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tempo para o amor

O Eco das Risadas e o Calor das Confissões

A garrafa de vinho vazia, agora o centro das atenções de todo o universo daquela sala, parecia brilhar sob a luz amarelada do abajur de Letícia. O ar estava carregado, não mais de tensão nervosa, mas de uma eletricidade vibrante e vitoriosa. Yasmin sentia suas bochechas queimarem, um contraste gritante com a sua habitual palidez de quem passava tempo demais analisando planilhas, enquanto Kendi, ao seu lado, exibia um sorriso que poderia iluminar todo o bairro.

— Bom, agora que o "mistério do armário" foi resolvido e a Yasmin finalmente parou de fingir que o Kendi é apenas um holograma — começou Anna, esfregando as mãos com uma animação quase vilanesca —, eu exijo que o jogo continue com força total. Nada de perguntas sobre pizza ou faculdade. Eu quero o caos!

— Anna, menos, bem menos — Letícia interveio, embora risse enquanto ajeitava as almofadas no chão. — Mas concordo que o clima mudou. Parece que tiramos um elefante de dez anos de cima da mesa.

Luigi, que até então estava em seu casulo de silêncio ao lado de Sophia, limpou a garganta. Ele raramente tomava a iniciativa, mas quando o fazia, todos paravam para ouvir.

— Minha vez de girar — anunciou ele, com um brilho raro de travessura nos olhos.

A garrafa girou, o som do vidro contra o piso de madeira criando um suspense rítmico. Ela desacelerou, hesitou entre Miguel e Letícia, e finalmente apontou para Letícia. Luigi sorriu.

— Leti, nossa anfitriã e protetora... Verdade ou desafio?

— Ah, não... O Luigi quando resolve falar é perigoso — Letícia riu, recolhendo as pernas para perto do corpo. — Vou de verdade. Quero manter minha integridade física nesta casa.

— É verdade — começou Luigi, pausadamente — que você organizou esta festa do pijama com o único propósito de fazer a Yasmin e o Kendi se pegarem porque não aguentava mais ouvir os dois reclamarem de solidão no grupo do WhatsApp?

Um coro de "Ih!" e assobios ecoou pela sala. Yasmin escondeu o rosto nas mãos, sentindo o calor aumentar, enquanto Kendi soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás.

— Eu sabia! — gritou Sophia, batendo palmas. — Eu disse que esse convite estava muito específico! "Tragam pijamas confortáveis e coragem", ela escreveu!

Letícia ergueu o queixo, fingindo uma ofensa que não sentia.

— Eu nego todas as acusações! — Ela fez uma pausa dramática e depois relaxou os ombros, sorrindo de orelha a orelha. — Tá bom, é verdade. Eu não aguentava mais. A Yasmin ficava toda séria falando de "ética profissional" toda vez que o nome do Kendi surgia, e o Kendi... bom, o Kendi mandava memes às três da manhã que claramente eram indiretas para ela. Eu só dei o empurrãozinho final. O armário de vassouras foi o toque de mestre.

— Você é uma mente brilhante e maligna, Leti — comentou Miguel, sem tirar os olhos do tablet onde agora desenhava um esboço rápido da cena. — Mas funcionou. Olha a cara deles. Estão parecendo dois adolescentes que acabaram de descobrir o que é um beijo.

Kendi, sentindo-se provocado, apertou o ombro de Yasmin de forma protetora e brincalhona.

— Ei, respeitem a nossa maturidade de vinte e três anos. A gente só estava... avaliando as opções.

— Avaliando por uma década? — Yasmin finalmente falou, recuperando sua voz sarcástica, embora ainda estivesse encostada nele. — Você é péssimo em tomar decisões, Kendi.

— Eu tomei a decisão lá dentro, não tomei? — Ele sussurrou para ela, perto o suficiente para que o aroma de menta de seu hálito a fizesse estremecer levemente.

— Tomou — ela admitiu, com um sorriso pequeno. — Mas demorou.

A garrafa girou novamente, desta vez parando em Sophia para perguntar a Miguel. O clima de romance começou a se misturar com a velha camaradagem de infância.

— Miguel, meu artista favorito — disse Sophia, com um olhar astuto. — Verdade ou desafio?

— Desafio — respondeu Miguel, simplista. — Verdades são subjetivas demais para um artista.

— Ótimo! — Sophia se levantou, pegou um batom vermelho vibrante de sua bolsa e entregou a ele. — Eu desafio você a desenhar um coração em cada bochecha do Luigi e passar o resto da noite assim, sem rir.

Luigi arregalou os olhos, mas não protestou. Ele amava Sophia demais para negar qualquer coisa, mesmo que envolvesse humilhação estética. Enquanto Miguel cumpria o desafio com uma precisão cirúrgica, o grupo mergulhou em uma conversa nostálgica.

— Vocês lembram daquela vez no ensino médio em que a Yasmin tentou dar aula de reforço para o Kendi em matemática? — perguntou Anna, limpando uma lágrima de riso enquanto via Luigi ganhar corações vermelhos no rosto.

— Como eu poderia esquecer? — Kendi respondeu, suspirando dramaticamente. — Ela me deu uma bronca de meia hora porque eu tentei desenhar um mangá na margem da folha de equações de segundo grau.

— Você não estava prestando atenção! — Yasmin se defendeu, cutucando as costelas dele. — Eu estava tentando salvar o seu semestre e você estava preocupado com o sombreamento do cabelo do protagonista.

— Eu estava tentando te impressionar com o meu talento — ele retrucou, segurando a mão dela para que ela parasse de cutucá-lo. — Eu achei que se você visse o quanto eu era bom em arte, ignoraria o fato de que eu não sabia a diferença entre um cateto e uma hipotenusa.

— Bom, agora você sabe que o caminho para o coração da Yasmin não é por triângulos, mas por armários — brincou Letícia, jogando uma pipoca nele.

O jogo continuou, mas a dinâmica havia mudado. Yasmin e Kendi não estavam mais em lados opostos do círculo; eles eram agora o núcleo de calor daquela sala. O braço de Kendi permanecia firme ao redor dela, e de vez em quando, ele brincava com uma mecha do cabelo dela, um gesto tão natural que parecia que faziam aquilo há anos.

Depois de mais algumas rodadas de desafios bobos — que incluíram Anna tentando fazer uma ponte e quase derrubando a mesa de centro, e Sophia confessando que já tinha usado o perfume do Luigi escondida porque sentia saudades dele durante as viagens de trabalho —, o cansaço começou a se abater sobre o grupo.

Letícia apagou as luzes principais, deixando apenas um cordão de luzes de fada que decorava a estante aceso, criando um clima de acampamento indoor.

— Hora do cinema? — sugeriu ela, apontando para a televisão.

— Só se for um filme de terror — disse Anna. — Nada de comédia romântica, já tivemos drama real o suficiente por hoje.

— Eu voto em terror também — concordou Kendi, olhando para Yasmin com um brilho desafiador. — O que acha, Yas? Vai ficar com medo e precisar de proteção?

Yasmin revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o sorriso.

— Eu assisto filmes de investigação policial e autópsias reais no almoço, Kendi. Você é quem vai pular do colchão no primeiro susto.

Eles se acomodaram. Luigi e Sophia dividiram um edredom pesado, Anna se espalhou por dois colchões com uma bacia de brigadeiro, e Miguel se encostou na parede com seu tablet, ainda capturando a essência da noite. Letícia, a "mãe", garantiu que todos tivessem água e cobertas antes de se aninhar em sua própria poltrona.

Yasmin e Kendi acabaram no colchão de canto. O filme começou, uma história tensa sobre uma casa mal-assombrada, mas a atenção de Yasmin estava em qualquer lugar, menos na tela. O mundo parecia ter se reduzido àquele espaço de dois metros quadrados, ao calor do corpo de Kendi contra o seu e ao som da respiração dele.

— Yas — ele sussurrou, tão baixo que a voz se perdia nos efeitos sonoros do filme.

— Oi? — ela respondeu, virando o rosto para ele.

Eles estavam deitados de lado, de frente um para o outro. A luz azulada da TV refletia nos óculos dela e nos olhos escuros dele.

— Obrigado — ele disse, com uma seriedade que raramente mostrava.

— Pelo quê? Por não ter te matado no armário?

Ele riu, um som vibrante que ela sentiu no peito.

— Também. Mas obrigado por ter aceitado o desafio. Eu sei que você gosta de ter o controle de tudo, e essa noite foi... bem, foi fora do seu controle.

Yasmin estendeu a mão, tocando o rosto dele. A pele era macia, e ela sentiu a leve aspereza da barba por fazer.

— Às vezes — ela começou, a voz suave — cansa ter o controle de tudo. É bom deixar alguém girar a garrafa por mim de vez em quando. Especialmente se for você.

Kendi se aproximou, selando a distância entre eles com um beijo calmo, longo e cheio de promessas. Não era mais a urgência do armário de vassouras; era o reconhecimento de que o "depois" finalmente havia chegado.

— Ei, vocês dois! — a voz de Anna veio do escuro, acompanhada pelo som de pipoca sendo mastigada. — Eu consigo ver as silhuetas se mexendo, tá? Se for pra ter cena de beijo, eu quero que a trilha sonora do filme ajude, e agora o monstro está comendo o braço de alguém. Não combina!

— Cala a boca, Anna! — todos os outros gritaram em uníssono, rindo.

Yasmin escondeu o rosto no peito de Kendi, rindo baixinho, sentindo-se mais leve do que em qualquer outro momento de sua vida adulta. Ela ainda era a mulher séria, a que se preocupava com o futuro e com a organização, mas ali, naquela sala bagunçada, com o cheiro de pipoca e cercada pelos amigos de uma vida inteira, ela se permitiu apenas ser a Yasmin que amava o Kendi.

E Kendi, o homem brincalhão que sempre usava o humor como escudo, finalmente sentia que não precisava mais de piadas para se sentir seguro. Ele tinha a mão dela na sua, e isso era mais do que qualquer verdade ou desafio poderia proporcionar.

O filme continuou, os sustos vinham e iam, mas no colchão de canto, dois corações finalmente batiam no mesmo ritmo, celebrando o fim de uma espera de dez anos e o começo de uma história que, desta vez, não precisaria de garrafas girando para ser escrita.