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O Banquete das Máscaras e o Toque do Silêncio
O Salão de Banquetes do Palácio de Eternos estava mergulhado em uma opulência que, para Clara, sempre parecia um pouco sufocante. O aroma de carnes assadas com ervas exóticas, o vinho espumante de Etheria e o som das harpas celestiais enchiam o ar, criando uma atmosfera de celebração que ela sentia não merecer totalmente. Sentada à extremidade da mesa, longe do núcleo central da realeza, ela observava o movimento.
Adora, em seu traje de gala da Grande Rebelião, ria de algo que Bow dizia, sua postura ereta e radiante emanando a confiança de uma líder nata. Clara sentia um aperto no estômago. A culpa era uma hóspede frequente em sua mente. Ela olhou para o lado oposto da mesa, onde Adam, o Príncipe de Eternia, conversava educadamente com um dignitário de uma vila distante.
A encenação deles era impecável. Para qualquer observador casual, eles eram apenas conhecidos distantes: o herdeiro do trono e a amiga humana da princesa guerreira. Eles mal trocavam olhares. Adam mantinha uma distância respeitosa, quase formal, que fazia o coração de Clara doer e acelerar ao mesmo tempo.
— Você está muito calada hoje, Clara — comentou Adora, inclinando-se em direção à amiga, os olhos azuis cheios de uma preocupação genuína que sempre fazia Clara se sentir pequena. — A comida não está do seu agrado? Ou é a agitação? Eu sei que você prefere a biblioteca.
Clara forçou um sorriso, ajeitando a túnica que parecia apertar mais do que o normal em suas curvas.
— Estou apenas um pouco cansada, Adora. O dia foi longo com os mapas de estratégia. Mas a festa está linda.
— Você se esforça demais — disse Adora, dando um tapinha carinhoso na mão de Clara. — Às vezes esqueço que você não tem o vigor de uma She-Ra. Precisa descansar mais. Vou pedir para trazerem um chá revigorante para o seu quarto mais cedo.
Clara sentiu o rosto esquentar. A proteção de Adora era como um cobertor pesado em um dia de calor. Ela olhou discretamente para Adam. Ele parecia concentrado em seu prato, mas Clara notou o movimento sutil.
Adam levou a mão direita ao pescoço, ajustando o colarinho da túnica real, e depois deslizou o polegar duas vezes pela mandíbula.
O sinal.
O coração de Clara deu um solavanco. Aquele gesto simples significava: "Estou vendo você. Sinto sua falta. Encontre-me quando as luzes baixarem".
— Não precisa se preocupar, Adora — respondeu Clara, a voz agora um pouco mais firme, alimentada pelo segredo compartilhado. — Eu vou ficar bem. Aproveite o banquete, você merece depois da última patrulha na Zona do Medo.
Adora sorriu, satisfeita com a resposta, e voltou sua atenção para o Rei Randor. Clara aproveitou o momento para respirar. Ela se sentia como uma impostora. Se Adora soubesse que, sob os lençóis de seda do quarto de Adam, Clara não era a "garota frágil que precisava de chá", mas sim a mulher que o príncipe desejava com uma intensidade quase assustadora, a decepção seria monumental. Adora veria aquilo como uma traição à confiança, ou pior, acharia que Adam estava se aproveitando da "vulnerabilidade" de Clara.
O banquete se arrastou por horas. Para o resto do mundo, Adam era o príncipe relaxado, quase desleixado em suas responsabilidades. Mas Clara conhecia o outro lado. Ela conhecia o Adam que, entre quatro paredes, tornava-se possessivo e protetor de uma forma que He-Man nunca ousaria ser.
Quando a maioria dos convidados começou a se dispersar para os jardins ou para seus aposentos, Clara levantou-se silenciosamente. Ela caminhou pelos corredores de pedra, evitando as patrulhas dos guardas reais, até chegar à ala leste, onde os aposentos do príncipe ficavam escondidos por tapeçarias antigas.
Ela nem precisou bater. A porta se abriu antes que sua mão alcançasse a madeira entalhada. Adam a puxou para dentro com uma urgência que a deixou sem fôlego, fechando a porta e trancando-a em um movimento fluido.
— Finalmente — sussurrou ele, pressionando-a contra a porta.
Suas mãos, grandes e quentes, envolveram a cintura de Clara, apertando-a com uma firmeza que não deixava dúvidas sobre sua posse.
— Adam... alguém pode ter visto — ofegou ela, embora suas mãos já estivessem subindo pelo peito dele, sentindo os músculos rígidos sob a seda.
— Ninguém viu — disse ele, a voz rouca, escondendo o rosto na curva do pescoço dela. — Eu odiei cada segundo daquela mesa. Ver você sentada tão longe, ver o Bow rindo perto de você...
— O Bow é apenas o Bow, Adam — disse ela com um riso nervoso. — E a Adora estava bem ali. Ela não parava de me olhar com aquele ar de "você está bem, pobrezinha?".
Adam se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Havia uma chama de possessividade ali que ele nunca mostrava em público. Ele a pegou pela mão e a conduziu até a cama imensa, coberta por peles e tecidos finos.
— Eu não suporto que ela te trate como se você fosse incapaz — disse ele, sentando-se e puxando Clara para o seu colo. — E odeio ainda mais ter que fingir que você não é a pessoa mais importante deste palácio para mim.
Clara acomodou-se no abraço dele, sentindo-se protegida, mas a sombra da insegurança ainda espreitava.
— Ela vai ficar decepcionada, Adam. Ela acha que eu sou o elo fraco da corrente. Se ela souber que estamos dividindo esta cama... ela vai achar que você está me distraindo dos meus deveres, ou que eu perdi o juízo.
— Deixe que ela pense o que quiser — murmurou Adam, beijando o ombro de Clara, onde a túnica havia escorregado. — Você não é fraca, Clara. Você aguenta o peso dos meus segredos, o peso da coroa que eu ainda não uso, e o peso desse nosso amor escondido. Isso exige mais força do que erguer uma espada.
— Mas eu sou apenas... eu — disse ela, baixando o olhar para as próprias mãos. — Eu não tenho o corpo das guerreiras de Etheria. Eu sou gorda, eu sou lenta em combate...
Adam segurou o rosto dela com ambas as mãos, forçando-a a encará-lo.
— Você é perfeita. E você é minha. Eu não quero uma guerreira que cheire a metal e sangue. Eu quero você, com seu cheiro de livros velhos e baunilha. Eu quero a sua inteligência que resolve problemas que a força bruta não consegue.
Ele a deitou suavemente sobre os travesseiros, seu corpo cobrindo o dela de uma forma que a fazia se sentir pequena, mas absolutamente desejada.
— Você é o meu segredo mais precioso, Clara — continuou ele, a voz baixa e intensa. — E é por isso que eu sou tão egoísta com você aqui dentro. Porque lá fora, eu tenho que dividir o mundo com o He-Man e com a She-Ra. Mas aqui... aqui você é só minha.
Clara fechou os olhos, entregando-se ao beijo dele. Por algumas horas, o medo da decepção de Adora desaparecia. Não importava que ela não tivesse poderes, ou que seu corpo não se encaixasse nos padrões das heroínas das lendas. Nos braços de Adam, ela era a rainha de um reino que ninguém mais conhecia.
No entanto, mesmo no calor do abraço dele, uma parte dela temia o amanhecer. O sinal secreto no banquete fora um lembrete do que eles tinham, mas também da mentira que viviam.
— O que faremos se ela entrar no meu quarto e não me encontrar? — perguntou Clara entre beijos.
— Ela não vai — garantiu Adam, apertando-a mais contra si, como se pudesse fundi-la ao seu próprio ser. — E se entrar... bem, talvez seja a hora de Eternia saber que o Príncipe encontrou sua igual.
Clara sorriu, embora soubesse que não era tão simples. Adora não veria uma "igual". Veria sua melhor amiga, a garota que ela prometeu proteger, envolvida com o irmão que ela também sentia necessidade de vigiar. A decepção da She-Ra não seria por ódio, mas por uma falta de compreensão de que Clara não precisava de proteção, mas de liberdade para amar quem quisesse.
— Só mais esta noite — sussurrou Clara, perdendo-se no toque possessivo de Adam.
— Todas as noites — corrigiu ele, antes de silenciar qualquer outra dúvida com um beijo que prometia um futuro que eles ainda teriam que lutar para conquistar.
Enquanto as luas de Eternia seguiam seu curso, o silêncio do quarto era quebrado apenas pelo som de duas respirações em sincronia. Ali, Clara não era a garota insegura; ela era a força silenciosa por trás do trono, e Adam, o homem que, apesar de todo o poder do universo, só se sentia verdadeiramente forte quando estava com ela. A tempestade de Adora viria, eles sabiam, mas por enquanto, o fogo que os unia era o suficiente para mantê-los aquecidos na escuridão.