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The Summer love

O Gosto Amargo e Doce do Desejo

O silêncio na sala de tatuagem era tão denso que Rafhael podia ouvir o som da sua própria respiração descompassada e o ruído metálico das joias sobre a bandeja de inox. O ar-condicionado trabalhava no máximo, mas o calor que emanava do corpo de Evan, posicionado estrategicamente entre suas pernas, tornava a temperatura ambiente irrelevante.

Evan não se moveu. Seus dedos, ainda protegidos pelas luvas de látex preto, permaneciam roçando a pele ao redor do novo piercing no peito de Rafhael. O contraste do preto das luvas contra a brancura leitosa do peito do rapaz era uma imagem que Evan sabia que ficaria gravada em sua mente por semanas.

— Eu deveria te dizer para tomar cuidado com a cicatrização — murmurou Evan, a voz vibrando em um tom baixo que arrepiou até o último fio de cabelo da nuca de Rafhael. — Mas tudo o que eu consigo pensar agora é em como essa joia brilha quando você respira fundo.

Rafhael soltou uma risadinha anasalada, aquele som fofo e ao mesmo tempo carregado de uma confiança que Evan não sabia de onde vinha. O japonês inclinou o corpo para frente, diminuindo ainda mais o espaço, sentindo o cheiro de desinfetante e o perfume amadeirado de Evan.

— Então por que você não confere se está tudo no lugar certo? — desafiou Rafhael, seus olhos escuros fixos nos lábios do loiro. — Você é o profissional aqui, Evan. Eu sou apenas um cliente... especial.

Evan sentiu um estalo em sua mente. A palavra "especial" saiu da boca de Rafhael com um peso diferente. Ele sempre se considerou um cara prático, focado no trabalho e em manter sua imagem de "hétero" inabalável no estúdio, mas Rafhael era uma variável que ele não tinha calculado. O garoto era uma mistura perigosa: a aparência de um anjo inocente, mas com o espírito de quem sabia exatamente o poder que exercia sobre os outros.

— Você é um problema, Rafhael — disse Evan, finalmente retirando as luvas com um estalo seco, jogando-as no lixo sem desviar o olhar.

— Um problema que você adorou marcar na pele — rebateu o menor, deslizando as mãos pelos braços fortes de Evan, sentindo a textura das tatuagens que cobriam os membros do loiro. — Eu vi como sua mão tremeu.

Evan soltou um suspiro pesado, uma rendição silenciosa. Ele não aguentou mais. Avançou o pouco que faltava, colando seus lábios nos de Rafhael. Não foi um beijo calmo; foi uma colisão de vontades acumuladas. O gosto de Rafhael era doce, contrastando com o metal frio do piercing que ele havia colocado no lábio dias atrás. Evan segurou a nuca de Rafhael com firmeza, enquanto o japonês soltava um gemido abafado contra sua boca, as mãos puxando o cabelo loiro de Evan com urgência.

A porta da sala de repente rangeu.

— Ei, Evan! O café tá... opa! — A voz de Chang An ecoou pelo corredor.

Eles se separaram num sobressalto. Rafhael estava com os lábios inchados e as bochechas coradas, tentando desesperadamente recuperar o fôlego enquanto puxava sua camiseta branca para baixo, cobrindo o peito ainda sensível. Evan virou-se de costas, fingindo organizar as agulhas, mas suas orelhas estavam vermelhas como brasas.

— Chang, caralho! Não sabe bater? — rosnou Evan, sem olhar para trás.

— A porta tava encostada, cara! — Chang ria, a voz cheia de deboche. — Mal aí, "profissional". Só vim avisar que o próximo cliente chega em dez minutos. Tenta não desmaiar de tesão até lá.

Chang saiu batendo a porta, e o silêncio retornou, mas agora carregado de uma timidez que não existia antes. Rafhael terminou de se vestir, ajeitando o moletom cinza. Ele se levantou da maca, sentindo as pernas um pouco bambas.

— Acho que... eu já vou — disse Rafhael, dando um sorriso pequeno e vitorioso.

— Rafhael — Evan o chamou antes que ele saísse. O loiro se aproximou e entregou um cartão com as instruções de cuidado, mas atrás dele, havia escrito seu número pessoal com uma caneta preta. — Me manda mensagem. Para saber da cicatrização. De verdade.

— Pode deixar, tatuador — piscou Rafhael, saindo do estúdio com um rebolado que fez Evan ter que se sentar para se acalmar.

Do lado de fora, o sol da tarde batia no rosto de Rafhael. Ele pegou o celular e viu uma enxurrada de mensagens no grupo. Bernardo e Nadam estavam em uma cafeteria próxima e exigiam atualizações.

Ao chegar no local, ele encontrou os dois sentados em uma mesa de canto. Bernardo, ao ver o amigo, quase derrubou o frappuccino.

— Meu Deus, você está com cara de quem foi atropelado por um caminhão de luxo! — exclamou Bernardo, puxando Rafhael para sentar. — E aí? Cadê? Furou mesmo?

Rafhael deu um sorriso de lado, exibindo o piercing no lábio que já parecia fazer parte dele.

— Furei. E dói pra caramba, mas valeu cada segundo — disse ele, baixando a voz. — Gente, o Evan... ele é muito mais do que "gostoso". O cara é um absurdo.

— Conta tudo! — Nadam se inclinou para frente, os olhos brilhando. — Ele foi profissional ou rolou alguma coisa?

— Digamos que a sessão de cuidados pós-furo foi bem... intensa — Rafhael mordeu o lábio, sentindo o metal contra a pele. — Ele me beijou, Bê. E não foi um selinho não. Foi o tipo de beijo que faz você esquecer até o seu próprio nome.

— Eu sabia! — Bernardo bateu na mesa. — Eu falei pro Chang que aquele loiro ia cair facinho na sua rede. O Evan se faz de durão, de hétero top das galáxias, mas ele estava secando você desde o primeiro dia.

— Ele é forte, né? — perguntou Nadam, curiosa.

— Vocês não têm noção — Rafhael suspirou, lembrando-se da sensação das mãos de Evan em sua cintura. — Ele tem aqueles braços todos tatuados, uma pegada firme... mas ao mesmo tempo, ele parecia estar com medo de me quebrar. Ele é fofo, do jeito dele. Meio bruto, mas fofo.

— E agora? Vai rolar segundo round? — Bernardo arqueou a sobrancelha.

Rafhael tirou o cartão do bolso e mostrou o número escrito atrás.

— Ele quer que eu "mande notícias". E eu pretendo mandar muitas notícias. Acho que vou precisar de muitos cuidados especiais com esse piercing no peito.

— No peito?! — Bernardo e Nadam gritaram em coro, atraindo olhares de outras mesas.

— Você é muito safado, Rafhael! — Bernardo ria alto. — Usar um piercing estratégico pra seduzir o tatuador... você não vale nada.

— Eu só estou aproveitando as oportunidades da vida — Rafhael deu de ombros, vitorioso. — E além do mais, ele que se ofereceu para não cobrar. Quem sou eu para recusar um presente desses?

Enquanto os amigos riam e fofocavam sobre os próximos passos daquela conquista, o celular de Rafhael vibrou.

"Esqueci de dizer: o piercing ficou lindo em você. Mas eu prefiro sem a camiseta. — Evan."

Rafhael sorriu para a tela, sentindo o coração disparar. Ele sabia que aquele era apenas o começo de um jogo onde ninguém sairia ileso, e ele mal podia esperar para a próxima rodada.

— Gente — disse Rafhael, guardando o celular e olhando para os amigos com um brilho malicioso nos olhos. — Acho que o Evan não vai ser "hétero" por muito mais tempo.

— O amor é lindo — debochou Bernardo. — E o desejo por um tatuador loiro é mais lindo ainda.

Eles continuaram ali, entre risadas e planos, enquanto do outro lado da rua, no estúdio, Evan tentava se concentrar em um desenho de uma fênix, mas tudo o que conseguia desenhar eram as curvas delicadas de um certo japonês que havia acabado de virar seu mundo de cabeça para baixo.

Evan sabia que Chang An não pararia de enchê-lo o saco, e que sua reputação de "pegador de garotas" estava seriamente ameaçada. Mas, ao olhar para a cadeira onde Rafhael estivera sentado, ele sentiu um frio na barriga que nenhuma mulher jamais causara. Era um desejo possessivo, uma vontade de marcar Rafhael não apenas com agulhas e tinta, mas com algo muito mais profundo.

Ele pegou o celular e apagou a foto que Rafhael tinha mandado mais cedo. Não porque não gostasse, mas porque não queria que ninguém mais visse. Aquela imagem, aquela pele, aquele brilho no olhar... aquilo agora era propriedade exclusiva de sua memória.

Ou, se ele tivesse sorte, seria algo que ele veria ao vivo todas as noites a partir de agora.

— É, Chang... — murmurou Evan para si mesmo, enquanto o amigo passava assobiando pela sala. — Eu acho que estou bem ferrado.

— Ferrado e feliz, né, seu loiro burro? — Chang gritou da recepção. — Dá pra ver o seu sorriso daqui!

Evan não respondeu. Ele apenas sorriu, o pensamento fixo no próximo encontro, onde as agulhas seriam deixadas de lado e apenas o toque de pele na pele importaria. Rafhael era doce, safado e perigosamente lindo; e Evan estava mais do que pronto para se perder naquela perdição.