Voltar ao resumo

Tf is This???

Ecos no Banheiro e Suspeitas Equivocadas

A manhã de quarta-feira arrastou-se com a lentidão de uma música de jazz melancólica. Para Sua, cada segundo parecia uma eternidade, especialmente depois do pequeno incidente no corredor no dia anterior. Ela mal conseguia olhar na direção de Mizi sem sentir que seu rosto pegaria fogo.

Por volta das 13h, o grupo de amigos estava jogado em um canto do pátio quando os celulares vibraram em uníssono. Era uma mensagem de Hyuna no grupo "Os Desajustados (e o Luka)":

*Hyuna: Galera, emergência social. Vou sair com a Mizi agora à tarde pro shopping. O Kael vai estar lá e eu me recuso a ser a vela daquele casal de comercial de perfume barato. As amigas da Mizi furaram. Quem topa vir pra equilibrar a energia?*

Till respondeu em menos de dez segundos: *Tô dentro. Preciso comprar cordas novas mesmo.*

Ivan, vendo a resposta de Till, não perdeu tempo: *Se o projeto de rockstar vai, eu vou pra garantir que ele não se perca no setor de brinquedos. Tô nessa.*

Luka, ajustando os óculos enquanto lia a tela, digitou: *Tenho 87% de probabilidade de me arrepender, mas como a Hyuna pediu, estarei lá.*

Sua hesitou. Seus dedos pairaram sobre o teclado. Ir significava ficar perto de Mizi por horas. Significava ver Kael sendo o "namorado perfeito". Mas significava, acima de tudo, a chance de respirar o mesmo ar que ela fora do ambiente escolar. *Eu vou*, ela digitou, o coração já acelerando.

Uma hora e meia depois, o grupo se encontrou na entrada principal do shopping. Mizi estava lá, deslumbrante em roupas civis que pareciam saídas de uma revista de moda alternativa. Ela usava uma saia plissada preta, uma blusa de alças finas e uma jaqueta de couro jogada nos ombros. Ao lado dela, Hyuna acenava animadamente.

— Cadê o seu dono, Mizi? — Ivan perguntou, com aquele sorriso sarcástico que era sua marca registrada.

— O Kael teve um imprevisto com o treino de basquete — Mizi respondeu, dando de ombros com uma indiferença que beirava o alívio. — Ele disse que só vai conseguir me buscar no final da tarde. Então, por enquanto, sou toda de vocês.

Till, que estava tentando parecer descolado encostado em uma pilastra, quase engasgou com a própria saliva. Sua, por outro lado, sentiu um peso sair de seus ombros. Sem Kael, o ar parecia mais limpo.

A tarde seguiu em um ritmo caótico e divertido. Eles eram um grupo improvável: o nerd, a descolada, o emo, o provocador e a artista melancólica, todos orbitando ao redor da energia solar de Mizi. Eles comeram lanches gordurosos na praça de alimentação, rindo das piadas ácidas de Ivan e das explicações técnicas de Luka sobre a composição do xarope do refrigerante.

— Experimenta isso, Sua! — Mizi disse, estendendo um doce asiático verde e pegajoso na direção dela. — É de matchá. Tem gosto de grama, mas de um jeito bom.

Sua aceitou o doce com as mãos trêmulas, sentindo o olhar dourado de Mizi fixo nela.

— É... é interessante — Sua murmurou, a voz quase sumindo.

— Você é muito silenciosa, sabia? — Mizi comentou, dando uma risadinha. — Parece que está sempre processando um segredo obscuro.

Sua desviou o olhar rapidamente, focando em um ponto qualquer no chão. "Você é o meu segredo", ela pensou, mas apenas balançou a cabeça.

Depois, foram para o fliperama. Ivan e Till quase saíram no soco em uma partida de hóquei de mesa, enquanto Hyuna tentava ganhar uma pelúcia na máquina de garra sob a supervisão analítica de Luka. Mizi estava se divertindo genuinamente, seu riso alto ecoando entre as máquinas barulhentas.

No entanto, o clima mudou para Sua. O lanche da praça de alimentação, talvez temperado com ansiedade demais, começou a revirar em seu estômago. Uma onda de náusea a atingiu com força.

— Gente, eu... eu já volto — Sua disse, a voz falhando. Sem esperar resposta, ela saiu correndo em direção ao corredor dos banheiros.

No grupo, Hyuna estava distraída tentando decidir qual sabor de mochi comprar com Luka e Ivan. Till viu Sua correndo e franziu o cenho, preocupado.

— Ei, a Sua não parecia bem — Till disse, cutucando Mizi, que estava mais perto dele. — Ela foi pro banheiro correndo.

— A Hyuna nem viu — Mizi olhou para a amiga, que estava discutindo preços com o vendedor. — Deixa que eu vou lá ver. Banheiro feminino, sabe como é.

Mizi entrou no banheiro e o silêncio foi quebrado apenas pelo som de alguém passando mal em uma das cabines. Ela não precisou perguntar para saber quem era. Caminhou até a última porta, que estava apenas encostada.

— Sua? — Mizi chamou suavemente, empurrando a porta devagar.

Sua estava ajoelhada no chão, pálida como um fantasma, as mãos agarradas às bordas do vaso sanitário. Antes que a garota pudesse protestar, Mizi se aproximou. Com uma delicadeza que Sua nunca esperaria, Mizi segurou os fios curtos do cabelo preto dela e levantou sua franja, mantendo o rosto de Sua desimpedido.

— Calma, respira — Mizi disse, a voz baixa e firme. — Põe tudo pra fora.

Depois de alguns minutos excruciantes, Sua finalmente parou. Ela se levantou trêmula, deu a descarga e se apoiou na parede da cabine, evitando a todo custo olhar para Mizi.

— Meu Deus, Mizi... me desculpa — Sua sussurrou, as lágrimas de esforço ainda nos olhos. — Isso foi... nojento. Você não devia ter visto isso.

— Relaxa, garota — Mizi respondeu, levando-a até a pia. — Todo mundo passa mal. Eu mesma já vomitei num show de rock e continuei dançando. Abre a boca, lava isso.

Sua obedeceu, jogando água no rosto e na boca, sentindo a vergonha arder mais que o estômago. Mizi mexeu na bolsa e tirou uma cartela de chicletes.

— Toma, menta forte. Vai tirar esse gosto de morte da boca.

— Obrigada — Sua disse, pegando o chiclete e saindo da cabine o mais rápido que pôde. Ela queria sumir. O fato de Mizi ter sido tão gentil só tornava tudo pior, porque Sua sentia que não merecia aquela atenção.

Sua já estava quase na porta do banheiro quando Mizi a chamou.

— Ei, Sua! Espera aí, não foge.

Sua parou, de costas, os ombros tensos. Mizi se aproximou, parecendo um pouco desconfortável pela primeira vez no dia.

— Escuta, meu sutiã está me matando desde que a gente saiu do fliperama — Mizi disse, a voz baixa. — Acho que o fecho afrouxou e eu não consigo alcançar direito por causa da jaqueta. Você pode... me dar uma mãozinha aqui? Rápido?

Antes que Sua pudesse processar o pedido, Mizi a puxou de volta para dentro de uma cabine e trancou a porta. Mizi virou de costas, tirou a jaqueta e levantou um pouco a blusa de alças, revelando a pele macia das costas e o fecho do sutiã preto que estava, de fato, solto.

— Abotoa no último, por favor — Mizi pediu, jogando o cabelo rosa para o lado, deixando a nuca exposta.

O mundo de Sua girou. Seus dedos tremiam tanto que ela teve medo de não conseguir. Ela estendeu a mão, as pontas dos dedos encostando na pele quente de Mizi. O contato foi como um choque elétrico que percorreu todo o seu corpo. Ela sentiu o cheiro de baunilha e café de Mizi, agora misturado ao perfume da jaqueta de couro. Com um esforço sobre-humano, ela encaixou os colchetes e apertou o sutiã.

Assim que terminou, Sua não disse uma palavra. Ela destrancou a porta da cabine e saiu praticamente correndo do banheiro, o coração martelando nos ouvidos. Ela não conseguia encarar Mizi. Não depois daquilo.

Mizi ficou parada na cabine por um momento, ajeitando a blusa.

— Credo — Mizi murmurou para si mesma, olhando-se no espelho. — Ela realmente me odeia, não é? Nem conseguiu ficar no mesmo metro quadrado que eu por dois segundos depois de me ajudar. Que estranho.

Quando Mizi saiu, o grupo já estava reunido perto da saída do shopping. Kael tinha acabado de estacionar o carro na frente.

— E aí, linda? Como foi o dia com os... — Kael olhou para o grupo de Till com um sorriso condescendente — ...com seus amigos?

— Foi legal, Kael. Vamos logo — Mizi respondeu, entrando no carro sem muita cerimônia. Ela acenou para o grupo, mas seu olhar demorou um segundo a mais em Sua, que estava com a cabeça baixa, escondida atrás de Hyuna.

O carro partiu, deixando o grupo para trás. Luka foi o primeiro a se despedir, precisando voltar para terminar um artigo. Ivan, Till e as meninas começaram a caminhar em direção ao ponto de ônibus e ao estacionamento onde o irmão de Hyuna os pegaria.

Na frente, Ivan não parava de provocar Till.

— Admite, Till, você quase chorou quando a Mizi disse que o Kael ia buscar ela. Sua chance de ser o herói da guitarra foi pro ralo.

— Vai se foder, Ivan! Eu não ligo pra isso! — Till gritou, o rosto vermelho de raiva.

Atrás deles, Sua caminhava em silêncio absoluto ao lado de Hyuna. O peso do segredo estava se tornando insuportável. A náusea física tinha passado, mas a náusea emocional era devastadora.

— Sua? — Hyuna chamou, a voz suave, percebendo que a amiga estava em outro planeta. — O que aconteceu naquele banheiro? Você está mais pálida que o normal.

Sua parou de andar. O grupo da frente continuou avançando, a voz de Ivan ainda ecoando ao longe. Ela olhou para Hyuna, os olhos roxos brilhando com uma tristeza profunda.

— Eu não aguento mais, Hyuna — Sua confessou, a voz trêmula. — Eu gosto dela. Eu gosto muito da Mizi.

Hyuna parou, surpresa, mas não chocada. Ela suspirou, aproximando-se e colocando a mão no ombro de Sua.

— Ah, Sua... eu imaginei. O jeito que você olha pra ela... é diferente.

— É patético, eu sei — Sua limpou uma lágrima teimosa. — Ela é o oposto de mim. Ela é popular, ela é sarcástica, ela namora aquele idiota... e ela é hétero. Ela nunca olharia pra alguém como eu. Ela provavelmente acha que eu a odeio, porque eu nem consigo falar com ela direito sem querer desmaiar.

— Não é patético — Hyuna disse com firmeza. — Mas você sabe que é complicado. A Mizi... ela vive num mundo diferente do nosso. E com o Kael na jogada, as coisas ficam ainda mais difíceis.

— Eu sei — Sua fungou, tentando recuperar a compostura. — Eu só precisava dizer isso em voz alta pra alguém.

Elas voltaram a caminhar. Till se despediu logo em seguida, indo para sua casa, e sobrou apenas o silêncio compartilhado entre Sua e Ivan no caminho final para o apartamento deles. Ivan, por incrível que pareça, não disse nada. Ele apenas olhava para a irmã de canto de olho, percebendo que algo profundo tinha mudado nela naquela tarde.

Enquanto isso, em sua casa, Mizi já estava de pijama. Ela estava jogada em sua cama king-size, com o notebook aberto, mas seus pensamentos estavam longe. Ela pegou o celular e abriu o Instagram, rolando as fotos do dia. Parou em uma que Hyuna tinha postado, onde todos apareciam rindo, exceto Sua, que olhava para a câmera com uma expressão enigmática.

Mizi deu um zoom no rosto de Sua.

— Por que ela me odeia tanto? — Mizi perguntou para o quarto vazio. — Eu ajudei ela no banheiro, fui legal, pedi um favor simples... e a garota saiu correndo como se eu tivesse uma doença contagiosa.

Ela lembrou do toque trêmulo de Sua em suas costas. Tinha sido tão hesitante, tão carregado de uma tensão que Mizi não conseguia decifrar.

— Baixinha branquela esquisita — Mizi murmurou, fechando os olhos. — Por que eu estou perdendo meu tempo pensando nisso? É só a irmã do Ivan. Ela deve ser só mal-humorada como o Till.

Mizi tentou se concentrar no tédio confortável de sua vida. Tentou pensar em Kael, no próximo café expresso da manhã, nas aulas chatas de matemática. Mas a imagem dos olhos roxos e tristes de Sua, refletidos no espelho do banheiro do shopping, recusava-se a ir embora.

Pela primeira vez em muito tempo, o sarcasmo de Mizi não era suficiente para mascarar a curiosidade que começava a florescer em seu peito. Havia algo debaixo daquela superfície melancólica de Sua, e Mizi, movida pelo mais puro tédio — ou talvez por algo mais —, sentia uma vontade súbita de descobrir o que era.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.