The new ghostface
Anatomia do Sacrifício
A luz da lanterna de Noah tremulava sobre o piso de granilite, fazendo o sangue espalhado parecer um lago negro e viscoso. O cheiro de ferro fresco disputava espaço com o odor acre de querosene queimado que vinha da despensa.
No vão da porta de vaivém, o assassino não tinha pressa. A máscara branca, desprovida de qualquer traço humano, inclinava-se milimetricamente, absorvendo a desolação da sala. Na mão direita, envolta em couro escuro, a faca de caça repousava baixa, a ponta prateada refletindo o halo fraco da lanterna.
— Olha para vocês — disse a voz sob o plástico, modulada em um tom suave, quase paternal, que fazia o estômago de Noah embrulhar. — Tão arrogantes na luz do dia. Tão cheios de certezas sobre o que é certo, sobre quem deve ser punido. Bastou uma faísca... e vocês mesmos começaram a se esfolar vivos.
— Cala essa boca desgraçada! — rugiu Kael.
Os nós dos dedos de Kael estavam brancos ao redor do cabo do canivete. As veias de seu pescoço saltavam como cordas retesadas, a mandíbula travada com tanta força que os dentes rangiam audivelmente. Ele não olhou para Victor caído aos seus pés, nem para Josh, que continuava soluçando contra a parede esburacada. Havia apenas um alvo em sua visão: o vulto de capa escura que ousara cruzar o umbral daquela casa.
O assassino soltou uma risada baixa, um estalo seco na garganta.
— Você é sempre tão previsível, Kael. Força bruta, lealdade cega e nenhum cérebro para calcular o alcance de um golpe. Quer tentar a sorte? Venha. Vamos ver se esse canivete de pescaria faz cócegas antes de eu abrir você do umbigo ao queixo.
A provocação foi o estopim. Kael perdeu qualquer resquício de racionalidade. Com um urro gutural que ecoou pelas vigas de madeira do teto, ele se projetou para a frente, o peso do corpo impulsionando a lâmina curva diretamente contra a garganta da máscara branca.
Foi um movimento tosco, impensado, nascido do puro desespero. O tipo exato de investida que o assassino esperava.
A figura de capa preta apenas girou o quadril meio palmo para a direita com uma fluidez coreografada. O braço estendido com a faca de caça subiu em um arco ascendente e letal, pronto para afundar o aço maciço sob as costelas desprotegidas de Kael no momento em que seu ímpeto o fizesse perder o equilíbrio.
Kael estava morto. Ele sequer teve tempo de perceber a armadilha.
Mas alguém percebeu.
Do chão manchado de vermelho, onde a vida parecia escorrer em borborigmos pelo flanco dilacerado, Victor se moveu.
Não houve hesitação, nem cálculo de autopreservação. Foi um surto cego de adrenalina química, uma explosão de vontade que desafiou a anatomia de um corpo que já deveria estar em choque hipovolêmico. Victor cravou as solas das botas no chão ensanguentado, ignorou a agonia excruciante da musculatura rompida pelas tesouras de Josh e se lançou para a frente.
Com o ombro esquerdo, Victor colidiu com violência contra a lateral do peito de Kael, arremessando o garoto maior contra o batente da porta e tirando-o da trajetória mortal da lâmina.
O espaço que Kael ocupava agora pertencia a Victor.
O golpe do assassino já havia sido desferido. A inércia da lâmina de caça era absoluta.
O som foi abafado e horrendo: o rasgar bruto do tecido da jaqueta jeans, seguido pelo estalo úmido e profundo da ponta perfurando a carne. A faca cravou com violência na junção do ombro direito com o peitoral de Victor, raspando rente à clavícula antes de afundar até a metade da extensão de aço temperado.
Um grito curto, estrangulado e cavernoso rasgou a garganta de Victor.
— VICTOR! — O grito de Sophia no patamar da escada soou como o estilhaçar de uma vidraça.
Josh cobriu os olhos com as mãos manchadas de sangue, encolhendo-se em posição fetal enquanto chorava convulsivamente.
O impacto arremessou Victor de costas contra a mesa de centro tombada, quebrando o compensado sob seu peso. O assassino puxou a lâmina para trás com um solavanco técnico, arrancando um jorro arterial espesso que salpicou a resina branca da máscara e escorreu pelas dobras de sua capa.
Victor caiu de joelhos na madeira quebrada. A respiração saía de sua boca em arfadas borbulhantes, finas e sibilantes. Seus olhos escuros, no entanto, não se fecharam. Ele ergueu a cabeça trêmula, o queixo coberto de sangue, e encarou as fendas vazias da máscara branca a menos de meio metro de distância.
Mesmo com dois ferimentos abertos drenando suas forças, mesmo com o corpo tremendo na beira do abismo, os lábios pálidos de Victor se curvaram em um esgar de desprezo absoluto.
— É... só isso... que você tem? — sussurrou Victor, a voz rasgada e rouca, cuspindo uma mancha vermelha aos pés do invasor. — Você... errou o coração... seu incompetente...
O assassino congelou o movimento de recuo.
A lâmina gotejava sangue escuro sobre os tacos do assoalho. Por três segundos intermináveis, a figura mascarada permaneceu imóvel, os orifícios escuros cravados na figura patética e indomável de Victor. Não havia pânico no garoto. Havia apenas uma arrogância terminal, um desdém intelectual tão corrosivo que parecia recusar-se a dar ao assassino a satisfação de vê-lo implorar.
Kael se levantou do chão como um animal ferido, os olhos injetados de loucura pura, o canivete em riste, pronto para saltar sobre o pescoço do homem mesmo que tivesse que atravessar a própria lâmina para alcançá-lo. Noah já erguia a pesada lanterna de metal com as duas mãos trêmulas, preparando-se para desferir um golpe suicida.
O assassino olhou de Victor para Kael. Depois correu os olhos pela sala destruída: Josh paralisado em catatonia, Sophia sangrando no topo da escada, Victor derramando a vida no chão em uma poça que não parava de crescer.
A missão daquela noite estava cumprida. Mais do que isso: havia superado qualquer planejamento prévio.
O grupo estava em ruínas. A confiança fora estraçalhada não pela lâmina do invasor, mas pela tesoura do amigo. O herói intelectual da cidade estava de joelhos, respirando por aparelhos invisíveis, e o cão de guarda perdera a sanidade. Matá-los ali, naquele segundo, seria um desperdício de espetáculo. Seria misericordioso demais.
O homem mascarado deu um passo lento para trás, a capa ondulando como uma mortalha.
— Guarde o fôlego para o funeral, Victor — murmurou a voz, rouca e distorcida pela resina, carregada de uma satisfação doentia. — Você salvou o Kael hoje. Mas quem vai salvar você de si mesmo quando a cidade acordar?
Com um movimento ágil e silencioso, a figura girou sobre os calcanhares, cruzou a cozinha e desapareceu pela porta dos fundos na escuridão da tempestade. O estalo seco da tranca quebrada batendo ao vento foi o único rastro de sua fuga.
A noite voltou a pertencer ao som da chuva.
— Victor! — Kael caiu de joelhos na poça espessa, jogando o canivete longe.
Suas mãos grandes e desajeitadas tatearam os dois ferimentos: o rasgo oblíquo no flanco feito pela tesoura de Josh e a punhalada profunda no peitoral aberta pela faca de caça. O sangue brotava quente e imparável, escorrendo por entre os dedos trêmulos de Kael.
— Fica comigo, porra! Olha para mim, Victor! — Kael soluçava, a voz se quebrando em falsetes desesperados, sem qualquer traço da postura agressiva de antes. Ele rasgou o que restava de sua própria camiseta e pressionou com força bruta sobre o ferimento superior, sentindo a pulsação rápida e fraca sob a carne lacerada. — Olha para mim!
Victor pendeu a cabeça para o lado, as pupilas dilatadas contra a penumbra. Ele tentou focar os olhos cinzentos no rosto de Kael, mas sua visão começava a se fechar em um túnel escuro e granulado.
— Kael... — murmurou Victor, os lábios mal se movendo. A mão dele, gélida e úmida de sangue, subiu lentamente até roçar o antebraço rígido de Kael. — Cala... a boca... Você faz muito barulho...
— Não fala, seu idiota! — Kael chorava abertamente agora, as lágrimas lavando manchas de fuligem e fulgor em suas bochechas. — Noah, me ajuda! Ele tá morrendo, caralho! Noah!
Noah já estava de joelhos do outro lado do corpo de Victor. O pânico analítico do garoto de óculos operava em rotação máxima. Ele abriu a maleta de primeiros socorros com uma violência metódica, espalhando ataduras, compressas estéreis e frascos de hemostático sobre o granilite.
— Pressiona aqui, Kael! Com todo o seu peso! — instruiu Noah, a voz aguda, tentando compensar o tremor das mãos. — A punhalada no tórax pode ter atingido a subclávia ou perfurado o lobo superior do pulmão! Se ele começar a tossir sangue espumoso, ele vai afogar no próprio sangue!
Noah pegou duas compressas grossas de gaze e as enfiou contra o corte no flanco direito, aplicando pressão com a palma da mão esquerda enquanto usava a direita para jogar um pano limpo sobre o ombro. Victor arqueou o peito em um espasmo de dor indescritível, um chiado abafado escapando por seus dentes cerrados.
— Josh! — gritou Noah sem virar o rosto. — JOSH!
Josh continuava encolhido sob a janela rachada, balançando o corpo para a frente e para trás, os braços cruzados sobre os joelhos. Ele olhava para as próprias mãos tingidas do sangue de Victor como se pertencessem a um estranho.
— Eu não queria... — balbuciava Josh em um transe aterrorizado. — Eu achei que era ele... ele tava falando no telefone... ele tava na cozinha...
— Levanta dessa porra desse chão agora! — berrou Kael, girando o rosto vermelho de ódio na direção de Josh. Seus olhos prometiam uma carnificina. — Se o Victor morrer esta noite, Josh, eu juro por Deus que arranco a sua cabeça antes de a polícia chegar! Pega a porra das toalhas no armário do banheiro! ANDA!
O rugido pareceu romper a névoa mental de Josh. Com um solavanco desajeitado, ele se ergueu, tropeçando nos próprios calcanhares, e disparou pelo corredor como uma gazela espancada, chorando aos berros enquanto subia os degraus em direção ao andar superior.
Sophia desceu os últimos degraus com passos lentos e calculados, apoiando-se no corrimão com a mão boa. Seu rosto estava tão branco quanto a máscara do assassino, mas havia uma frieza resignada em seus traços. Ela parou diante do trio no chão, observando a batalha silenciosa para manter o pulso de Victor batendo.
— A linha telefônica da casa está morta — disse ela, a voz saindo sem inflexão. — Ele cortou o ramal interno antes de fugir. E nenhum dos nossos celulares tem torre depois que a tempestade derrubou a antena da serra.
— O carro — disse Noah, sem tirar a pressão do abdômen de Victor. — O Opala dele está na garagem. Mas nós não podemos mover o Victor sem imobilizar o tórax. Se a ponta da lâmina estiver encostada na pleura, qualquer movimento brusco pode rasgar a artéria de vez.
— Ele não vai aguentar meia hora aqui — retrucou Sophia, apontando para a palidez cinzenta que tomava conta da pele de Victor. Os lábios do rapaz já apresentavam um tom azulado cadavérico. — O choque está se instalando. Olhe para as extremidades dele.
Kael inclinou o rosto para perto de Victor, encostando a testa ensanguentada contra a têmpora do outro. A respiração de Victor era superficial, curta, como o bater de asas de um pássaro quebrado.
— Victor... você me ouve? — sussurrou Kael, a voz descendo a um murmúrio desesperado e suplicante, despido de qualquer orgulho. — Você não pode apagar agora. Você me prometeu que a gente ia sair dessa cidade. Lembra da estrada? Lembra do que você disse na beira do lago no ano passado? Você falou que ninguém aqui era inteligente o bastante para nos segurar.
Os cílios de Victor tremeram fracamente. Ele não abriu os olhos por inteiro, mas uma contração quase imperceptível nos cantos de sua boca desenhou o fantasma daquele velho e arrogante meio sorriso.
— Não seja... sentimental... Kael — a voz de Victor mal passava de um fio de ar, gélida e distante. — É... patético...
— Então continua vivo para me zoar, desgraçado — soluçou Kael, apertando as compressas contra a carne aberta com uma força que fazia seus próprios braços tremerem de exaustão muscular. — Fica acordado. Por favor. Fica acordado.
Josh reapareceu na sala, trazendo uma pilha desordenada de toalhas brancas contra o peito. Ele caiu de joelhos a um metro de distância, estendendo o tecido como uma oferenda desesperada, sem coragem de se aproximar mais de Kael.
Noah pegou as toalhas rapidamente, enrolando-as ao redor do tronco de Victor em uma bandagem compressiva improvisada, apertando os nós com os dentes para estancar o sangramento duplo.
— Nós precisamos levá-lo para o hospital — declarou Noah, puxando a fita adesiva para selar o curativo torácico. — Mesmo com o toque de recolher, o pronto-socorro da Santa Casa tem cirurgião de plantão no fim de semana. Se sairmos pelo portão dos fundos com o carro, evitamos a avenida principal e os bloqueios da polícia.
— O assassino pode estar na estrada velha — advertiu Sophia, os olhos fixos na vidraça molhada da janela. — Ele fugiu a pé, mas ele conhece as trilhas da mata melhor do que qualquer um de nós. E se ele estiver esperando na curva da ponte?
— Deixa ele vir — disse Kael, a voz subindo de tom, não com o desespero de antes, mas com uma calma glacial, perigosa e letal que fez até Noah estremecer.
Kael passou os braços sob as costas e as pernas de Victor, erguendo o corpo inerte do rapaz com um cuidado milimétrico, como se carregasse uma relíquia feita de vidro trincado. O sangue empapou o peito nu de Kael, misturando-se ao suor e às lágrimas em uma única crosta escura.
— Deixa ele vir — repetiu Kael, olhando para a porta escancarada que dava para a tempestade lá fora. — Da próxima vez que eu colocar os olhos naquela máscara, eu não vou tentar me defender. Eu vou rasgar a garganta dele com os meus próprios dentes.
Ele começou a caminhar em direção à garagem, os passos firmes e pesados esmagando os cacos de madeira e gesso espalhados pela sala.
Noah recolheu as chaves do Opala que estavam jogadas no chão ao lado do telefone quebrado, virando-se para Josh e Sophia com uma autoridade que nunca tivera antes.
— Josh, abre a porta da garagem e tira a cantoneira da trava. Sophia, você vai no banco da frente e fica de olho na estrada com a lanterna. Eu vou atrás com o Kael segurando o tórax dele. Se o motor morrer na subida da serra... a gente corre.
Josh assentiu freneticamente, limpando o ranho do nariz com as costas da mão ensanguentada, e correu para cumprir a ordem.
Sophia permaneceu imóvel por um segundo a mais, seus olhos descendo para o piso da sala de estar.
No centro da poça de sangue que Victor deixara para trás, meio submerso no líquido escuro, repousava um objeto que o assassino havia deixado cair no momento do impacto — ou que talvez tivesse deixado para trás deliberadamente, como uma assinatura perversa de seu triunfo psicológico.
Era uma fita cassete antiga. A carcaça plástica preta trazia uma etiqueta de papel amarelada colada na lateral, com uma caligrafia fina e impecável escrita em tinta azul:
*Vigília — Março de 2023.*
O coração de Sophia deu um salto doloroso contra a clavícula machucada. Era a fita do armário da escola. A fita que continha as gravações que seu pai jurara que ninguém mais possuía.
O assassino não tinha vindo apenas para testar a lealdade deles. Ele viera para entregar a próxima pista. Ele jogava com as peças da cidade como se movesse peões em um tabuleiro de carcaças, rindo da ilusão de que qualquer um deles tivesse, em algum momento, o controle da própria narrativa.
— Sophia! — gritou a voz de Noah da garagem, abafada pelo ronco gutural do motor do Opala ganhando vida na escuridão. — Vamos! Agora!
Sophia se abaixou, pegou a fita ensanguentada do chão com os dedos trêmulos e a enfiou no bolso fundo do casaco.
Ela correu para a garagem no instante em que as luzes dos faróis cortavam a fumaça de querosene e a chuva torrencial, iluminando a saída para a estrada deserta de Santa Cruz do Pinhal.
Lá fora, nas sombras espessas dos eucaliptos que margeavam a propriedade dos Ipês, a figura de capa escura assistiu aos faróis traseiros vermelhos do veículo desaparecerem na curva barrenta da colina.
O homem ajustou a máscara de resina contra o rosto molhado, guardou a lâmina ainda manchada na bainha de couro sob o tecido pesado e puxou o capuz sobre a cabeça.
A primeira metade da noite estava encerrada. Mas o amanhecer, ele bem sabia, traria segredos muito mais difíceis de estancar do que o sangue de Victor.