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A Raiz Amarga do Adeus

A água que saía pelo cano enferrujado do chuveiro do anexo era fria e cortante como agulhas de gelo, mas Clara mal conseguia sentir a temperatura contra a pele.

Ela estava encolhida no chão de cimento liso do cubículo, com os joelhos puxados contra o peito e a cabeça encostada nos azulejos manchados de bolor. A água batia em seus ombros largos, ensopava seus cabelos castanhos e descia pelo seu corpo rechonchudo, tingindo-se de um escarlate vivo antes de rodopiar em direção ao ralo estreito. O sangue não parava. Vinha em golfadas mornas, espessas, arrancando pequenos gemidos rasgados de sua garganta a cada contração que convulsionava seu ventre.

Com os dedos trêmulos e esbranquiçados pelo frio, Clara esfregava as coxas, tentando limpar a evidência daquilo que seu corpo expelia à força. O cheiro era insuportável — ferro, cinzas e algo podre, adocicado.

O chá.

A imagem da xícara de porcelana que dona Rosalba colocara diante dela dois dias antes surgiu com a violência de um raio em sua mente. *Beba tudo, Clara. Você anda pálida e vagarosa, isso é uma infusão de ervas da serra para purificar o sangue.* A patroa havia ficado de pé, vigiando cada gole, com aquele olhar de víbora satisfeita. E Clara, com sua eterna ânsia de agradar, de não ser um fardo, bebera até a última gota daquele líquido amargo como fel.

Rosalba sabia. A mulher havia farejado a vida que começava a brotar ali dentro antes mesmo que a própria Clara tivesse coragem de nomear o atraso em seu corpo ou o enjoo matinal.

E Elmer... Elmer sabia? Ele tinha virado a cara na varanda. Ele sempre virava a cara.

Uma nova onda de dor, afiada como uma lâmina de poda serrilhada, rasgou o fundo de sua bacia. Clara enterrou os dentes no próprio antebraço para não soltar um berro que pudesse atravessar o pátio e alcançar os ouvidos de Rosalba. A bile subiu de novo, queimando sua boca. Ela não podia morrer ali, nua, afogada no próprio sangue e nas sobras da maldade alheia.

Um instinto primitivo, algo que nunca havia se manifestado sob a carcaça de menina submissa e humilhada, despertou em suas entranhas.

Clara desligou a torneira. O silêncio do cômodo caiu pesado, quebrado apenas pelo gotejar monótono no ralo.

Apoiando-se na parede úmida, ela se levantou. As pernas tremiam tanto que os joelhos batiam um contra o outro. Ela pegou a toalha áspera, secou-se de forma grosseira e vestiu uma calcinha de algodão reforçada, dobrando vários panos limpos para conter a hemorragia. Depois, enfiou-se em um vestido escuro, grosso, que disfarçava as manchas e as curvas volumosas que a patroa tanto desprezava. Calçou os sapatos velhos de sola de borracha e jogou um casaco de lã cinza por cima dos ombros.

Cada movimento exigia uma quantidade hercúlea de fôlego. O mundo ao redor parecia rodar numa névoa esbranquiçada e fria.

Ela abriu a porta do quartinho e saiu para o corredor de cascalho nos fundos da mansão.

Elmer estava no barracão de ferramentas. O cheiro de gasolina, adubo e terra molhada anunciava o seu território. Ele estava de costas, limpando a lâmina de uma foice com uma flanela embebida em óleo, os ombros largos e rígidos movendo-se com a precisão mecânica de um autômato.

Clara parou na entrada, segurando-se no batente de madeira para não desabar.

— Elmer.

A voz dela saiu como um sussurro rascante, desprovido de qualquer calor, completamente diferente do tom suplicante ou afetuoso que ela sempre usava com ele.

O homem parou o movimento da flanela. Virou-se devagar, com a foice ainda abaixada na mão direita. Seus olhos cinzentos e mortos examinaram a figura de Clara — os lábios sem cor, as olheiras profundas e arroxeadas, as mãos cravadas na própria barriga por baixo do casaco.

— Minha mãe disse que você não terminou a copa — falou ele, a voz ríspida, neutra, como se lesse uma lápide.

— Me tira daqui — disse ela, sem piscar, a respiração saindo entrecortada.

Elmer franziu a testa, uma microexpressão de incômodo quebrando a impassibilidade de sua face.

— O quê?

— Me tira daqui agora — repetiu ela, dando um passo trôpego à frente. O suor frio escorria por sua testa, colando mechas de cabelo na pele lívida. — Pega a caminhonete e me leva na cidade. Me leva no hospital.

Elmer continuou parado, a foice imóvel.

— Minha mãe precisa do carro. E você tem serviço.

Clara deu uma risada curta, rouca e desesperada, que soou quase insana no barracão sombrio.

— Se você não me levar agora, Elmer, eu vou morrer na sua frente. E o seu trabalho vai ser cavar mais uma cova perto das macieiras. Mas eu não vou deitar nela em silêncio. Eu juro por Deus que antes de apagar, eu grito tão alto que a sua visita rica vai ouvir cada palavra do que vocês fazem nesta fazenda.

Pela primeira vez em meses, Elmer piscou com rapidez. Algo na postura dela — uma mulher que sempre se encolhia, que sempre baixava a cabeça quando ele desviava o olhar — havia quebrado. Não havia mais a criatura carente que lhe pedia beijos na escuridão. Havia apenas uma presa acuada pronta para morder a garganta do caçador.

Ele olhou para a ponta dos sapatos dela. Uma mancha escura e pesada já começava a molhar a barra do casaco cinza, pingando silenciosamente na serragem do chão.

Elmer largou a foice sobre a bancada com um estalo metálico.

— Entre pelo lado do passageiro. E fique abaixada até passarmos pelo portão de ferro.

O trajeto até a cidade vizinha foi um pesadelo sufocante.

O motor da caminhonete velha rugia e cuspia fumaça preta pelas estradas de terra esburacadas. Clara viajava encolhida no banco de vinil rasgado, com a testa colada no vidro empoeirado, os dentes cravados na língua para conter os gemidos. A cada solavanco da suspensão gasta, uma pontada de dor dilacerante subia pelo seu ventre, como se suas entranhas estivessem sendo esmagadas por uma morsa de ferro.

Elmer mantinha as duas mãos firmes no volante. Seus olhos não saíam da estrada de terra à frente, mas a mandíbula estava tão travada que os músculos de sua bochecha pulsavam.

— O que você tomou? — perguntou ele de repente, sem olhar para ela.

Clara demorou a responder, o ar entrando curto e ruidoso em seus pulmões.

— Nada que você se importe de verdade.

— Minha mãe mandou você fazer o serviço da copa — insistiu ele, a voz mantendo aquela cadência oca, mas com uma nota sutil de inquietação. — Ela não gosta de atrasos.

— A sua mãe é um monstro — sussurrou Clara, a voz afogada em lágrimas amargas. — E você... você é só a sombra dela. Uma casca vazia.

Elmer não retrucou. Pisou mais fundo no acelerador.

Quando alcançaram a pequena cidade e a caminhonete freou com um chiado estridente em frente ao pronto-socorro municipal, Clara mal conseguia manter a cabeça erguida. O mundo havia se transformado em um borrão cinzento pontuado por sons abafados.

Elmer desceu, deu a volta e abriu a porta do passageiro. Quando puxou o braço de Clara para ajudá-la a descer, seus dedos tocaram a lateral do casaco dela e voltaram ensopados de um líquido espesso e quente.

Ele olhou para a própria mão. Sangue. Muito sangue.

— Clara...

Ela não esperou que ele a segurasse. Com as últimas forças que restavam em suas pernas trêmulas, ela se empurrou para fora da cabine e cambaleou em direção à porta de vidro automático da emergência.

— Socorro... — foi tudo o que ela conseguiu balbuciar para a recepcionista atônita antes que seus joelhos dobrassem e a escuridão completa a engolisse.

Elmer ficou de pé no meio da sala de espera por quase três horas.

Ele não se sentou nas cadeiras de plástico azul. Ficou encostado em uma parede pintada de verde-hospitalar, sob o zumbido irritante de uma lâmpada fluorescente que piscava sem parar. O cheiro de éter, álcool e desinfetante agredia suas narinas, acostumadas à pureza fria da terra e das folhas apodrecidas. Suas mãos continuavam sujas de graxa e do sangue seco de Clara, que havia endurecido sob suas unhas.

Ele pensou na mãe. Pensou em Rosalba descobrindo que ele havia pegado o carro. Pensou no arame recozido que ainda repousava no bolso de sua jaqueta de lona.

A porta de vaivém de metal se abriu com um estrondo suave. Um médico de cabelos grisalhos, com o avental manchado e olheiras profundas de plantão, caminhou na direção dele, consultando uma prancheta de alumínio.

— Você é o rapaz que trouxe a moça? Clara dos Santos?

Elmer desencostou da parede, a postura ereta.

— Sou.

— É parente dela? Marido?

— Eu... trabalho com ela.

O médico soltou um suspiro pesado, tirando os óculos e esfregando a ponta do nariz com os dedos cansados. O olhar do profissional era severo, quase acusatório.

— Se você tivesse demorado mais meia hora para colocá-la naquele carro, não teria trazido uma paciente. Teria trazido um cadáver.

O coração de Elmer, aquele órgão que raramente saía de seu ritmo mecânico, deu um baque seco contra as costelas.

— O que ela tem?

— O que ela *tinha* — corrigiu o médico, a voz endurecendo. — Ela estava grávida. Cerca de seis ou sete semanas, a julgar pelo ultrassom de emergência que conseguimos fazer antes de levá-la para a curetagem. Mas o feto já estava morto há pelo menos dois dias. Entrou em necrose dentro do útero, causando uma hemorragia severa e um quadro gravíssimo de choque séptico.

Grávida.

A palavra caiu na mente de Elmer como uma pedra pesada atirada em um poço escuro. As madrugadas no barracão. O calor desesperado de Clara. A carne macia sob suas mãos calejadas. O sangue que ele havia pisoteado e apagado na varanda diante dos olhos de Violeta.

— Ela perdeu a criança — murmurou Elmer, sem entonação.

— O bebê não resistiu, não havia a menor chance — continuou o médico, dando um passo mais perto, a voz descendo para um tom confidencial e tenso. — Mas isso não é o pior, rapaz. O estômago dela estava cheio de toxinas. Nós lavamos o que conseguimos e enviamos uma amostra para a toxicologia, mas eu reconheço os sintomas. Extrato concentrado de dedaleira ou beladona. Veneno vegetal. Alguém deu isso a ela em doses precisas para provocar o aborto, e quase parou o coração dela no processo. Se os rins tivessem falhado, ela teria morrido de falência múltipla dos órgãos ainda esta tarde.

O silêncio na sala de espera tornou-se quase ensurdecedor.

O médico bateu com a prancheta na coxa.

— Eu sou obrigado a notificar a polícia se o laudo confirmar o envenenamento. Ela me disse apenas que não queria ver ninguém da fazenda. Ela está medicada, descansando na enfermaria do fundo, tomando soro e antibiótico na veia. Você tem alguma ideia de onde ela tirou esse tipo de veneno?

Elmer sentiu o arame em seu bolso parecer queimar contra sua perna. As estufas de Rosalba. A prateleira trancada atrás dos sacos de turfa, onde os frascos escuros com rótulos sem nome ficavam enfileirados.

— Não — mentiu ele, a voz saindo perfeitamente estável. — Eu não sei de nada.

— Certo. Ela vai passar a noite em observação. Vou preparar a papelada da internação.

O médico se virou e caminhou de volta pelo corredor.

Elmer permaneceu imóvel. A mente dele trabalhava rápido, calculando os ângulos com a frieza que lhe fora ensinada desde a infância. Rosalba havia tentado matá-la com o chá. A mãe sabia do bebê. Ela não queria apenas se livrar de uma criada incômoda; queria arrancar qualquer rastro de fraqueza que Elmer pudesse ter gerado. E ele, cego em sua apatia mecânica, quase havia sido o coveiro do próprio filho e da mulher que chorava em seus braços nas madrugadas.

Uma sensação estranha, pontiaguda e amarga subiu pela sua garganta. Não era amor. Não era tristeza. Era um vazio que de repente parecia pesado demais para carregar.

Ele caminhou pelo corredor silencioso, guiado pelo cheiro de remédios até a placa que indicava a enfermaria feminina. As portas duplas estavam entreabertas.

Havia quatro leitos separados por cortinas plásticas desbotadas. O último leito, perto da janela basculante que dava para o beco dos fundos do hospital, era o dela.

Elmer puxou a cortina devagar.

A cama estava vazia.

O lençol branco estava revirado, manchado de iodo e com o equipo de soro jogado sobre o colchão, a agulha pingando lentamente uma solução salina no chão de linóleo. O camisolão do hospital estava jogado no canto, sobre uma cadeira de ferro.

O casaco cinza de lã e o vestido escuro não estavam lá.

Elmer deu dois passos largos até a cama, tocando o lençol. Ainda estava morno.

Ele olhou para a janela basculante. A trava de ferro estava aberta, empurrada para fora, deixando entrar o vento frio do entardecer e o cheiro de asfalto molhado. A altura da janela até o chão do beco era de pouco mais de um metro — uma queda fácil, mas que devia ter custado uma agonia excruciante para um corpo recém-operado e esgotado pelo veneno.

Clara havia fugido.

Ela havia esperado o médico se afastar, arrancado o acesso da própria veia — uma gota de sangue ainda manchava o travesseiro onde o braço dela estivera apoiado — e escapado para o mundo.

Elmer correu até a janela e olhou para fora. O beco estava deserto. Havia apenas poças de água da chuva que começava a cair fininha e o movimento distante da rodoviária municipal, a três quarteirões dali, onde os ônibus partiam para a capital e para o norte do país a cada meia hora.

Ela não ia voltar para a mansão. Nunca mais.

Ela havia entendido tudo. Havia entendido que as mãos que a tocavam no escuro eram as mesmas que carregavam a terra para a sua cova. Que os olhares desviados na sala de jantar não eram vergonha, mas cumplicidade com o carrasco.

Ela havia dado um perdido nele da forma mais brutal e definitiva possível: escolhendo sangrar sozinha nas ruas a respirar o mesmo ar envenenado que ele e sua mãe.

Elmer levou a mão ao bolso da jaqueta. Seus dedos encontraram o pedaço fino de arame recozido. Ele o puxou para fora, olhando para o metal flexível e cinzento, a ferramenta que deveria ter tirado a vida de Clara antes do amanhecer.

Lentamente, ele fechou o punho sobre o arame, apertando-o até que as pontas cortassem a carne de sua própria palma, fazendo brotar um fio escuro de sangue que se misturou à graxa e à terra antiga sob suas unhas.

Pela primeira vez em toda a sua vida, a dor física não preencheu o vazio. Apenas revelou o tamanho do abismo.

Elmer deu meia-volta, saindo da enfermaria com os passos lentos e pesados de quem caminha para um enterro onde o único morto que restava era ele mesmo.

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