The Summer love
O Peso do Metal e o Calor da Pele
O sol começava a se pôr, tingindo as ruas de um laranja melancólico que contrastava com a euforia que borbulhava no peito de Rafhael. Ele caminhava ao lado de Bernardo e Nadam, sentindo o atrito leve da camiseta contra o novo piercing no mamilo. Era uma sensação constante, um lembrete físico de que, apenas uma hora atrás, ele estava sob o domínio das mãos firmes de Evan.
— Eu ainda não consigo acreditar que você teve coragem — comentou Nadam, ajeitando a alça da bolsa enquanto entravam em uma sorveteria próxima ao estúdio. — Você, que chorava para tomar vacina na escola, agora está todo furado por causa de um loiro tatuado.
Rafhael soltou uma risada, sentindo o lábio repuxar levemente por causa da joia.
— O medo de agulha some quando o aplicador é aquele monumento, Nadam. Vocês viram o braço dele? Quando ele segurou a pinça, os músculos do antebraço saltaram de um jeito... — Ele fez uma pausa dramática, abanando o rosto com a mão. — Eu quase pedi para ele furar o outro lado só para ele não soltar o meu peito.
Bernardo, que conhecia Rafhael desde a infância, deu um empurrão de leve no ombro do amigo.
— Você é muito descarado, Rafa! O pobre do Evan não teve a menor chance. O Chang me mandou uma mensagem agora pouco dizendo que o Evan está "em estado de choque" no estúdio, encarando a parede.
— Ele ficou mexido, Bê — disse Rafhael, o brilho nos olhos denunciando sua satisfação. — No começo, ele tentou manter aquela pose de "sou apenas o profissional fazendo o meu trabalho", mas quando eu tirei a camisa... a respiração dele mudou. O ar na sala ficou tão pesado que dava para cortar com uma faca.
— E o beijo? — Nadam perguntou, inclinando-se sobre a mesa de mármore da sorveteria, ignorando o cardápio. — Foi técnico ou teve sentimento?
Rafhael suspirou, lembrando-se da textura dos lábios de Evan.
— Foi... urgente. Como se ele estivesse segurando aquilo há muito tempo. E o gosto? Tinha gosto de menta e de algo proibido. Ele me segurou como se eu fosse a coisa mais preciosa e, ao mesmo tempo, a mais irritante do mundo dele. Ele sabe que eu estou brincando com ele, e acho que é isso que o deixa tão louco.
— O Evan sempre foi meio "na dele" — comentou Bernardo, pensativo. — O Chang diz que ele raramente se envolve com clientes, ainda mais do jeito que foi com você. Ele tem essa fama de ser o hétero cobiçado do bairro, mas você quebrou essa barreira em tempo recorde.
— Ele não é hétero — afirmou Rafhael com uma convicção absoluta. — Ninguém que olha para outro homem daquele jeito pode ser considerado hétero. Ele pode até não ter percebido ainda, ou estar tentando lutar contra isso, mas o corpo dele não mente. O jeito que ele tremeu quando eu encostei no braço dele... aquilo foi desejo puro.
Enquanto os três conversavam, o celular de Rafhael, que estava sobre a mesa, iluminou-se. Uma nova notificação do Instagram.
— Falando no diabo... — murmurou Bernardo, espiando a tela.
Era uma solicitação de mensagem. Rafhael abriu rapidamente. Era Evan.
"Você chegou bem em casa? Não esquece de passar a pomada que eu te dei. Se inflamar, a culpa vai ser da sua teimosia."
Rafhael sorriu, os dedos voando pelo teclado.
— Olha só como ele é protetor — disse Rafhael para os amigos, antes de digitar: "Cheguei sim, doutor. Mas está ardendo um pouco... acho que vou precisar de uma inspeção técnica amanhã. O que você acha?"
— Você não presta, Rafhael! — Nadam riu, balançando a cabeça. — Você vai matar o homem de um infarto antes do segundo encontro.
— Ele aguenta — respondeu o japonês, guardando o aparelho. — Ele é forte, lembra?
Enquanto isso, no estúdio "Ancorados", o clima era bem diferente. Evan estava sentado em sua banqueta giratória, limpando sua máquina de tatuar com uma obsessão desnecessária. Ele já havia passado o mesmo pano três vezes no mesmo lugar.
Chang An, que estava terminando de organizar a recepção, encostou-se no batente da porta, observando o amigo com um sorriso de canto.
— Se você limpar mais essa máquina, ela vai desintegrar, Evan.
Evan não levantou o olhar.
— Só estou garantindo a higiene, Chang. O movimento foi grande hoje.
— O movimento foi grande ou o "volume" do Rafhael foi grande demais para a sua cabeça processar? — Chang cruzou os braços. — Cara, eu te conheço há anos. Você está com aquela cara de quem descobriu que a terra é redonda e está tentando entender como não caiu dela ainda.
— Ele é só um garoto, Chang — murmurou Evan, finalmente parando de esfregar a máquina. — Um garoto japonês, fofo, que sabe exatamente como me tirar do sério. Eu nunca... eu nunca senti essa pressão no peito antes. Quando eu estava furando ele, eu só conseguia pensar em como a pele dele era macia. E o cheiro dele? Porra, o cheiro dele está grudado na minha luva, na minha roupa, em tudo.
— E o beijo? — Chang deu um passo para dentro da sala. — Eu vi vocês dois. Não tenta negar.
Evan passou a mão pelo cabelo loiro, bagunçando os fios com frustração.
— Foi um erro. Ou talvez não. Eu não sei. Eu sempre achei que sabia do que gostava, mas aí ele chega com aquele sorriso, com aquele jeito de quem quer aprontar, e eu simplesmente perco o controle. Ele me mandou uma mensagem agora... ele quer que eu "inspecione" o piercing amanhã.
— E você vai, não vai? — Chang riu.
— Vou — admitiu Evan, a voz falhando levemente. — Eu não consigo dizer não para aquele rostinho. Ele é... ele é covardia, Chang. Ele sabe que é gostoso, sabe que é lindo, e usa isso como se fosse uma arma.
— Bem-vindo ao clube dos rendidos, meu amigo — disse Chang, dando um tapa nas costas de Evan. — Só toma cuidado. O Rafhael parece ser o tipo de garoto que consome a gente por inteiro. Se você entrar nesse jogo, não vai sair o mesmo homem.
Evan olhou para o próprio reflexo no espelho da sala. Ele sempre se orgulhou de sua força e de sua postura inabalável. Mas, ao pensar em Rafhael, ele se sentia vulnerável de uma forma que o assustava e, ao mesmo tempo, o excitava profundamente.
— Eu já não sou o mesmo homem desde que ele entrou por aquela porta pela primeira vez — confessou Evan em voz baixa.
No dia seguinte, o encontro estava marcado para o final do expediente. Rafhael passou a tarde se preparando. Escolheu uma camisa de botões de seda preta, levemente transparente, que deixava entrever o brilho da joia no mamilo e a brancura de sua pele. Ele sabia exatamente o que estava fazendo.
Quando chegou ao estúdio, as luzes da recepção já estavam apagadas, mas ele viu o brilho vindo da sala de Evan nos fundos. Ele entrou sem bater, seus passos silenciosos sobre o piso de madeira.
Evan estava de costas, organizando alguns desenhos. Ele usava uma regata preta que deixava seus braços musculosos e tatuados totalmente à mostra.
— O paciente chegou para a consulta — disse Rafhael, a voz suave e carregada de segundas intenções.
Evan virou-se lentamente. Seus olhos percorreram Rafhael de cima a baixo, detendo-se nos botões da camisa de seda.
— Você está adiantado — notou Evan, sua voz soando mais rouca do que o normal.
— Eu não queria deixar você esperando — respondeu Rafhael, aproximando-se até ficar a poucos centímetros do loiro. — E então? Vai examinar ou vai ficar só olhando?
Evan engoliu em seco. Ele estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o tecido da camisa de Rafhael.
— Você é perigoso, sabia? — sussurrou Evan.
— Só se você me deixar ser — provocou o japonês, começando a desabotoar a camisa, um por um.
À medida que a pele de Rafhael era revelada, a determinação de Evan de manter as coisas "profissionais" desaparecia completamente. Ele tocou a lateral do corpo de Rafhael, sentindo o calor que emanava dele.
— Está um pouco vermelho — comentou Evan, tentando focar no piercing, embora seus olhos estivessem fixos na expressão de prazer que cruzava o rosto de Rafhael.
— Talvez você precise cuidar melhor disso — disse Rafhael, segurando o rosto de Evan com as duas mãos, obrigando-o a olhar em seus olhos. — Você me quer, Evan. Admite. Para de lutar contra isso.
Evan fechou os olhos por um segundo, sentindo o perfume de Rafhael invadir seus sentidos.
— Eu quero — admitiu ele, finalmente quebrando. — Eu quero tanto que chega a doer.
Ele puxou Rafhael para um beijo profundo, desta vez sem interrupções de Chang An ou de qualquer outra pessoa. Suas mãos percorreram as costas de Rafhael, puxando-o para mais perto, enquanto o japonês soltava um som de satisfação, envolvendo as pernas na cintura de Evan conforme ele o levantava e o colocava sobre a maca de tatuagem.
Ali, entre as tintas e as agulhas, o "hétero" loiro e o japonês fofo descobriram que algumas marcas são muito mais permanentes do que furos na pele. Rafhael sentia o coração de Evan batendo contra o seu, um ritmo frenético que espelhava o seu próprio desejo.
— Você é meu, Rafhael — murmurou Evan entre os beijos, a possessividade transbordando em sua voz.
— Eu sou de quem tem coragem de me marcar — respondeu Rafhael, sorrindo contra os lábios de Evan. — E você, Evan... você tem muita coragem.
A noite estava apenas começando, e as agulhas seriam a última coisa em que qualquer um dos dois pensaria naquela sala. O desejo, agora livre de amarras, consumia ambos, transformando o estúdio de tatuagem no cenário de uma descoberta que mudaria suas vidas para sempre. Rafhael sabia que tinha conseguido o que queria, e Evan sabia que, dali em diante, seu mundo giraria em torno daquele pequeno e safado japonês que o fizera questionar tudo o que acreditava ser verdade sobre si mesmo.