Te quero
Sob a Pressão do Metal e do Passado
O segundo ato da peça mal tinha começado quando o meu celular vibrou no bolso — um código de emergência da delegacia que eu não podia ignorar. Olhei para o lado, vendo Helena hipnotizada pelas luzes do palco e Maya, que parecia finalmente ter relaxado um pouco sob o braço de Mariana. Aquela imagem era uma farpa cravada na minha retina.
Inclinei-me para Helena e sussurrei que precisava dar um pulo lá fora para resolver algo do trabalho, mas que voltaria antes das cortinas caírem. Maya me seguiu com o olhar, uma mistura de julgamento e preocupação. Eu sabia o que ela estava pensando: "Sempre o trabalho, Giovanna. Sempre a delegacia primeiro".
Saí da sala e fui até o saguão deserto, atendendo a ligação. Era apenas uma confirmação de custódia, algo que eu resolvi em cinco minutos, mas o estrago no meu humor já estava feito. Eu não queria voltar para aquela fila. Não queria ver Mariana sussurrando no ouvido da minha ex-mulher.
Decidi descer até o carro para pegar um casaco, já que o ar-condicionado do teatro estava congelante. Peguei o elevador de serviço, que era mais rápido e dava direto no estacionamento privativo. No meio do caminho, entre o terceiro piso e o subsolo, a porta se abriu.
Era Maya. Ela estava pálida, com a bolsa na mão e os olhos vermelhos.
— Desisti — disse ela, entrando no elevador sem me olhar. — A Helena está bem com a Mariana, e eu não aguento mais ficar no mesmo metro quadrado que você fingindo que não estou sufocando.
— Você deixou a nossa filha com uma estranha para fugir de mim? — perguntei, sentindo a raiva borbulhar.
— A Mariana não é uma estranha, Giovanna! Ela é mais presente emocionalmente em dois dias do que você foi nos últimos dois anos!
— Isso é ridículo e você sabe...
Antes que eu pudesse terminar a frase, um solavanco violento nos jogou contra as paredes de metal. O elevador deu um estalo metálico ensurdecedor, as luzes piscaram e, com um baque seco, tudo parou. A escuridão foi total por dois segundos, até que a luz de emergência, fraca e avermelhada, se acendeu.
— Não... não, não, não! — Maya começou a apertar os botões freneticamente. — Giovanna, faz alguma coisa!
Tentei manter a calma profissional. Apertei o botão de alarme, mas não houve som. Peguei o interfone; estava mudo.
— O sistema travou. Estamos presas entre os andares — anunciei, tentando controlar minha própria respiração.
— Isso é culpa sua! — Maya gritou, virando-se para mim. — Se você não tivesse aparecido, se não tivesse criado aquele clima insuportável, nada disso estaria acontecendo!
— Minha culpa? Você é quem entrou no elevador fugindo como uma adolescente! — Dei um passo à frente, o espaço reduzido tornando tudo mais intenso. — E agora a Helena está lá dentro com aquela mulher, enquanto a gente está aqui trancada!
— Pare de chamar ela de "aquela mulher"! O nome dela é Mariana. E quer saber? Ela me faz sentir bem. Ela não tem segredos, ela não vive em um mundo de sombras onde eu sou sempre o segundo plano!
— Eu protegi você, Maya! — Minha voz ecoou no poço do elevador. — Cada mentira, cada noite fora, cada distância... era para que os monstros que eu prendo não chegassem perto da porta da nossa casa!
— E o que adiantou? — Ela se aproximou, o rosto a centímetros do meu, as lágrimas voltando a cair. — Você prendeu os monstros, mas construiu uma cela ao meu redor. Você me deixou sozinha naquela casa imensa, Giovanna. Eu sentia o seu cheiro nos lençóis, mas você nunca estava lá. Você se tornou um fantasma na vida da sua própria família.
— Eu estava trabalhando por nós! — Tentei segurar os ombros dela, mas ela se esquivou.
— Não, você estava se escondendo no trabalho porque é mais fácil lidar com bandidos do que com a intimidade de um casamento que exige entrega! Você é uma covarde, Torres. Uma delegada condecorada que tem medo de sentir!
Aquelas palavras foram como um tapa. A raiva, o cansaço acumulado de meses e a frustração de vê-la com outra pessoa explodiram em mim.
— Covarde? — segurei o pulso dela, puxando-a para perto. — Você acha que é covardia querer morrer por dentro toda vez que vejo aquela federal tocando em você? Você acha que é fácil ver a minha vida sendo ocupada por outra pessoa enquanto eu ainda sinto o gosto do seu beijo toda vez que fecho os olhos?
— Então por que não disse nada? — Maya soluçou, batendo no meu peito. — Por que me deixou ir embora sem lutar?
— Porque eu achei que você estaria mais segura longe de mim! Mas eu estava errada. Eu estou enlouquecendo, Maya. Ver você hoje... ver você com ela... me destruiu.
O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som das nossas respirações descompassadas. O calor dentro do elevador estava aumentando. O espaço parecia ter encolhido. Maya olhou para cima, para os meus olhos, e eu vi neles a mesma fome devoradora que estava me consumindo.
— Eu te odeio — ela sussurrou, mas suas mãos não me empurravam mais. Elas subiram para o meu pescoço, agarrando o colarinho do meu blazer.
— Eu também te odeio — respondi, antes de esmagar meus lábios contra os dela.
Não foi um beijo suave. Foi uma colisão. Havia mágoa, desespero e uma necessidade animal que tínhamos negligenciado por tempo demais. Maya soltou um gemido baixo contra a minha boca, abrindo espaço para a minha língua, e o mundo lá fora — Helena, Mariana, a delegacia, a peça de teatro — simplesmente deixou de existir.
Eu a prensei contra a parede fria de metal do elevador. Minhas mãos, acostumadas a segurar armas e algemas, agora buscavam a pele dela com uma urgência febril. Desci o beijo para o seu pescoço, encontrando aquele ponto logo abaixo da orelha que eu sabia que a fazia perder o juízo.
— Gio... — ela arfou, jogando a cabeça para trás. — A gente não devia... isso é errado...
— Nada nunca pareceu tão certo — murmurei, subindo o vestido dela e encontrando a renda da lingerie que eu mesma tinha comprado para ela um ano atrás. — Você ainda usa.
— Eu nunca consegui me livrar de nada que fosse seu — ela confessou, a voz embargada.
O elevador, nossa prisão momentânea, tornou-se o cenário de uma rendição total. O calor era sufocante, o suor misturando-se aos nossos perfumes. Cada toque era uma lembrança: a curva do quadril dela, o jeito que ela arqueava as costas, a forma como ela chamava meu nome quando estava prestes a perder o controle.
Eu a levantei, e ela entrelaçou as pernas na minha cintura, buscando mais contato, mais profundidade. O metal rangia atrás de nós, um lembrete de que estávamos suspensas em algum lugar entre o céu e o inferno. Naquele momento, não havia delegada ou advogada. Havia apenas duas mulheres que tinham se perdido no dever e estavam tentando se reencontrar no desejo.
Quando finalmente atingimos o ápice, juntas, o silêncio que se seguiu não foi de arrependimento, mas de uma exaustão absoluta. Maya encostou a testa no meu ombro, a respiração voltando ao normal aos poucos. Eu ainda a segurava, recusando-me a deixá-la tocar o chão.
— A peça já deve ter acabado — ela sussurrou, a voz rouca.
— Provavelmente — respondi, beijando o topo da cabeça dela. — Helena vai ficar furiosa por termos sumido.
— E a Mariana vai ter certeza absoluta do que aconteceu aqui — Maya completou, soltando um riso fraco e nervoso. — Ela é federal, lembra? Ela lê as entrelinhas.
— Deixe que ela leia. Deixe que o Rio de Janeiro inteiro saiba.
Nesse exato momento, o elevador deu um tranco. As luzes brancas e fortes voltaram a brilhar, cegando-nos por um segundo. O motor voltou a rugir e a cabine começou a descer suavemente.
Maya se soltou rapidamente, ajeitando o vestido e o cabelo com mãos trêmulas. Eu limpei o batom borrado do rosto e tentei recuperar a minha postura de autoridade, embora minhas pernas ainda estivessem bambas.
Quando a porta se abriu no andar do saguão, o cenário que encontramos foi o que eu mais temia.
Helena estava sentada em um dos sofás, com um balão na mão e uma expressão de choro. Ao lado dela, Mariana estava de pé, com os braços cruzados e um olhar que poderia atravessar blindagem de aço.
— Mamães! — Helena gritou, correndo em nossa direção. — Onde vocês estavam? A peça acabou e vocês não estavam lá! Eu fiquei com medo!
Abaixei-me para abraçá-la, sentindo uma culpa avassaladora.
— Desculpa, meu amor. O elevador quebrou e a mamãe e a Maya ficaram presas.
Helena olhou para nós duas, a inocência lutando com a percepção.
— Vocês estavam brigando de novo? — perguntou a pequena.
— Não, querida — Maya disse, aproximando-se e acariciando o rosto da filha. — Nós estávamos... conversando.
Levantei o olhar e encontrei o de Mariana. Ela não disse uma palavra, mas o sorriso de canto que ela deu foi carregado de sarcasmo e uma compreensão dolorosa. Ela caminhou até nós, parando ao lado de Maya.
— Ficaram presas, é? — Mariana perguntou, sua voz baixa o suficiente para que apenas nós três ouvíssemos. — Engraçado... o técnico disse que o sistema de segurança registrou uma sobrecarga de peso e movimento brusco na cabine 4.
Senti meu rosto queimar, mas não desviei o olhar.
— Problemas técnicos acontecem, Agente Costa. Você deveria saber disso — respondi com toda a frieza que consegui reunir.
Mariana olhou para Maya, que não conseguia sustentar o olhar da outra mulher. A agente federal suspirou, uma expressão de derrota misturada com aceitação cruzando suas feições.
— Bom, a Helena está entregue. Ela se comportou muito bem, Torres. É uma menina incrível.
— Obrigada por cuidar dela — Maya disse, a voz quase um sussurro.
— Não precisa agradecer, Maya. Eu realmente gostei da sua companhia. Mas acho que o "caso" aqui é muito mais complexo do que eu imaginei — Mariana deu um tapinha no ombro de Maya, um gesto de despedida. Depois, virou-se para mim. — A gente se vê na delegacia, parceira. Tente não chegar atrasada amanhã. O caso Colins não vai se resolver sozinho enquanto você fica... presa em elevadores.
Ela se virou e saiu, caminhando com uma confiança que eu quase invejei.
Ficamos nós três no saguão vazio. Helena segurava a minha mão esquerda e a mão direita de Maya. Pela primeira vez em meses, estávamos conectadas fisicamente, mas o peso do que tinha acontecido no elevador pairava sobre nós como uma nuvem de tempestade.
— Vamos para casa? — Helena pediu, bocejando.
Olhei para Maya. Ela parecia exausta, confusa e terrivelmente vulnerável. O beijo e o que veio depois não tinham resolvido nossos problemas; apenas tinham aberto uma ferida que eu achava que já estava cicatrizada.
— Vamos — Maya concordou, mas seus olhos encontraram os meus por um breve segundo. — Mas isso não muda nada, Giovanna.
— Muda tudo, Maya — respondi, apertando a mão da nossa filha. — Você só ainda não percebeu.
Caminhamos em direção à saída. O ar da noite carioca estava quente e úmido. Eu sabia que o amanhã na delegacia seria um campo de batalha, com Mariana me observando e o perigo do caso Colins nos rondando. Mas, enquanto assistia Maya entrar no carro, eu soube que a guerra mais difícil eu já estava vencendo: a guerra para não deixar o amor da minha vida se tornar apenas uma lembrança em um arquivo de casos encerrados.