Te quero
Point of View Giovanna Torres Eu não conseguia focar em nada. Até ajudar com a atividade da minha filha no tapete da sala parecia exigir um esforço hercúleo. Minha mente voltava obsessivamente para a cena na frente da delegacia: o braço de Mariana ao redor dela, o beijo no rosto, aquele sorriso que parecia tão fácil, tão meu. Como Maya pôde? De todas as mulheres no Rio de Janeiro, ela tinha que escolher logo a agente federal que estava enviada para vigiar — ou melhor, "colaborar" comigo? Parece até piada de muito mau gosto. — Mãe, você tá ouvindo? — A voz doce da Helena me tirou do transe de repente. — Oi, meu amor. Desculpa, a mamãe estava pensando no trabalho. O que você disse? — perguntei, forçando um sorriso. — Eu disse que a outra mamis prometeu me levar no teatro amanhã. Você vai também? — ela repetiu, olhando para mim com aqueles olhinhos brilhantes, cheios de expectativa. Senti um aperto forte no peito, quase impossível de ignorar. — Vamos ver, querida. A mamãe tem muita coisa para resolver na delegacia — respondi, sem conseguir prometer nada, enquanto a imagem das duas juntas voltava a girar na minha cabeça. (..) No dia seguinte — Delegacia de Polícia Cheguei mais cedo do que o habitual. Queria estar sentada na minha mesa, com minha postura de autoridade impecável, antes que Mariana colocasse os pés ali. Quando ela entrou, por volta das oito e meia, trazia dois copos de café de uma cafeteria famosa. — Bom dia, Torres. Trouxe paz — disse ela, estendendo um dos copos para mim. Olhei para o café e depois para ela. — Não bebo café de franquia. Prefiro o da copa, é mais honesto. Mariana deu uma risada curta e se sentou na cadeira em frente à minha mesa, bebendo o próprio café com satisfação. — Você é difícil, hein? Entendi o recado de ontem. Você e a Maya... vocês têm história, não têm? Meu coração falhou uma batida, mas não mudei a expressão. — O que você quer dizer com "história"? — Vamos lá, Giovanna. Eu sou da Federal, lembra? Eu leio entrelinhas. O jeito que você olhou para ela não era o olhar de uma delegada para uma advogada qualquer. E o jeito que ela ficou nervosa... — Mariana inclinou-se para frente, baixando o tom de voz. — Ela foi sua informante? Ou algo mais perigoso? Eu quase ri da ironia. Se ela soubesse que o "perigo" envolvia fraldas, hipotecas e um divórcio doloroso... — A Dra. Garcia é uma profissional respeitada e temos casos em comum. Só isso — respondi secamente. — Sei... — Mariana me estudou por longos segundos. — Bom, se for só isso, espero que não se importe se eu continuar investindo. Ela é fascinante. Senti o sangue subir para o rosto. Antes que eu pudesse responder algo que me fizesse ser denunciada na corregedoria, meu telefone tocou. Era a recepção. — Delegada, a Dra. Maya Garcia está aqui. Ela diz que precisa entregar uns documentos urgentes para o caso Colins. Olhei para Mariana, que arqueou as sobrancelhas com um sorriso vitorioso. — Mande subir — ordenei. Alguns minutos depois, Maya entrou na sala. Ela estava impecável, mas seus olhos estavam cansados. Ela parou no meio do caminho ao ver Mariana ali. — Bom dia — disse Maya, a voz ligeiramente trêmula. — Bom dia, gatinha — Mariana respondeu prontamente, levantando-se para ir até ela. Eu me levantei também, contornando a mesa devagar. — Doutora Garcia. Que surpresa. Achei que esses documentos seriam enviados por estagiário. Maya me olhou, e por um instante, o mundo exterior desapareceu. Havia um pedido de desculpas silencioso em seus olhos, uma súplica para que eu não fizesse uma cena. — Eu preferi trazer pessoalmente, Delegada. Para garantir que nada se perdesse no caminho. — Excelente dedicação — comentei, parando ao lado de Mariana. — A Agente Costa estava justamente me contando o quanto admira o seu trabalho... e a sua companhia. O clima na sala ficou tão denso que era quase palpável. Maya apertou a pasta contra o peito. — Mariana, você se importa de nos dar um minuto? — Maya pediu, olhando para a agente. — Tenho uma questão técnica sobre o sigilo do processo que preciso tratar apenas com a delegada responsável. Mariana olhou de Maya para mim, o sorriso desaparecendo aos poucos. Ela não era boba. Ela sentiu que havia um muro ali que ela ainda não tinha escalado. — Claro. Vou conferir os arquivos na sala ao lado. A gente se fala depois, Maya? — Sim, depois. Assim que a porta se fechou, o silêncio caiu sobre nós como uma guilhotina. — O que você está fazendo, Giovanna? — Maya perguntou, a voz carregada de mágoa. — Eu? Eu estou trabalhando. Você é quem parece estar se divertindo bastante com a minha nova parceira. — Eu não sabia que ela trabalhava com você até ontem! — Maya deu um passo à frente, a voz subindo um tom. — E eu não te devo satisfações, Giovanna. Nós terminamos, lembra? — maluca,você e doida! — rebati, perdendo o controle da voz. — E agora você se envolve logo com uma Federal? Você tem noção do risco? Se os Colins descobrirem que a advogada deles está saindo com a agente que está investigando o caso... — Eu sei cuidar de mim mesma! — Maya me cortou. — E eu não estou "saindo" com ela desse jeito. Foi um encontro, um beijo... — Um beijo? — A palavra saiu da minha boca como uma ferida aberta. — Então é verdade. Maya parou, percebendo que tinha falado demais. Ela desviou o olhar, as lágrimas começando a brilhar nos olhos. — Eu só queria me sentir viva de novo, Gio. Você me olha como se eu fosse um problema a ser resolvido. Mariana me olha como se eu fosse... desejável. Aquelas palavras doeram mais do que qualquer tiro que eu já tivesse levado. Dei um passo em direção a ela, a raiva sendo substituída por uma dor crua. — Maya... eu nunca deixei de te desejar. Eu só não sabia como conciliar isso com o medo de te perder para esse mundo podre onde eu vivo. — Então você já me perdeu — ela sussurrou, deixando a pasta sobre a minha mesa. — Os documentos estão aí. Tente não ser tão dura com a Mariana. Ela não tem culpa do nosso passado. Ela se virou para sair, mas eu segurei seu pulso. Foi um gesto instintivo, desesperado. — Ela não sabe, não é? Que fomos casadas. Que temos uma filha. Maya parou, de costas para mim. — Não. Ela não sabe. E se você tiver o mínimo de respeito pelo que vivemos, vai deixar que eu conte no meu tempo. Ou que isso simplesmente morra antes de se tornar um problema. Ela soltou o pulso e saiu da sala sem olhar para trás. Fiquei ali, parada no centro da sala, sentindo o cheiro do perfume dela que ainda pairava no ar. Olhei para a porta e vi Mariana me observando pelo vidro da divisória, com uma expressão de quem estava começando a montar o quebra-cabeça. (...) Chat faz Giovanna indo no teatros q filha tinha dito Lá ela ver Maya e Helena e o pra supresa dela Mariana Helana fala mamãe vc realmente veiooi