Tf is This???
Ecos de Vidro e Suspiros de Algodão
A sala de estar da mansão de Mizi parecia o cenário de um apocalipse pós-moderno, decorado com garrafas vazias de soju, embalagens de salgadinhos e corpos espalhados em ângulos anatomicamente impossíveis. O sol da manhã entrava impiedosamente pelas grandes janelas de vidro, atingindo Till bem no meio da testa.
— Porra... apaga essa estrela maldita... — resmungou Till, enterrando o rosto em um dos travesseiros caros do sofá. Sua voz soava como se ele tivesse engolido um punhado de brita. A ressaca batia em seu crânio com a força de um solo de bateria de heavy metal.
Ao lado dele, no chão, Hyuna soltou um gemido de concordância, os cabelos castanhos espalhados como um tapete desgrenhado.
— Se alguém... fizer qualquer barulho mais alto que um suspiro... eu juro que cometo um crime — murmurou ela, apertando as têmporas.
Ivan, sentado em uma poltrona com as pernas cruzadas, parecia o único minimamente funcional, embora a palidez excessiva e a mão massageando a nuca entregassem a dor de cabeça latente. Mesmo assim, o sorriso irritante não abandonava seus lábios.
— Vocês são patéticos — disse Ivan, a voz baixa, mas carregada de veneno divertido. — Três copos e vocês viram poças de lama.
— Vai se foder, Ivan — Till respondeu, sem sequer abrir os olhos.
Luka, o único sóbrio do grupo por ter passado a noite bebendo apenas energético e monitorando para que ninguém incendiasse a casa, entrou na sala carregando uma bandeja com copos de água e aspirinas. Ele ajeitou os óculos, observando o caos com uma expressão de cansaço clínico.
— Estatisticamente, vocês deveriam estar mortos — comentou Luka, entregando um copo para Hyuna. — O volume de álcool consumido foi inversamente proporcional ao bom senso de vocês.
— Valeu, nerd... agora cala a boca — Hyuna bebeu a água como se estivesse no meio de um deserto.
De repente, a porta que dava para o corredor dos quartos se abriu. Mizi apareceu, e o contraste era chocante. Ela estava radiante. O cabelo rosa com pontas azuis estava perfeitamente bagunçado, os olhos dourados brilhavam e ela exibia um sorriso que poderia iluminar a cidade inteira. Ela usava apenas uma camisa social branca enorme — claramente não era dela — e parecia ter acabado de voltar de um spa, não de uma festa pesada.
— Bom dia, flores do dia! — exclamou Mizi, a voz vibrante demais para o ambiente de ressaca. — Quem quer café? Eu estou me sentindo incrível!
— Como? — Till finalmente abriu um olho, olhando para ela com pura indignação. — Você bebeu mais que eu. Por que você parece um raio de sol e eu pareço um atropelamento?
Mizi apenas soltou uma risadinha enigmática, encostando-se no batente da porta.
— Talvez seja o amor, Till. Ou talvez eu só tenha uma genética superior.
O mistério foi resolvido poucos segundos depois. Sua apareceu logo atrás dela, mas o estado da garota de cabelos pretos era o oposto absoluto de Mizi. Sua estava pálida — mais do que o normal —, com olheiras profundas e uma expressão de quem tinha sido processada por uma máquina de lavar no modo pesado. Ela caminhava de um jeito estranho, escorando-se na parede e dando passos curtos, como se cada movimento de suas pernas fosse um sacrifício hercúleo.
Houve um silêncio súbito na sala. Ivan parou de sorrir, Luka parou de organizar os copos e até Till sentou-se, esquecendo a dor de cabeça por um momento. Todos olharam de Mizi para Sua, e depois de volta para Mizi.
— Caralho... — soltou Hyuna, quebrando o silêncio. — Mizi, você matou a menina?
— O que foi? — Mizi perguntou, fingindo inocência enquanto passava um braço pela cintura de Sua para ajudá-la a sentar.
— "O que foi?" — Ivan repetiu, soltando uma gargalhada alta que fez Till gemer de dor. — Olha a cara da minha irmã! Ela está andando como se tivesse acabado de montar um cavalo por doze horas seguidas!
— Eu estou bem... — Sua tentou dizer, mas sua voz saiu fraca e rouca, o que só piorou a situação. Ela se sentou no sofá com um suspiro de alívio, fechando os olhos enquanto Mizi beijava o topo de sua cabeça.
— Pelo visto a noite da Mizi foi produtiva — comentou Luka, limpando os óculos com um sorrisinho discreto. — Isso explica a vitalidade súbita da anfitriã. Transferência de energia vital, suponho.
Mizi revirou os olhos, mas não parecia nem um pouco envergonhada. Na verdade, ela parecia orgulhosa.
— Inveja é foda, né? — provocou Mizi, olhando para Luka. — O nerd aqui não tem coragem nem de pegar a Hyuna de jeito, fica só nos cálculos. E o Ivan... bom, o Ivan nem sabe se quer ser o ativo ou o passivo com o Till, por isso ficam nesse chove não molha eterno.
— EI! — gritaram Ivan e Till ao mesmo tempo, ambos ficando vermelhos.
— Não muda de assunto, Mizi! — Hyuna se inclinou para frente, ignorando a própria ressaca agora que a fofoca estava quente. — Sua, fala a verdade. Você não aguenta o tranco ou a Mizi que é um monstro? Porque você está destruída, amiga.
Sua escondeu o rosto nas mãos, sentindo as orelhas queimarem. Mizi tentou intervir, rindo.
— Deixem ela em paz, o desempenho foi excelente, nota dez.
— Nota dez? — Ivan debochou. — Ela parece que levou um surra! Foram quantos rounds, Sua? Dois? Três?
Sua, em um momento de fraqueza causado pelo cansaço e pela insistência do irmão, deixou escapar em um murmúrio:
— Foram cinco...
O grupo congelou.
— Cinco? — Till repetiu, incrédulo.
— É... — Sua continuou, a voz abafada pelas mãos. — E no sexto... a Mizi parou no meio. Ela simplesmente parou quando eu estava... quase lá. Só porque ela disse que eu precisava "aprender a pedir".
Houve um segundo de silêncio absoluto antes de a sala explodir. Mas, para a surpresa de Mizi, a zoação não foi com Sua.
— MIZI! — Hyuna gritou, rolando de rir no chão. — Você é um monstro! Parar no sexto round? Isso é tortura!
— Que escrota! — Ivan apontou para Mizi, rindo tanto que faltava o ar. — Você acabou com a coitada por cinco rounds e no sexto deu um "ghosting" presencial? Por isso ela está com essa cara de morta-viva! É privação de prazer acumulada com exaustão física!
— Eu achei que você fosse gente boa, Mizi, mas você é sádica — completou Till, balançando a cabeça, embora estivesse rindo também.
— Ah, calem a boca! — Mizi exclamou, ficando vermelha pela primeira vez. — Foi educativo! Ela estava muito mal acostumada!
— Educativo? — Luka comentou, anotando algo imaginário no ar. — Crueldade fisiológica, eu diria.
O resto da manhã passou entre provocações e risadas, enquanto o grupo tentava se recuperar da noite anterior. Mizi, apesar da zoação, não saiu do lado de Sua, trazendo água, comida e garantindo que a namorada estivesse confortável, mesmo que continuasse lançando olhares provocadores sempre que os amigos mencionavam o "sexto round".
***
A noite chegou trazendo uma calma necessária. Todos já haviam tomado banho e a sala estava organizada, embora ainda houvesse um clima de acampamento improvisado. Colchões e mantas foram espalhados pelo chão, e os seis estavam amontoados, aproveitando a preguiça do fim de semana.
Luka e Hyuna dividiam um fone de ouvido, assistindo a algo no tablet. Ivan e Till estavam sentados de costas um para o outro, fingindo que não estavam aproveitando a proximidade física, enquanto Ivan ocasionalmente puxava o cabelo de Till só para ouvi-lo reclamar.
No centro do sofá, Mizi estava sentada com as pernas esticadas. Sua estava praticamente fundida a ela. A garota de cabelos pretos estava no colo da namorada, encolhida como um pequeno bebê, com o rosto escondido na curva do pescoço de Mizi.
Sua estava em um estado de carência absoluta. Talvez fosse o cansaço, ou o resíduo da adrenalina da noite anterior, mas ela não conseguia parar de se esfregar em Mizi. Suas mãos apertavam a cintura da namorada por baixo da blusa, e ela soltava pequenos suspiros satisfeitos toda vez que Mizi passava a mão por seus cabelos curtos.
— Alguém está carente — comentou Hyuna, olhando por cima do tablet.
— Deixa ela — Mizi respondeu suavemente, beijando a têmpora de Sua. — Ela merece todo o dengo do mundo depois de ter sobrevivido a mim.
Sua soltou um resmungo manhoso, apertando mais o abraço. Ela não se importava mais com a zoação. Ali, no calor dos braços de Mizi, com o cheiro de sabonete e o som da respiração da namorada, tudo o que importava era que ela não era mais invisível.
— Mizi... — Sua murmurou, a voz sonolenta.
— Oi, meu amor?
— Não faz mais aquilo... — Sua se afastou um pouco, olhando para Mizi com os olhos roxos pidões. — O negócio de parar no meio. Foi maldoso.
Mizi soltou uma gargalhada baixa, apertando as bochechas pálidas de Sua.
— Prometo que da próxima vez eu vou até o fim. Ou até você pedir arrego de verdade.
— Eu nunca peço arrego — Sua retrucou, tentando parecer firme, mas acabando por se aconchegar novamente no peito da namorada.
— É, a gente viu hoje de manhã o quanto você não pede — Ivan provocou do chão, ganhando um chute leve de Mizi.
A noite continuou assim, entre sussurros, carinhos e o som da chuva que começava a cair lá fora. O grupo de amigos, tão diferente e caótico, parecia finalmente ter encontrado um ritmo comum. Entre o sarcasmo de Mizi, a melancolia doce de Sua, a rebeldia de Till, a inteligência de Luka, a energia de Hyuna e as provocações de Ivan, eles haviam construído um refúgio onde podiam ser apenas adolescentes, longe das pressões e das máscaras do dia a dia escolar.
Sua fechou os olhos, sentindo os dedos de Mizi traçando padrões imaginários em suas costas. Ela sabia que, na segunda-feira, as dores físicas passariam, mas a certeza de que pertencia àquele grupo — e, especialmente, àquela garota vibrante e sádica que a segurava — permaneceria para sempre.
— Boa noite, Sua — Mizi sussurrou, a voz carregada de um afeto que ela raramente mostrava aos outros.
— Boa noite, Mizi — respondeu Sua, já entregue ao sono, sentindo-se, pela primeira vez, completamente em casa.