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A Sombra da Obsessão
As férias terminaram, mas a aura de Gabriel não diminuiu, pelo contrário. Sofia sentia-se como uma constelação particular, girando em torno de um sol negro e magnético. O retorno à escola foi um choque. O burburinho dos corredores, a superficialidade das conversas, tudo parecia pálido e sem sentido comparado à intensidade das suas interações com Gabriel. Ele, por sua vez, parecia ainda mais recluso, os olhos cinzentos varrendo o ambiente com uma vigilância quase predatória.
Sua possessividade, antes um sussurro, agora começava a se manifestar em gestos mais explícitos. No primeiro dia de aula, quando Sofia se aproximou do armário, Luiza já estava lá, esperando.
– Graças a Deus você voltou! – exclamou Luiza, abraçando-a com força. – Estava morrendo de saudades!
Sofia retribuiu o abraço, sentindo um alívio genuíno. Por mais que amasse Gabriel, a ausência de Luiza e a vida “normal” pesavam.
– Eu também, Luiza.
No instante em que se separaram, Gabriel apareceu, materializando-se como uma sombra no final do corredor. Seus olhos fixaram-se em Luiza, e o sorriso dela vacilou.
– Olá, Gabriel – disse Luiza, a voz um pouco mais forçada do que o normal.
Ele não respondeu. Apenas continuou a olhar para ela, um olhar que não era de raiva aberta, mas de uma frieza cortante, como uma lâmina de gelo. Luiza engoliu em seco.
– Bem, eu… eu vou indo. A gente se fala, Sofia.
E praticamente fugiu, deixando Sofia sozinha com Gabriel. Ele se aproximou, e o cheiro amadeirado de sua colônia – ou talvez fosse apenas o cheiro dele – envolveu-a.
– Não gosto dela – disse Gabriel, sua voz baixa e controlada. – Ela é… barulhenta. E te distrai.
Sofia sentiu um calor subir pelo pescoço.
– Ela é minha melhor amiga, Gabriel.
Ele apenas deu de ombros, como se a amizade de Sofia fosse uma trivialidade inconveniente.
– Você não precisa de mais ninguém, Sofia. Você tem a mim.
Aquelas palavras, proferidas com uma calma assustadora, fizeram um arrepio percorrer sua espinha. Era uma declaração de amor, sim, mas também uma declaração de posse.
Nos dias que se seguiram, a possessividade de Gabriel tornou-se mais evidente. Ele a esperava em todas as aulas, acompanhava-a até o refeitório, sentava-se ao seu lado em todos os momentos, mesmo que não falasse. Se alguém se aproximava para conversar com Sofia, os olhos cinzentos de Gabriel se estreitavam, e o interlocutor invariavelmente encontrava uma desculpa para se afastar.
Luiza tentou conversar com ela novamente, puxando-a para um canto durante o intervalo.
– Sofia, você não pode deixar ele fazer isso! Ele está te isolando!
– Ele não está me isolando, Luiza – defendeu Sofia, sentindo-se na defensiva. – Ele só… gosta de passar tempo comigo.
– Gosta de passar tempo com você ou gosta de te controlar? – Luiza perguntou, a voz cheia de desespero. – Eu vejo o jeito que ele te olha, Sofia. É como se você fosse… um objeto dele.
As palavras de Luiza a atingiram, mas Sofia as afastou. Ela estava tão imersa no mundo de Gabriel, tão acostumada à sua intensidade, que a visão de Luiza parecia exagerada, quase histérica.
Uma tarde, Sofia estava na biblioteca, estudando para uma prova de história. Gabriel estava sentado na mesa ao lado, desenhando, como de costume. Um colega de sala, Marcos, aproximou-se para pedir um livro emprestado.
– Sofia, você tem aquele livro sobre a Revolução Francesa? – perguntou Marcos, sorrindo.
Gabriel parou de desenhar. O som do grafite arranhando o papel cessou abruptamente. Marcos pareceu notar a mudança na atmosfera e seu sorriso diminuiu.
– Ah, oi, Gabriel – disse Marcos, um pouco sem jeito.
Gabriel não respondeu. Seus olhos cinzentos fixaram-se em Marcos, e o silêncio na biblioteca tornou-se pesado, opressor. Sofia sentiu o coração acelerar.
– Sim, Marcos, eu tenho – disse Sofia, tentando quebrar a tensão. – Está na minha mochila.
Quando Marcos se inclinou para pegar o livro, Gabriel se levantou. Não houve palavras, não houve ameaças. Apenas um movimento lento e deliberado. Ele se colocou entre Sofia e Marcos, a mão direita fechada em um punho relaxado, mas visivelmente tenso, ao lado do corpo. Era uma barreira física, impenetrável.
Marcos recuou, os olhos arregalados.
– Tudo bem, Sofia, não precisa… eu pego na internet.
E saiu apressado, quase tropeçando nos próprios pés.
Sofia virou-se para Gabriel, a raiva borbulhando dentro dela.
– O que foi isso, Gabriel?! Você não pode fazer isso!
Ele olhou para ela, e havia uma espécie de triunfo sombrio em seus olhos.
– Ele estava te incomodando.
– Ele não estava me incomodando! Ele só queria um livro! – Sofia sentiu a voz embargar. – Você está afastando todo mundo de mim!
Gabriel se aproximou, e suas mãos seguraram o rosto dela, o toque frio mas firme.
– Porque eu sou tudo o que você precisa, Sofia. Eu te protejo. Eu te entendo. Ninguém mais te entende como eu.
O beijo que se seguiu foi possessivo, quase violento, uma afirmação de domínio que sufocou a raiva de Sofia e a deixou ofegante. Naquele momento, ela se sentiu uma prisioneira, mas uma prisioneira que, estranhamente, não queria fugir. A escuridão dele a envolvia, e a promessa de sua proteção, por mais sufocante que fosse, parecia um refúgio.
A partir daquele dia, Sofia começou a se afastar de Luiza, de seus outros amigos. As chamadas de Luiza ficaram sem resposta, as mensagens ignoradas. Ela se sentia culpada, mas a pressão de Gabriel era sutil e implacável. Ele não a proibia de ver ninguém, mas a fazia sentir-se culpada, como se qualquer tempo gasto com outra pessoa fosse um tempo roubado deles, um tempo em que ela o estava traindo.
Os encontros com Gabriel tornaram-se mais intensos, mais carregados. Eles continuavam a explorar a casa abandonada, o santuário na floresta. Mas agora havia uma camada de tensão, um subtexto de controle em cada interação.
Uma noite, enquanto estavam na casa abandonada, Gabriel estava desenhando em seu caderno, e Sofia estava lendo um livro. De repente, ela ouviu um barulho do lado de fora.
– O que foi isso? – ela perguntou, sentindo um calafrio.
Gabriel levantou a cabeça, seus olhos fixos na janela quebrada.
– Provavelmente um animal.
Mas havia algo na sua voz, uma quietude calculada, que fez Sofia desconfiar. Alguns minutos depois, o barulho se repetiu, mais próximo. Era o som de passos.
Gabriel se levantou, seu corpo tenso, alerta.
– Fique aqui – ele sussurrou, e o tom de sua voz não admitia questionamento.
Ele se moveu com uma agilidade silenciosa para a porta, espiando através da fresta. Sofia ouviu vozes abafadas. Eram vozes de adolescentes, risadas, talvez procurando um lugar para fumar ou beber.
De repente, Gabriel se virou para ela, os olhos brilhando com uma intensidade assustadora. Um pequeno sorriso se formou em seus lábios, um sorriso que Sofia nunca vira antes, e que a fez sentir um medo gelado.
– Eles estão invadindo o nosso lugar – ele sussurrou, e a palavra "nosso" soou como uma possessão sagrada.
Sofia sentiu o pânico subir.
– Gabriel, vamos embora.
Ele balançou a cabeça lentamente.
– Não. Eles precisam aprender.
Ele pegou um pedaço de madeira podre do chão, que parecia perfeitamente dimensionado para a mão dele.
– Gabriel, por favor! – Sofia implorou, sentindo um nó na garganta.
Mas ele já estava se movendo. Ele abriu a porta abruptamente e saiu. Sofia ouviu um grito, seguido por um baque surdo. E então, um silêncio assustador.
Correndo para a porta, Sofia espiou. Havia três garotos. Um deles estava no chão, gemendo, a mão no ombro. Outro estava parado, pálido, e o terceiro estava recuando, os olhos arregalados de terror. Gabriel estava parado sobre o garoto caído, o pedaço de madeira na mão, os olhos cinzentos fixos neles com uma fúria contida que fez o ar vibrar.
– Este lugar – disse Gabriel, sua voz baixa, mas carregada de uma ameaça inconfundível – é nosso. Se vocês voltarem, não haverá aviso.
Os dois garotos restantes pegaram o amigo e fugiram, sem olhar para trás.
Gabriel voltou para dentro da casa, o rosto impassível, como se nada tivesse acontecido. Ele jogou o pedaço de madeira de volta no chão.
Sofia estava tremendo.
– Você… você o machucou!
– Ele estava no nosso lugar – Gabriel respondeu, como se isso fosse justificativa suficiente. – Você é minha, Sofia. E este lugar também é meu. Ninguém mais pode tocar no que é meu.
Ele se aproximou dela, e Sofia recuou, o medo finalmente superando a atração.
– Gabriel, isso não está certo.
Ele a segurou pelos braços, e seus olhos fixaram-se nos dela, a intensidade quase insuportável.
– Você está com medo de mim? – ele perguntou, e havia uma ponta de mágoa na voz, misturada com uma possessividade ainda mais forte.
– Eu… eu não sei – ela gaguejou, a mente em turbilhão.
– Não tenha medo, Sofia – ele sussurrou, e o tom era ao mesmo tempo consolador e ameaçador. – Eu nunca te machucaria. Eu só quero te proteger. De tudo. De todos. De você mesma, se for preciso.
Ele a beijou novamente, e desta vez, Sofia não sentiu a eletricidade familiar. Sentiu o peso de uma gaiola se fechando ao seu redor. A promessa de proteção dele soava menos como um refúgio e mais como uma sentença.
Ela amava o pássaro de asa quebrada, mas o pássaro estava se tornando um predador, e ela era a sua presa mais valiosa. O labirinto de arame farpado não era mais apenas uma paisagem, era uma prisão, e as paredes estavam começando a se fechar.
Sofia olhou para o rosto de Gabriel, tão familiar e ao mesmo tempo tão estranho. Sua beleza sombria, sua intensidade, tudo o que a atraíra para ele, agora se tornava uma fonte de terror. Ela havia procurado a luz no arame farpado, mas talvez o arame farpado fosse apenas arame farpado, e a escuridão, apenas escuridão. E ela estava presa nela.