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O Eco do Silêncio e o Veneno da Dúvida

A luz da manhã em Eternos sempre trazia uma claridade impiedosa, revelando as rachaduras que a noite conseguia esconder. Clara caminhava pelos jardins suspensos, tentando manter a postura enquanto seus pés, pouco acostumados a longas caminhadas, protestavam. Ela carregava um rolo de pergaminhos sobre a logística de suprimentos para as fronteiras, mas sua mente estava presa na noite anterior. O calor dos braços de Adam, a promessa de que ela era o seu "segredo mais precioso"... Tudo parecia um sonho que começava a evaporar sob o sol.

Ela parou perto de uma fonte de mármore para ajustar o fôlego. Foi quando ouviu vozes vindas de trás de uma sebe de flores luminescentes. Uma delas era inconfundível: a cadência suave e ligeiramente brincalhona de Adam. A outra era feminina, aguda e carregada de uma autoconfiança que fez os pelos do braço de Clara se arrepiarem.

Era a Condessa Lyra, uma nobre de uma das províncias do sul, conhecida tanto por sua habilidade diplomática quanto por sua beleza estonteante. Lyra era tudo o que Clara sentia que não era: alta, esguia, com cabelos que pareciam fios de ouro líquido e uma armadura cerimonial que realçava cada curva atlética de seu corpo.

— Ora, Príncipe Adam — a voz de Lyra ecoou, tingida de um flerte descarado —, todos sabemos que o senhor é um mestre em evitar responsabilidades, mas evitar a mim durante todo o banquete? Isso beira a ofensa diplomática.

Clara sentiu um nó no estômago. Ela sabia que devia se afastar, que espionar era indigno, mas seus pés pareciam colados ao chão de pedra.

— Minhas desculpas, Condessa — respondeu Adam, e Clara pôde imaginar o sorriso diplomático e vazio que ele usava para essas ocasiões. — O banquete estava... movimentado. Eu tive muitas questões a tratar com meu pai e com Adora.

— Adora, sempre Adora — Lyra riu, um som cristalino que parecia uma provocação. — Você se esconde atrás da sombra da sua irmã guerreira, Adam. Mas eu vejo além disso. Vejo um homem que precisa de alguém à sua altura. Alguém que possa acompanhá-lo não apenas nos salões de baile, mas na reconstrução deste reino.

Clara apertou os pergaminhos contra o peito. A Condessa estava se aproximando, ela podia sentir pela mudança no volume da voz.

— O que está sugerindo, Lyra? — perguntou Adam, sua voz mantendo um tom leve, quase de deboche.

— Sugiro que um príncipe precisa de uma princesa, não de... distrações menores. Ouvi dizer que você passa muito tempo na biblioteca ultimamente. Dizem que a pequena ajudante da She-Ra, aquela garota... como é o nome? Clara? — Lyra fez uma pausa dramática, e Clara prendeu a respiração. — Dizem que ela é sua companhia constante. Um caridade louvável, admito. Ela parece tão deslocada, coitada. Tão... comum.

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Clara esperava que Adam explodisse. Esperava que ele defendesse a honra dela, que gritasse que Clara era a mulher que ele amava.

Em vez disso, Adam soltou uma risada curta e anasalada.

— Clara é uma mente brilhante, Condessa. Seus mapas de estratégia são vitais para a Rebelião. E quanto a ser "comum"... bem, em um mundo de deuses e monstros, o comum pode ser bastante repousante, não acha?

— Repousante? — Lyra soltou uma gargalhada. — Adam, você é o futuro rei! Não precisa de "repouso", precisa de fogo. Precisa de alguém que o mundo olhe e admire. Imagine nós dois. A união das nossas linhagens.

— Você é muito direta, Lyra — disse Adam, e Clara percebeu que ele estava tentando encerrar a conversa. — Mas temo que meu coração já esteja ocupado com assuntos de Estado... e outras complexidades.

— Complexidades que podem ser resolvidas com o beijo certo — retrucou a Condessa.

Clara não esperou para ver o que aconteceria a seguir. Ela virou as costas e saiu apressada, as lágrimas queimando seus olhos. Ela não viu que Adam se afastou de Lyra logo em seguida com um olhar de tédio absoluto, nem ouviu quando ele disse, de forma cortante, que a conversa estava encerrada. Tudo o que ecoava na mente de Clara era a risada dele. Ele rira. Ele rira quando Lyra a chamou de "comum", de "caridade". Ele a comparou a um "repouso".

Ela era um descanso para ele? Um refúgio silencioso onde ele se escondia quando estava cansado de ser importante?

O resto do dia foi um borrão de dor e insegurança. Clara evitou a sala de guerra, evitou Adora e, principalmente, evitou qualquer lugar onde pudesse cruzar com o Príncipe. Mas o destino, ou talvez a persistência de Adam, tinha outros planos.

Ao cair da noite, ela estava em seu quarto, tentando se concentrar em um relatório sobre a produção de minério, quando a porta se abriu sem aviso. Adam entrou, ainda vestindo as roupas reais, parecendo exausto.

— Clara, por que você sumiu o dia todo? — perguntou ele, fechando a porta e caminhando em direção a ela. — Fui à biblioteca três vezes e...

— Talvez eu estivesse ocupada sendo "comum", Adam — disse ela, sem levantar os olhos do papel. Sua voz estava fria, uma lâmina de gelo que ela nunca havia usado com ele.

Adam parou no meio do quarto. A expressão de confusão em seu rosto rapidamente se transformou em compreensão, e depois em uma leve irritação.

— Você estava nos jardins hoje cedo — não era uma pergunta.

— Eu estava fazendo o meu trabalho. Diferente de você, que parece estar muito ocupado sendo cortejado pela nobreza de Eternia.

— Clara, não seja ridícula — disse Adam, aproximando-se da mesa dela. — Lyra é uma diplomata influente. Eu não podia simplesmente mandá-la calar a boca sem causar um incidente.

— Mas você podia ter rido, não é? — Clara finalmente levantou o olhar, e Adam recuou um passo diante da mágoa profunda que viu ali. — Ela me chamou de caridade, Adam. Ela disse que eu era deslocada e comum. E você riu. Você não disse que eu era a mulher que você amava. Você disse que eu era "repousante".

— E você é! — exclamou Adam, gesticulando com as mãos. — No meio dessa loucura, da guerra, da pressão de ser quem eu sou, você é a única paz que eu tenho. Foi um elogio, Clara!

— Não, Adam! — Ela se levantou, a cadeira arrastando com um som estridente no chão de pedra. — Para você, pode ser um elogio. Para mim, é a confirmação de tudo o que eu temo. Que eu sou apenas o seu segredinho confortável. A garota gordinha e inteligente que você visita à noite porque não tem coragem de enfrentar a sua irmã e o seu reino por mim!

— Isso não é verdade e você sabe — a voz de Adam subiu de tom, a frustração transbordando. — Eu te protejo, Clara!

— Você me esconde! — gritou ela, as lágrimas finalmente caindo. — Existe uma diferença enorme entre proteger e esconder. Você tem vergonha, Adam? Tem vergonha de que a She-Ra descubra que o irmão dela, o herói de Eternia, está apaixonado por alguém que não consegue nem correr um quilômetro sem perder o fôlego?

— Pare com isso! — Adam bateu a mão na mesa, fazendo os pergaminhos pularem. — Eu nunca tive vergonha de você. Eu amo cada centímetro de quem você é. Mas você é tão insegura que transforma qualquer coisa em um ataque! Eu estava tentando desviar o assunto da Lyra para que ela não suspeitasse de nós!

— E funcionou perfeitamente — soluçou Clara. — Ela saiu de lá achando que eu sou uma coitada e que você é o príncipe benevolente que tolera a minha presença. Parabéns, Adam. Sua atuação foi digna de um Oscar.

— Eu não vou ficar aqui e ser acusado de algo que eu não fiz — disse Adam, a mandíbula rígida. — Eu te dou tudo o que posso. Meu tempo, meu afeto, minha lealdade. Eu nunca a trairia, nem com Lyra, nem com ninguém.

— Lealdade no escuro não vale nada para mim agora — disse Clara, limpando o rosto com as costas da mão. — Você disse que Adora ficaria decepcionada se soubesse de nós. Mas sabe de uma coisa? Eu estou decepcionada com você.

Adam empalideceu. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de palavras que não podiam ser retiradas. Ele olhou para ela, esperando um sinal de que ela voltaria atrás, de que o abraçaria e diria que tudo ficaria bem. Mas Clara apenas se virou de costas para ele, encarando a janela que dava para as torres de Grayskull.

— Saia, Adam — pediu ela, a voz fraca.

— Clara...

— Saia. Por favor.

Adam hesitou. Ele queria pegá-la pelos ombros, sacudi-la até que ela entendesse que ele a adorava. Mas o orgulho ferido e a exaustão falaram mais alto. Sem dizer mais uma palavra, ele se virou e saiu, batendo a porta com força excessiva.

Clara desabou na cadeira, enterrando o rosto nas mãos. O silêncio no quarto era agora ensurdecedor. Pela primeira vez desde que tudo começara, ela se sentia verdadeiramente sozinha.

Nos dias que se seguiram, o palácio de Eternos tornou-se um campo de batalha silencioso. Clara cumpria suas funções com uma eficiência mecânica, mas seus olhos estavam sempre baixos. Ela evitava os corredores onde Adam costumava passar. Quando Adora a chamava para as reuniões, Clara sentava-se o mais longe possível do Príncipe.

Adora, sempre perceptiva aos sentimentos da amiga, notou a mudança imediatamente.

— Clara, o que está acontecendo? — perguntou a loira, interceptando-a no corredor após uma reunião particularmente tensa onde Adam e Clara nem sequer se olharam. — Você está pálida. E Adam... ele parece que vai explodir a qualquer momento. Vocês brigaram?

Clara sentiu o coração falhar. A última coisa que queria era ter essa conversa com Adora.

— Apenas estresse com o trabalho, Adora — mentiu Clara, a voz desprovida de emoção. — O Príncipe e eu tivemos uma divergência sobre a alocação de recursos. Nada importante.

Adora franziu a testa, cruzando os braços sobre o peito.

— Adam não fica mal-humorado por causa de "recursos". Ele está agindo como se tivesse perdido algo precioso. E você parece que está carregando o peso de Eternia sozinha. Se ele fez algo para te magoar, Clara... se ele foi rude ou insensível por causa da posição dele...

— Não, Adora, não é nada disso — interrompeu Clara, sentindo a ironia da situação. — Por favor, me deixe ir. Tenho muito o que fazer.

Adora a observou se afastar, a preocupação gravada em seu rosto de guerreira. Ela conhecia o irmão e conhecia a melhor amiga. A tensão entre eles não era de política; era algo muito mais profundo, algo que vibrava no ar como eletricidade antes de uma tempestade.

Enquanto isso, Adam estava em seus aposentos, cercado por mapas que ele não conseguia ler. Ele sentia falta do riso de Clara, do jeito que ela o corrigia quando ele era impulsivo, do calor do corpo dela contra o seu. O silêncio dela era a pior punição que ele poderia receber.

Ele pensou em ir até ela, em se desculpar, em gritar para todo o palácio que a amava. Mas então ele via a imagem de Adora, via a responsabilidade da coroa, e o medo de decepcionar a irmã voltava a paralisá-lo.

Clara, em seu quarto, olhava para o sinal secreto que Adam havia deixado em sua mesa dias atrás — uma pequena flor de cristal que ele havia colhido nas montanhas. Ela a pegou e a guardou no fundo de uma gaveta.

O amor deles, que antes parecia uma fortaleza secreta, agora parecia uma prisão de vidro. E enquanto o silêncio entre eles crescia, a sombra da decepção de Adora pairava cada vez mais perto, ameaçando destruir não apenas o segredo, mas o que restava dos corações de ambos.