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Theo new girl

Entre Rumores e Destinos Traçados

A segunda-feira de manhã na escola 3-B sempre teve um cheiro de café barato e desânimo, mas para Sua, aquele dia parecia carregar o peso de um segredo de estado. Cada passo que ela dava pelo corredor de linóleo parecia ecoar de uma forma estranha. Havia uma rigidez em seus quadris, um desconforto residual que a fazia caminhar de um jeito ligeiramente travado, uma lembrança física e vívida da intensidade de Mizi durante o fim de semana.

Quando ela entrou na sala, o grupo já estava lá. Ivan estava debruçado sobre a mesa de Till, provavelmente tentando irritá-lo, enquanto Hyuna e Luka conversavam perto da janela. Mizi, como sempre, era o centro das atenções, sentada de lado em sua cadeira, rindo de algo.

— Bom dia, estrela — disse Mizi, os olhos amarelos brilhando com um conhecimento travesso assim que viu Sua entrar.

Sua tentou retribuir o sorriso, mas sentiu o rosto esquentar instantaneamente. Ela caminhou até seu lugar, sentando-se com uma lentidão cautelosa que não passou despercebida pelos olhos de águia de Hyuna.

— Credo, Sua, você tá bem? — Hyuna perguntou, aproximando-se e cruzando os braços. — Tá andando igual a um pinguim com reumatismo. O que aconteceu? Caiu da escada?

— Eu... eu só estou um pouco cansada — gaguejou Sua, evitando olhar para o irmão.

Ivan parou de implicar com Till e estreitou os olhos pretos, observando a irmã com uma desconfiança perigosa.

— Você sumiu o fim de semana todo — resmungou Ivan. — Disse que ia "estudar" na casa da novata. Pelo jeito, o estudo foi pesado, né? Tá toda torta.

Mizi soltou uma risadinha anasalada, inclinando-se para trás na cadeira com uma confiança que beirava a insolência.

— Ah, foi pesadíssimo, Ivan — interveio Mizi, lançando um olhar de soslaio para Sua. — A gente revisou tanta matéria que a Sua acabou ficando exausta. Eu sou uma tutora muito exigente, sabe como é.

Till, que até então estava em silêncio, olhou de Mizi para Sua e depois para o chão, com as orelhas ligeiramente vermelhas. Ele não era burro. Luka, por outro lado, apenas ajustou os óculos.

— A fadiga muscular após períodos prolongados de estresse é comum — comentou Luka de forma pragmática —, embora a biomecânica da sua marcha sugira uma tensão específica na região pélvica.

— Luka, pelo amor de Deus, cala a boca! — Sua exclamou, escondendo o rosto nas mãos.

O que elas não perceberam foi que um garoto do fundo da sala, um fofoqueiro de plantão que sempre buscava motivos para derrubar a aura de "perfeição" de Mizi, estava ouvindo tudo. No intervalo, a faísca que Mizi jogou por diversão transformou-se em um incêndio florestal.

Quando chegaram ao refeitório, o clima era diferente. O burburinho era constante. Cabeças se viravam, dedos apontavam.

— Você ouviu? — sussurrou uma garota de outra turma. — A Mizi, aquela de cabelo rosa que todo mundo queria pegar? Ela e a irmã esquisita do Ivan... elas fizeram.

— Mentira! A Mizi é bonita demais pra ser lésbica, deve ser boato — respondeu outra.

Sua sentiu vontade de desaparecer. Ela se encolheu na cadeira do refeitório, tentando se tornar invisível, mas Mizi parecia estar adorando o caos. Quando Lexy, a popular "garota da neve", passou pela mesa com um olhar de puro veneno e choque, Mizi não apenas sustentou o olhar, como passou o braço pelo pescoço de Sua de forma possessiva.

— Mizi, todo mundo está olhando... — sussurrou Sua, a voz trêmula. — Estão falando da gente. Estão dizendo que... que a gente transou.

Mizi deu de ombros, pegando uma maçã da bandeja de Sua.

— E eles estão errados? — perguntou Mizi em voz alta, fazendo a mesa inteira (e as três mesas ao redor) mergulhar em um silêncio absoluto. — Galera, me poupem. Sim, a gente ficou. Sim, foi incrível. E sim, a Sua é minha namorada agora, então se alguém tiver algum problema, pode vir falar comigo.

Ivan quase engasgou com o suco. Till ficou estático. Hyuna soltou um assobio longo e animado.

— Caraca, Mizi! — Hyuna riu, batendo na mesa. — Você não tem filtro mesmo, né?

— Pra quê? — Mizi piscou para Sua, que agora estava mais vermelha que um morango. — Eu não escondo o que é bom.

Daquele dia em diante, o "hétero de fachada" de Mizi caiu por terra definitivamente. Ela se tornou a namorada mais dedicada — e exibicionista — que a escola já vira. Ela andava de mãos dadas com Sua pelos corredores, dava selinhos rápidos entre as aulas e, às vezes, quando o corredor estava mais vazio, encostava Sua contra os armários para beijos mais famintos que deixavam a garota pálida sem pernas.

Dois meses depois, durante o baile de formatura, Mizi oficializou tudo com um anel de promessa e um pedido de namoro que parou o ginásio. Ela era o fogo que Sua precisava para derreter seu gelo melancólico.

***

Os anos passaram como as páginas de um livro bem escrito. O futuro, que antes parecia um borrão incerto para o grupo de amigos, tomou formas brilhantes e, por vezes, surpreendentes.

Quinze anos depois.

O sol da tarde entrava pelas janelas amplas de uma casa moderna e arejada nos arredores da cidade. O cheiro de tinta a óleo e incenso de lavanda pairava no ar. Sua estava em seu ateliê, concentrada em uma tela enorme. Seus traços, antes melancólicos e contidos, agora eram explosões de cores e texturas. Ela era uma artista plástica de renome, conhecida por capturar a alma humana em retratos vibrantes.

— Mamãe! Olha o que eu desenhei! — uma vozinha animada ecoou pelo corredor.

Maya, uma garotinha de cinco anos com cachos escuros e olhos curiosos, entrou correndo no ateliê. Ela era o tesouro que Sua e Mizi haviam adotado três anos após o casamento.

— Deixe-me ver, querida — disse Sua, largando o pincel e pegando o papel das mãos da filha. — Oh, é lindo. É a mamãe Mizi?

— Sim! Ela está na TV, então eu desenhei ela com a coroa de rainha — explicou Maya, orgulhosa.

Na sala de estar, a televisão estava ligada em um canal de notícias de entretenimento. Mizi, agora uma atriz e modelo internacionalmente aclamada, brilhava no tapete vermelho de um festival de cinema. Ela usava um vestido que parecia feito de luz, mas, ao ser entrevistada, a primeira coisa que fez foi mostrar a aliança para a câmera e mandar um beijo.

— Minha esposa e minha filha devem estar assistindo — disse a Mizi da TV, com o mesmo sorriso radiante de sempre. — Amo vocês!

A porta da frente se abriu com um estrondo familiar.

— Cheguei! O trânsito estava um inferno, mas eu trouxe pizza! — a voz de Mizi ecoou pela casa.

Maya correu para os braços da mãe, que a girou no ar antes de caminhar até o ateliê para dar um beijo profundo em Sua.

— Como foi o ensaio? — perguntou Sua, limpando uma mancha de tinta da bochecha de Mizi.

— Cansativo, mas o diretor disse que eu sou "naturalmente dramática". Acho que ele nunca me viu discutindo com o Ivan — riu Mizi. — Falando no diabo, ele e o Till vêm jantar aqui hoje.

— De novo? — Sua sorriu. — Eles não se cansam de brigar na nossa mesa?

— Agora eles brigam com classe — brincou Mizi.

Ivan havia se tornado um médico renomado, embora seu temperamento continuasse ácido. Ele e Till finalmente haviam parado de negar o que sentiam durante a faculdade. Till, agora um músico de rock com uma base de fãs sólida e alternativa, morava com Ivan em um apartamento luxuoso no centro. A relação deles ainda era feita de provocações e discussões sobre quem lavava a louça, mas o amor era inegável.

Mais tarde naquela noite, a casa estava cheia. Hyuna e Luka também haviam chegado. Luka era agora um empresário de sucesso no ramo da tecnologia, sua formalidade natural sendo perfeita para o mundo dos negócios. Hyuna, por outro lado, vivia a vida que sempre quis: viajava o mundo, praticava esportes radicais e, como ela mesma dizia, seu "trabalho" era gastar o dinheiro que Luka ganhava com tanto empenho — algo que ele nunca reclamava, pois adorava ver a esposa feliz e livre de rotinas estressantes.

— Você viu a última crítica do álbum do Till? — perguntou Ivan, servindo-se de vinho. — Disseram que as letras são "angustiantes". Eu disse pra ele que é porque ele mora comigo.

— Cala a boca, Ivan — disse Till, mas passou o braço pelos ombros do médico, puxando-o para perto. — Você sabe que escrevo as melhores músicas quando você me irrita.

Luka observava a cena com um sorriso contido, enquanto Hyuna roubava uma fatia de pizza da mão de Mizi.

— Quem diria, hein? — Hyuna comentou, olhando para o grupo reunido. — A gente no ensino médio era um desastre ambulante. E agora olha isso. Todo mundo casado, com carreira, até uma mini-Mizi correndo por aí.

Mizi olhou para Sua, que segurava a mão de Maya enquanto a pequena bocejava. O olhar que trocaram foi o mesmo de quinze anos atrás, no refeitório da escola: uma conexão que desafiava qualquer lógica e qualquer obstáculo.

— O caos é bom, Hyuna — disse Mizi, puxando Sua para mais perto. — Foi o caos que trouxe a garota mais bonita da escola para os meus braços.

— Eu ainda acho que você é convencida demais — sussurrou Sua no ouvido de Mizi.

— E eu ainda acho que você me ama exatamente por isso — rebateu Mizi, selando a conversa com um beijo.

Naquela noite, sob o teto de uma casa cheia de vida, o rosa, o azul, o preto, o cinza e o roxo não eram mais apenas cores de uniformes ou de cabelos rebeldes. Eram as cores de uma vida construída com coragem, onde o silêncio da melancolia fora substituído para sempre pela sinfonia da felicidade encontrada.