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**Diário de Sofia** **Data: 15 de Março** Querido Diário, Hoje aconteceu algo que eu sei que não deveria achar fascinante, mas acho. Todo mundo na escola tem medo do Gabriel. Eles sussurram que ele é “perturbado”, um “psicopata louco da cabeça”. Ele fica sozinho no fundo da sala, desenhando coisas sombrias nas margens do caderno com uma caneta preta. Seus olhos são de um cinza gelado, que parecem ver através de você, mas nunca realmente te enxergam. Eu deveria ter medo. Minha melhor amiga, Luiza, me puxa pelo braço quando passo perto dele no corredor. “Não olha, Sofia”, ela cochicha. Mas eu não consigo não olhar. Porque hoje, na aula de Biologia, quando a professora estava explicando o ciclo cardíaco, eu olhei para ele. E ele não estava desenhando monstros. Ele estava desenhando um pássaro com a asa quebrada, com um cuidado tão minucioso nos detalhes das penas que meu coração deu um salto. Naquele momento, aqueles olhos cinza não pareciam vazios. Pareciam… cheios de uma tempestade presa. E eu, como a tola romântica que sou, pensei: “Ninguém vê o pássaro. Só o monstro.” **Data: 22 de Março** Uma semana observando. Ele nunca fala, a não ser quando é obrigado, e aí sua voz é baixa, lisa, sem emoção. Ele não provoca ninguém, mas ninguém provoca ele. É como se houvesse um campo de força de tristeza e raiva silenciosa ao seu redor. Eu comecei a deixar pequenas coisas na mesa dele. Um dia foi um chocolate que eu sabia que ele gostava (vi ele comprando uma vez na cantina). Outro dia, um bilhete anônimo com uma citação de um livro que eu amo: “Até as estrelas mais frias têm núcleos em fusão.” Ele nunca reagiu. Até hoje. O bilhete sumiu. E no lugar dele, na minha mesa, havia um dos seus desenhos. Era aquele pássaro de asa quebrada, mas agora ele estava em um ninho feito de arame farpado. Não era bonito. Era assustador. Mas ele me devolveu algo. Foi um contato. Meu plano secreto e totalmente ingênuo começou, Diário. Eu vou tentar alcançá-lo. Vou tentar… consertá-lo. Não no sentido de mudar quem ele é, mas de mostrar que alguém vê o pássaro, não só o arame farpado. É perigoso? Provavelmente. Mas o coração não obedece à razão, não é? **Data: 10 de Abril** Falei com ele hoje. De verdade. Minhas mãos estavam suando tanto que quase derrubei meus livros. Ele estava no pátio, sozinho como sempre, debaixo da árvore de flores roxas que contrastava tão brutalmente com sua postura fechada. “Oi,” eu disse, minha voz um fio. “Gostei do seu desenho. Do pássaro.” Ele levantou os olhos devagar. Aquele olhar cinza me atravessou, e por um segundo, senti um frio na espinha. Não era medo, era… intensidade. Uma intensidade avassaladora. “Por quê?” A pergunta dele foi uma faca sem corte. Curiosa, não hostil. “Porque mesmo quebrado, ele ainda estava tentando ser algo belo. E o ninho… era para protegê-lo, mesmo sendo feito de coisas cortantes?” Ele ficou quieto por tanto tempo que pensei ter estragado tudo. Então, um canto de sua boca se moveu. Não era um sorriso. Era um reconhecimento. “Talvez o arame farpado seja a única coisa que ele conhece. A única coisa que ele acredita que pode segurá-lo.” Foi a coisa mais profunda que alguém já me disse. E saiu da boca do “psicopata louco da escola”. Senti uma dor no peito, uma mistura de pena e de uma atração proibida que não consigo explicar. Quero desvendar esse enigma. Quero ser a pessoa para quem ele mostra o núcleo em fusão. **Data: 5 de Maio** Estamos “conversando”. Sempre em sussurros, sempre de relance. Ele me mostra seus desenhos. São mundos sombrios, criaturas distorcidas, mas sempre com um fio de luz em algum lugar. Um raio de sol cortando uma floresta de espinhos. Uma flor nascendo em uma fenda de concreto. Eu lhe empresto meus livros de poesia. Ele devolve com frases sublinhadas que falam de solidão e fúria silenciosa. Luiza está desesperada. “Sofia, ele não é um projeto de arte! Ele é perigoso! Você está se apaixonando por uma ideia, não por uma pessoa!” E se ela estiver certa? E se eu estiver apenas me enganando, vestindo um príncipe com a capa de um lobo? Mas quando ele me olha, há um lampejo de algo… diferente. Algo que só eu vejo. É como se eu tivesse a chave para uma cela que só eu sei que existe. Hoje, ele disse meu nome. “Sofia.” Soou estranho na boca dele, como uma palavra em uma língua esquecida. Meu estômago virou de ansiedade e de uma felicidade absurda. **Data: 20 de Maio** Aconteceu algo. Algo grande. Um valentão da escola, o Bruno, veio tirar sarro de mim por estar sempre “com o vampiro”. Empurrou-me contra os armários. Eu estava prestes a revidar, com raiva e medo, quando Gabriel apareceu. Não foi um herói dos filmes. Não houve socos ou gritos. Ele simplesmente se colocou entre eu e o Bruno. E olhou para o Bruno. Apenas olhou. Com aqueles olhos cinza e gelados, sem piscar, sem expressão. A raiva silenciosa que sempre o cercou não estava mais contida; ela estava projetada, focada, como um laser. O Bruno, que é o dobro do tamanho do Gabriel, empalideceu. Gaguejou alguma coisa e saiu andando para trás, antes de se virar e quase correr. Gabriel se virou para mim. Suas mãos estavam tremendo. “Ele não vai te incomodar de novo,” ele disse, e sua voz estava rouca, carregada de uma emoção violenta que ele claramente lutava para controlar. Foi aí que eu entendi. Eu não posso consertá-lo. Essa escuridão, essa intensidade aterradora… é parte dele. Não é uma doença a ser curada. É uma paisagem. Complexa, perigosa, mas real. E o pior (ou o melhor?) é que eu não quero mais consertá-lo. Eu só quero entendê-lo. E, Deus me perdoe, acho que me apaixonei por essa paisagem inteira, tempestades, arame farpado e tudo. Estou com medo, Diário. Com medo do que isso significa. Com medo dele. Com medo de mim. Mas quando ele pegou minha mão tremula depois que o Bruno foi embora, e a segurou com uma força que quase doeu, mas que me fez sentir mais segura do que nunca em toda a minha vida… eu soube. Minha jornada para “consertá-lo” estava fadada ao fracasso. Em vez disso, ela me levou a um amor que não é doce, não é fácil. É intenso, é sombrio, é como mergulhar em águas profundas e geladas. E eu não sei se vou conseguir nadar. Mas por enquanto, não quero sair da água.