Tf is This???
Entre Suspiros, Postagens e Esbarrões
A manhã de terça-feira na escola parecia uma reprise mal editada do dia anterior, exceto pelo fato de que o céu estava nublado, combinando perfeitamente com a aura de Till, que decidira simplesmente não aparecer. Mizi, por outro lado, parecia ignorar o clima cinzento. Ela segurava seu inseparável copo de café expresso, as pontas azuis do cabelo rosa vibrando contra o blazer preto do uniforme.
Ela estava encostada no parapeito do segundo andar com Chloe e Sarah. O assunto, como quase sempre, era Kael.
— Sério, ele me mandou cinquenta mensagens ontem à noite — Mizi comentou, revirando os olhos dourados e soltando um suspiro carregado de sarcasmo. — Ele é um gato, faz tudo o que eu quero, mas puta que pariu, o cara é muito chato às vezes. É uma carência que não acaba mais.
Chloe soltou uma risadinha, ajeitando a saia.
— Ué, Mizi, se o cara é um porre, por que você ainda não deu um pé na bunda dele? Você conseguiria qualquer um nessa escola em cinco minutos.
Mizi deu um gole longo no café, sentindo a cafeína queimar a garganta.
— Ah, sei lá. Tédio, eu acho. É conveniente ter alguém que carrega minha mochila e me traz lanche na hora que eu estalo os dedos. E ele é popular, né? Mantém as aparências. Mas no fundo... — ela fez uma pausa, olhando para o pátio lá embaixo — ...é só pra passar o tempo mesmo.
As amigas riram, achando que era apenas o jeito "descolado" de Mizi ser. Elas não faziam ideia de que, para Mizi, Kael era apenas um escudo de carne e osso, uma distração para o fato de que nenhum garoto ali realmente despertava o interesse dela.
O intervalo chegou e, para a surpresa de alguns, Hyuna se aproximou de Mizi. Chloe e Sarah tinham ido à cantina, deixando as duas sozinhas por um momento.
— Onde está o seu guarda-costas particular? — Hyuna perguntou, encostando-se ao lado de Mizi.
— Deve estar por aí, inflando o ego com os amigos do time — Mizi respondeu, oferecendo um sorriso genuíno para Hyuna. — O Till não veio hoje? Senti falta daquela nuvem negra de mau humor pelos corredores.
— O idiota disse que não estava se sentindo bem, mas eu aposto que ele ficou em casa tentando aprender aquele riff de guitarra de novo — Hyuna riu, mas seu olhar logo se desviou para o grupo sentado nos bancos de madeira do pátio.
Lá estavam Ivan, Luka e Sua. Ivan estava com o celular na mão, alternando entre sorrisos irritantes e digitações rápidas. Luka estava imerso em um livro de física quântica, e Sua, em seu próprio mundo, desenhava freneticamente em seu caderno.
Ivan soltou uma gargalhada curta.
— Olha só esse post do Till — disse Ivan, mostrando a tela para Luka, que nem se deu ao trabalho de olhar. — "A vida é um abismo de distorção e feedback". Que cara dramático, meu Deus. Comentei que ele só está com dor de cotovelo porque eu toco melhor que ele.
— Você só quer que ele venha aqui te bater, Ivan — Luka comentou, sem tirar os olhos do livro. — É uma fixação estatisticamente improvável para alguém que diz detestá-lo.
— Cala a boca, nerd — Ivan continuou rolando o feed. — Opa, olha a Mizi.
Ele parou em uma foto postada na noite anterior. Mizi estava deitada, o rosto metade coberto por um edredom felpudo, os olhos dourados parecendo sonolentos e pesados. A legenda dizia: "Boa noite, fudidos".
— Ela é bonita, não dá pra negar — Ivan murmurou, digitando um comentário rápido: *"Dormindo às dez? Virou idosa?"*. Ele não era próximo dela, mas no ecossistema daquela escola, todos interagiam nas redes sociais.
Enquanto isso, no pátio, a bolha de paz de Mizi e Hyuna foi estourada. Kael apareceu como um furacão de autoconfiança, envolvendo o braço no pescoço de Mizi e depositando um beijo possessivo em sua bochecha.
— Achei você, linda. Vamos, o pessoal tá lá na frente — disse Kael, nem sequer olhando para Hyuna.
— Tá, tá, já vou — Mizi respondeu, lançando um olhar de "me tira daqui" para a amiga.
Hyuna apenas deu de ombros e caminhou em direção ao banco onde seus amigos estavam.
— E aí, bando de desanimados — Hyuna se sentou ao lado de Sua. — O que você está desenhando hoje, Sua?
Sua fechou o caderno por um reflexo, mas depois o abriu lentamente, mostrando o esboço de uma figura feminina envolta em sombras, mas com olhos que brilhavam de forma familiar.
— É só... um estudo de luz — Sua mentiu, a voz baixa.
— Tá ficando incrível — Hyuna elogiou, antes de se virar para Ivan e Luka para discutir sobre o trabalho de história.
Sua, no entanto, não conseguia se concentrar na conversa. Seus olhos roxos estavam fixos na entrada do prédio, onde Kael caminhava com o braço em volta de Mizi. O ciúme era uma pontada aguda no peito, uma mistura de inveja da liberdade de Kael e ódio por ele não dar o valor que Mizi merecia. Ela se sentia pequena, invisível, uma mera espectadora da vida vibrante da garota de cabelos rosa.
O sinal tocou, estridente e impiedoso.
— Vamos, Sua, a aula de química não espera — Luka disse, fechando o livro.
Sua se levantou, guardando o material com pressa. Luka seguiu para os armários para trocar os livros, e Sua continuou pelo corredor principal, com a cabeça baixa, perdida em pensamentos. Foi então que o impacto aconteceu.
Ela trombou com força em alguém que vinha na direção oposta. Seus cadernos voaram e ela quase caiu.
— Olha por onde anda, porra! — a voz de Kael ecoou, áspera e agressiva. — Tá cega, garota?
Sua sentiu o rosto queimar de vergonha e medo. Ela começou a se abaixar para pegar suas coisas, mas Kael continuava lá em cima, parecendo pronto para dizer algo ainda mais escroto.
— Kael, para com isso — a voz de Mizi cortou o ar como uma lâmina. Ela estava logo atrás dele, com as mãos na cintura. — Foi um acidente, deixa de ser babaca.
Kael bufou, mas a postura agressiva murchou instantaneamente diante de Mizi.
— Foi mal, Mizi. Eu só... perdi a paciência — ele murmurou, olhando para Sua com desdém antes de se afastar. — Te vejo na sala.
Mizi suspirou e se abaixou, ajudando Sua a pegar o caderno de desenhos que havia caído aberto em uma página de estudos anatômicos.
— Desculpa por ele, Sua. O Kael às vezes esquece que não é o dono do corredor — Mizi entregou o caderno, seus dedos roçando levemente nos de Sua. — Você tá bem? Não se machucou, né?
— Estou... estou bem. Obrigada, Mizi — Sua respondeu, o coração batendo tão forte que ela achou que Mizi pudesse ouvir.
— De nada. E sério, seus desenhos são foda. A gente se fala depois — Mizi deu um tapinha amigável no ombro dela e saiu andando, o som de seus saltos ritmado e confiante.
Sua ficou parada por alguns segundos, processando o toque e o elogio. O mundo parecia ter ganhado um pouco mais de cor, mesmo que a melancolia ainda estivesse lá, espreitando.
Horas depois, já em casa, o ambiente era mais silencioso. No quarto de Hyuna, o som das notificações não parava. Ela estava em uma chamada de vídeo com Till, que parecia estar jogado na cama com um fone de ouvido gigante.
— Então você só faltou porque estava com preguiça? — Hyuna perguntou, rindo.
— Eu já disse, eu estava com dor de cabeça — Till resmungou, embora estivesse com uma guitarra no colo. — O Ivan parou de encher o saco?
— Na verdade, eu acabei de entrar na call — a voz de Ivan surgiu, vinda do ícone que acabara de brilhar na tela. — Sentiu minha falta, Tillzinho?
— Vai pro inferno, Ivan — Till revirou os olhos, mas não desligou.
— Viu o post da Mizi? — Ivan continuou, ignorando a hostilidade. — Até a rainha da escola precisa dormir. E o Kael quase atropelou a minha irmã hoje no corredor. O cara é um lunático.
Enquanto a conversa dos três seguia entre insultos e risadas, em outro quarto, Sua estava deitada em sua cama. A luz do abajur era fraca, criando sombras longas nas paredes. Ela segurava o celular, o brilho da tela iluminando seu rosto pálido.
Ela havia chegado ao post que Ivan comentara mais cedo.
Mizi na foto parecia tão vulnerável, tão diferente da persona sarcástica que exibia na escola. Sua deu um zoom na imagem, observando os detalhes: os fios rosa bagunçados, a curva dos cílios, a forma como o cobertor emoldurava seu rosto.
Sua fechou os olhos por um momento, deixando a imaginação fluir. Ela se permitiu fantasiar sobre como seria estar do outro lado daquela câmera. Como seria se, em vez de Kael, fosse ela quem Mizi procurasse quando estivesse entediada ou cansada.
Ela imaginou um cenário onde não havia segredos, onde Mizi não precisava fingir ser algo que não era. Imaginou as duas sentadas em um café, dividindo um expresso, falando sobre desenhos e sentimentos melancólicos. Imaginou o toque de Mizi não como um esbarrão ou um tapinha no ombro, mas como algo calmo, seguro.
— Por que você tem que ser tão perfeita? — Sua sussurrou para o quarto vazio.
Ela sabia que a realidade era cruel. Mizi namorava o cara mais popular da escola. Mizi era "hétero". Mizi era o sol, e Sua era apenas uma sombra que tentava não desaparecer sob a luz dela.
Sua suspirou, sentindo aquela melancolia familiar a envolver como o cobertor de Mizi na foto. Ela bloqueou o celular e o colocou de lado, olhando para o teto. O amanhã traria mais aulas, mais café, mais Kael e mais distância. Mas, por aquela noite, na segurança de seus próprios pensamentos, Mizi pertencia a ela.