The Queen
O Banquete das Sombras e a Coroa de Espinhos
O sol de Pride Lands já estava alto, mas as cortinas opacas da cobertura real mantinham o ambiente em uma penumbra luxuosa e artificial. Ray estava deitada de bruços em uma espreguiçadeira de couro, sentindo as mãos de Nala massagearem seus ombros com um óleo perfumado que cheirava a sândalo e perigo. Simba estava a poucos metros, revisando relatórios em um tablet de cristal, mas seus olhos fugiam constantemente para a cena à sua frente.
— Você foi dura com ele, Ray — comentou Nala, sua voz como um ronronar baixo perto do ouvido da guarda. — Kion ainda é jovem. Ele não está acostumado com o seu tipo de... disciplina.
Ray abriu um olho, a pupila estreitada pela luz que escapava de uma fresta na cortina. Ela soltou um suspiro de escárnio.
— Se ele quer herdar esse império, precisa aprender que o mundo não é feito de lençóis de seda e elogios de conselheiros. O cio dele é uma fraqueza biológica; eu apenas a transformei em uma lição de hierarquia.
Simba deixou o tablet de lado e aproximou-se. Ele ainda estava nu, a luz do dia destacando a musculatura poderosa de um homem que se recusava a envelhecer. Ele parou diante de Ray, observando as marcas que o próprio filho deixara nela — arranhões leves, sinais de um desespero que Ray havia domado.
— Kion me procurou esta manhã — disse Simba, sua voz grave ressoando no peito. — Ele não conseguia me olhar nos olhos. Ele parecia... mudado. Há uma marca de dentes no pescoço dele que vai levar dias para sumir.
— Considere isso um selo de garantia — respondeu Ray, sentando-se e deixando que o lençol que a cobria escorregasse, revelando sua nudez atlética. — Agora ele sabe que o sangue real não o protege da dor. Na verdade, torna a dor muito mais sofisticada.
Nala riu, deslizando as mãos do ombro para a cintura de Ray.
— Você é impossível, querida. Mas é por isso que confiamos em você. Scar está se movendo novamente. Ele ouviu sobre o incidente no cais e não ficou nada feliz com a perda dos chips neurais.
Ray levantou-se, ignorando o conforto do óleo em sua pele. Ela caminhou até a parede de vidro, observando a metrópole lá embaixo. Para ela, os prédios pareciam dentes de ferro saindo da terra.
— Scar é um carniceiro que se veste de diplomata — disse Ray, cerrando os punhos. — Ele vai tentar algo drástico. Provavelmente durante a gala de hoje à noite. Ele adora um espetáculo.
— E é por isso que você estará lá — Simba colocou a mão no ombro de Ray, o calor de sua palma contrastando com a frieza habitual da guarda. — Mas não como segurança de uniforme. Quero que você use aquilo que Nala escolheu. Quero que Scar veja que a nossa guarda mais letal é também a nossa joia mais provocante.
Ray virou-se, um sorriso sádico e duvidoso surgindo em seu rosto.
— Você quer que eu seja a isca, Simba? Ou quer apenas me ver em algo que não seja calças táticas?
— Por que não os dois? — interveio Nala, caminhando até um armário embutido e retirando um conjunto que consistia apenas em correntes de ouro finíssimas e seda transparente. — Em Pride Lands, a nudez é poder. Mas a nudez adornada... isso é uma declaração de guerra.
A noite caiu sobre a cidade como um manto de veludo negro salpicado de luzes de neon. O salão principal da Torre Simba estava repleto da elite corporativa e política. Homens e mulheres circulavam com taças de champanhe, exibindo peles bronzeadas, tatuagens de clãs e uma quantidade mínima de tecido, seguindo a estética naturalista e opulenta da realeza.
Quando Ray entrou, o burburinho das conversas diminuiu por um instante. Ela estava deslumbrante e perigosa. As correntes de ouro serpenteavam por seu torso nu, prendendo-se em um colar rígido no pescoço e descendo até a cintura, onde uma saia de seda preta, aberta até o quadril, flutuava a cada passo. Ela não usava sapatos. Seus pés descalços tocavam o mármore com a confiança de quem sabe que pode matar qualquer um naquela sala antes que o primeiro grito fosse dado.
— Você atrai olhares como uma carcaça atrai hienas — sussurrou uma voz familiar em seu ouvido.
Ray não precisou se virar para saber que era Scar. O tio de Simba estava impecável em um robe de seda cinza, a cicatriz em seu olho brilhando sob as luzes artificiais. Ele segurava uma taça de vinho tinto, o líquido escuro parecendo sangue.
— E você, Scar — respondeu Ray, sua voz fria e cortante —, continua rondando as bordas do banquete, esperando por uma sobra que nunca virá.
Scar soltou uma risada seca, seus olhos percorrendo o corpo de Ray com uma mistura de luxúria e ódio.
— Simba é um tolo por exibir você assim. Ele esquece que joias podem ser roubadas, e guardas podem ser... convertidos.
— Eu não sou uma joia, Scar. Eu sou a armadilha — Ray deu um passo em direção a ele, ignorando o protocolo. — E se você tentar me converter, a única coisa que vai conseguir é uma autópsia prematura.
— Tanta agressividade — Scar sussurrou, aproximando-se o suficiente para que Ray sentisse o cheiro de tabaco e ambição. — Sabe, Ray, eu ouvi sobre o que você fez com o pequeno Kion. Um Alfa de verdade reconhece o trabalho de outro. Você o quebrou para o pai dele, ou o quebrou para si mesma?
Ray sentiu a raiva borbulhar, mas manteve a expressão gélida. Ela adorava o jogo psicológico, especialmente quando o sangue estava prestes a correr.
— Eu o quebrei para que ele soubesse que, neste mundo, até os príncipes sangram. Algo que você parece ter esquecido, velho leão.
Antes que Scar pudesse responder, Simba e Nala apareceram, flanqueando Ray. A presença dos três juntos era esmagadora. Simba colocou a mão na cintura de Ray, uma posse clara e pública.
— Tio — disse Simba, sua voz ecoando com autoridade. — Achei que estivesse ocupado com as auditorias das Terras Sombrias.
— Sempre há tempo para celebrar o sucesso da família, Simba — respondeu Scar, fazendo uma reverência sarcástica. — Especialmente quando a família exibe defesas tão... atraentes.
Nala sorriu, mas seus olhos eram de gelo.
— As defesas de Pride Lands não são apenas atraentes, Scar. Elas são famintas. E Ray não comeu nada hoje além de um pouco de orgulho de um certo príncipe.
O clima estava tenso, carregado de uma eletricidade que ia além da rivalidade política. Havia um humor ácido no ar, uma sensação de que a gala era apenas um prelúdio para algo muito mais primitivo.
— Com licença — disse Ray, desvencilhando-se de Simba. — O champanhe está me deixando entediada. Preciso de algo mais forte.
Ela caminhou em direção à varanda privativa que dava para o abismo da metrópole. O vento noturno agitava as correntes de ouro em seu peito, criando um tilintar metálico que era o único som em meio ao silêncio da noite lá fora.
Ela sentiu uma presença atrás dela. Não era Scar, nem Simba. Era Kion. O príncipe estava vestido de forma simples, apenas uma calça de couro, exibindo o peito onde a marca de Ray ainda estava visível, agora um tom de roxo escuro.
— Você não deveria estar aqui, Kion — disse Ray, sem se virar.
— Eu não conseguia ficar lá dentro — respondeu ele, sua voz mais firme do que na noite anterior, mas ainda carregada de uma submissão latente. — Todo mundo olha para mim e vê o herdeiro. Eu olho para você e vejo a única pessoa que me disse a verdade.
Ray virou-se, apoiando as costas no parapeito. A luz da lua destacava a cicatriz acima de seu mamilo, a marca de sua própria sobrevivência.
— A verdade dói, não é? — perguntou ela, um sorriso sádico surgindo. — Você gosta dessa dor, Kion. Ela faz você se sentir vivo em um mundo de plástico.
Kion aproximou-se, parando no espaço pessoal de Ray. Ele era mais alto que ela, mas a energia que emanava da guarda o fazia parecer pequeno.
— Eu quero que você me mostre mais — sussurrou ele. — Eu não quero ser o rei que meu pai quer. Eu quero ser o que você me tornar.
Ray soltou uma risada rouca, o som se perdendo no vento.
— Você é um masoquista, pequeno príncipe. Mas eu tenho um reino para proteger. Se você quer ser meu, terá que provar que sua lealdade é mais forte que seu sangue.
Ela agarrou Kion pelo pescoço, puxando-o para um beijo que era mais um ataque do que um gesto de afeto. Kion gemeu, suas mãos encontrando a pele nua de Ray sob as correntes de ouro. Naquele momento, no topo de Pride Lands, a política de Scar e a diplomacia de Simba não significavam nada.
De repente, o som de uma explosão abafada veio dos andares inferiores da torre. O vidro da varanda vibrou. Ray empurrou Kion para o lado, sacando instantaneamente uma faca que estava escondida na fenda de sua saia.
— Começou — disse ela, seus olhos brilhando com uma excitação selvagem.
— O quê? — perguntou Kion, ainda recuperando o fôlego.
— O jantar de Scar. Ele finalmente decidiu servir o prato principal.
Ray correu de volta para o salão. O pânico estava começando a se espalhar. Fumaça subia pelos dutos de ventilação e as luzes de emergência piscavam em vermelho sangrento. Simba e Nala estavam no centro do salão, cercados por guardas de nível inferior que pareciam confusos.
— Ray! — gritou Simba. — O setor de segurança foi invadido. São as hienas de Scar.
— Eu cuido disso — respondeu Ray, seu tom de voz mudando para o de uma comandante de batalha. — Kion, tire sua mãe daqui. Agora!
— Eu vou com você — disse Kion, seus olhos agora acesos com uma chama que Ray não tinha visto antes.
— Não seja idiota — retrucou Ray, enquanto cortava a garganta de um infiltrado que surgia das sombras com um movimento tão rápido que quase ninguém percebeu. — Você é o herdeiro. Se você morrer, Scar ganha. Vá!
Nala agarrou o braço de Kion, puxando-o em direção ao elevador privativo. Simba desembainhou uma espada curta ornamental que, nas mãos dele, tornava-se uma arma letal.
— Vamos mostrar a eles, Ray — disse Simba, ficando ombro a ombro com sua guarda. — Vamos lembrar a Scar por que os leões ainda governam esta selva de vidro.
O salão de festas transformou-se em um campo de abate. Ray movia-se como um borrão de ouro e seda, sua nudez tornando-a uma visão aterrorizante e hipnótica para os invasores. Ela não sentia medo; sentia apenas o ritmo da luta, o calor do sangue inimigo em sua pele e o prazer sádico de ver os homens de Scar caírem.
— Você luta bem para alguém que está quase nua! — gritou um dos mercenários, avançando com um machado tático.
Ray desviou, deslizando por baixo do braço dele e cravando sua faca na base do crânio do homem.
— Roupas são para quem tem algo a esconder — sussurrou ela no ouvido do cadáver antes de deixá-lo cair. — Eu não escondo nada, especialmente meu desprezo por você.
O humor de Ray era duvidoso até no meio do massacre. Ela fazia piadas sobre a má postura dos inimigos enquanto os desarmava, ou comentava sobre como o sangue deles mancharia o tapete caro de Simba. Para ela, a guerra era apenas mais uma forma de erotismo, uma expressão máxima de poder e controle.
Após minutos que pareceram horas, o salão estava coberto de corpos. Scar havia desaparecido, provavelmente fugindo para as sombras de onde viera, mas sua mensagem fora enviada. Pride Lands estava em guerra interna.
Simba estava ofegante, uma linha de sangue escorrendo de sua testa. Ele olhou para Ray, que estava de pé no meio do salão, coberta de sangue alheio, as correntes de ouro agora manchadas e a seda de sua saia rasgada. Ela parecia uma deusa da destruição.
— Você está bem? — perguntou ele, aproximando-se.
Ray limpou a lâmina da faca em sua coxa, deixando um rastro vermelho na pele bronzeada.
— Eu nunca estive melhor, Simba. O champanhe estava morno, mas a adrenalina está perfeita.
Nala e Kion voltaram ao salão, após terem garantido que o perímetro imediato estava seguro. Nala correu para Simba, mas seus olhos logo se voltaram para Ray.
— Scar escapou — disse Nala, sua voz trêmula de raiva. — Ele vai pagar por isso.
— Ele já está pagando — disse Ray, apontando para um dos corpos caídos. — Aquele era o braço direito dele. Scar está ficando sem peças.
Kion aproximou-se de Ray, observando-a com uma mistura de choque e adoração. Ele esticou a mão e tocou uma das correntes de ouro no peito dela.
— Você salvou todos nós — disse ele.
Ray deu um tapa na mão dele, não com força, mas com autoridade.
— Eu salvei o império, Kion. Você é apenas parte do inventário.
Ela caminhou até o bar, que milagrosamente permanecera intacto. Serviu-se de uma dose de uísque e virou-a de uma vez. O calor da bebida misturou-se ao calor da batalha.
— Amanhã — disse Ray, virando-se para a família real —, nós caçamos. Não haverá gala, não haverá diplomacia. Só haverá dentes.
Simba assentiu, uma determinação sombria em seu rosto.
— Concordo. Ray, você está no comando da força de ataque. Faça o que for necessário. Não quero prisioneiros.
— Ótimo — Ray sorriu, e desta vez o sorriso era genuinamente assustador. — Eu sempre preferi o sabor da carne fresca ao de promessas políticas.
Ela caminhou em direção à saída, sua nudez ensanguentada sendo um símbolo de que o tempo das hienas havia acabado. Ao passar por Kion, ela sussurrou de forma que apenas ele pudesse ouvir:
— Prepare-se, pequeno príncipe. Amanhã, você vai aprender a matar. E eu vou adorar assistir.
Ray saiu para a noite, o som de suas passadas ecoando no mármore. A metrópole de Pride Lands brilhava lá fora, mas o verdadeiro brilho estava nos olhos da guarda que não temia a morte, porque ela mesma era a morte vestida de ouro e desejo. A caçada havia começado, e Ray era a única predadora que importava.