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The Queen

O Labirinto de Vidro e o Alvorecer das Feras

A luz do amanhecer em Pride Lands não trazia esperança, apenas uma clareza cruel. O ar no centro de comando da Corporação Simba estava saturado de ozônio e tensão. Ray estava de pé diante dos monitores holográficos, seu corpo ainda ostentando as marcas secas de sangue da noite anterior. Ela se recusara a tomar banho ou a se vestir; para ela, o cheiro da batalha era um combustível necessário. As correntes de ouro que Nala lhe dera ainda pendiam de seu pescoço, agora misturadas ao coldre tático de couro que ela havia recuperado.

— Os sensores térmicos indicam movimento nos túneis de ventilação do Setor Sombrio — informou Ray, sua voz soando como o atrito de duas pedras. — Scar não está se escondendo. Ele está nos convidando para o seu covil. É uma armadilha óbvia, o que a torna perfeita para o meu humor.

Simba aproximou-se, vestindo apenas uma calça de combate, o torso largo exibindo a cicatriz que Scar lhe deixara anos atrás. Ele olhou para Ray, sentindo a aura predatória que emanava dela.

— Você quer ir na frente — afirmou Simba, não como uma pergunta, mas como uma constatação.

— Eu sou a ponta da lança, Simba — respondeu Ray, virando-se para ele com um sorriso sádico. — Você e Nala são o peso que empurra a lâmina, mas eu sou quem corta a carne primeiro.

Nala entrou na sala, acompanhada por Kion. O príncipe parecia ter envelhecido dez anos em uma única noite. Ele carregava uma submetralhadora compacta, e seus olhos, antes cheios de dúvida, agora refletiam a frieza que Ray havia esculpido nele à força.

— Estamos prontos — disse Nala, sua nudez majestosa apenas acentuada por um cinto de utilidades de platina. — Se Scar quer um espetáculo, daremos a ele o ato final.

— Kion — chamou Ray, fazendo o jovem estacar. — Fique perto de mim. Se você hesitar por um segundo, eu mesma termino o que as hienas começarem. Entendido?

— Entendido — respondeu Kion, sua voz firme, embora um tremor de excitação percorresse seus dedos.

O grupo partiu em veículos blindados pretos, cortando a neblina ácida que envolvia as zonas industriais baixas. O Setor Sombrio era um labirinto de fábricas de processamento químico desativadas e esgotos colossais. Quando chegaram à entrada do complexo de Scar, o silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo gotejar de água contaminada.

Ray saltou do veículo antes mesmo que ele parasse totalmente. Seus pés descalços sentiram a vibração do metal sob o concreto. Ela sinalizou para que o grupo se dividisse.

— Simba, Nala, peguem o flanco esquerdo. Kion, você vem comigo pelo duto principal.

Eles avançaram pela escuridão. O cheiro de Scar estava em todo lugar — um odor de decadência e produtos químicos. Ray movia-se com uma fluidez inumana, seus sentidos em alerta máximo. De repente, ela parou e empurrou Kion contra a parede fria de metal.

— Ouça — sussurrou ela, o corpo pressionado contra o dele.

O som de risadas histéricas ecoou pelos canos. As hienas de Scar.

— Eles estão nos cercando — disse Kion, levantando a arma.

— Deixe que venham — Ray sacou uma faca serrilhada de seu coldre. — Eu quero sentir o calor deles quando as luzes se apagarem.

As lâmpadas de sódio no teto explodiram simultaneamente, mergulhando o túnel em trevas totais. O primeiro ataque veio de cima. Uma hiena mercenária saltou sobre Kion, mas Ray foi mais rápida. Ela interceptou a criatura no ar, cravando a faca em sua garganta e usando o peso do corpo para esmagá-la contra o chão.

— Um a menos — zombou Ray, limpando o sangue do rosto com as costas da mão. — Kion, atire em qualquer coisa que não cheire a mim ou aos seus pais.

O túnel explodiu em flashes de luz das armas de fogo. Kion disparava com uma precisão que surpreendeu a si mesmo, enquanto Ray era um redemoinho de violência silenciosa entre os disparos. Ela não usava armas de fogo; preferia o contato, o som dos ossos quebrando sob seus pés e o prazer de ouvir o último suspiro de seus oponentes.

— Você é um monstro! — gritou uma hiena ferida, rastejando para longe.

— Não — disse Ray, pisando no pescoço do mercenário com força suficiente para esmagar a traqueia. — Eu sou apenas a consequência das escolhas de Scar.

Eles alcançaram a câmara central, um vasto espaço circular onde Scar os esperava. Ele estava sentado em uma cadeira de comando elevada, cercado por telas que monitoravam toda a cidade. Simba e Nala já estavam lá, mantidos à distância por um campo de força cintilante.

— Ora, ora — a voz de Scar ecoou pelo sistema de som, amplificada e distorcida. — A família feliz finalmente se reuniu. E trouxeram a cadela de guerra favorita de Simba.

— Desça daí, Scar — rosnou Simba, golpeando o campo de força com o punho. — Acabe com isso como um homem, não como um rato escondido atrás de tecnologia roubada.

Scar riu, levantando-se lentamente. Ele estava nu, sua pele pálida coberta de tatuagens que brilhavam com luz ultravioleta.

— Por que eu desceria, quando posso ver vocês se destruírem? Ray, querida, você sempre foi tão... eficiente. Diga-me, quanto Simba paga para você manter as pernas abertas e as garras afiadas?

Ray caminhou até o centro da câmara, sua nudez banhada pela luz azulada das telas. Ela parecia uma estátua de mármore e sangue.

— Simba não me paga pelo meu corpo, Scar — disse ela, sua voz calma e mortal. — Ele me paga para garantir que lixos como você não herdem nada além de uma cova rasa. E hoje, eu vou cobrar um bônus por insalubridade.

Com um movimento rápido, Ray lançou uma pequena esfera metálica contra o gerador do campo de força. A explosão de pulso eletromagnético desativou a barreira e mergulhou a sala em uma penumbra avermelhada de emergência.

— Agora! — gritou Ray.

Simba e Nala avançaram contra a guarda pessoal de Scar, enquanto Ray saltou para a plataforma elevada. Scar sacou uma lâmina de plasma, mas Ray não recuou. Ela adorava o perigo das armas modernas contra sua habilidade primitiva.

— Você acha que pode me vencer com facas de cozinha? — desdenhou Scar, desferindo um golpe que queimou o ar a centímetros do rosto de Ray.

— Eu não preciso de plasma para cortar um covarde — retrucou Ray.

Ela deslizou por baixo de um ataque, chutando o joelho de Scar e ouvindo o estalo satisfatório da patela se deslocando. Scar rugiu de dor, mas conseguiu atingir o ombro de Ray com o punho, jogando-a contra o painel de controle. O impacto fez faíscas voarem, e Ray sentiu a ardência de uma queimadura elétrica em suas costas.

— Você está ficando lenta, Ray — arfou Scar, preparando-se para o golpe final.

— E você está ficando cego — disse ela, cuspindo sangue.

Kion apareceu no flanco de Scar, disparando uma rajada que o forçou a se desequilibrar. Foi o segundo que Ray precisava. Ela se impulsionou do painel, envolvendo as pernas no pescoço de Scar e derrubando-o no chão. Eles rolaram pela plataforma, uma confusão de membros, ódio e suor.

Ray conseguiu ficar por cima, prendendo os braços de Scar com os joelhos. Ela começou a desferir socos metódicos no rosto dele, cada impacto quebrando um dente ou abrindo um novo corte. O sadismo dela estava em pleno ápice; ela não queria matá-lo rápido. Ela queria que ele sentisse cada grama de sua derrota.

— Olhe para mim, Scar — ordenou ela, agarrando-o pelos cabelos e forçando-o a ver Simba e Nala finalizando as últimas hienas lá embaixo. — O seu império de sombras está desmoronando. E você vai ser o alicerce que eu vou esmagar.

— Mate-me logo... — tossiu Scar, o sangue borbulhando em seus lábios.

— Não — Ray sorriu, um brilho perverso nos olhos. — A morte é um alívio. Eu quero que você viva o suficiente para ver Simba retomar cada centímetro do que você roubou. E então, quando você não tiver mais nada, nem mesmo o orgulho... eu voltarei para terminar o serviço.

Ela se levantou, deixando Scar caído e humilhado. Simba subiu na plataforma, olhando para o tio com um desprezo profundo.

— Levem-no para as masmorras de segurança máxima — ordenou Simba para os guardas que acabavam de chegar como reforço. — Quero que ele seja tratado com a mesma "gentileza" que demonstrou por Pride Lands.

Nala aproximou-se de Ray, envolvendo-a em um abraço que era tanto uma verificação de ferimentos quanto um gesto de gratidão.

— Você está sangrando — disse Nala, tocando o corte no ombro de Ray.

— É o meu sangue, Rainha — respondeu Ray, sua respiração voltando ao normal. — Isso significa que eu ainda estou viva. E que a caçada foi boa.

Kion aproximou-se timidamente, baixando a arma. Ray olhou para ele e, pela primeira vez, não havia apenas desprezo em seus olhos. Havia um reconhecimento relutante.

— Você não errou os tiros — comentou Ray. — Talvez haja esperança para você, pequeno príncipe. Mas não se acostume. Amanhã voltamos ao treino, e eu serei dez vezes mais cruel.

Kion sorriu, um sorriso cansado e sombrio.

— Eu não esperaria nada menos de você, Ray.

O grupo saiu do complexo enquanto as primeiras luzes reais do dia começavam a dissipar a fumaça. A metrópole de Pride Lands ainda era uma selva de concreto cheia de predadores e presas, mas por enquanto, a ordem havia sido restaurada.

De volta ao palácio, a adrenalina da batalha começou a dar lugar a uma necessidade diferente. Simba, Nala e Ray entraram na suíte real. O silêncio era pesado, carregado com o resíduo da violência e o desejo de reafirmar a vida através do prazer.

— O que faremos com as sobras de Scar? — perguntou Simba, abrindo uma garrafa de uísque caro.

— Amanhã nos preocupamos com a logística — disse Nala, retirando o cinto de utilidades e deixando que a seda que restava em seu corpo caísse. — Hoje, celebramos que o trono ainda é nosso.

Ray caminhou até o bar, servindo-se de uma dose generosa. Ela olhou para o próprio reflexo no vidro; o sangue seco em sua pele parecia uma pintura de guerra.

— Sabe, Simba — disse ela, aproximando-se dele e de Nala —, eu disse que o príncipe precisava de uma lição sobre a dor. Mas acho que vocês dois precisam de uma lição sobre como recompensar uma guarda que acabou de salvar suas coroas.

Simba sorriu, puxando Ray para perto, sentindo o calor do corpo dela e o cheiro de pólvora e suor.

— E como você sugere que façamos isso? — perguntou ele, sua voz vibrando contra o pescoço de Ray.

— Eu quero que vocês lembrem quem é a verdadeira força por trás desse império — Ray mordeu o lábio inferior de Simba, com força suficiente para tirar uma gota de sangue. — Eu quero que vocês implorem para que eu não os deixe sozinhos nesta cidade cheia de hienas.

Nala juntou-se a eles, suas mãos explorando o corpo de Ray com uma urgência renovada. O humor na sala tornou-se ácido e provocante, uma mistura de piadas sobre a performance de Scar e promessas de excessos que durariam até o próximo pôr do sol.

— Ela está de mau humor de novo, Simba — riu Nala. — O tipo de mau humor que só pode ser resolvido com absoluta obediência.

— Eu posso viver com isso — grunhiu Simba, entregando-se ao domínio de Ray.

Lá fora, a cidade de Pride Lands continuava sua rotina frenética. Milhões de pessoas trabalhavam, amavam e morriam sem saber que, no topo da torre mais alta, o destino deles era decidido por três figuras nuas, cobertas de cicatrizes e movidas por um desejo tão implacável quanto a selva de onde seus ancestrais vieram.

Ray olhou pela janela uma última vez antes de se entregar ao momento. Ela viu o sol refletir nos prédios de vidro e sentiu uma satisfação profunda. Ela era a guarda, a amante, a carrasca e a salvadora. E enquanto ela tivesse suas facas, sua nudez e seu sadismo, Pride Lands nunca teria outro governante que não fosse o desejo.

Afinal, na savana de asfalto, só sobrevive quem não tem medo de mostrar os dentes — e Ray tinha os dentes mais afiados de todos.