taekookmin
O Peso da Coroa de Espinhos
A manhã em Seul nasceu tingida por uma névoa densa, como se a própria cidade estivesse tentando esconder os segredos que fervilhavam dentro dos arranha-céus de vidro. Na cobertura, o silêncio era interrompido apenas pelo som rítmico da cafeteira e pelo tilintar discreto de talheres. Jimin estava sentada à mesa, observando Taehyung e Jungkook. Eles pareciam dois generais planejando uma ofensiva, mergulhados em tablets e relatórios de inteligência antes mesmo do sol estar totalmente alto.
— O movimento nas ações da Kang Corp está instável — comentou Taehyung, a voz desprovida de qualquer calor matinal. — Sora está tentando liquidar ativos. Ela está se preparando para uma guerra jurídica longa, ou está tentando comprar silêncio em outros setores.
— Ela não vai conseguir comprar nada que eu não possa cobrir o dobro — Jungkook rebateu, fechando o dispositivo com um estalo seco. Ele se virou para Jimin, e sua expressão suavizou instantaneamente. — Minnie, você não tocou na sua fruta. Precisa comer.
Jimin suspirou, deixando o garfo descansar no prato de porcelana.
— É difícil ter apetite quando sinto que estamos no olho de um furacão. Jungkook, o que o Sr. Choi disse ontem... sobre a "família"... ele estava falando sobre o conselho de anciãos, não estava?
O ar na sala pareceu esfriar alguns graus. Taehyung e Jungkook trocaram um olhar rápido. A "família" não era apenas um termo carinhoso; era a organização clandestina que servia de alicerce para o império legítimo da Jeon-Kim. E os anciãos eram homens que acreditavam em tradição, linhagem e, acima de tudo, discrição absoluta.
— Eles sabem que algo mudou — admitiu Taehyung, levantando-se para servir mais chá a Jimin. — Eles não se importam com quem dormimos, desde que isso não afete os negócios ou a imagem pública. Mas um herdeiro... um herdeiro muda a sucessão. Muda o poder.
— Eles vão aceitar — Jungkook afirmou com uma certeza inabalável. — Porque se não aceitarem, eu mesmo desmonto o conselho peça por peça.
— Não seja impulsivo, Jeon — Jimin repreendeu suavemente, embora sentisse o coração aquecido pela proteção dele. — Precisamos de estratégia, não de terra arrasada.
O dia na empresa começou com uma tensão palpável. Jimin, agora oficialmente em seu papel de Consultora Estratégica, tinha sua própria equipe, mas Hana, sua assistente, parecia mais nervosa do que o habitual.
— Senhora... quero dizer, Consultora Park — Hana entrou na sala, segurando um envelope pardo sem remetente. — Isso foi entregue na recepção central. Disseram que era urgente e estritamente pessoal.
Jimin sentiu um pressentimento ruim. Ela pegou o envelope e esperou Hana sair antes de abri-lo. Dentro, não havia cartas, apenas uma série de fotografias. Eram fotos dela, Taehyung e Jungkook na Islândia. Fotos deles se beijando em frente à cabana, fotos de Jungkook segurando-a no colo, fotos de Taehyung olhando para ela com uma adoração que nenhum "chefe" jamais teria por uma "secretária".
Havia também uma cópia de um exame de sangue. O dela. Com o resultado positivo para HCG circulado em vermelho.
Uma mensagem escrita à mão no verso de uma das fotos dizia: *"O vidro é bonito até que alguém decida atirar a primeira pedra. Quanto vale o silêncio da herdeira?"*
Jimin sentiu o mundo girar. A náusea, que ela pensava ter controlado, voltou com força total. Ela não correu para o banheiro desta vez; ela caminhou direto para a porta interna que conectava sua sala à suíte presidencial.
Ela entrou sem bater. Taehyung estava ao telefone e Jungkook estava revisando um contrato com um dos diretores financeiros. Ao verem o estado de Jimin — pálida, segurando os papéis com as mãos trêmulas —, ambos paralisaram.
— Saiam todos — ordenou Jungkook, sem nem olhar para o diretor, que se retirou apressadamente.
Taehyung desligou o telefone e caminhou até ela em segundos.
— O que aconteceu?
Jimin jogou as fotos e o bilhete sobre a mesa de mogno.
— Ela nos seguiu. Ela enviou alguém para a Islândia. E ela conseguiu acesso aos meus registros médicos.
Jungkook pegou as fotos, seus olhos escurecendo até se tornarem duas poças de obsidiana. O papel amassou sob a força de seus dedos. Taehyung, por outro lado, pegou o bilhete, lendo-o com uma calma aterrorizante.
— Chantagem — murmurou Taehyung. — Sora não quer apenas dinheiro. Ela quer nos humilhar. Ela quer que você saia de cena, Jimin. Ela acredita que, se tirar você da equação, o "problema" desaparece.
— O problema não desaparece! — Jungkook explodiu, chutando a base da mesa. — O problema é ela ainda estar respirando o mesmo ar que a nossa família!
— Jungkook, controle-se! — Jimin gritou, as lágrimas finalmente caindo. — Ela tem provas. Se isso vazar agora, a fusão com o Grupo Min cai. Os anciãos vão exigir a minha cabeça, ou pior, vão tentar tirar o bebê de nós para "proteger a linhagem". Eu conheço as histórias, eu sei como esse mundo funciona!
Taehyung envolveu Jimin em seus braços, prendendo-a contra o peito, enquanto Jungkook se aproximava, colocando a mão sobre a nuca dela, unindo os três em um casulo de desespero e fúria.
— Ninguém vai tirar nada de nós — sussurrou Taehyung no ouvido dela, sua voz vibrando com uma promessa sombria. — Sora cometeu um erro fatal. Ela achou que éramos apenas homens de negócios que temem um escândalo. Ela esqueceu quem somos quando as luzes se apagam.
— O que vamos fazer? — Jimin perguntou, soluçando contra a seda da camisa de Taehyung.
— Vamos dar a ela o que ela quer — disse Jungkook, um sorriso predatório surgindo em seu rosto. — Um encontro. Ela quer negociar? Vamos negociar nos nossos termos.
— Jungkook, é perigoso — Jimin tentou intervir.
— Não para você, meu amor — disse ele, beijando-lhe a testa. — Você vai ficar aqui, com o Sr. Choi e dez homens na sua porta. Eu e o Tae vamos resolver isso hoje à noite.
O resto do dia foi um borrão de preparativos silenciosos. Jimin sentia-se impotente, uma sensação que detestava. Ela era a inteligência emocional do grupo, a estrategista. Ficar sentada em uma poltrona enquanto seus homens saíam para uma "negociação" que ela sabia envolver muito mais do que palavras era um tormento.
Por volta das dez da noite, o encontro foi marcado em um galpão de logística desativado nos arredores de Incheon — uma propriedade neutra, mas que cheirava a emboscada.
Sora estava lá, sentada em uma cadeira de designer que parecia deslocada no ambiente industrial, cercada por quatro seguranças armados. Quando Taehyung e Jungkook entraram, a postura dela se endireitou.
— Pontuais — disse ela, sorrindo. — Onde está a pequena Park? Achei que ela gostaria de ver o valor que vocês dão à reputação dela.
— Jimin está onde deveria estar: protegida de pessoas insignificantes como você — respondeu Taehyung, sua elegância mantendo-se intacta mesmo naquele ambiente hostil.
— Vamos direto ao ponto, Sora — Jungkook disse, caminhando até ficar a poucos metros dela, ignorando as armas apontadas em sua direção. — Você quer a fusão de Busan. Quer que retiremos as cláusulas de exclusividade que estão sufocando a Kang Corp.
— E quero a saída dela — Sora acrescentou, os olhos brilhando com malícia. — Quero que ela desapareça. Um "acidente", uma mudança para o exterior... eu não me importo. Mas eu não vou permitir que uma secretária de classe média carregue o herdeiro da Jeon-Kim enquanto eu sou deixada de lado.
Taehyung soltou um riso suave, um som que fez os seguranças de Sora se mexerem, desconfortáveis.
— Você realmente não entende, não é? — Taehyung perguntou, tirando um pequeno dispositivo do bolso. — Você achou que era a única que sabia jogar esse jogo.
Ele apertou um botão e, nas telas de monitoramento do galpão, imagens começaram a surgir. Eram registros financeiros da Kang Corp, mas não os oficiais. Eram transações ligadas a cartéis internacionais, lavagem de dinheiro que Sora pensava estar enterrada em camadas de criptografia.
— O seu pai ficaria muito desapontado se soubesse que você deixou rastros tão óbvios enquanto tentava perseguir a nossa namorada — Jungkook disse, dando mais um passo à frente.
A cor fugiu do rosto de Sora.
— Como vocês...
— Você esqueceu que o Jungkook gerencia a nossa inteligência cibernética — Taehyung explicou, sua voz fria como o metal. — Enquanto você perdia tempo seguindo a Jimin na Islândia, nós estávamos desmontando o seu império tijolo por tijolo.
— Vocês não ousariam — Sora sibilou. — Se eu cair, eu levo as fotos dela para a imprensa! Eu destruo a imagem de "família perfeita" que vocês estão tentando criar!
— Tente — desafiou Jungkook. — No momento em que a primeira foto for enviada para qualquer meio de comunicação, esses arquivos serão entregues diretamente ao Serviço de Inteligência Nacional e aos seus credores mais perigosos. Você não vai apenas para a prisão, Sora. Você vai desaparecer antes mesmo de chegar ao tribunal.
O silêncio no galpão era tão denso que se podia ouvir a respiração ofegante de Sora. Ela olhou para seus seguranças, mas eles pareciam subitamente interessados no chão. Eles sabiam quem eram Jeon Jungkook e Kim Taehyung. Sabiam que, por trás dos ternos caros, havia homens que não conheciam a palavra piedade quando se tratava de proteger o que era deles.
— O que vocês querem? — Sora perguntou, a voz agora apenas um fio de desespero.
— O seu silêncio eterno — disse Taehyung. — Você vai assinar a transferência das ações da Kang Corp para uma holding neutra que nós controlamos. Você vai se mudar para a Suíça amanhã. E se ouvirmos o nome de Park Jimin sair da sua boca, ou se qualquer uma daquelas fotos aparecer em qualquer lugar do mundo... bem, você sabe o que acontece.
Jungkook inclinou-se, ficando cara a cara com ela.
— Você chamou a Jimin de frágil. Mas a única coisa frágil aqui é a sua existência. Não teste a minha paciência novamente.
Eles saíram do galpão sem olhar para trás. No carro, o silêncio durou alguns minutos até que Jungkook soltou um longo suspiro, batendo com a mão no volante.
— Eu queria ter acabado com ela ali mesmo — admitiu ele.
— Eu sei — Taehyung respondeu, fechando os olhos e encostando a cabeça no banco. — Mas a Jimin não nos perdoaria se voltássemos para casa com as mãos sujas de sangue hoje. Ela precisa de nós inteiros.
Quando chegaram à cobertura, Jimin estava esperando na sala, enrolada em um cobertor, com o Sr. Choi parado discretamente em um canto. Ao ver os dois entrarem, ela se levantou, examinando cada centímetro deles em busca de ferimentos.
— Acabou — disse Taehyung, caminhando até ela e envolvendo-a em um abraço que exalava alívio. — Ela não vai incomodar você nunca mais.
— E as fotos? — Jimin perguntou, a voz trêmula.
— Estão sendo apagadas de todos os servidores dela agora mesmo — garantiu Jungkook, juntando-se ao abraço, enterrando o rosto no pescoço de Jimin. — Estamos seguros, Minnie. O bebê está seguro.
Jimin soltou o ar que parecia estar segurando há horas. Ela olhou para o Sr. Choi, que fez uma pequena reverência e se retirou, deixando os três sozinhos no vasto salão de mármore e vidro.
— Eu tive tanto medo — confessou ela, as lágrimas voltando. — De que tudo o que construímos desmoronasse por causa de um erro meu.
— Nunca mais diga isso — Taehyung ordenou suavemente, segurando o rosto dela. — Não houve erro seu. O único erro foi de quem achou que poderia se meter entre nós.
Eles a levaram para o quarto, um santuário de paz no meio da tempestade. Enquanto se preparavam para dormir, a rotina de cuidado voltou: Jungkook verificando se ela estava confortável, Taehyung trazendo um copo de leite morno, os pequenos gestos que diziam mais do que qualquer contrato milionário.
Deitados na cama king-size, com Jimin no centro, o clima de guerra começou a se dissipar.
— Tae? Jungkook? — Jimin chamou baixinho no escuro.
— Sim? — responderam os dois em uníssono.
— O Sr. Choi me disse algo hoje. Ele disse que o bebê é a maior força que vocês já tiveram.
Taehyung acariciou o cabelo dela, enquanto Jungkook segurava sua mão sob o edredom.
— Ele tem razão — disse Taehyung. — Por muito tempo, nós lutamos para construir esse império porque era o que sabíamos fazer. Mas agora... agora temos um motivo para mantê-lo.
— Eu estava pensando — Jungkook começou, seu tom de voz ficando mais leve — que precisamos de um nome. Se for um menino, ele tem que ter um nome forte. Se for uma menina, ela vai ter o mundo aos seus pés.
Jimin sorriu, sentindo o movimento suave em seu ventre, uma pequena vida que ainda não sabia o peso da coroa que herdaria, mas que já era o centro de tudo.
— Temos tempo — disse ela. — Temos todo o tempo do mundo agora.
Naquela noite, a névoa de Seul finalmente se dissipou, revelando um céu estrelado. O trono de vidro da Jeon-Kim Enterprises permanecia firme, mas dentro dele, a verdadeira dinastia estava apenas começando. Eles sabiam que outros inimigos viriam, que os anciãos ainda seriam um desafio e que a imprensa nunca pararia de especular. Mas enquanto estivessem entrelaçados daquela forma, o aço e o veludo seriam impenetráveis.
Jimin fechou os olhos, sentindo o beijo de Taehyung em sua têmpora e o abraço possessivo de Jungkook em sua cintura. O segredo deles ainda era um segredo, mas o peso da coroa de espinhos parecia muito mais leve quando era carregado por seis mãos em vez de duas. A guerra com Sora havia sido vencida, mas a jornada da família Park-Jeon-Kim estava apenas no primeiro capítulo. E, pela primeira vez, Jimin não tinha medo do que viria na próxima página.