The new ghostface
O Corte no Asfalto
O motor de seis cilindros do Opala roncava como uma fera agonizante na escuridão da serra. As palhetas dos limpadores de para-brisa batiam em um ritmo frenético e inútil contra a enxurrada de água, espalhando uma película fosca de barro sobre o vidro.
Ao volante, Josh parecia à beira de um colapso cardiorrespiratório. Ele agarrava a direção com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos, os antebraços cobertos pelo sangue ainda morno de Victor. Ele chorava sem emitir quase nenhum som, apenas puxando o ar aos soluços, enquanto as rodas traseiras do carro dançavam perigosamente nas poças traiçoeiras da estrada vicinal.
— Mais rápido, Josh! — rugiu Kael do banco de trás, a voz carregada de um desespero ensurdecedor. — Ele tá perdendo a cor! Pisa nessa porra de acelerador!
— Eu não tô enxergando nada, caralho! — berrou Josh de volta, as lágrimas queimando suas bochechas manchadas de fuligem. — A pista virou sabão! Se eu der mais torque nessa descida, a gente vai capotar na ribanceira!
— Cala a boca e corre! — Kael inclinou o torso ensanguentado para a frente, quase agarrando a nuca de Josh com a mão esquerda, enquanto a direita continuava cravada com todo o peso do corpo sobre o peito de Victor.
No banco do carona, Sophia limpava a condensação do vidro lateral com a manga do casaco rasgado. Ela segurava a lanterna pesada de metal, apontando o facho trêmulo através da tempestade para tentar iluminar as curvas fechadas cercadas por paredões de terra e eucaliptos caídos.
— Kael, solta ele! — interveio Sophia, virando-se com a autoridade ríspida que ainda conseguia resgatar do pânico. — Se o Josh bater esse carro, o Victor morre do mesmo jeito e nós vamos juntos. Deixa ele dirigir!
No assoalho do banco traseiro, espremido entre os assentos, o cenário era um pesadelo cirúrgico. Victor estava deitado com a cabeça apoiada no colo de Kael, o corpo esguio sacudindo a cada solavanco que o Opala dava nas crateras da estrada de terra. A toalha enrolada ao redor de seu tórax já havia perdido qualquer vestígio de brancura; estava empapada, pesada como chumbo, escorrendo um vermelho denso que manchava o veludo cinza dos bancos.
Noah estava ajoelhado no espaço minúsculo entre o banco dianteiro e o traseiro, usando uma das mãos para checar o pulso carotídeo de Victor e a outra para manter o curativo no flanco firme.
— A respiração dele tá ficando muito curta — disse Noah, a voz oscilando perigosamente. As lentes de seus óculos estavam salpicadas de sangue. — Kael, não aperta com força total para baixo. Se você comprimir a caixa torácica desse lado, o pulmão dele não vai conseguir expandir. Você tá asfixiando ele.
— Ele tá sangrando até secar, Noah! — rebateu Kael, a voz quebrando em um falsete doloroso, os olhos fixos no rosto cinzento de Victor. — Se eu tirar a mão, a vida dele escorre pelo assoalho!
— Faz pressão diagonal! — ordenou Noah, empurrando as mãos de Kael para reposicionar os dedos com firmeza milimétrica. — Contra o osso, não contra os pulmões! Assim! Mantém assim!
Victor soltou um gemido cavernoso, um som arrastado que parecia rasgar o fundo de sua traqueia. Seus lábios, outrora desenhados com aquele desdém aristocrático e zombeteiro, agora estavam secos e arroxeados. As pálpebras dele se abriram com lentidão, revelando pupilas dilatadas que lutavam para encontrar foco na penumbra do carro iluminada apenas pelas luzes verdes do painel analógico.
— Kael... — murmurou Victor. O ar escapava em um sibilo asmático, entrecortado pelo gosto amargo de sangue.
Kael se curvou imediatamente sobre ele, encostando a testa molhada de suor contra a têmpora gélida do outro.
— Eu tô aqui, Victor. Eu tô segurando você. A gente tá a cinco minutos da Santa Casa. Aguenta firme.
Victor moveu os dedos da mão direita devagar, tateando o tecido áspero da calça de Kael até fechar a mão fraca ao redor de seu joelho. Havia uma lucidez assustadora em seus olhos escuros, uma centelha de ódio consciente que se recusava a apagar.
— O Josh... — Victor sussurrou, a respiração borbulhando no fundo do peito.
Josh olhou pelo espelho retrovisor no mesmo instante, o estômago despencando como se estivesse em queda livre.
— Victor, eu juro por Deus que achei que era ele... — balbuciou Josh entre soluços. — Me perdoa, cara, me perdoa...
— Cala... a boca, Josh — disse Victor, as palavras saindo arrastadas, mas impregnadas daquele veneno irônico que nenhuma lâmina fora capaz de extirpar. — Se eu sobreviver... eu mesmo... quebro as suas duas pernas...
Apesar da dor excruciante que fazia seu maxilar estalar, um esgar tênue de sorriso desenhou-se no canto dos lábios ensanguentados de Victor antes de sua cabeça tombar para trás, vencida pelo choque hipovolêmico.
— Victor! — gritou Kael, sacudindo-o pelos ombros. — Não dorme, porra! Olha para mim!
— Não sacode ele! — berrou Noah, afastando Kael com um safanão desesperado. — Ele entrou em síncope! O coração tá batendo a mais de cento e quarenta por minuto, a pressão deve estar abaixo de sete! Josh, acelera essa merda antes que ele tenha uma parada cardíaca!
No banco da frente, Sophia sentiu um volume rígido bater contra a sua costela machucada a cada curva acentuada. Ela enfiou a mão no bolso do sobretudo escuro e retirou o objeto que colhera da poça de sangue na casa de Noah.
A carcaça plástica da fita cassete estava manchada de fuligem e fluido avermelhado. A etiqueta amarelada sobressaía sob a luz fraca da lanterna: *Vigília — Março de 2023.*
Sophia olhou para o painel do Opala.
Ao lado do botão do afogador e do cinzeiro cheio de cinzas velhas, repousava o toca-fitas original do veículo, um modelo antigo da Bosch com botões quadrados de baquelite preta.
— O que é isso, Sophia? — perguntou Noah lá de trás, notando o reflexo plástico na mão da garota.
— O assassino deixou cair na sala — respondeu ela, a voz fria, despida de qualquer calor emocional. — Ou deixou para trás de propósito.
Kael ergueu os olhos do rosto inerte de Victor, o ódio reluzindo nas íris escuras.
— Não toca nessa porra. É outra armadilha daquele desgraçado.
— Tudo o que ele faz é calculado — disse Sophia, virando a fita entre os dedos trêmulos. — Ele nos atacou, esfaqueou o Victor e fugiu. Se ele queria nos matar na casa do Noah, teria terminado o serviço. Ele nos deixou correr para a estrada por um motivo.
— Sophia, não... — Josh tentou avisar, a voz estrangulada pelo choro.
Sem hesitar, ela empurrou a fita cassete na ranhura do painel.
O mecanismo de engrenagens do rádio tragou a fita com um clique metálico seco. O motorzinho elétrico começou a girar com um zumbido grave que se misturou ao troar da tempestade do lado de fora.
Por três segundos, nada saiu dos alto-falantes embutidos nas portas além de ruído branco — o som áspero e magnético de uma gravação antiga rodando em falso.
*Shhhhhh... crackle... shhhhh...*
Josh desviou os olhos da pista por uma fração de segundo, encarando o rádio como se fosse uma bomba-relógio prestes a detonar.
— Tira isso daí, Sophia! — gritou Josh.
Então, uma respiração pesada emergiu dos chiados da fita.
Não era a voz distorcida e teatral do assassino. Era uma voz humana, cansada, trêmula de terror e idade avançada. Uma voz que todos naquela cidade conheciam desde a infância.
— *Eu não posso mais assinar esses relatórios, doutor* — dizia o homem na fita. A gravação tinha o eco oco de um galpão fechado, com pingos d'água caindo ao fundo. — *O senhor sabe o que tinha naqueles tambores que a prefeitura mandou descarregar na represa velha. Não eram remédios vencidos. O vigia da ponte viu os caminhões da fazenda dos Viana entrando de madrugada...*
Sophia congelou no banco. O ar pareceu ser sugado de seus pulmões com tanta violência que a dor na clavícula cortada explodiu em pontadas incandescentes.
A voz na fita pertencia ao Dr. Arnaldo, o farmacêutico-chefe da vigilância sanitária municipal — a terceira vítima que Noah listara em seu caderno de anotações, encontrado enforcado nos fundos de sua própria drogaria em abril do ano anterior.
— *Você vai calar a sua boca e fazer o que foi pago para fazer, Arnaldo* — respondeu uma segunda voz na fita.
Era uma voz masculina, culta, fria e absolutamente familiar. Uma voz que Sophia ouvia todos os dias à mesa de jantar.
Seu pai.
— *O senhor não entende* — implorava o velho farmacêutico, o pranto audível através da fita magnética. — *A menina... a filha do caseiro... ela bebeu da água daquele poço. Ela tá na UTI em Pouso Alegre vomitando sangue negro. Se a perícia do Estado entrar aqui...*
— *A perícia não vai entrar aqui porque o delegado Souza já arquivou a notificação como contaminação bacteriana natural* — cortou a voz do pai de Sophia, destilando uma arrogância serena. — *E a Letícia já garantiu que o irmão dela não vai abrir a boca para os estudantes da faculdade. Se você mantiver a sua assinatura onde eu mandar, a sua aposentadoria sai intacta no mês que vem. Mas se você falar mais uma palavra sobre os Viana ou sobre o aterro da fábrica... você vai se juntar ao vigia no fundo daquele rio antes do amanhecer.*
Um barulho surdo de estática cortou o áudio, seguido por um estalo seco de microfone batendo contra uma superfície de madeira.
Na escuridão do Opala, ninguém respirava.
Noah arregalou os olhos por trás das lentes dos óculos, a mente montando as conexões em uma velocidade vertiginosa.
— O vigia que boiou no rio em março... o farmacêutico em abril... — balbuciou Noah, o horror transbordando em cada palavra. — Não foram mortes aleatórias. Nunca foram!
— A Letícia sabia — sussurrou Josh, as mãos congeladas no volante, o carro quase derrapando para a vala de escoamento da estrada. — A Letícia ajudou a encobrir! O irmão dela... ela usava a casa do lago porque era o único lugar onde os documentos da família ficavam guardados!
Kael olhou fixamente para a nuca de Sophia, seus olhos brilhando com um ódio que parecia capaz de queimar o estofamento do carro.
— O seu pai — rosnou Kael, a voz descendo a um registro tão gutural que não parecia humano. — O seu pai matou aquelas pessoas. E você estava no vestiário do colégio tentando queimar as fitas para proteger ele!
Sophia não se virou. Seus olhos fitavam a chuva implacável através do para-brisa. As lágrimas escorriam por suas bochechas lívidas, lavando a fuligem da fumaça, mas suas mãos continuavam cerradas sobre os joelhos.
— Eu não sabia dos venenos — disse ela, a voz saindo em um fiapo quebrado, despido de qualquer arrogância. — Eu juro... eu juro pela minha vida. Eu achei que eram desvios de dinheiro da campanha da prefeitura. Eu não sabia que eles tinham assassinado o vigia...
— Você mentiu para todo mundo! — explodiu Kael, esticando o braço para agarrar o colarinho do casaco de Sophia, esquecendo por um segundo a compressão no peito de Victor. — A Letícia foi estraçalhada naquela sala por causa dessa merda! O Victor levou uma facada no peito para me salvar de uma guerra que é da sua família, sua desgraçada!
— KAEL, A PRESSÃO! — gritou Noah, puxando o braço dele de volta com força bruta. — O peito do Victor tá sangrando de novo! Segura essa porra agora!
Kael soltou um rugido de agonia e voltou a cravar as mãos nas toalhas empapadas sobre o peitoral de Victor. O sangue borbulhou mais uma vez pelas frestas dos dedos, espirrando nas costelas expostas do garoto inconsciente.
— O assassino não é um louco qualquer — disse Noah, a voz aguda, tentando manter o raciocínio enquanto lutava para manter Victor vivo. — Ele não está matando por prazer. Ele está executando todo mundo que teve relação com o encobrimento daquela água contaminada e com a morte das testemunhas em 2023. O vigia... o farmacêutico... a Letícia... o pai da Sophia...
— E por que ele nos atacou? — choramingou Josh, a voz esganiçada pela histeria, desviando de um galho caído no meio do asfalto lamacento. — Nós não fizemos nada! Nós éramos crianças no ano passado!
— Porque nós estávamos ajudando a esconder — respondeu a voz rouca e moribunda de Victor.
Todos os olhares se voltaram para o chão do banco traseiro.
Victor havia recuperado a consciência uma fração de segundo antes. Ele mantinha a mão ensanguentada apoiada contra o queixo de Kael, respirando com uma dificuldade atroz, cada palavra custando um esforço que parecia arrancar lascas de seus pulmões.
— O Opala... — sussurrou Victor, as pálpebras pesadas. — O meu irmão... pegou o carro da prefeitura no dia em que o corpo do vigia foi jogado na represa... O assassino acha... que nós todos somos cúmplices...
— Victor, não fala! — implorou Kael, as lágrimas caindo diretamente sobre a bochecha pálida de Victor. — Não gasta o ar!
— Ele não vai parar na Santa Casa — continuou Victor, os olhos fixando-se no teto de vinil do carro. — O hospital... é da fundação dos Viana... Ele sabe... que a gente tá indo para lá... É o palco... perfeito...
Antes que qualquer um pudesse processar o aviso de Victor, o estalo metálico do rádio foi cortado bruscamente.
A fita parou de rodar.
O silêncio dentro da cabine durou apenas o espaço de uma batida cardíaca.
Então, dois fachos de luz amarela e violenta rasgaram a escuridão diretamente pelo espelho retrovisor do Opala.
Não estavam a cinquenta metros de distância. Estavam a menos de cinco metros da lataria traseira.
Um veículo alto, uma caminhonete de carga sem identificação e com o para-choque de ferro reforçado por grades de ferro, colou na traseira do Opala como um predador surgindo das profundezas da tempestade. O ronco ensurdecedor de seu motor a diesel engoliu o barulho do vento e dos trovões.
— ELE TÁ ATRÁS DA GENTE! — berrou Josh, os olhos esbugalhados no espelho.
— PISA NESSA MERDA, JOSH! — rugiu Kael, usando o próprio corpo para cobrir o tórax de Victor contra o impacto iminente.
O primeiro choque foi brutal.
A grade de ferro da caminhonete atingiu o para-choque cromado do Opala com um estrondo ensurdecedor de metal sendo prensado. A cabeça de Sophia foi chicoteada contra o encosto do banco; Josh quase perdeu a direção quando as rodas traseiras deslizaram de lado na lama espessa da pista.
— Ele vai jogar a gente no despenhadeiro! — gritou Sophia, segurando o painel com as unhas, a lanterna caindo aos seus pés.
A caminhonete recuou dois metros e avançou novamente com ferocidade mecânica, atingindo a lateral traseira esquerda do veículo. O vidro traseiro do Opala estilhaçou para dentro em uma chuva de pequenos diamantes pontiagudos que cortaram as costas nuas de Kael e o casaco de Noah.
O vento gélido da tempestade invadiu a cabine aos uivos, trazendo consigo a fúria da chuva e o cheiro sufocante de óleo diesel queimado.
Pelo vão do vidro estilhaçado, Kael ergueu o rosto ensanguentado.
Sob a luz fosca dos faróis altos da caminhonete, ele viu a silhueta atrás do para-brisa blindado daquele monstro de aço: a máscara branca, fantasmagórica e impassível, fitando os jovens dentro daquele caixão sobre rodas sem demonstrar nenhuma pressa, nenhum vestígio de pressa ou misericórdia.
O assassino ergueu a mão enluvada do volante e fez um gesto lento, medido, passando o indicador enluvado horizontalmente pelo pescoço em um anúncio silencioso de degola.
— Josh! — gritou Noah, cuspindo estilhaços de vidro da boca. — A ponte velha da linha do trem! Tem o desvio de cascalho à direita antes da cancela! Entra nele agora!
Josh não respondeu com palavras. Em um ato de puro desespero suicida, ele pisou no freio de mão com o pé esquerdo enquanto girava o volante todo para a direita.
Os pneus do Opala cavaram a lama em um uivo estridente de borracha e pedras arremessadas contra a lataria. O carro girou cento e oitenta graus sobre o próprio eixo, derrapando de ré pela abertura estreita de uma cerca de arame farpado que delimitava a antiga estação ferroviária desativada de Santa Cruz do Pinhal.
A caminhonete passou direto pelo asfalto, os pneus travando no barro antes de desaparecer na curva escura da rodovia.
O Opala colidiu de traseira contra uma pilha de dormentes de madeira podre, o motor morrendo com um chiado longo de vapor saindo do radiador perfurado.
A escuridão engoliu o carro.
Apenas a respiração entrecortada e desesperada dos cinco sobreviventes preenchia a cabine destruída, misturada ao chiado do vapor quente e ao som implacável da tempestade castigando o teto de lata.
No colo de Kael, a cabeça de Victor pendeu frouxa para o lado.
Seus olhos estavam semicerrados, fixos no nada.
E o peito dele, outrora arqueado em agonia sob as toalhas ensanguentadas, parara completamente de se mover.
— Victor...? — chamou Kael, a voz descendo a um murmúrio fino, quebrado, infantil. Ele tocou a bochecha do garoto. Estava fria como mármore sob a chuva. — Victor, por favor... Victor!
Noah se debruçou sobre o corpo imediatamente, os dedos cravados na artéria carótida do amigo.
— Não tem pulso — disse Noah, a voz despencando em um abismo sem retorno. Ele olhou para Kael com os olhos transbordando em terror puro. — Kael... ele parou. O coração dele parou.