tempo para o amor
O Despertar entre Confissões e Café Coado
A luz da manhã infiltrou-se pelas frestas da persiana da sala de Letícia, pintando listras douradas sobre o emaranhado de pernas, braços e edredons espalhados pelo chão. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo ronco rítmico e quase imperceptível de Luigi e o som de um caminhão passando na rua lá embaixo. Yasmin abriu os olhos lentamente, sentindo um peso reconfortante sobre sua cintura.
Ela não precisou se virar para saber que era o braço de Kendi. O calor emanando dele era como uma âncora que a mantinha presa àquele momento perfeito. Por um segundo, a seriedade habitual de Yasmin tentou retomar o controle, lembrando-a de que ela tinha e-mails para responder e uma postura a manter, mas a sensação do nariz de Kendi roçando sua nuca enquanto ele dormia fez com que toda a sua rigidez derretesse.
— Você já está pensando nos seus boletos, não está? — A voz de Kendi soou rouca e abafada contra o seu pescoço, enviando um calafrio imediato pela espinha de Yasmin.
— Como você sabe? — perguntou ela, permitindo-se sorrir enquanto se virava no espaço apertado do colchão para encará-lo.
— Porque sua testa fica com aquele vinco minúsculo bem aqui — ele disse, tocando o espaço entre as sobrancelhas dela com o polegar. — Mesmo dormindo, você parece estar resolvendo uma crise diplomática.
— Alguém tem que manter a ordem no mundo, Kendi. Se eu relaxar demais, o caos assume o controle.
— O caos já assumiu o controle ontem à noite — ele lembrou, com um brilho travesso nos olhos castanhos que ainda estavam semicerrados de sono. — E, se bem me lembro, você não pareceu se importar nem um pouco.
Yasmin sentiu o rosto esquentar, a lembrança do armário de vassouras e dos beijos trocados sob a luz da TV ainda muito vívida. Antes que pudesse responder, um travesseiro voou do outro lado da sala, atingindo as costas de Kendi com precisão cirúrgica.
— Se vocês dois começarem com essa melação logo cedo, eu juro que jogo o resto do brigadeiro gelado em vocês! — exclamou Anna, sentada em seu ninho de almofadas, com o cabelo loiro completamente desgrenhado e uma disposição invejável para quem tinha dormido apenas quatro horas.
— Bom dia para você também, raio de sol — ironizou Kendi, sentando-se e passando a mão pelo cabelo, tentando em vão domar os fios rebeldes.
— O café está pronto! — anunciou Letícia, surgindo da cozinha como uma miragem de organização, já vestindo um roupão impecável e segurando uma caneca fumegante. — Levantem, seus preguiçosos. Miguel já está na varanda desenhando o nascer do sol e o Luigi... bom, o Luigi ainda é um cadáver debaixo daquele cobertor.
Sophia, que estava abraçada a um Luigi imóvel, apenas murmurou algo incompreensível e puxou a manta sobre a cabeça.
Aos poucos, o grupo foi se arrastando para a cozinha. O aroma de café coado e pão na chapa preencheu o ambiente, trazendo aquela sensação doméstica que só os melhores amigos conseguem proporcionar. Yasmin sentou-se à mesa, observando Kendi tentar, sem sucesso, abrir o pote de geleia que parecia lacrado por forças sobrenaturais.
— Precisa de ajuda, "homem forte"? — provocou Yasmin, estendendo a mão.
— É uma questão de honra agora, Yasmin. O vácuo deste pote está desafiando minha masculinidade — ele respondeu, fazendo uma careta de esforço que a fez soltar uma gargalhada genuína.
— Deixa de ser bobo, dá aqui — ela pegou o pote e, com um jeito que só ela tinha, usou as costas de uma colher para liberar a pressão. O "ploc" foi ouvido por todos.
— Viu só? — disse Sophia, surgindo na cozinha com os olhos inchados, mas um sorriso malicioso. — É por isso que eles funcionam. O Kendi traz o entretenimento e a Yasmin traz a competência técnica.
— Eu sou muito competente no entretenimento também, tá? — Kendi protestou, passando a geleia no pão e oferecendo a primeira mordida para Yasmin.
— É verdade — concordou Letícia, sentando-se com eles. — Mas falando sério, como vocês estão se sentindo? Depois de ontem, o clima no grupo mudou. Parece que finalmente tiramos o elefante da sala e o colocamos para fora.
Yasmin olhou para Kendi. A brincadeira nos olhos dele suavizou-se, dando lugar a uma sinceridade que ela raramente via em público.
— Eu me sinto... leve — admitiu Kendi, cobrindo a mão de Yasmin com a sua sobre a mesa. — Acho que passei tanto tempo fazendo piada para esconder o que sentia que tinha esquecido como era bom só... falar a verdade.
— E você, Yas? — perguntou Miguel, entrando na cozinha com seu tablet de desenho. — A "Doutora Seriedade" aprovou a nova configuração do grupo?
Yasmin tomou um gole longo de café, ganhando tempo. Ela olhou para cada um daqueles rostos que a acompanhavam desde que ela era uma adolescente insegura com óculos grandes demais para o rosto.
— Eu acho — começou ela, com a voz firme, mas doce — que eu estava precisando de um pouco de caos na minha vida organizada. E se o caos vier em forma de um japonês que não sabe abrir potes de geleia, eu acho que posso lidar com isso.
Um coro de "Awnnn" ecoou pela cozinha, fazendo Yasmin revirar os olhos, embora não conseguisse parar de sorrir.
— Chega! — gritou Anna. — Antes que eu mude de ideia e decida que prefiro vocês se odiando, vamos para a última rodada de Verdade ou Desafio matinal. Só para encerrar a festa com chave de ouro.
— Ah, não, Anna! — Luigi protestou, finalmente aparecendo na porta, com os corações de batom ainda levemente borrados nas bochechas. — Eu ainda estou me recuperando dos traumas de ontem.
— Nada disso! — Anna pegou uma colher vazia e a colocou no centro da mesa de jantar. — Regras da manhã: perguntas leves, desafios rápidos. Letícia, gira!
A colher girou sobre a madeira, parando em Miguel para perguntar a Yasmin.
— Yasmin — Miguel disse, com seu tom calmo de observador —, verdade ou desafio?
— Verdade. Quero ver o que sua mente de artista vai formular.
— É verdade que, se o Kendi não tivesse tomado a iniciativa no armário, você teria esperado mais dez anos para dizer que gostava dele?
O silêncio caiu sobre a mesa. Yasmin sentiu o olhar de Kendi queimando em seu perfil. Ela suspirou, deixando a caneca de lado.
— Provavelmente sim — ela confessou, e a honestidade em sua voz surpreendeu a todos. — Eu tinha medo de estragar o que a gente tinha. Nossa amizade era a coisa mais estável da minha vida. Eu preferia ter o Kendi como o amigo que me fazia rir do que arriscar perder tudo por um "talvez".
Kendi apertou a mão dela com mais força, os dedos se entrelaçando.
— Você nunca ia me perder, Yas. Nem se o beijo tivesse sido um desastre.
— Mas não foi — interrompeu Sophia, piscando para eles. — Pela cara da Yasmin quando saiu do armário, foi digno de Oscar.
— Minha vez! — Kendi girou a colher com entusiasmo. Ela parou em Anna para Sophia.
— Sophia, verdade ou desafio?
— Desafio, óbvio!
— Eu desafio você — Kendi sorriu maldosamente — a postar uma foto do Luigi com esses corações no rosto no grupo da faculdade dele, com a legenda "O amor é lindo".
— Kendi, você é um monstro! — Luigi exclamou, mas já era tarde. Sophia já estava com o celular na mão, rindo histericamente enquanto Luigi tentava, sem sucesso, cobrir o rosto.
— Feito! — anunciou ela, mostrando a tela. — O chat já está explodindo.
Entre risadas e provocações, o café da manhã se estendeu por horas. Eles relembraram histórias antigas, planejaram a próxima viagem do grupo e, pela primeira vez, Yasmin e Kendi não eram apenas "Yasmin e Kendi", mas um "nós".
Quando finalmente chegou a hora de arrumar a bagunça e cada um seguir para sua casa, o clima de despedida era suave. Letícia abraçou cada um na porta, agindo como a verdadeira matriarca que era.
— Não sumam, ouviram? E Yasmin... — Letícia sussurrou no ouvido da amiga — se ele fizer alguma bobagem, me liga que eu tenho o contato da ex dele para a gente fazer um vodu.
Yasmin riu, abraçando-a de volta.
— Pode deixar, Leti. Mas acho que ele vai se comportar.
No corredor do prédio, enquanto esperavam o elevador, o grupo se dividiu. Anna e Miguel foram na frente, discutindo sobre uma nova série. Luigi e Sophia seguiam logo atrás, ele ainda tentando limpar o batom do rosto com um lenço umedecido enquanto ela o beijava a cada dois passos.
Yasmin e Kendi ficaram por último. Quando as portas do elevador se abriram e eles entraram, o espaço pequeno trouxe de volta a memória da noite anterior.
— Então... — começou Kendi, encostando-se na parede de espelho do elevador e puxando Yasmin pela cintura. — De volta à realidade?
— A realidade não parece tão ruim hoje — ela respondeu, passando os braços pelo pescoço dele. — Mas eu tenho uma condição para esse nosso... novo arranjo.
— Só uma? Você está ficando mole, Yasmin. Qual é?
— Sem jogos de Verdade ou Desafio por pelo menos um mês. Meu coração de "adulta séria" precisa de um descanso de tantas emoções.
Kendi riu, aproximando o rosto do dela.
— Prometo nada. Mas posso te oferecer um café de verdade, em um lugar que não tenha armários de vassouras ou amigos nos espionando. O que me diz?
— Eu digo que é o melhor desafio que você já me propôs.
O elevador chegou ao térreo com um "trim" suave. As portas se abriram para a rua movimentada, para o barulho da cidade e para a rotina que os esperava. Mas, ao cruzarem a saída do prédio de mãos dadas, tanto Yasmin quanto Kendi sabiam que nada seria como antes. A seriedade dela agora tinha um contraponto de leveza, e a brincadeira dele finalmente tinha encontrado um porto seguro.
A festa do pijama na casa de Letícia havia terminado, mas, para os dois, a verdadeira diversão estava apenas começando. Sob o sol da manhã, eles caminharam em direção ao carro, prontos para descobrir que, às vezes, as melhores verdades são aquelas que a gente tem medo de dizer, e os melhores desafios são aqueles que nos obrigam a ser felizes.