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The new ghostface

O Batismo de Cinzas

O tempo pareceu dilatar-se no instante exato em que os dedos enluvados do assassino se abriram.

O isqueiro de latão caiu em um arco preguiçoso, rodopiando no ar pesado do depósito de bagagens. A chama diminuta não precisou sequer tocar as tábuas encharcadas do chão; o vapor invisível e volátil do solvente misturado ao querosene subiu ao encontro do fogo a trinta centímetros do assoalho.

O mundo explodiu em um estrondo cavo e abafado.

*WHUMP.*

Uma onda de calor escaldante varreu a sala, empurrando o ar para fora em um vácuo instantâneo que fez os tímpanos de todos estalarem. Em uma fração de segundo, o piso inteiro foi devorado por uma tapeçaria viva de chamas azuis e alaranjadas, correndo pelas frestas da madeira com a voracidade de serpentes famintas. A luz alaranjada dançou furiosa nas paredes descascadas, projetando sombras gigantescas e disformes contra o teto em ruínas.

— KAEL! — berrou Noah, o grito sendo quase engolido pelo rugido súbito do fogo.

Kael não esperou. Movido por um instinto puramente carnívoro, ele avançou através da cortina inicial de chamas. A barra de ferro pesada zuniu no ar, cortando a fumaça negra que começava a espiralar para cima. O golpe desceu na diagonal, visando a clavícula do homem mascarado.

O assassino moveu-se com a precisão mecânica de um predador experiente. Ele ergueu o braço esquerdo, envolto na lona grossa do sobretudo, aparando o impacto da alavanca com um baque surdo de ossos e tecido pesado. A força da pancada o fez recuar meio passo sobre o assoalho em chamas, mas seu braço direito já se movia em resposta.

A lâmina curva do facão de desbaste cortou o ar em um arco mortal, assobiando a milímetros da garganta de Kael.

Kael jogou o tronco para trás por puro reflexo. A ponta prateada apenas rasgou a gola de sua camiseta ensanguentada, desenhando uma linha fina e vermelha na base de sua garganta.

— Desgraçado! — rugiu Kael, recuperando o equilíbrio enquanto a sola de seu tênis começava a chiar, derretendo contra a madeira incandescente.

Atrás deles, a fumaça química atingiu o fundo da sala como um veneno gasoso. O cheiro de querosene queimado, plástico velho e solvente ardia nos olhos e raspava na garganta como lixa grossa.

Sophia tossiu com violência, sentindo o peito fechar. Ela ignorou o calor que começava a queimar a parte de trás de suas pernas e debruçou-se sobre Victor na mesa de madeira. O rapaz estava imóvel, mas o peito dele tentava se erguer em pequenos espasmos débeis e irregulares. A pele ao redor de seus lábios já não era apenas pálida; assumira um tom arroxeado cadavérico.

— Victor, fica comigo! — gritou ela, os olhos lacrimejando pelo ar tóxico.

Ela colocou a mão espalmada sobre o tórax dele. O lado esquerdo estava imóvel, tenso e inflado como um tambor esticado, enquanto o lado direito mal conseguia expandir. A traqueia dele parecia ligeiramente desviada para a direita sob a pele suada do pescoço.

*Pneumotórax hipertensivo*, a mente de Sophia disparou, resgatando as conversas intermináveis que Noah mantinha sobre os livros de anatomia do pai. O ar e o sangue estavam presos dentro da caixa torácica, esmagando o coração e o pulmão restante.

— Noah! — gritou Sophia, desesperada, sem tirar os olhos do amigo moribundo. — O pulmão dele colapsou! Ele tá sufocando por dentro!

Noah ouviu o chamado, mas estava a três metros de distância, no meio do pandemônio. Ele viu o homem mascarado avançar sobre Kael, empurrando o garoto com o ombro contra as prateleiras de ferro enferrujado. O impacto fez as estruturas de metal vibrarem, arremessando caixas de arquivo mofadas diretamente para dentro do fogo no chão.

— Kael, abaixa! — berrou Noah.

Noah não tinha força bruta, mas tinha desespero. Ele agarrou uma cadeira de escritório de madeira podre, quase em pedaços, e a arremessou com toda a força contra as costas do assassino. A cadeira desintegrou-se contra as omoplatas largas do homem com um estalo seco de ripas partindo.

O gigante mal cambaleou, mas o golpe foi o suficiente para desviar sua atenção. Ele girou a cabeça mascarada na direção de Noah, os olhos brilhando por trás das fendas de gesso com um desprezo homicida.

O facão foi erguido para descer em um corte descendente que partiria o crânio de Noah ao meio.

Noah congelou. O medo paralisou seus pés; o cheiro de morte estava a um palmo de sua face.

— NÃO! — um grito esganiçado cortou o crepitar das chamas.

Josh, que até aquele segundo estivera encolhido debaixo da extremidade da mesa, arrastou-se pelo chão em chamas. Suas roupas começavam a queimar na barra da calça jeans, mas a visão de Noah prestes a ser executado desligou qualquer resquício de autopreservação covarde em seu cérebro. Josh projetou-se para a frente como um míssil desajeitado, agarrando-se com os dois braços à perna direita do assassino, cravando os dentes com ferocidade primal através da bota de couro do homem.

O assassino perdeu a base de apoio. O golpe de facão desviou de Noah por centímetros, cortando apenas o ar e cravando-se profundamente na pilastra de madeira ao lado, arrancando uma chuva de farpas acesas.

— Tira ele de cima de mim! — urrou Josh, segurando a perna do gigante enquanto recebia chutes violentos nas costelas. Cada impacto de bota contra o peito de Josh soava como uma martelada surda, quebrando o fôlego do garoto.

Kael viu a oportunidade. Ele usou a alavanca de ferro como uma lança, desferindo um golpe seco e horizontal que atingiu em cheio a têmpora protegida pela máscara de gesso.

O som do impacto foi oco: o gesso partiu-se na lateral esquerda, revelando parte de uma têmpora marcada por queimaduras antigas e queloides grossos. O homem soltou um rugido gutural de dor — o primeiro som puramente humano que emitira — e cambaleou de lado, largando a empunhadura do facão cravado na madeira.

As chamas alcançaram as cortinas velhas de juta presas à janela alta. O fogo subiu em um raio veloz de destruição, lambendo o madeiramento do teto. Vigas inteiras de peroba-rosa começaram a chiar, vertendo resina ardente sobre a sala.

Enquanto a luta pela sobrevivência acontecia na poça de querosene em chamas, Sophia lutava contra a própria morte na mesa de mogno.

— Aguenta, Victor... por favor, não morre agora — sussurrava ela, as mãos tremendo descontroladamente enquanto revirava os bolsos do próprio sobretudo manchado de fuligem.

Ela encontrou o que procurava: a caneta esferográfica de metal maciço que o pai lhe dera ao entrar no ensino médio. Uma peça pesada, com corpo de aço inoxidável rosqueável.

Com os dentes, Sophia puxou a ponta de metal e a carga de plástico cheia de tinta, cuspindo-as no chão ardente. Restou apenas o tubo oco de metal cirúrgico, de cerca de dez centímetros.

Ela olhou para o tórax de Victor. A camisa dele fora arrancada durante a massagem cardíaca na plataforma. As costelas estavam arroxeadas, algumas visivelmente desalinhadas pelos nós dos dedos de Noah. Entre o segundo e o terceiro espaço intercostal, na linha clavicular média — exatamente onde Noah repetira tantas vezes que os médicos militares furavam para salvar soldados em parada iminente.

— Me perdoa se isso doer — ela chorou, o calor do teto começando a chamuscar as pontas de seus cabelos longos. — Mas você tem que respirar.

Victor abriu os olhos minimamente. As pupilas estavam quase totalmente dilatadas, um abismo escuro engolindo a pouca luz dourada do fogo. Ele sentiu a pressão da mão de Sophia em seu peito e seus lábios moveram-se sem som, formando um nome inaudível: *Kael*.

Sophia posicionou a extremidade chanfrada do tubo de metal sobre a pele fria e suada de Victor.

Ela fechou os olhos por uma fração de segundo, usou a base da lanterna pesada como martelo e bateu.

*CRACK.*

Um som crocante de cartilagem e tecido muscular sendo perfurado fez a mão de Sophia vibrar com uma violência nauseante.

No mesmo milésimo de segundo, o ar comprimido misturado a uma rajada fina de sangue negro explodiu pelo cano oco da caneta, sibilando como uma panela de pressão com a válvula rompida. O chiado foi alto, contínuo, espalhando uma névoa avermelhada pelo ar sufocante.

O corpo de Victor arqueou-se contra a madeira da mesa em uma convulsão súbita. Seus pulmões sugaram o oxigênio tóxico do ambiente com um rugido estrangulado, e a cor azulada de seus lábios começou, milagrosamente, a recuar para um tom arroxeado menos letal. O pulso sob a mão de Sophia, antes quase imperceptível, voltou a bater com força desesperada.

— Ele tá respirando! — berrou Sophia, as lágrimas escorrendo por seu rosto coberto de fuligem. — Ele voltou! A gente tem que tirar ele daqui antes que o teto caia!

No chão, o assassino não estava derrotado.

A fúria do homem parecia alimentada pelo próprio inferno que o cercava. Com o rosto parcialmente desmascarado — exibindo cicatrizes purulentas que contavam a história de um acidente químico abafado por anos —, ele ergueu Josh do chão com uma única mão cravada no pescoço do rapaz, jogando-o contra uma pilha de engradados em chamas.

Josh caiu com um gemido agoniado, rolando na lama e na cinza para apagar as labaredas que devoravam sua jaqueta.

Noah avançou com um pedaço de ripa em chamas, brandindo a tocha improvisada contra os olhos do homem.

— Sai de perto deles! — gritou Noah, a voz rachando de terror e ódio.

O homem bloqueou o fogo com o antebraço protegido pela lona e desferiu um soco brutal com a mão livre bem no estômago de Noah. O garoto perdeu todo o ar dos pulmões instantaneamente, caindo de joelhos sobre as tábuas quentes, vomitando bile e sangue na fumaça espessa.

Kael avançou por trás. Ele sabia que não tinha a força daquele monstro. Sabia que se tentasse bater de novo, a barra de metal seria arrancada de suas mãos suadas. Em vez de golpear, Kael deu um passo largo, saltou sobre uma viga de apoio e cravou a extremidade pontiaguda da alavanca de mudança de trilhos diretamente no tendão de Aquiles esquerdo do assassino.

O metal áspero rasgou o couro da bota e perfurou o tendão com um som nojento de corda de violão se partindo.

O homem soltou um uivo lancinante, a perna esquerda cedendo de imediato sob o próprio peso descomunal. Ele desabou com um dos joelhos diretamente sobre uma poça de querosene ainda em combustão vívida. A lona de seu sobretudo pegou fogo no mesmo instante, as chamas subindo pelas suas costas como asas incandescentes.

Mesmo em chamas, o assassino tentou esticar o braço para alcançar o facão cravado na pilastra, os olhos vidrados em Kael com um ódio que transcendia a dor física.

Kael não hesitou. Ele usou o pé para chutar o cabo do facão com força extrema, quebrando a lâmina no interior da madeira e deixando o cabo girando no vazio.

— Acabou — arquejou Kael, a respiração queimando como fogo em suas vias respiratórias. — Você não vai levar mais ninguém.

Uma viga mestra do telhado rangeu lá em cima, curvando-se sob o calor impiedoso. Uma chuva de telhas de amianto desabou sobre o outro lado da sala, bloqueando a porta de entrada com uma barreira intransponível de escombros ardentes.

— A janela! — gritou Sophia, usando as próprias forças para passar os braços de Victor sobre seus ombros. — A janela de carga dá para o barranco do rio!

Josh levantou-se com dificuldade, segurando o braço quebrado ou deslocado contra a costela trincada, e correu para ajudar Sophia. Ele agarrou o tronco de Victor por baixo das axilas, enquanto Sophia sustentava as pernas inertes do rapaz. O tubo da caneta continuava cravado no peito de Victor, assobiando fracamente a cada respiração arrastada, mantendo o jovem suspenso entre a vida e a morte por um fio minúsculo de latão e plástico.

— Noah, levanta! — berrou Kael, agarrando o amigo pelos cabelos e pelo colarinho, puxando-o do chão em chamas antes que o fogo atingisse suas roupas.

Noah se apoiou na mesa em chamas, tossindo violentamente, as lentes de seus óculos estilhaçadas pelo calor extremo.

— Eu tô de pé... eu tô de pé! — engasgou ele.

O homem mascarado, agora transformado em uma tocha humana, começou a se erguer lentamente do chão, apoiando-se nas prateleiras incandescentes. A metade visível de seu rosto estava retorcida em uma máscara de loucura absoluta. Ele não parecia mais sentir o fogo que consumia sua carne; parecia apenas uma entidade movida pela promessa ancestral de vingança contra os nomes que destruíram sua linhagem.

— Vocês... — a voz do homem arranhou a fumaça, um grasnido sulfuroso — ...nunca vão sair dessa serra.

Kael não respondeu com palavras.

Ele agarrou o último tambor de querosene encostado na parede, já estufado pela pressão interna dos gases quentes, e o empurrou com todo o peso de seu corpo em direção ao homem em chamas.

O tambor rolou pelas tábuas ardentes e colidiu contra as pernas feridas do assassino. O vapor confinado no barril encontrou as chamas que cobriam as roupas do homem.

A deflagração foi ensurdecedora.

Uma bola de fogo alaranjada engoliu o centro da sala de bagagens, arremessando Kael para trás contra a mesa de madeira. O impacto da explosão quebrou o restante da vidraça da janela alta de carga, abrindo uma passagem violenta para o ar gélido e chuvoso da madrugada lá fora.

O vento frio invadiu o ambiente em uma lufada violenta, rodopiando com as labaredas e criando um vórtice de faíscas incandescentes.

— VAI! — berrou Kael, erguendo-se do assoalho estaladiço, empurrando Josh e Sophia em direção à abertura na parede.

Josh passou a cabeça e o tronco pela janela quebrada, caindo na lama fria do lado de fora da estação com um gemido abafado. Ele esticou os braços para cima imediatamente:

— Passa o Victor! Me dá o Victor!

Sophia e Kael ergueram o corpo mole do rapaz através da moldura de madeira chamuscada. Josh puxou com o braço bom, arrastando Victor para a terra encharcada da encosta, longe do calor opressivo do incêndio.

Noah pulou em seguida, caindo de mau jeito na lama e rolando pelo barranco até parar contra as raízes expostas de um eucalipto.

Sophia apoiou as mãos na soleira da janela, virando-se para trás por uma fração de segundo.

No meio do inferno de chamas que devorava a sala de bagagens, o vulto em fogo continuava de pé, cambaleando entre as vigas que desabavam como cruzes ardentes. A máscara branca havia derretido contra os ossos de sua face, tornando-o indistinguível de um pesadelo petrificado pelo ódio. Os olhos daquele homem ainda estavam fixos nos dela — a filha do homem que assinara as ordens de despejo químico.

— Kael, pula! — gritou Sophia, puxada pela mão do rapaz.

Os dois se lançaram pela abertura da janela no mesmo instante em que a estrutura central do telhado cedeu com um estrondo apocalíptico de vigas de madeira e telhas em chamas desabando sobre o piso de tábuas corridas.

O impacto contra o barro gélido da encosta foi duro, mas o choque da chuva fria nas peles queimadas foi quase um alívio divino.

Eles rolaram pela descida íngreme do barranco, parando apenas no leito de cascalho que margeava os antigos dormentes da linha férrea, a uns vinte metros da estação que agora ardia como uma fornalha colossal contra o céu negro da tempestade.

A chuva caía impiedosa, lavando o sangue escuro dos rostos dos cinco jovens.

Kael se arrastou de quatro pela lama até alcançar o corpo de Victor.

O rapaz estava deitado de barriga para cima, a chuva lavando o peito ferido ao redor do tubo de caneta que continuava a sibilar suavemente. O peito dele subia e descia em um ritmo fraco, mas constante. Os olhos castanhos de Victor estavam semiabertos, fitando os clarões dos relâmpagos entre as nuvens de tempestade.

Quando sentiu a mão ensanguentada e trêmula de Kael tocar seu pescoço, os dedos de Victor moveram-se devagar pela lama até encontrar a manga rasgada da camisa do amigo.

Ele apertou o tecido com a pouca força que ainda lhe restava.

— Você... — a voz de Victor saiu em um sussurro quase inaudível sob o troar da chuva, rouca, queimada, mas inconfundivelmente viva. — ...ainda tá... me devendo um Opala...

Kael soltou um riso quebrado que se transformou imediatamente em um soluço desesperado de choro. Ele encostou a própria testa na lama ao lado do rosto de Victor, sentindo a respiração morna do outro contra a sua pele ferida.

— Eu compro dez dessa merda para você, seu idiota — respondeu Kael, as lágrimas misturando-se à enxurrada de terra e cinzas. — Só não para de respirar.

Ao lado deles, Sophia estava sentada com as costas apoiadas em um trilho enferrujado, abraçando os próprios joelhos ensanguentados. Seus olhos fitavam a estação de Santa Cruz do Pinhal sendo devorada pelas labaredas que iluminavam a silhueta escura da serra.

No bolso de seu sobretudo, a fita cassete manchada de sangue ainda pesava contra suas costelas fraturadas. A verdade sobre o pai, sobre a fundação dos Viana e sobre o veneno enterrado sob aqueles trilhos mortos não havia queimado no incêndio.

A tempestade continuava a cair, implacável e fria, mas enquanto as chamas da velha estação iluminavam o vale como um farol fúnebre, todos eles sabiam que, daquela noite em diante, as cinzas jamais deixariam de cair sobre suas vidas.

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