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The new ghostface

O Uivo das Sirenes na Lama

O som que começou a vibrar pelas curvas da serra não pertencia ao troar da tempestade nem ao crepitar voraz do madeiramento centenário desmoronando na estação. Era um uivo mecânico, agudo, cortante, que ricocheteava nos paredões de pedra e descia pelo vale como um presságio metálico.

Luzes intermitentes em tons de azul e vermelho começaram a pintar a copa dos eucaliptos lá no alto, manchando o céu de chumbo com pulsações elétricas.

No leito lamacento dos trilhos, Kael mal conseguia erguer os olhos. Ele permanecia de joelhos, com a água barrenta cobrindo suas coxas, as duas mãos trêmulas pressionando levemente a lateral do tórax de Victor para evitar que o rapaz se movesse. O pequeno tubo de aço da caneta de Sophia continuava cravado entre as costelas do garoto; a cada expiração curta e rouca, um sibilo fino e úmido escapava por aquela abertura artificial, cuspinho bolhas minúsculas de sangue contra a pele lavada pela chuva.

— Eles estão chegando — disse Noah, a voz saindo em um murmúrio quase afogado.

Noah estava sentado sobre um monte de cascalho, os braços cruzados apertando o próprio abdômen para conter a dor lancinante do golpe que levara do assassino. Um dos aros de seus óculos estava quebrado, pendendo torto sobre uma bochecha cinzenta de fuligem.

— Quem chamou? — perguntou Josh, o dente batendo descontroladamente, encolhido contra os trilhos enquanto segurava o braço fraturado de encontro ao corpo. — Quem sabia que a gente estava aqui?

Sophia não respondeu de imediato. Ela olhava para a entrada da estrada de ferro, onde três viaturas da Polícia Militar e uma ambulância com a inscrição do SAMU rompiam a cerca de arame farpado já destruída pelo Opala. Logo atrás do comboio oficial, cortando a lama com pneus largos de tração integral, vinha um sedã esportivo importado de cor grafite — o ronco afinado de um motor potente que destoava brutalmente da podridão industrial daquele cenário.

— Ninguém precisava chamar — sussurrou Sophia, os dedos deslizando para dentro do bolso empapado do casaco, onde a fita cassete parecia pesar uma tonelada. — Uma coluna de fumaça desse tamanho, com querosene e lona queimando, pode ser vista lá de Pouso Alegre. E a polícia tem ordens de vigiar essa ferrovia há mais de um ano.

— Sophia... — Kael rosnou sem tirar os olhos do rosto de Victor. — Se o delegado Souza tiver mandado esses homens...

— A gente não entrega a fita — cortou ela, a mandíbula travada com uma rijeza que mascarava o desespero visceral que lhe corroía o estômago. — A gente não entrega nada até o Victor estar dentro de uma sala de cirurgia.

O sedã grafite foi o primeiro veículo civil a parar abruptamente, derrapando sobre o cascalho antes mesmo que a ambulância manobrasse para dar ré na direção da linha do trem.

A porta do motorista se abriu com violência. Felipe Viana saltou para o barro.

Ele não usava capa de chuva. Estava vestido com uma camisa social azul-escura com as mangas dobradas e os primeiros botões abertos, agora ensopada em segundos pela tempestade implacável. O rosto dele, compartilhado com Victor nos mesmos traços aristocráticos e na mesma curvatura orgulhosa do nariz, estava completamente desfigurado pelo pavor.

— VICTOR! — o grito de Felipe rasgou a noite, superando o barulho das sirenes.

Ele tropeçou no barranco de terra, escorregando e sujando a calça de alfaiataria na lama, mas levantou-se em um segundo, impulsionado por um desespero cego.

Pela porta do passageiro do mesmo carro, um rapaz de cabelos castanhos claros e jaqueta de couro molhada desceu logo atrás, tentando segurá-lo pelos ombros para evitar que ele despencasse de mau jeito na ribanceira.

— Felipe, calma! Deixa os socorristas descerem primeiro! — gritava Henrique, a voz firme tentando impor alguma ordem ao caos enquanto deslizava com cautela pela terra encharcada. — Cuidado com o barranco!

— Me solta, Henrique! — rebateu Felipe, desvencilhando-se do toque do namorado com um safanão frenético, sem olhar para trás. — Ele tá jogado ali! Ele tá coberto de sangue, caralho!

Dois paramédicos desceram correndo a encosta com uma prancha rígida e mochilas pesadas de primeiros socorros, acompanhados por três policiais com capas de chuva amarelas reflexivas e pistolas em punho, varrendo a fumaça da estação em chamas com o facho potente de suas lanternas táticas.

— Afastem-se! — gritou um dos socorristas, um homem barbudo com luvas de nitrilo azul que escorregou de joelhos ao lado do corpo de Victor. — Abram espaço agora!

Felipe chegou ao leito da ferrovia tropeçando nas britas, caindo de joelhos a menos de meio metro do irmão mais novo. Seus olhos se arregalaram em uma expressão de horror puro ao ver o estado de Victor: a palidez mórbida da pele, os hematomas violentos das massagens cardíacas no peito esmagado e o pedaço oco de metal prateado atravessado entre a cartilagem das costelas, manchado de sangue espesso e fuligem.

— Meu Deus... Victor... — balbuciou Felipe, as mãos suspensas no ar, temendo tocá-lo e quebrar o que quer que restasse dele. — O que fizeram com você? O que aconteceu com ele?!

Kael ergueu-se devagar, cambaleando sobre as pernas bambas. A alavanca de ferro já não estava em suas mãos, mas seus punhos permaneciam cerrados, os nós dos dedos esfolados pingando uma mistura de sangue e água barrenta. Ele olhou diretamente para Felipe, seus olhos ardendo com uma raiva que a chuva não era capaz de apagar.

— O que fizeram? — cuspiu Kael, a voz rouca, quase desprovida de oxigênio. — A culpa é da sua família de merda. A culpa é sua, Felipe!

Felipe ergueu os olhos, desnorteado, encontrando o olhar assassino de Kael.

— Kael, do que você tá falando? A gente veio atrás de vocês assim que acharam a Letícia...

— Cala essa boca! — Kael deu um passo à frente, pronto para avançar sobre o irmão mais velho de Victor, mas foi contido de imediato por Henrique, que se interpôs entre os dois com os braços erguidos.

— Ei, para! Agora não! — interveio Henrique, a voz carregada de autoridade defensiva, embora seus próprios olhos traíssem o choque profundo diante do massacre que presenciava. Ele segurou o peito de Kael com uma das mãos, mantendo uma distância segura. — Olha para o seu amigo, Kael! Ele tá morrendo! Não é hora de vocês brigarem!

— Você não sabe de nada, Henrique! — interveio Sophia, dando um passo para fora da sombra do eucalipto, o feixe das lanternas dos policiais iluminando seu rosto cortado e pálido. — Ele sabe. O Felipe sabe muito bem o que estava enterrado debaixo daquela plataforma.

Felipe empalideceu ainda mais, se é que isso era biologicamente possível. A menção ao depósito subterrâneo sob os trilhos atingiu o rapaz como uma descarga elétrica. Seus lábios tremeram, mas nenhum som saiu de sua garganta.

— Ele tem um pneumotórax descompressivo improvisado! — gritou a paramédica mais jovem, cortando a discussão enquanto rasgava o restante da camisa de Victor com uma tesoura de trauma. — Quem fez essa punção torácica?!

— Fui eu — disse Sophia, a voz fria, mecânica, despida de qualquer vaidade. — O pulmão esquerdo dele estava totalmente colapsado. Ele tinha parado de respirar depois que a gente fez a reanimação.

O paramédico barbudo olhou rapidamente para Sophia, depois para a caneta cravada no tórax de Victor, balançando a cabeça em um misto de incredulidade e urgência extrema.

— Vocês mantiveram ele vivo — declarou ele sem rodeios. — Mas o dreno tá obstruindo com coágulos. A pressão tá caindo de novo. Pega a válvula de Heimlich e prepara o colar cervical! Vamos colocar ele na prancha agora!

— Eu vou com ele — Felipe tentou se aproximar, estendendo a mão para segurar os dedos inertes do irmão. — Eu sou o responsável, eu sou o irmão dele...

— Sai de perto dele! — rugiu Kael, empurrando Henrique para o lado com um tranco violento e agarrando a gola da camisa molhada de Felipe. O tecido estalou. — Você não vai encostar nele! O Victor levou uma lâmina no peito tentando fugir da merda que você acobertou! O Opala do seu pai... você usou aquele carro para carregar os tambores! O cara da máscara... ele veio caçar todos nós por causa da sua sujeira!

— Kael, me larga! — Felipe gritou de volta, lágrimas quentes queimando seus olhos sob o aguaceiro. Ele não tentou bater de volta; apenas segurou os pulsos de Kael com um desespero que beirava a humilhação. — Eu não queria que ninguém morresse! Eu tentei tirar a gente daquela história, eu implorei para o meu pai parar...

— Chega! — berrou um dos sargentos da Polícia Militar, aproximando-se com a lanterna apontada diretamente nos rostos dos dois rapazes. — Afastem-se os dois! Mãos onde eu possa ver! Agora!

Henrique puxou Felipe para trás com força, envolvendo-o com os dois braços enquanto o rapaz desabava em um pranto convulsivo contra o seu peito.

— Ele tá chocado, sargento, ele é o irmão da vítima! — explicou Henrique, protegendo Felipe com o próprio corpo enquanto encarava o policial. — Por favor, dê um minuto para ele se recompor.

Noah se aproximou mancando de Kael, pousando a mão trêmula sobre o ombro do amigo.

— Deixa eles levarem o Victor, Kael — sussurrou Noah, cuspindo um traço de fuligem. — Se você bater no Felipe agora, a polícia te algema nessa linha de trem e o Victor morre sozinho naquela ambulância. Pensa no Victor.

Kael fechou os olhos com força, os músculos do pescoço retesados como cabos de aço. Ele respirou o ar gélido e nauseabundo da queima de solvente e recuou dois passos, soltando a respiração em um rosnado seco.

Os paramédicos moveram-se com uma precisão cirúrgica e frenética. Em menos de trinta segundos, Victor foi imobilizado com o colar cervical, preso com tiras de velcro à prancha rígida e elevado pelo barranco íngreme de terra. Uma máscara de oxigênio cobria sua boca e seu nariz pálidos, embaçando ritmicamente com um fluxo fraco, quase imperceptível de condensação.

Quando a maca alcançou o nível da estrada, os olhos de Victor se abriram minimamente por trás do plástico da máscara. Ele virou a cabeça com extrema fraqueza na direção de Kael.

Kael não esperou permissão de ninguém. Ele subiu o barranco com passadas pesadas, ignorando a lama que escorregava sob suas solas, parando ao lado da porta traseira aberta da ambulância.

— Ele tem que ir direto para o centro cirúrgico da Santa Casa — disse a paramédica, já preparando o acesso venoso no braço frio de Victor. — Apenas um familiar pode acompanhar!

Felipe tentou dar um passo à frente, mas Henrique o segurou firmemente pelo braço, trocando um olhar silencioso e significativo com o namorado. Henrique olhou para Kael, depois para o rosto destruído de Victor na maca, e puxou Felipe um centímetro para trás.

— Deixa ele ir, Lipe — disse Henrique em voz baixa, quase inaudível sob o barulho do motor a diesel da ambulância. — Olha para o seu irmão. É o Kael que ele tá procurando.

Felipe olhou para a mão de Victor estendida no vazio da maca, tremendo, procurando cegamente o vazio até que os dedos de Kael se fecharam sobre ela como uma tenaz de ferro fundido.

O maxilar de Felipe tremeu. Ele engoliu em seco, assentindo com a cabeça em um movimento doloroso, derrotado pela própria culpa.

— Cuida dele — sussurrou Felipe, a voz quase inaudível. — Por favor, Kael.

Kael não olhou para trás. Ele subiu no estribo da ambulância e sentou-se no banco estreito ao lado da maca, sem soltar a mão fria de Victor nem por uma fração de segundo.

— Eu tô aqui — murmurou Kael, a voz descendo a um sussurro rouco rente ao ouvido do rapaz ferido. — Você não vai a lugar nenhum sozinho.

As portas traseiras da ambulância se fecharam com um estrondo duplo e metálico. O veículo partiu em disparada pela estrada vicinal, as sirenes cortando a serra escura em direção à cidade.

Na plataforma enlameada da estação, o silêncio que se seguiu parecia pesado demais para ser real.

O sargento da PM guardou a lanterna no cinto tático e aproximou-se de Sophia, Noah e Josh.

— Vocês três precisam ser examinados na outra viatura de resgate que está subindo — disse o sargento, os olhos varrendo os ferimentos no braço de Josh e as manchas de sangue seco nas roupas de Noah. — E depois vão direto para a delegacia central prestar depoimento. O delegado Souza já foi notificado e está aguardando na central de flagrantes.

Ao ouvir o nome do delegado, Sophia sentiu um calafrio metálico subir pela nuca. Ela olhou de soslaio para Noah. Os olhos do garoto encontraram os dela por trás da lente trincada de seus óculos; a cumplicidade silenciosa do pavor confirmava o plano sem a necessidade de uma única palavra.

O delegado Souza era o homem que arquivara os laudos das mortes por contaminação química. Entregar qualquer relato ou prova para ele naquela noite significaria assinar a própria sentença de morte antes do amanhecer.

— O meu braço tá quebrado — balbuciou Josh, usando a dor física real como um escudo para não desmoronar psicologicamente ali mesmo. — Eu preciso de um hospital... por favor...

— Vocês vão para o hospital primeiro — assentiu o policial, fazendo um sinal para que os dois outros soldados acompanhassem os jovens até a viatura estacionada no alto da ribanceira.

Antes de começar a subir o barranco, Sophia virou-se uma última vez.

A estrutura de madeira da antiga estação de trem de Santa Cruz do Pinhal finalmente cedeu.

Com um rugido ensurdecedor de brasas e faíscas arremessadas contra a chuva torrencial, o teto central colapsou para dentro, sepultando o depósito de bagagens sob toneladas de telhas incandescentes, cinzas e vigas retorcidas pelo fogo.

Henrique mantinha o braço passado ao redor dos ombros de Felipe, que permanecia imóvel na beira da estrada, olhando para o inferno de chamas que consumia o segredo de sua família.

Ninguém viu nenhum vulto sair daquele fogo. Nenhuma silhueta mascarada arrastou-se pela encosta.

Mas, enquanto a chuva continuava a lavar as cinzas amargas sobre o asfalto frio da serra, Sophia afundou a mão no bolso do sobretudo, sentindo o contorno retangular e rígido da fita cassete contra a ponta dos dedos.

A estação havia virado pó. Mas a guerra estava apenas começando.

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