The debt to the Waraha
O Labirinto de Sangue e Obsessão
Duas semanas. Quatorze dias de uma agonia que Engfa Waraha, curiosamente, saboreava como se fosse um vinho envelhecido e caro. A cicatriz no lado direito do peito ainda repuxava sob a camisa de seda, um lembrete constante e tátil de que Charlotte Austin era real, perigosa e, acima de tudo, sua. A recuperação fora rápida, impulsionada por uma genética privilegiada e uma vontade férrea de não deixar o mundo girar sem que ela estivesse no controle.
Engfa ajustou os óculos no rosto, observando os monitores em seu escritório particular. O mapa de Bangkok estava pontilhado de sinais vermelhos e azuis. Os vermelhos eram seus homens; os azuis, os cães de guarda da família Austin.
— Eles estão desesperados — comentou Engfa para o vazio, sua voz rouca carregada de um sarcasmo cortante. — Vendê-la uma vez não foi o suficiente. Agora querem a cabeça dela para limpar a honra de uma família que já nasceu na lama.
Ela se levantou, sentindo uma pontada leve no pulmão, mas ignorou-a. Sua obsessão era um analgésico muito mais potente do que qualquer morfina. Charlotte estava lá fora, escondida nas sombras da cidade, uma gata selvagem acuada por ratos que se achavam leões.
— Encontrem-na — ordenou Engfa pelo rádio, sua voz fria como o aço de uma lâmina. — E ouçam bem: se um único fio de cabelo castanho-claro dela for danificado, eu farei o responsável implorar pela morte que ela tentou me dar. Fui clara?
— Sim, senhora Waraha — a resposta veio em uníssono, um coro de medo e respeito.
Enquanto isso, nos becos úmidos do distrito de Bang Rak, Charlotte Austin sentia o peso da exaustão. Suas sardas pareciam mais evidentes contra a pele pálida e suada. Ela estava sem comer direito há dois dias, movendo-se entre pensões baratas e depósitos abandonados. A inteligência que sempre a colocara um passo à frente de todos estava sendo testada ao limite.
Ela ouviu o som de pneus cantando no asfalto molhado. Não eram os Waraha. O estilo de condução era errático, agressivo demais. Era o pai dela.
— Maldição — sussurrou Charlotte, apertando o cabo da faca que agora substituía sua pistola descarregada.
Três homens saltaram de um SUV preto. Eram rostos conhecidos, capangas que ela vira crescer no jardim de sua infância, agora transformados em carcereiros.
— Charlotte, pare! — gritou um deles. — Seu pai só quer conversar. Você envergonhou a família!
— Minha família morreu no momento em que me colocou um preço, Somchai! — Charlotte gritou de volta, saindo das sombras com a agilidade de uma pantera.
O confronto foi rápido. Charlotte não era apenas mente; ela era instinto puro. Quando o primeiro homem avançou, ela desviou, usando o impulso dele para lançá-lo contra uma pilha de caixotes de madeira. O segundo tentou agarrá-la pelo pescoço, mas ela cravou a faca em seu ombro, girando o corpo para evitar um soco.
No entanto, o barulho da briga atraiu o que ela mais temia.
Luzes de faróis altos inundaram o beco. O comboio da máfia Waraha cercou a saída. Charlotte estava presa entre o fogo e a frigideira. Os homens de seu pai hesitaram, recuando diante da visão dos fuzis da elite de Engfa.
— Parem! — o Capitão da equipe de Engfa ordenou. — A senhora Waraha quer a noiva viva e intacta.
Charlotte viu a brecha. Entre o hesitar dos homens de seu pai e a formação dos Waraha, havia um pequeno corredor entre um contêiner e a parede. Ela correu. Seus pulmões queimavam, o ar úmido de Bangkok parecia cimento, mas ela não pararia.
— Ela está fugindo! — gritou um recruta novo, um jovem chamado Kovit, que sentia a pressão de provar seu valor.
— Não atire! — o Capitão berrou, mas foi tarde demais.
Kovit, movido por uma mistura de pânico e ambição mal direcionada, sacou sua arma secundária. Ele mirou baixo, mas a adrenalina fez sua mão tremer.
O estalo seco da arma silenciou o beco por um milésimo de segundo.
Charlotte sentiu um impacto devastador em sua coxa esquerda. A dor foi um clarão branco que cegou seus sentidos. Ela caiu, o joelho batendo com força no concreto, enquanto um grito de agonia morria em sua garganta seca.
— O que você fez, seu idiota?! — o Capitão avançou, mas Kovit já estava correndo em direção a Charlotte, sacando um dardo sedativo para garantir que ela não lutasse mais. Ele aplicou a substância no pescoço dela antes que qualquer outra ordem fosse dada.
Charlotte sentiu o mundo girar. O rosto do recruta era uma mancha borrada. Ela tentou cuspir nele, tentou amaldiçoá-lo, mas a escuridão química a puxou para baixo com uma rapidez impiedosa.
Minutos depois, um sedã blindado preto parou bruscamente no local. Engfa Waraha saiu do carro, a bengala de ébano que usava temporariamente batendo no chão com um som sinistro. Ela caminhou até onde Charlotte estava deitada, o sangue manchando o asfalto, a respiração da garota pesada e artificial.
Engfa não olhou para Charlotte primeiro. Ela olhou para o Capitão.
— Quem atirou nela? — a voz de Engfa era um sussurro, e todos ali sabiam que o sussurro de Engfa era mais perigoso que seu grito.
O Capitão apontou para Kovit, que tremia visivelmente, ainda segurando a pistola de dardos.
— Eu... eu achei que ela ia escapar, senhora... eu protegi o seu investimento...
Engfa caminhou até o jovem. Ela era dois centímetros mais alta que Charlotte, mas diante de Kovit, ela parecia um gigante. Com um movimento rápido, Engfa tirou a própria arma do coldre e, sem hesitar, disparou na perna do recruta. Exatamente no mesmo lugar onde ele ferira Charlotte.
— O investimento é meu — disse Engfa, enquanto o homem caía gritando. — E você acabou de perder o direito de respirar o meu ar. Capitão, limpe isso. E levem Charlotte para a minha mansão. Chamem a equipe médica particular. Se ela tiver uma cicatriz feia, eu volto para terminar o serviço com o que sobrou desse verme.
***
O despertar foi lento e doloroso.
Charlotte sentiu primeiro o cheiro: antisséptico, sândalo e o aroma inconfundível de lençóis de mil fios. Não era o hotel barato. Não era a rua.
Ela abriu os olhos lentamente. O teto era alto, decorado com afrescos discretos em tons de creme e ouro. Ela tentou se sentar, mas uma pontada aguda em sua perna a fez soltar um gemido baixo.
— Eu não recomendaria esse movimento — disse uma voz suave, vinda do canto escuro do quarto.
Charlotte virou a cabeça rapidamente. Engfa estava sentada em uma poltrona de couro, um livro aberto no colo e os óculos de leitura na ponta do nariz. Ela parecia terrivelmente em casa, terrivelmente calma.
— Você... — Charlotte cuspiu a palavra, a voz rouca. — Por que eu ainda estou respirando, Waraha?
Engfa fechou o livro e se levantou. Ela caminhou até a beira da cama, observando Charlotte com uma intensidade que beirava o religioso.
— Porque eu ainda não terminei de olhar para você — respondeu Engfa, inclinando-se ligeiramente. — Você é fascinante, Charlotte. Mesmo baleada e sedada, você tentou morder o enfermeiro.
Charlotte tentou avançar, a mão direita voando em direção ao pescoço de Engfa, querendo arrancar aquela calma do rosto da mafiosa. No entanto, um som metálico e seco interrompeu seu movimento.
Seu pulso direito estava preso à cabeceira da cama por uma algema de aço reforçado.
— Sua covarde! — Charlotte rosnou, os olhos castanhos brilhando com um ódio que faria qualquer homem comum recuar. — Me solte e eu mostro quem é fascinante.
— Para você me dar outro tiro? — Engfa sorriu, e desta vez, havia uma ternura distorcida no gesto. Ela estendeu a mão e tocou a bochecha de Charlotte, sentindo as sardas sob as pontas dos dedos. — Eu gosto da sua coragem, mas não sou tola. Você vai ficar aqui até entender que não há para onde fugir. Seus pais não te querem mais. O mundo lá fora te caçaria. Aqui... aqui você é rainha.
— Eu prefiro ser rainha no inferno do que objeto na sua mão — Charlotte retrucou, afastando o rosto do toque de Engfa com nojo. — Vá para o inferno, Engfa. Vá e leve essa sua obsessão doentia com você.
Engfa não se abalou. Ela se aproximou ainda mais, o perfume amadeirado envolvendo Charlotte, criando uma bolha de intimidade forçada que a garota odiava admitir que era inebriante.
— O inferno é aqui, Charlotte. E nós duas vamos governá-lo juntas.
Engfa se virou por um momento para pegar um copo de água na mesa de cabeceira, oferecendo-o à noiva. Foi o erro que ela cometeu por subestimar a inteligência de Charlotte mesmo em cativeiro.
Charlotte notou que, sobre a bandeja de metal onde a gaze e os remédios estavam dispostos, havia um bisturi cirúrgico esquecido pela equipe médica na pressa da última troca de curativo. Com a mão livre e uma agilidade que desafiava a dor na perna, ela alcançou o instrumento.
— Beba — disse Engfa, voltando-se para ela.
Em vez de pegar o copo, Charlotte lançou o bisturi com uma precisão mortal em direção ao rosto de Engfa.
A mafiosa, cujos reflexos eram afiados por anos de atentados, inclinou a cabeça para o lado no último segundo. O metal passou zunindo, cortando o ar e atingindo a cabeceira de madeira atrás dela com um baque surdo.
Engfa ficou estática por um momento. Um pequeno filete de sangue surgiu em sua orelha, onde a ponta da lâmina a roçara.
Ela levou a mão ao corte, olhou para o sangue nos dedos e, lentamente, voltou o olhar para Charlotte.
Charlotte não desviou o olhar. Ela estava ofegante, o cabelo castanho-claro caindo sobre o rosto, a expressão de pura, indômita rebeldia.
— Você errou — observou Engfa, o tom de voz subindo uma oitava, não de raiva, mas de uma excitação sombria.
— Eu não errei — Charlotte retrucou, um sorriso irônico surgindo em seus lábios. — Eu só queria que você soubesse que, mesmo acorrentada, eu ainda sou a sua morte, Engfa Waraha.
Engfa soltou uma risada baixa, uma vibração que parecia ecoar pelas paredes da mansão. Ela se aproximou da cama novamente, ignorando o perigo, e segurou o queixo de Charlotte com força, obrigando-a a encará-la.
— E é por isso que eu nunca vou deixar você ir — sussurrou Engfa, os olhos brilhando atrás dos óculos. — Você é a única coisa neste mundo que me faz sentir viva. Tente me matar de novo, Charlotte. Tente todos os dias. Cada tentativa sua é um voto de casamento que eu aceito com prazer.
Charlotte sentiu um arrepio de repulsa e algo mais, algo que ela se recusava a nomear, percorrer sua espinha. Ela estava presa na toca da loba, ferida e algemada, mas enquanto houvesse fôlego em seus pulmões, ela seria a ruína de Engfa Waraha.
— Então prepare o seu caixão — sibilou Charlotte. — Porque eu tenho todo o tempo do mundo.
Engfa inclinou-se e beijou a testa de Charlotte, um gesto de posse absoluta que fez a garota tremer de fúria.
— Ótimo — disse a mafiosa, afastando-se em direção à porta. — Porque eu também tenho. Descanse, minha noiva. Amanhã, o nosso verdadeiro casamento começa.
A porta se fechou com um clique metálico, deixando Charlotte sozinha no luxo de sua cela. Ela olhou para o pulso algemado, depois para o bisturi cravado na madeira. A dor na perna latejava, mas seu cérebro já estava trabalhando.
Engfa Waraha achava que a possuía. Mas Charlotte Austin sabia que, em uma guerra de inteligência e ódio, a vitória não pertencia a quem tinha as correntes, mas a quem estava disposto a queimar tudo para se libertar.
E ela estava pronta para incendiar o mundo de Engfa.