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The new ghostface

Frequências Mortas

O eco do clique metálico ao encerrar a chamada ainda reverberava na têmpora de Victor como uma pontada aguda. Ele guardou o celular no bolso da jaqueta jeans com um movimento coreografado para parecer casual, mas seus dedos roçaram a costura interna em busca de estabilidade. O vento que descia da Serra do Pinhal soprava folhas secas contra o meio-fio da praça, trazendo consigo o cheiro úmido de terra vermelha e chuva iminente.

Kael não se moveu um milímetro. A sombra do corpo dele cobria quase inteiramente a figura de Victor, os ombros largos contraídos em uma postura de guarda armada.

— Você não mente bem para mim, Victor — murmurou Kael, a voz descendo a um registro tão rouco que mal competia com o burburinho dos policiais a cinquenta metros de distância. — Eu te conheço há tempo suficiente para saber que você só sorri daquele jeito quando está prestes a perder a cabeça.

— Você superestima sua capacidade de ler pessoas, Kael — rebateu Victor com frieza milimétrica, encarando o rapaz nos olhos sem piscar. — Principalmente quando se trata de mim.

— Quem era na linha? — insistiu Kael, dando mais meio passo. A proximidade era quase sufocante, carregada daquela eletricidade possessiva e volátil que sempre orbitava entre os dois. — Se algum idiota estiver te ameaçando por causa do que aconteceu na represa, eu quebro o pescoço dele antes do anoitecer.

— Ninguém está me ameaçando. — Victor ergueu o queixo, sustentando o olhar cinzento do outro com um desdém afiado. — E controle seus impulsos de homem das cavernas. A última coisa de que precisamos é de você arrumando confusão com a polícia assistindo de camarote.

A três passos dali, encostada no corrimão de ferro enferrujado da igreja, Sophia observava a troca com a atenção de um cirurgião preparando a incisão. Ela retirou lentamente os óculos escuros de tartaruga, revelando olhos castanhos que pareciam catalogar cada tremor involuntário no rosto de Victor.

— Vocês dois são adoráveis quando fingem que o resto do mundo não existe — comentou ela, a voz polida e desprovida de qualquer calor. — Mas a viatura de Belo Horizonte acabou de estacionar na delegacia. Se eu fosse você, Victor, pensaria duas vezes antes de apagar o registro dessa chamada. O delegado Souza pode ser uma anta provinciana, mas os peritos da capital sabem rastrear uma antena de celular em menos de dez minutos.

— Não há nada para rastrear, Sophia — disse Victor, virando-se para ela com um meio sorriso gélido. — Mas fico lisonjeado com sua preocupação repentina pelo meu bem-estar cívico. Especialmente vindo de alguém que passou a manhã inteira apagando mensagens no WhatsApp.

Sophia não recuou, mas seus lábios desenharam uma linha fina e tensa.

— Eu não estava apagando mensagens — retrucou ela, em tom cortante.

— Estava sim — interrompeu Josh, que mastigava amendoins com uma velocidade maníaca, olhando de um lado para o outro como se esperasse um ataque aéreo. — Eu vi você atrás do coreto. Seus dedos pareciam asas de beija-flor na tela. Se a Letícia te mandou algum áudio antes de... sabe, virar estatística forense, você deveria abrir o bico. A não ser que a fofoca seja tão pesada que valha a pena correr o risco de ser interrogada com lâmpada na cara.

— Cala essa boca, Josh! — disparou Sophia, a compostura vacilando por uma fração de segundo antes de se recompor com uma rigidez aristocrática. — Nem todo mundo processa a morte de uma colega fazendo piadas imbecis sobre filmes B dos anos noventa.

— Não é piada de filme B — declarou Noah, aproximando-se com a prancheta de alumínio debaixo do braço e os olhos avermelhados fixos no grupo. — É protocolo de sobrevivência. Vocês estão discutindo como se isso fosse uma intriga de grêmio estudantil. A Letícia foi amarrada à própria cadeira da copa e teve a carótida seccionada antes de o sangue sequer esfriar no chão. Quem fez isso sabia que os cães dos vizinhos tinham sido envenenados na quinta-feira passada.

O silêncio caiu como uma guilhotina pesada entre os cinco.

Josh parou de mastigar. Kael virou o rosto para Noah com uma expressão que oscilava entre a irritação e uma súbita inquietação.

— Como você sabe dos cachorros? — perguntou Kael, a voz perigosamente baixa. — A polícia não liberou nota nenhuma sobre isso.

— O velho Marcão do pasto vizinho comentou no armazém às sete da manhã — respondeu Noah, com a voz sem modulação emocional, quase clínica. — Dois rottweilers mortos por chumbinho misturado com carne moída. Nenhum latido na noite de sexta. O perímetro foi limpo vinte e quatro horas antes da festa. Isso não é um ataque passional de namorado traído, Kael. É uma operação cirúrgica. E o que me assusta não é o assassino saber onde a Letícia morava. É ele saber exatamente o que nenhum de nós gostaria que a polícia soubesse.

— Você está sugerindo o quê, Noah? — provocou Victor, dando um passo à frente, os olhos brilhando em desafio. — Que um de nós passou veneno de rato para os cães? Que o Kael esqueceu a faca de caça no lago? Ou que a Sophia forneceu a planta baixa da casa?

— Eu estou sugerindo — retrucou Noah, ajustando os óculos com o indicador — que a única variável em comum entre a morte do vigia da fábrica em março, o desaparecimento da dona da farmácia e o massacre da Letícia somos nós.

— Isso é um delírio paranoico — cuspiu Sophia.

— É estatística — finalizou Noah.

O sino da torre da igreja soou, três badaladas graves e metálicas que dispersaram os pombos do telhado colonial. Ao longe, na esquina da Avenida das Palmeiras, a sirene de uma viatura começou a ganir, cortando o ar denso da tarde com uma urgência estridente. O toque de recolher decretado pelo prefeito para as oito da noite já começava a desenhar seu espectro sobre as ruas desertas de Santa Cruz do Pinhal.

***

Às sete e meia da noite, o Colégio Estadual Dom Pedro II parecia um monólito de concreto abandonado no topo da colina. As aulas haviam sido suspensas após o meio-dia devido ao pânico generalizado que varreu a cidade, mas as luzes amarelas dos corredores permaneciam acesas por ordem da diretoria, projetando sombras longas e distorcidas pelas paredes descascadas.

Sophia caminhava apressada pelo piso de granilite gasto do segundo andar. O eco dos seus saltos soava como estalos de chicote no vazio opressivo do prédio.

Ela precisava esvaziar o armário número 42 no vestiário feminino antes que a perícia da polícia civil decidisse revistar os pertences dos alunos no dia seguinte. Havia um caderno espiral com capas pretas e três fitas cassete antigas — relíquias familiares e anotações financeiras que seu pai jamais perdoaria se caíssem nas mãos do delegado Souza. Segredos de província que podiam arruinar campanhas políticas e destruir patrimônios.

O vento uivava através das frestas das janelas basculantes, batendo uma veneziana frouxa com um ruído seco e intermitente: *cla-clac... cla-clac*.

Ao dobrar a esquina do corredor das salas de biologia, Sophia parou bruscamente.

Uma figura alta e corpulenta estava encostada nos armários metálicos, os braços cruzados sobre o peito. A penumbra escondia parte do rosto, mas o corte de cabelo raspado nas laterais e a postura agressiva eram inconfundíveis.

— Procurando alguma coisa, Sophia? — perguntou Kael, desencostando-se devagar da parede.

Ela levou a mão ao peito, sentindo o pulso disparar contra a gola alta do casaco, mas forçou a voz a soar firme, carregada do habitual veneno condescendente.

— Você tem o péssimo hábito de surgir nos lugares mais inconvenientes, Kael. O que está fazendo na escola depois do horário?

— O mesmo que você, provavelmente — disse ele, dando passos lentos na direção dela. A iluminação fraca das lâmpadas tubulares destacava a cicatriz fina sobre a sobrancelha esquerda do rapaz. — Cuidando para que certas pontas soltas não comecem a falar demais.

— Não seja ridículo — disse ela, mantendo a cabeça erguida enquanto Kael parava a menos de dois metros. — Eu vim buscar meu material de química.

— Você não faz aula de química nesse prédio há seis meses — rebateu Kael, a mandíbula tensa. — O laboratório fica no anexo sul. Você acha que eu sou burro, garota?

— Eu acho que você é instável, impulsivo e obcecado demais pelo Victor para pensar com clareza — disparou Sophia, semicerrando os olhos. — Ele não confia em você, sabia? O telefonema que ele recebeu hoje de manhã na praça... ele olhou para você como se você fosse o monstro segurando a faca.

Os olhos de Kael se estreitaram em chamas perigosas. Ele deu mais um passo, invadindo o espaço pessoal de Sophia com uma ferocidade física que a fez, contra a própria vontade, recuar um centímetro até suas costas tocarem o batente de madeira da sala dos professores.

— O que o Victor fala ou pensa a meu respeito não é da sua conta — rosnou ele, o tom rouco vibrando com uma ameaça crua. — Mas se eu descobrir que você está empurrando a polícia na direção dele para salvar a pele da sua família imunda, eu juro que você não chega viva ao final dessa semana.

— Isso soou quase como uma confissão — sussurrou ela, embora o suor frio já começasse a brotar na base de sua nuca. — O que você fez na noite de sexta, Kael? Onde você e o Victor estavam enquanto a Letícia gritava por socorro?

Kael não respondeu. Apenas sustentou o olhar dela por três segundos intermináveis, antes de virar as costas com um movimento brusco e descer as escadas em passadas pesadas que ressoaram pelo vão do prédio até desaparecerem no térreo.

Sophia soltou a respiração que não sabia estar prendendo. Suas mãos tremiam tanto que ela quase deixou a chave do armário cair ao alcançar a maçaneta do vestiário.

Ela entrou na sala escura, que cheirava a umidade, sabonete barato e desinfetante hospitalar. Sem acender as luzes principais para não chamar atenção das rondas da viatura do lado de fora, puxou uma pequena lanterna de bolso da bolsa de couro. O facho circular de luz branca cortou a escuridão, dançando sobre os bancos de madeira e os armários de aço verde-oliva.

Ela encontrou o armário 42. Girou o disco de combinação: *17 - 34 - 08*. A trava cedeu com um estalo metálico.

Dentro, a prateleira superior estava vazia.

O caderno espiral havia desaparecido. As fitas também.

Em seu lugar, apoiado perfeitamente no centro da chapa de ferro, repousava um telefone celular analógico, modelo antigo, prateado e encardido.

Sophia deu um passo para trás, o coração martelando contra a garganta.

Antes que pudesse processar a visão, o aparelho começou a vibrar.

O zumbido mecânico sobre o metal ressoou pelo vestiário vazio como o guincho de um inseto gigante: *bzzz... bzzz... bzzz...*

Ela ficou imóvel, a luz da lanterna tremendo incontrolavelmente sobre a tela verde do visor, que brilhava no escuro com letras monocromáticas: *CHAMADA PRIVADA*.

O instinto primitivo gritava para que ela corresse, pulasse a janela e disparasse pela rua até a delegacia. Mas a curiosidade mórbida e o pavor de que seus segredos já estivessem espalhados pelo mundo a prenderam no chão.

Com os dedos gelados, Sophia estendeu o braço e apertou o botão emborrachado com o ícone do telefone verde. Levou o aparelho ao ouvido.

O silêncio do outro lado durou quatro segundos. Apenas uma respiração ritmada, profunda e gélida.

— Você sempre foi a mais pontual do grupo, Sophia — disse a voz. Não era um sussurro, nem um grito; era uma entonação educada, culta, com um travo metálico que parecia saborear a pronúncia de cada sílaba. — Sete e quarenta e dois da noite. O Kael acabou de sair pelos fundos do ginásio. Você deveria agradecer a ele por ter sido tão breve. Se ele tivesse ficado mais três minutos, vocês dois teriam que dividir o mesmo espaço no chão.

— Quem é você? — exigiu ela, tentando manter o tom autoritário, mas a voz falhou no final, quebrando em um tremor infantil. — O que você fez com as minhas coisas?

— O seu caderno? — O interlocutor soltou uma risada baixa, desprovida de qualquer humor, um som seco como o atrito de duas lixas. — É fascinante como uma família tão respeitável em Santa Cruz do Pinhal construiu sua fortuna cobrando propina sobre os remédios que deveriam ir para o posto de saúde municipal. O seu pai assinava os desvios, não assinava? E a senhorita guardava as cópias das notas como garantia. Uma apólice de seguro contra o próprio sangue. Que cálculo refinado para uma garota de dezoito anos.

— Devolve isso... — implorou ela, as lágrimas de raiva e humilhação queimando os cantos dos olhos. — Se você quer dinheiro, meu pai paga. Qualquer quantia.

— Dinheiro é uma moeda tão vulgar, Sophia. — A voz parecia estar mais próxima, como se o interlocutor estivesse sussurrando diretamente na concha do seu ouvido. — Eu prefiro honestidade. E em pequenas cidades, a honestidade só aparece quando a carne é exposta. Vamos jogar um pouco? Você sempre gostou de regras.

— Eu não vou jogar nada com você!

— Vai sim — retrucou a voz, endurecendo sutilmente, ganhando um peso gélido que fez os pelos dos braços de Sophia se arrepiarem. — Porque se você desligar este telefone agora, a gravação da conversa do seu pai com o juiz da comarca vai estar na caixa de entrada de todos os jornais do estado antes das oito da noite. E então o império dos Viana desmorona. Você se importa mais com a prisão do seu pai... ou com a sua integridade física?

Sophia olhou para a porta entreaberta do vestiário. A escuridão do corredor do segundo andar parecia viva, ondulando nas bordas da visão.

— O que você quer que eu faça? — perguntou ela, engolindo o vômito que subia pela traqueia.

— Uma pergunta simples sobre lógica — disse ele, pausadamente. — Victor mente para o Kael sobre a noite de sexta. Kael persegue você até a escola para tentar encobrir o Victor. Noah passa as noites vasculhando registros que não lhe pertencem. E o Josh... bem, o Josh sabe fingir demência melhor do que qualquer um de vocês. Diga-me, Sophia: se um de vocês é o traidor que me abriu a porta da casa da Letícia... quem você sacrificaria para salvar o próprio pescoço?

— Eu não sei de nada sobre a Letícia!

— Resposta errada — sibilou a voz. — Em dilemas morais, a hesitação custa caro. Você deveria saber que corredores compridos favorecem quem tem pernas mais longas. Olhe para trás.

Sophia girou a lanterna em um arco desesperado.

No final da fileira de armários, parcialmente camuflada pela sombra dos chuveiros desativados, uma silhueta alta e esguia estava imóvel.

A capa preta caía em dobras pesadas até o chão molhado. O rosto era uma máscara branca e inexpressiva, ossuda, com orifícios vazios que pareciam poços sem fundo e lábios moldados em uma mímica grotesca de sorriso estático. Na mão direita enluvada de couro, a lâmina de caça fosca pingava um líquido escuro e denso sobre o piso de ladrilhos.

O telefone caiu da mão de Sophia, despedaçando a carcaça de plástico contra o chão de concreto.

Ela gritou. Um grito visceral, cru, que ricocheteou pelas paredes azulejadas do vestiário.

A figura deu o primeiro passo à frente — não com pressa, mas com a precisão teatral e aterradora de quem sabia que não havia para onde fugir.

Sophia correu para a saída de emergência lateral. Seus sapatos derraparam no chão molhado, as unhas arranhando a barra antipânico de ferro enferrujado. Ela empurrou a porta com todo o peso do corpo, mas a folha de metal estava trancada por uma corrente grossa e um cadeado recém-instalado por fora.

Atrás dela, o tecido da capa escura roçou os armários com um farfalhar seco.

— Não... por favor... não! — soluçava ela, virando-se de costas para a porta de metal, erguendo a bolsa de couro à frente do corpo como um escudo ridículo.

A máscara branca surgiu sob o halo fraco da lanterna que jazia esquecida no chão. A fenda da boca parecia zombar de seu pânico.

— Todo mundo mente, Sophia — murmurou a voz, abafada pela resina da máscara, mas terrivelmente nítida. — Mas os seus segredos morrem aqui.

A lâmina cortou o ar em um arco rápido e prateado.

Sophia tentou se esquivar, jogando o corpo para a esquerda, mas a ponta do aço rasgou o casaco de lã e mordeu a carne do seu ombro em um talho ardente. A dor foi imediata, como um ferro em brasa cravado na pele. Ela berrou, usando o impulso do desespero para desferir um chute violento contra o joelho do agressor.

O impacto encontrou solidez de osso e tendão. A figura soltou um grunhido abafado e cambaleou meio passo para trás, o bastante para que a lâmina raspasse na parede, arrancando lascas de alvenaria com um chiado estridente.

Sophia não pensou. Agachou-se em meio ao sangue que começava a empapar sua blusa, agarrou um dos bancos pesados de madeira maciça do vestiário e o empurrou com as duas pernas contra as pernas do assassino. O homem tropeçou no obstáculo inesperado, perdendo o equilíbrio momentaneamente sobre o piso ensaboado.

Ela disparou em direção à porta principal do vestiário, rasgando o corredor escuro em direção às escadas centrais.

O sangue escorria pelo seu braço esquerdo, quente e pegajoso, gotejando no granilite enquanto ela descia os degraus de três em três, sem olhar para trás. Seus pulmões queimavam. Cada respiração parecia sugar cacos de vidro moído.

Ela irrompeu pela porta dos fundos do colégio, quebrando o trinco improvisado com o ombro são, e rolou pela grama úmida do pátio externo até atingir a cerca de arame farpado.

A chuva finalmente desabou sobre Santa Cruz do Pinhal. Gotas grossas e geladas lavavam o sangue da sua testa enquanto ela rastejava pelo barro da colina até avistar os faróis de um carro estacionado na base da rua deserta.

O Opala preto de Victor estava parado sob a lâmpada tremeluzente do poste, o motor roncando em marcha lenta.

Sophia se arrastou até o veículo, esmurrando o vidro do passageiro com as mãos ensanguentadas.

— Abre! Abre essa droga! — gritava ela, com a voz esganada pela histeria.

A trava da porta saltou para cima.

Victor estava ao volante, o rosto iluminado apenas pelo verde esmeralda do painel do carro. Ele a encarou em silêncio por um segundo interminável, sem demonstrar choque ou medo, apenas uma frieza cirúrgica que congelou a alma de Sophia mais depressa do que a própria chuva.

No banco traseiro, Kael surgiu da penumbra, a respiração ligeiramente ofegante, as juntas dos nós dos dedos esfoladas e vermelhas.

— O que aconteceu com você? — perguntou Kael, a voz soando quase artificialmente calma.

Sophia olhou para as mãos de Kael. Depois olhou para os olhos escuros e inescrutáveis de Victor no espelho retrovisor.

O ar dentro do carro cheirava a ferro, chuva e a um perfume amadeirado forte demais — o mesmo aroma que ela havia sentido, por uma fração de segundo, no corredor escuro do colégio antes de a faca descer.

Ela hesitou antes de entrar, o terror paralisando seus pés no barro vermelho da rua.

Lá fora, a tempestade engolia Santa Cruz do Pinhal. E ali dentro, cercada por aqueles que deveriam ser seus amigos, Sophia soube que o assassino não estava mais do lado de fora.

Ele já estava sentado ao seu lado.

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