The Ghostwriter of My Heart
O Eco do Invisível
A tela do celular de Haon brilhava no escuro do quarto de hotel em Seul, refletindo em seus olhos cansados. Eram três da manhã. O silêncio do ambiente era cortado apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado e pelo som da respiração de Milli, que vinha através do alto-falante, a milhares de quilômetros de distância, em Bangkok.
— Você ainda está acordado? — A voz dela surgiu pequena, rouca de sono, mas carregada daquela energia vibrante que nem a distância conseguia apagar.
— Pensando em como o silêncio daqui é diferente do silêncio de quando você está por perto — respondeu Haon, ajustando o travesseiro. — O silêncio com você tem ritmo. Este aqui é só... vazio.
— Filósofo de madrugada de novo, Kim Haon? — Milli soltou uma risadinha, e ele pôde imaginar perfeitamente o modo como ela reviraria os olhos, provavelmente usando um daqueles pijamas de seda coloridos que contrastavam com sua imagem de rapper durona. — Eu sinto falta do seu silêncio também. Aqui tudo é barulho. Minha cabeça não para.
Eles viviam naquele fuso horário improvisado há meses. Um relacionamento construído em pixels, ondas de rádio e mensagens apagadas logo após serem lidas. O acordo era claro: o que o mundo não sabia, o mundo não podia estragar. Para a indústria, eles eram colegas de profissão que respeitavam o trabalho um do outro. Para os fãs, eram um "ship" improvável alimentado por teorias de conspiração baseadas em curtidas acidentais no Instagram.
Mas, para Haon, Milli era a única pessoa que conseguia ver através da armadura de "vencedor do High School Rapper". E para Milli, Haon era o porto seguro onde ela não precisava ser a "Rainha do Sul" 24 horas por dia.
— Eu vi o cronograma da sua turnê asiática — disse Haon, a voz baixando um tom. — Você tem uma escala em Incheon daqui a duas semanas. Seis horas de conexão antes de seguir para Tóquio.
Houve uma pausa do outro lado da linha. O som de lençóis se movendo.
— Seis horas não é nada, Haon. Entre imigração, segurança e o risco de alguém me reconhecer com essas tranças...
— Eu conheço um lugar perto do aeroporto. Um armazém de um amigo de um produtor. Ninguém vai lá. Eu posso te buscar no portão de serviço.
— Você está ficando arrojado — Milli provocou, mas o desejo em sua voz era evidente. — Se nos pegarem, minha gravadora vai ter um colapso nervoso. Eles acabaram de fechar aquele contrato de imagem limpa com a marca de cosméticos.
— O risco é o que dá o tempero, não é o que você sempre diz nas suas letras? — Haon sorriu, sentindo o coração acelerar. — Vinte minutos de conversa real valem mais do que vinte horas de vídeo chamada.
— Tudo bem. Eu vou. Mas se eu for presa por invasão de propriedade na Coreia, você vai ter que escrever o melhor verso da história para me tirar de lá.
Duas semanas depois, o ar gelado de Incheon cortava como navalha. Haon estava encostado em um carro preto comum, estacionado em uma zona de carga pouco iluminada. Ele usava três camadas de roupas, um casaco puffer gigante e uma máscara preta que cobria quase todo o rosto.
Quando a porta lateral do terminal se abriu, uma figura pequena, envolta em um moletom oversized cinza e um boné enterrado até as sobrancelhas, saiu apressada. Milli não trazia joias, não trazia maquiagem gráfica. Ela parecia apenas uma estudante exausta de uma viagem longa.
Assim que ela entrou no carro e a porta se fechou, o mundo exterior deixou de existir.
— Você cheira a café de aeroporto e desinfetante — brincou Haon, mas seus braços já a envolviam com uma urgência que desmentia a piada.
— E você continua sendo um poste de gelo — Milli respondeu, afundando o rosto no peito dele, aspirando o cheiro de incenso e amaciante que ela tanto amava. — Senti sua falta. De verdade.
Eles dirigiram por dez minutos até o tal armazém. Era um espaço amplo, cheio de caixas de equipamentos de som e luzes de palco desmontadas. O lugar era frio, mas eles se sentaram em cima de um case de instrumentos, dividindo um cobertor que Haon trouxera escondido.
— Às vezes eu acho que somos personagens de um filme de espionagem muito ruim — disse Milli, observando as sombras nas vigas do teto. — Por que é tão difícil, Haon? Por que não podemos simplesmente postar uma foto jantando como pessoas normais?
— Porque não somos pessoas normais para eles, Danupha — Haon suspirou, pegando a mão dela e traçando as linhas da palma com o polegar. — Para eles, somos marcas. E marcas não se apaixonam sem um plano de marketing por trás. Se assumirmos agora, cada música que você escrever será analisada em busca de pistas sobre mim. Cada vez que eu estiver triste, vão perguntar se terminamos. O segredo é a única coisa que ainda é só nossa.
— Eu sei. Mas eu odeio mentir. Outro dia, em uma entrevista, me perguntaram qual era meu tipo ideal. Eu quase descrevi você, até a mania de meditar antes de comer. Tive que mudar de assunto e dizer que gostava de caras que sabiam cozinhar Pad Thai.
Haon riu, um som que ecoou suavemente pelo armazém vazio.
— E eu não sei cozinhar Pad Thai.
— Exatamente. Foi a mentira perfeita.
O tempo, que costumava arrastar-se nas chamadas de vídeo, ali parecia voar. Eles conversaram sobre batidas novas, sobre o cansaço da fama, sobre como era estranho ter milhões de pessoas gritando seus nomes e, ainda assim, se sentirem sozinhos em quartos de hotel luxuosos.
— Eu fiz uma música para você — sussurrou Milli, encostando a cabeça no ombro dele. — Não vou lançar. É só para o meu arquivo pessoal.
— Deixa eu ouvir?
— Sem chance. É vulnerável demais. Até para os seus padrões filosóficos.
Quando o relógio marcou quatro horas da manhã, o clima mudou. A realidade começou a bater à porta. O voo de Milli para Tóquio não esperaria por sentimentos não resolvidos.
— Temos que ir — disse Haon, a voz carregada de uma resignação pesada.
O trajeto de volta para o aeroporto foi silencioso. A mão de Milli apertava a dele com força, como se tentasse ancorar aquele momento antes que ele se dissipasse. Quando pararam novamente na zona de carga, o movimento de funcionários começando o turno matinal já era visível.
— Me liga quando chegar no hotel em Tóquio? — pediu ele.
— Sempre — ela prometeu.
Milli desceu do carro, ajustando a máscara e o boné. Ela caminhou alguns passos, mas parou. Olhou para os lados, vendo apenas um funcionário distante empurrando um carrinho de malas. Em um impulso, ela voltou, correu até a janela do motorista e fez um sinal para Haon baixar o vidro.
Ela se inclinou e o beijou. Foi um beijo rápido, desesperado, com sabor de despedida e promessa.
O que nenhum dos dois percebeu foi o brilho de uma lente de celular a cinquenta metros de distância. Um jovem fã, que trabalhava no turno da madrugada no carregamento de bagagens, tinha reconhecido o carro preto que circulava a área. Ele não tinha certeza de quem era, até ver a silhueta inconfundível da rapper tailandesa que ele tanto admirava se inclinar para dentro do veículo.
O vídeo durava apenas sete segundos. Estava tremido, granulado pela luz fraca do amanhecer, mas o boné de Milli e o perfil parcial de Haon, que se revelou por um segundo quando ele se inclinou para o beijo, eram provas suficientes para quem soubesse onde olhar.
Duas horas depois, enquanto Milli cruzava o mar em direção ao Japão e Haon tentava dormir em Seul, o vídeo foi postado em uma conta anônima no Twitter com a legenda: "Milli e Haon em Incheon às 5 da manhã? Alguém me explica isso!".
O impacto foi imediato.
Quando Haon acordou, quatro horas depois, seu celular não parava de vibrar. Havia trinta chamadas perdidas de seu manager e centenas de notificações.
— Haon, você viu? — A voz do seu manager, ao atender o telefone, estava à beira do pânico. — O vídeo no aeroporto. Está em todo lugar. O Dispatch já está ligando, a gravadora da Milli na Tailândia emitiu uma nota de 'estamos verificando os fatos'. O que diabos você estava fazendo em Incheon?
Haon sentiu o estômago despencar. Ele abriu o link que o manager enviara. Lá estavam eles. O segredo, a bolha de proteção que tinham construído com tanto cuidado, tinha sido estourada por sete segundos de descuido.
— Eu... eu fui levar uma amiga — tentou ele, mas a própria voz soou falsa até para seus ouvidos.
— Uma amiga que você beija na boca através da janela de um carro alugado? — o manager retrucou. — Haon, escute bem. A empresa quer que você negue. Vamos dizer que é um ângulo ruim, que era outra pessoa, que você estava em casa dormindo. Se assumirmos isso agora, os patrocinadores da turnê dela podem desistir por 'quebra de contrato de imagem'. Você quer destruir a carreira dela?
As palavras atingiram Haon como um soco. Ele desligou o telefone sem responder e discou o número de Milli. Dava caixa postal. Ela ainda devia estar no ar, ou talvez já tivesse pousado e estivesse sendo cercada por sua própria equipe.
Ele entrou nas redes sociais. O caos era absoluto.
"Eu sabia! As letras dele sempre foram para ela!" dizia um comentário com milhares de curtidas.
"Isso é desrespeitoso com os fãs. Estão mentindo na nossa cara há meses", dizia outro.
Havia também o lado sombrio: comentários xenofóbicos, ataques à aparência de Milli, críticas à "falta de foco" de Haon na música. O ódio digital estava começando a fermentar.
Três horas depois, Milli finalmente ligou de volta. Sua voz estava trêmula, algo que Haon raramente ouvia.
— Haon... eles pegaram meu celular — ela sussurrou. — Estou no camarim em Tóquio. Meu manager está lá fora gritando com alguém em Bangkok. Eles querem que eu poste um pedido de desculpas. Dizendo que somos apenas amigos e que o vídeo foi tirado de contexto.
— O que você quer fazer, Danupha? — perguntou ele, fechando os olhos com força.
— Eu odeio isso. Eu odeio ter que pedir desculpas por gostar de você. Eu não fiz nada de errado! — A voz dela subiu de tom, a frustração transbordando. — Mas eles dizem que, se eu não negar, a marca de cosméticos vai processar a agência por milhões. E o festival em que eu ia ser headliner pode me cortar.
— Se negarmos — disse Haon, sentindo um gosto amargo na boca —, vamos ter que continuar nos escondendo para sempre. Cada vez com mais medo. E se nos pegarem de novo, seremos mentirosos duas vezes.
— E se assumirmos? — perguntou ela, em um fio de voz.
— Se assumirmos, o barulho vai ser ensurdecedor por um tempo. Vão nos perseguir. Vão tentar achar defeitos na nossa relação. Mas... pelo menos não vamos precisar de armazéns abandonados e portões de serviço.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado de suas vidas. Era a escolha entre a segurança da mentira e a liberdade perigosa da verdade.
— Minha empresa vai me odiar — Milli disse, finalmente. — Eles vão tentar me controlar mais do que nunca.
— A minha também. Mas a música é nossa, Danupha. Eles podem controlar os contratos, mas não podem controlar o que a gente escreve. E o que a gente sente.
— Você está pronto para a guerra, Kim Haon? — Havia um rastro de seu antigo desafio na voz dela.
— Eu já venci batalhas de rima piores — ele respondeu, com um meio sorriso triste. — E desta vez, eu tenho o melhor feat do mundo ao meu lado.
— Tudo bem. No três?
— No três.
Eles não precisaram de notas oficiais redigidas por advogados.
Dez minutos depois, simultaneamente, duas postagens apareceram no Instagram.
Milli postou a foto da pequena pedra lisa que Haon lhe dera na praia semanas atrás, com a legenda: "Algumas coisas são preciosas demais para serem escondidas, mesmo que o mundo não saiba como cuidar delas. Sim, é verdade. E não, não sinto muito."
Haon postou um trecho de áudio de uma batida nova, melancólica mas forte, com uma única linha de legenda: "A frequência é a mesma. O tom agora é público. Respeitem o silêncio que restou."
O mundo da música asiática explodiu. Os servidores de notícias caíram. Os managers entraram em colapso.
Mas, em Tóquio, Milli largou o celular na mesa e respirou fundo, sentindo o ar entrar em seus pulmões sem o peso da mentira. E em Seul, Haon olhou para o horizonte da janela de seu quarto, sabendo que a calmaria tinha acabado, mas que, pela primeira vez, ele não estava apenas rimando sobre a realidade.
Ele estava vivendo nela.
A pressão seria imensa, as consequências financeiras seriam reais e o escrutínio seria constante. Mas, enquanto caminhavam para o olho do furacão, eles sabiam que não precisariam mais de 24 horas de fuga para serem humanos.
Agora, eles eram humanos o tempo todo. E isso, por si só, era a maior rebeldia que poderiam cometer.