The debt to the Waraha
O Banquete das Sombras e o Beijo de Judas
O cheiro de sopa de gengibre e ervas medicinais flutuava pelo quarto, uma afronta ao olfato de Charlotte, que preferiria o cheiro de pólvora e asfalto àquela hospitalidade forçada. Ela estava sentada na cama, as costas apoiadas em travesseiros de seda, observando Engfa Waraha entrar no quarto com uma bandeja de prata.
Engfa não usava o terno formal hoje. Estava com uma camisa de linho preto, os primeiros botões abertos, revelando a borda da gaze que protegia o ferimento que Charlotte lhe causara. Ela caminhava com uma leve hesitação, a bengala batendo ritmicamente no tapete persa.
— Você precisa comer, Charlotte — disse Engfa, colocando a bandeja sobre o colo da noiva. — Sua recuperação depende de nutrientes, não apenas de ódio.
Charlotte olhou para a colher e depois para Engfa, seus olhos castanhos brilhando com um desprezo gélido.
— Eu não vou tocar em nada que venha das suas mãos, Waraha. Prefiro morrer de inanição do que aceitar sua caridade.
Engfa suspirou, um som de paciência testada, e sentou-se na beira da cama. Ela ajustou os óculos e encarou Charlotte com uma calma que era, por si só, uma forma de tortura.
— Não seja infantil. Você é inteligente demais para esse tipo de resistência passiva — Engfa inclinou-se para frente, a voz baixando para um tom perigosamente suave. — Escute bem: se você se recusar a comer, eu vou prender seu outro pulso à cabeceira. Vou alimentar você através de uma sonda se for preciso. E quanto ao nosso casamento... você subirá ao altar novamente, nem que seja carregada e algemada. Eu não me importo se o "sim" for um sussurro de dor ou um grito de raiva, mas você será minha esposa diante da lei e da máfia.
Charlotte sentiu o sangue ferver. A arrogância de Engfa era um combustível que a mantinha alerta, mas no fundo, bem no fundo de sua mente estratégica, havia uma traição silenciosa. Ela odiava o modo como Engfa trocava seus curativos com mãos firmes e surpreendentemente gentis. Odiava como a mafiosa passava noites em claro na poltrona ao lado, velando seu sono. Charlotte estava começando a se acostumar com a presença constante, com a segurança que aquelas paredes de pedra ofereciam contra o pai que a vendera. E ela se odiava por isso.
— Você é um monstro — cuspiu Charlotte, embora tenha pegado a colher com a mão livre.
— Eu sou o monstro que mantém os outros monstros longe de você — Engfa rebateu, observando-a comer com uma satisfação possessiva. — Termine tudo. Tenho uma surpresa para você.
Uma hora depois, após Charlotte ter sido forçada a se vestir com um robe de seda esmeralda — a cor favorita de Engfa, notou com irritação —, a mafiosa aproximou-se com uma faixa de cetim preto.
— O que é isso agora? — perguntou Charlotte, recuando o máximo que a algema permitia.
— Uma venda. Quero lhe mostrar o seu futuro. Confie em mim, Charlotte. Só por dez minutos.
— Confiar em você é o primeiro passo para o necrotério.
Ainda assim, Engfa não pediu permissão. Ela soltou a algema do pulso de Charlotte, mas antes que a garota pudesse reagir, Engfa prendeu seus braços atrás das costas com uma destreza impressionante e deslizou a venda sobre seus olhos. O mundo de Charlotte tornou-se escuridão e o perfume amadeirado de Engfa.
Ela foi conduzida para fora do quarto. A mão de Engfa em sua cintura era quente e firme, guiando-a por corredores que pareciam intermináveis. Charlotte contava os passos, tentava mapear a mansão mentalmente, mas a proximidade do corpo de Engfa, o calor que emanava da mulher, estava sabotando seu foco.
— Chegamos — sussurrou Engfa ao pé de seu ouvido.
A venda foi removida.
Charlotte piscou, a visão se ajustando à luz suave de um quarto que fazia o anterior parecer uma cela de monge. Era uma suíte master vasta, com janelas do chão ao teto que davam para um jardim privado iluminado por lanternas. A cama era monumental, coberta com tecidos que pareciam nuvens negras. Havia quadros caros, uma lareira acesa e um closet que parecia maior que o apartamento onde Charlotte se escondera.
— Este será o seu quarto — disse Engfa, parando atrás dela, as mãos repousando nos ombros de Charlotte. — E futuramente, o nosso. Aqui você não será apenas uma prisioneira ou uma moeda de troca. Aqui, Charlotte, você será a rainha. Não só do império Waraha, mas da própria Engfa. Tudo o que eu conquistei, cada gota de sangue que derramei, foi para que eu pudesse, um dia, ter alguém como você ao meu lado.
Charlotte sentiu um nó na garganta. A possessividade na voz de Engfa não era apenas autoridade; era uma adoração doentia, uma obsessão que a colocava em um pedestal de ouro. Era aterrorizante. E era exatamente o que Charlotte precisava para sua próxima jogada.
Ela se virou lentamente, o rosto a poucos centímetros do de Engfa. Os olhos de Charlotte varreram a cicatriz na bochecha da mafiosa, depois os lábios que pareciam zombar de sua resistência.
— Você realmente acha que pode me comprar com lençóis de seda e promessas de poder? — perguntou Charlotte, a voz carregada de uma ironia ácida.
— Eu não estou comprando você, Charlotte. Estou reivindicando o que já é meu por destino.
Em um movimento brusco, Charlotte fingiu um tropeço, jogando seu corpo contra o de Engfa. A mafiosa, pega de surpresa pela proximidade súbita, cambaleou levemente. Foi o segundo de distração que Charlotte precisava. Com os dedos ágeis de quem já havia roubado segredos de cofres de alta segurança, ela deslizou a mão pela cintura de Engfa, sentindo o metal frio do canivete tático que a mulher sempre carregava.
Num piscar de olhos, Charlotte girou. A lâmina saltou com um estalo e, antes que Engfa pudesse processar a traição, Charlotte a prensou contra a coluna de mármore próxima à cama, a ponta do canivete pressionada firmemente contra o queixo de Engfa.
— Um movimento e eu atravesso sua garganta — sibilou Charlotte, a respiração ofegante, os olhos brilhando com uma fúria selvagem.
Engfa não se moveu. Ela nem sequer pareceu assustada. Pelo contrário, suas pupilas dilataram atrás das lentes dos óculos. Ela olhou para Charlotte com uma admiração tão profunda que parecia quase religiosa.
— Você é magnífica — murmurou Engfa, a voz vibrando contra a lâmina. — Tão letal, tão linda. Eu amo o modo como você me odeia, Charlotte.
— Pare de dizer isso! — Charlotte pressionou o canivete com mais força, fazendo um pequeno ponto de sangue surgir na pele clara de Engfa. — Eu não sou um brinquedo para sua diversão. Eu vou matar você, Engfa. Eu juro que vou.
— Então faça — desafiou Engfa, levando as mãos até os pulsos de Charlotte, não para afastá-la, mas para sentir o pulsar da adrenalina na pele da garota. — Se você me matar agora, morrerá logo em seguida nas mãos dos meus homens. Mas você partirá sabendo que foi a única pessoa que conseguiu domar Engfa Waraha, mesmo que por um segundo.
Os rostos delas estavam a milímetros. O calor da respiração de uma se misturava à da outra. O ódio de Charlotte era uma chama alta, mas havia algo mais ali — uma eletricidade estática, um magnetismo sombrio que a puxava para o abismo que era Engfa.
Charlotte olhou para os lábios de Engfa, depois para os olhos obcecados. A lógica dizia para ela cortar a garganta da mulher e tentar a sorte na fuga. Mas o instinto, aquele lado sombrio e vingativo que Engfa despertara nela, queria algo diferente. Queria destruir Engfa de uma maneira que nenhuma lâmina conseguiria.
Para a surpresa absoluta de Engfa, Charlotte não empurrou a faca. Ela inclinou a cabeça e, com um movimento carregado de uma violência faminta, esmagou seus lábios contra os de Engfa.
O canivete caiu no tapete com um baque surdo.
O beijo foi um choque de trens. Não havia doçura, apenas a colisão de duas vontades indomáveis. Charlotte mordeu o lábio inferior de Engfa, sentindo o gosto metálico do sangue, enquanto suas mãos se enroscavam no cabelo castanho-escuro da mafiosa, puxando-a com uma possessividade que rivalizava com a da própria Waraha.
Engfa soltou um rosnado baixo, as mãos descendo para as coxas de Charlotte e içando-a para cima. Charlotte envolveu a cintura de Engfa com as pernas, sem interromper o beijo por um segundo sequer. Ela queria consumir Engfa, queria roubar o ar de seus pulmões até que não restasse nada daquela arrogância.
Elas caíram na cama monumental, um emaranhado de seda esmeralda e linho preto. Charlotte estava por cima, as mãos pressionando os ombros de Engfa contra o colchão, dominando a mulher que o mundo inteiro temia.
Engfa olhava para cima, para a visão de Charlotte Austin — descabelada, com os lábios manchados de sangue e os olhos brilhando com um triunfo selvagem. Ela estava fascinada. Estava aos pés de sua noiva, exatamente onde sempre quisera estar.
— Você acha que venceu? — ofegou Charlotte, o rosto colado ao de Engfa.
Engfa sorriu, um sorriso de pura devoção maníaca, e levou a mão à nuca de Charlotte, puxando-a para baixo para mais um beijo.
— Minha rainha — sussurrou Engfa contra a pele dela. — Eu perdi no momento em que você puxou o gatilho naquela igreja. E eu nunca fui tão feliz em ser derrotada.
Charlotte rosnou, uma mistura de frustração e desejo, e atacou o pescoço de Engfa com os dentes. Ela ainda odiava Engfa Waraha. Ela ainda planejava destruir seu império. Mas ali, na penumbra daquele quarto que seria seu futuro, Charlotte percebeu que a guerra não seria travada apenas com balas e lâminas. Seria travada na pele, no sangue e naquela obsessão mútua que prometia consumir as duas até que não restasse nada além de cinzas.