Voltar ao resumo

Tfdg

Sementes de Sangue e Cinismo

A luz da manhã na mansão nunca aquecia; apenas revelava as rachaduras. No casarão, o sol entrava enviesado pelas altas janelas de guilhotina, desenhando listras pálidas no chão encerado e destacando a poeira que teimava em descer dos tetos ornamentados.

Clara percebeu antes mesmo que a cafeteira de prata começasse a chiar sobre a chapa quente do fogão. Elmer havia mudado.

Não era uma mudança estrondosa — ele continuava a ser o homem de silêncios profundos e passos que mal faziam ranger as tábuas do assoalho —, mas havia uma rigidez diferente em sua espinha, um vinco novo e amargo na lateral da boca. Quando ele entrou na cozinha pelas portas dos fundos, carregando um cesto de raízes colhidas para a despensa, os olhos dele não vagaram. Geralmente, ainda que de forma quase imperceptível, o olhar dele roçava o contorno do quadril dela ou o decote modesto da blusa de algodão. Era um toque óptico rápido, pesado, a única confirmação de que os corpos deles haviam colidido poucas horas antes no barracão.

Naquela manhã, porém, os olhos de Elmer passaram por ela como se Clara fosse um móvel a mais no cômodo. Pior: como se ela fosse um vão vazio.

— Elmer... — chamou ela baixinho, segurando o pano de prato úmido contra o peito generoso, onde o coração batia como uma ave presa. — Deixei um pouco do pão de centeio para você. Ainda está morno.

Ele pousou o cesto de vime sobre a bancada rústica. As mãos dele, calejadas e marcadas por terra preta sob as unhas, tremiam quase imperceptivelmente antes de ele fechá-las em punhos secos. Ele não se virou para olhar o pão. Não respirou fundo para sorver o vapor do café.

— A patroa quer a prataria do armário sul polida antes das dez — disse ele, a voz soando como o arranhar de cascalho sob uma bota pesada. — Não perca tempo na cozinha.

Clara sentiu um aperto no estômago, aquela velha fisgada de inadequação que a acompanhava desde a infância. Suas bochechas redondas coraram, ardendo como se tivessem levado uma bofetada de vento gelado.

— Eu já limpei quase tudo — murmurou ela, dando um passo tímido em direção a ele. O vestido de chita azul-escuro apertava suas costelas, marcando as dobras macias de sua cintura. — Você... você não dormiu quase nada, Elmer. Ficou andando no pomar de novo? Eu ouvi seus passos perto da janela. Parecia agitado.

Elmer virou a cabeça devagar. Seu rosto era uma máscara esculpida em gesso pálido.

— Cuide do seu trabalho, Clara.

Foi apenas isso. Nenhuma palavra sobre o calor febril da madrugada, nenhum vestígio do homem que havia enterrado o rosto entre os seios dela, ofegante, bebendo de seu alívio como se estivesse morrendo de sede. O abismo costumeiro havia se reaberto, largo e intransponível.

Antes que ela pudesse responder, o som de pneus triturando o cascalho do pátio dianteiro quebrou a monotonia do amanhecer. Não era o caminhão velho de entregas da vila, nem a caminhonete utilitária do jardim. Era o ronco suave, aveludado e caro de um sedã importado.

O rangido suave da porta que dava para a sala anunciou a chegada de Rosalba. A mãe de Elmer usava um robe de seda cor de vinho, com as mangas debruadas em plumas negras que se moviam como patas de aranha a cada gesto. Seus olhos afiados pousaram primeiro em Elmer — uma vistoria rápida, carregada de um desdém venenoso por ele ainda não ter cumprido a sentença da noite anterior —, e depois caíram sobre Clara, pesados de puro asco.

— Vá abrir a porta principal, sua imprestável — sibilou a mulher, passando um lenço de linho pelo nariz, como se o ar compartilhado com a criada cheirasse a esgoto. — E pelo amor de Deus, ajeite essa gola torta. Parece que foi vestida por um vendaval. Não quero que nossa visita pense que empregamos animais de carga para servir o desjejum.

— Sim, senhora. Perdão, dona Rosalba — disse Clara, baixando a cabeça depressa e limpando as mãos no avental.

Quando passou por Elmer no corredor estreito, o braço dela roçou na jaqueta dele. Ela procurou os olhos escuros dele mais uma vez, num reflexo automático de socorro, implorando em silêncio por um resquício daquela cumplicidade oculta. Elmer apenas fixou a vista na parede de tijolos aparentes, desviando o rosto com tamanha frieza que o ar pareceu cair dez graus entre eles.

Clara engoliu o nó que se formou em sua garganta e foi até o vestíbulo.

Ao puxar a pesada folha de carvalho da entrada, o vento da manhã bateu em seu rosto, trazendo um aroma caro de tuberosa e couro fino. Na soleira, segurando os óculos escuros com dedos longos, adornados por anéis de ouro maciço, estava uma mulher jovem, alta e esguia.

Usava uma calça de alfaiataria impecável e uma camisa de seda lavanda que parecia derreter sobre o corpo magro, elegante e sem qualquer excesso. Era a antítese de Clara. Onde Clara era curva, abundância e desajeito, aquela mulher era linha reta, corte cirúrgico e precisão.

— Onde está Rosalba? — perguntou a recém-chegada, sem sequer olhar nos olhos de Clara, estendendo as chaves do carro como se a criada fosse um cabideiro ambulante.

— A... a patroa está na sala de jantar, senhorita — respondeu Clara, pegando as chaves trêmula.

— Violeta, minha querida! — A voz de Rosalba ecoou pelo vestíbulo, adquirindo um tom melodioso, doce e inteiramente falso que ela jamais usava com ninguém da casa. — Que pontualidade divina. Entre, por favor. Esqueça essa criatura na porta.

Violeta entrou deslizando, os saltos finos batendo com autoridade contra o piso de mármore polido.

— O trânsito da estrada estava limpo, Rosalba — disse Violeta, permitindo que a mais velha lhe beijasse o ar ao lado de ambas as bochechas. Os olhos da forasteira, no entanto, passaram por cima do ombro da anfitriã e cravaram-se em Elmer, que acabara de sair da copa com o regador de ferro na mão.

Um sorriso fino, quase imperceptível, desenhou-se nos lábios perfeitamente pintados de Violeta.

— Vejo que o jardineiro continua tão robusto quanto da última vez — comentou Violeta, a voz carregada de uma intimidade afiada, o tipo de tom reservado àqueles que compartilham segredos de sangue e dinheiro. — Pensei que você já tivesse substituído a mão de obra, Rosalba.

— Elmer é insubstituível em certas tarefas — respondeu Rosalba, com uma ênfase perversa na palavra *certas*, lançando ao filho um olhar que prometia consequências graves. — Ele só tem... hesitado em algumas podas recentes. Ervas daninhas que criam raízes onde não devem. Mas isso já está sendo corrigido. Venha, tome um café comigo. Temos muito o que alinhar sobre os novos contratos da estufa.

Elmer não baixou a cabeça para Violeta, mas também não a confrontou. Havia um reconhecimento mudo entre os dois, uma dinâmica de velhas ordens e cumplicidades frias que fez o estômago de Clara despencar em um vazio gelado. Quem era aquela mulher? Por que ela olhava para Elmer com a certeza de quem tinha direitos sobre o corpo e o trabalho dele?

— O que está esperando aí parada, sua idiota? — a voz cortante de Rosalba chicoteou Clara mais uma vez. — Sirva o bule de chá para a senhorita Violeta na varanda envidraçada. E use a louça inglesa. Se você quebrar uma única xícara, eu desconto do seu salário até o próximo século.

— Sim, senhora — balbuciou Clara, sentindo os olhos pinicarem com as lágrimas que lutava para conter.

Ela correu para a cozinha. O peito doía. Não era apenas a humilhação habitual; havia um veneno novo no ar da mansão. Elmer estava distante, como se estivesse preparando uma emboscada mental para si mesmo, e aquela presença feminina elegante só tornava a existência de Clara mais grotesca, mais pesada, mais indesejada.

Clara colocou a água para ferver, os movimentos mecânicos, a respiração curta. Ao se abaixar para pegar as xícaras de porcelana no aparador mais baixo, uma pontada aguda, violenta e súbita rasgou a base de seu ventre.

— Ah! — ela soltou um gemido involuntário, apoiando a mão na madeira para não cair.

A dor foi tão cortante que tirou o ar de seus pulmões por vários segundos. Parecia uma garra torcendo suas vísceras por dentro, um ferro em brasa cravado bem no fundo da bacia. Não era a dor surda, familiar e pesada das cólicas menstruais que costumava ter a cada virada de mês. Aquilo era diferente. Era pontiagudo, quente, lacerante.

Ela respirou fundo, tentando puxar o ar, a testa subitamente brilhando com uma camada fina de suor frio.

"Calma", pensou ela, massageando a barriga dolorida por cima do tecido grosso do avental. "É o nervosismo. A raiva. Eu não tomei o café... deve ser isso."

Mas a sensação de calor úmido escorrendo entre as coxas desmentiu qualquer ilusão de indigestão.

Clara congelou no meio da cozinha silenciosa. Sentiu o líquido descer de forma espessa, contínua, molhando o algodão de sua roupa íntima com uma rapidez assustadora. Não podia ser. O seu ciclo havia terminado há pouco mais de dez dias; seu corpo sempre fora pontual como um relógio velho, apesar do peso, apesar do cansaço.

Outra fisgada, ainda mais forte, dobrou seu corpo ao meio. Ela mordeu os lábios com tanta força que sentiu o gosto ferroso do próprio sangue para não gritar.

— Clara! — a voz de Rosalba gritou da varanda. — O chá já esfriou antes mesmo de ser servido? Ande logo!

— Já... já estou indo, dona Rosalba! — conseguiu responder, a voz saindo esganiçada, quase irreconhecível.

Desesperada, Clara ajeitou a bandeja com as mãos que tremiam descontroladamente. As xícaras batiam nos pires com um tilintar metálico e delator. Ela caminhou com passos miúdos, apertando as coxas uma contra a outra, rezando a todos os santos que conhecia para que a mancha escura não atravessasse a saia grossa antes que ela pudesse voltar para a despensa.

Ao alcançar a varanda envidraçada, o cenário parecia saído de uma pintura de crueldade silenciosa. Rosalba e Violeta estavam sentadas em cadeiras de vime trabalhado. Elmer estava de pé, a poucos passos dali, ao lado de um vaso monumental de orquídeas, tesoura de poda na mão, fingindo aparar uma folha seca. Mas seus olhos estavam atentos à conversa das duas mulheres.

— O lote da serra precisa ser esvaziado antes da primavera — dizia Violeta, tamborilando as unhas compridas e impecáveis na mesa de ferro branco. — Os compradores não querem restos orgânicos deixados de qualquer jeito. Se o Elmer não der conta do ritmo de limpeza, teremos que arrumar outro método.

— Meu filho dará conta — respondeu Rosalba com dureza. — Ele só precisa se livrar das distrações. Não é, Elmer?

Elmer não respondeu. Apenas fechou a tesoura de poda com um estalo seco: *clac*. O som ecoou pela varanda.

Clara aproximou-se devagar, o suor escorrendo pelas têmporas, a visão nublada por pontos brilhantes de dor. A cada passo, ela sentia mais daquele calor espesso descer por suas pernas. Suas mãos não obedeciam; os pulsos fraquejavam sob o peso da bandeja de prata.

— Aqui... aqui está o chá, dona Rosalba — murmurou Clara, inclinando-se com cuidado para pousar o bule fumegante.

Violeta olhou para a criada pela primeira vez. Os olhos claros da mulher desceram do rosto lívido de Clara, passaram pelos braços grossos e desajeitados e pararam na postura curvada da criada. Um esgar de profundo nojo repuxou os cantos da boca de Violeta.

— Que cheiro horrível é esse? — perguntou Violeta de repente, cobrindo o nariz com a ponta dos dedos delicados. — Rosalba, sua cozinheira está doente? Cheira a ferro. Cheira a matadouro.

O sangue fugiu completamente do rosto de Clara.

Uma pontada atroz, como se um nó cego estivesse sendo desfeito à força dentro de seu útero, fez seus joelhos cederem. A bandeja tremeu violentamente. A água fervente espirrou para fora do bico do bule, quase atingindo a manga de seda de Violeta.

— Cuidado, sua estúpida! — gritou Rosalba, levantando-se de um salto, os olhos faiscando de fúria cega. — Você quase a queimou! Olhe para você, sua imunda! O que você tem? Está tendo um ataque na minha frente?

Clara ergueu os olhos marejados de pura agonia. A dor era tanta que o ar não passava mais pela traqueia. Ela olhou para Elmer. Ele estava ali, a menos de três metros de distância, com a tesoura de podar na mão, forte, sólido, a única criatura viva a quem ela havia entregado o corpo, o choro e os gemidos mais íntimos.

*Socorro*, o olhar dela implorava em silêncio absoluto. *Socorro, Elmer, eu estou morrendo. Alguma coisa está errada comigo.*

Elmer encontrou os olhos desamparados de Clara. Por uma fração de segundo imperceptível, os dedos dele apertaram o cabo da tesoura com tanta força que os nós ficaram brancos. Mas a presença de Violeta, a presença da mãe, o peso da ordem que ele não cumprira — tudo formava uma parede de concreto ao redor de sua mente vazia.

Com um movimento mecânico e frio, Elmer girou o corpo nos calcanhares. Deu as costas para ela. Voltou-se para a vidraça externa e fingiu inspecionar uma samambaia morta no parapeito.

A rejeição física atingiu Clara com a força de uma marreta no peito. O abandono doía mais do que as lâminas que pareciam cortar sua carne por dentro.

— Saia daqui! — berrou Rosalba, apontando o dedo indicador em riste para a porta. — Vá para o seu buraco antes que eu mande o Elmer arrastar você pelos cabelos até o portão! Inútil!

Clara não conseguiu articular uma única palavra de desculpa. Apertando os braços sobre a barriga convulsa, ela deu meia-volta, tropeçando nos próprios pés. Cada passo que dava arrastava uma agonia indescritível.

Ela não foi para a cozinha. Não aguentaria os olhares se alguém a visse naquele estado. Arrastou-se pelos fundos da casa, pela saída de serviço que dava para o anexo, chorando sem fazer barulho, as lágrimas grossas lavando o suor frio de suas bochechas.

Ao entrar no pequeno banheiro de serviço perto da lavanderia, ela trancou a porta de madeira com a tramela enferrujada e desabou no chão de cimento frio.

A dor a fez vomitar um pouco de bile na pia baixa. Com as mãos trêmulas, Clara puxou para cima a saia pesada do uniforme e afastou o tecido do avental.

O choque paralisou sua respiração.

O tecido branco da calçola de algodão estava empapado de um vermelho vivo, brilhante e denso, que já havia manchado a parte interna de suas coxas roliças até a altura dos joelhos. Pequenos coágulos escuros, quase pretos, escorriam pela sua pele, caindo em gotas pesadas no chão cinzento.

Aquilo não era menstruação.

Menstruação não ardia como fogo vivo. Não vinha com aquele cheiro penetrante, acre, de algo rasgado antes do tempo, de algo que apodrecia ou era violentamente arrancado de uma raiz oculta.

Clara encostou as costas na parede úmida e olhou para o sangue em suas mãos trêmulas. O pânico a invadiu como uma onda sufocante. Ela se lembrou das noites recentes no colchão áspero, do peso de Elmer sobre ela, do calor desesperado com que ele a tomava no escuro enquanto a mente dele parecia flutuar em outro lugar.

Lembrou-se também do chá com gosto amargo que Rosalba havia exigido que ela tomasse dois dias atrás, alegando ser "para fortalecer as pernas preguiçosas".

A verdade, cruel e cortante, desabou sobre ela.

— Não... — soluçou Clara, os dedos ensanguentados cobrindo a própria boca para abafar os gritos que queriam explodir. — Por favor... não, Deus...

Um pedaço de vida, ou uma semente que nem sequer tivera a chance de se anunciar, estava sendo lavado para fora de seu corpo em um rio escuro e incontrolável. E ninguém viria salvá-la.

Do lado de fora, no jardim, Elmer ouviu a porta bater ao longe.

Ele permaneceu imóvel diante da samambaia desidratada. Na ponta de sua bota de couro marrom, uma única gota de sangue fresco e rubro, que havia pingado do vestido de Clara quando ela cambaleou pela varanda, brilhava contra o mármore claro sob o sol da manhã.

Violeta ria de alguma anedota contada por Rosalba logo atrás dele.

Elmer baixou os olhos para a gota de sangue. Lentamente, sem dizer uma palavra, ele arrastou a sola da bota pesada sobre a mancha, esfregando-a contra a pedra até que não sobrasse nada além de um borrão cinzento e sujo, pronto para ser apagado pela próxima chuva.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.