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Theo new girl

A Arte da Guerra (e da Paquera)

Dois dias haviam se passado desde que Mizi aterrissou na escola como um meteoro cor-de-rosa. O impacto inicial já tinha esfriado um pouco, mas a presença dela ainda era como um rádio ligado no volume máximo em uma sala que, até então, só conhecia o silêncio melancólico de Sua ou os resmungos de Till. Mizi já tinha decorado o caminho para a cantina, sabia qual degrau da escada fazia barulho e já tinha aprendido que, se quisesse irritar o Ivan, bastava elogiar o Till na frente dele.

Naquela manhã de quarta-feira, a aula de História parecia arrastada. O professor, um homem que parecia ter a mesma idade dos fósseis que mencionava, deu a ordem que todos esperavam para não ter que ouvir sua voz monótona:

— Abram o livro na página 142. Formem grupos de seis e respondam ao questionário sobre a Revolução Industrial. Quero para o final da aula.

Como se fosse um ensaio coreografado, as cadeiras arrastaram pelo chão de linóleo. Ivan virou sua mesa para trás, Hyuna puxou a dela para o lado, e Mizi apenas girou o corpo, já que estava estrategicamente posicionada no fundo. O grupo de sempre se fechou em um círculo torto.

Luka, com a postura impecável de quem nunca teve uma dor nas costas na vida, já estava com o caderno aberto e a caneta tinteiro em punho.

— Considerando a divisão de trabalho, eu sugiro que eu redija as respostas enquanto vocês realizam a leitura analítica dos tópicos — propôs Luka, sem tirar os olhos do papel.

— Tradução: o Luka vai fazer tudo enquanto a gente finge que ajuda — Ivan traduziu, cruzando os braços e esticando as pernas longas até quase chutar o tornozelo de Till.

— Tira o pé daí, seu idiota — Till rosnou, empurrando a perna de Ivan com o coturno.

— Gente, foco no que importa — Hyuna interrompeu, ignorando a briga diária dos dois. Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa e olhando fixamente para Mizi. — Mizi, faz dois dias. Desembucha. O que rolou com a Lexy?

Sua, que até então estava apenas rabiscando engrenagens na margem do seu livro, parou o movimento da mão. Ela não olhou para cima, mas suas orelhas pareciam atentas a cada vibração do ar.

Mizi deu de ombros, soltando uma risadinha e mexendo em uma das pontas azuis do seu cabelo.

— Ah, a garota da neve? — Mizi perguntou, referindo-se aos cílios e cabelos brancos de Lexy. — Eu salvei o número dela. Pensei em mandar um "oi", sabe? Ela é bem gata, não vou mentir.

— Eu sabia! — Hyuna exclamou, um pouco alto demais, ganhando um "shh" do professor. — Ela é o partido mais cobiçado dessa ala do prédio. Se você sair com ela, vira realeza escolar em uma semana.

— É, talvez — Mizi disse, fazendo uma careta pensativa. — Mas, sei lá. Eu sou direta, sabe? Não gosto de perder tempo. Eu ia mandar mensagem, mas decidi deixar ela no banco de reservas por enquanto.

Ivan soltou um assobio baixo, um sorriso malicioso dançando em seus lábios.

— Banco de reservas? Caramba, a novata é exigente. Então quer dizer que já tem alguém na frente da Lexy na sua lista de prioridades? — Ele arqueou uma sobrancelha, olhando de relance para Till, que parecia subitamente interessado no teto.

— Tem sim — Mizi respondeu prontamente, sem um pingo de hesitação ou vergonha. — Eu vi uma pessoa que faz mais o meu estilo. Mais... autêntica, sabe? Menos "boneca de porcelana" e mais interessante.

— Eita! — Hyuna se animou, os olhos azuis brilhando. — Quem é? A gente conhece? É de outra sala? É bonita? Conta tudo, Mizi, não mata a gente de curiosidade!

Luka parou de escrever por um segundo, ajeitando os óculos.

— Estatisticamente falando, a probabilidade de encontrarmos alguém que desperte seu interesse em apenas quarenta e oito horas nesta instituição é elevada, dado o seu comportamento extrovertido — comentou, voltando a escrever logo em seguida.

— O Luka sendo nerd até pra falar de fofoca, eu não aguento — Mizi riu, balançando a cabeça. Ela olhou para o grupo, passando os olhos por Ivan, Hyuna, Till e, finalmente, parando em Sua.

Sua sentiu o peso daquele olhar dourado. Era um olhar quente, vibrante, que parecia atravessar a barreira de melancolia que ela construía ao redor de si todos os dias. Ela apertou o lápis com mais força.

— Bom — começou Mizi, inclinando-se para o centro do círculo, baixando um pouco o tom de voz para dar um ar de segredo, embora sua confiança continuasse inabalável —, eu não sou de fazer joguinhos. Eu gosto de gente que tem um mundo próprio, sabe? Que é meio misteriosa, mas que dá vontade de desvendar cada pedacinho.

— Ih, lá vem a poeta — Ivan provocou, mas estava visivelmente curioso.

— A real é que eu achei a Sua muito bonita — Mizi disparou, curta e grossa.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que o som do giz do professor batendo no quadro negro pareceu uma explosão. Ivan, que estava prestes a fazer outra piada, ficou com a boca aberta. Hyuna arregalou os olhos. Till quase caiu da cadeira.

Sua sentiu o sangue subir para o rosto com tanta força que jurou que ia desmaiar. Ela finalmente levantou a cabeça, os olhos roxos arregalados, encontrando o sorriso aberto e sincero de Mizi.

— O quê? — Sua sussurrou, a voz falhando completamente.

— É isso aí — Mizi continuou, como se estivesse comentando sobre o clima. — Eu te achei linda no minuto que entrei na sala. E esse jeito seu, de ficar na sua, desenhando, com essa cara de quem tá vivendo um filme cult francês... é muito meu tipo. Só que, né, eu não sabia se você curtia garotas, ou se era muito fechada pra isso, então tava só observando de longe pra não ser sem noção.

— Mizi... você é maluca? — Hyuna riu, nervosa, olhando de Mizi para Sua. — Você acabou de falar isso na frente de todo mundo!

— E qual o problema? — Mizi deu de ombros, relaxada. — Todo mundo aqui é amigo, não é? E eu não falei nenhuma mentira. A Sua é uma gracinha. Se ela me desse uma chance, a Lexy ia continuar no vácuo pra sempre.

Ivan soltou uma gargalhada alta, daquelas que vinham do fundo do peito, carregada de um sarcasmo misturado com choque puro.

— Caraca! Eu não esperava por essa! — Ivan deu um tapa na mesa, ignorando o olhar mortal que Sua lançava para ele. — A novata chegou querendo roubar o coração da minha irmãzinha melancólica. Boa sorte, Mizi, você vai precisar de um mapa e uma lanterna pra achar o caminho ali dentro.

— Cala a boca, Ivan! — Sua finalmente explodiu, o rosto vermelho como um tomate. Ela fechou o caderno de desenhos com um baque surdo. — Você não sabe do que está falando.

— Eu sei o que eu vejo — Mizi rebateu suavemente, piscando para Sua. — E eu vejo uma garota incrível que eu adoraria conhecer melhor. Mas relaxa, tá? Não precisa responder agora. Só queria que você soubesse por que eu não mandei mensagem pra "etérea" do segundo ano.

Till, que estava em silêncio absoluto, parecia estar processando a informação em câmera lenta. Ele olhou para Mizi, depois para Sua, e sentiu uma mistura estranha de alívio e confusão. Alívio porque Mizi definitivamente não estava interessada nele (ou em qualquer cara), e confusão porque a dinâmica do grupo tinha acabado de sofrer um terremoto de magnitude dez.

— Isso é... inesperado — resumiu Luka, sem parar de escrever. — Porém, do ponto de vista interpessoal, a honestidade radical da Mizi pode acelerar processos que levariam meses de subentendidos e ambiguidades.

— Viu? O dicionário ambulante concorda comigo — Mizi riu, esticando-se na cadeira. — E aí, Sua? Vai me deixar no vácuo que nem a Lexy ou eu tenho um pingo de esperança?

Sua não sabia onde enfiar a cara. Ela olhou para os próprios desenhos, depois para as mãos pálidas. O frio na barriga que sentira no primeiro dia não era nada comparado ao incêndio que Mizi tinha acabado de começar em seu peito. Ela nunca tinha lidado com alguém tão... solar. Tão direta.

— Eu... eu não sei o que dizer — Sua murmurou, a voz trêmula. — Ninguém nunca... falou assim comigo.

— Sempre tem uma primeira vez pra tudo — Mizi disse, o tom de voz ficando um pouco mais doce, menos brincalhão. — E eu não tenho pressa. Só queria deixar as cartas na mesa.

Hyuna soltou um suspiro longo, como se tivesse acabado de assistir ao clímax de uma série de romance.

— Gente, eu tô chocada. Mizi, você é minha ídola. E Sua, amiga, se você não quiser, eu quero, viu? Porque essa confiança toda é de apaixonar.

— Nem brinca com isso, Hyuna, a Sua vai ter um treco — Ivan zombou, mas havia um brilho diferente em seus olhos enquanto observava a irmã. A relação deles era péssima, cheia de farpas e silêncios cortantes, mas ver Sua tão vulnerável e, ao mesmo tempo, sendo o centro das atenções de alguém tão vibrante como Mizi, era algo que ele não sabia como processar.

— Voltando ao trabalho — Till resmungou, tentando trazer alguma normalidade para a mesa, embora estivesse visivelmente desconfortável. — A gente ainda tem que entregar essa droga hoje.

— O Till tem razão — Luka disse, fechando o caderno. — Eu já terminei as quatro primeiras questões. Mizi, já que você é a nova integrante, poderia ler o próximo parágrafo para me ajudar na síntese da quinta resposta?

Mizi sorriu, pegando o livro.

— Claro, loirinho. Vamos lá. "A ascensão das máquinas e o impacto na vida operária"... blá, blá, blá.

Enquanto Mizi lia, Sua arriscou um olhar de soslaio. Mizi estava concentrada no texto, o perfil iluminado pela luz da janela, as pontas azuis do cabelo balançando levemente. Sua sentiu seu coração martelar contra as costelas. Ela sempre se sentiu cinza, uma nota triste em uma música lenta, mas Mizi... Mizi era uma explosão de cores.

E, pela primeira vez em muito tempo, Sua pensou que talvez, apenas talvez, ela não quisesse mais ser apenas cinza.

O resto da aula passou em um borrão. Ivan e Till continuaram trocando insultos em voz baixa, Hyuna tentava tirar mais informações de Mizi sobre o que ela achava de outras pessoas da escola, e Luka continuava sendo o cérebro da operação.

Quando o sinal finalmente tocou, Mizi se levantou, jogando a mochila no ombro.

— Bom, galera, vejo vocês depois. Tenho que passar na secretaria pra resolver uns negócios de transferência.

Ela começou a se afastar, mas parou e virou-se para Sua.

— Ei, artista.

Sua levantou os olhos, ainda um pouco atordoada.

— Me mostra seus desenhos depois? De verdade. Eu adoraria ver o mundo do jeito que você desenha.

Sem esperar uma resposta, Mizi piscou e saiu da sala, deixando para trás um rastro de perfume floral e um grupo de amigos que nunca mais veria a rotina escolar da mesma forma.

— É — Ivan disse, guardando o material de qualquer jeito. — O terceiro ano acabou de ficar muito mais interessante.

Sua não disse nada. Ela apenas abriu seu caderno na última página e, com traços rápidos e nervosos, começou a esboçar o contorno de um cabelo longo e bagunçado, tentando capturar a cor exata do sol nos olhos de alguém que tinha acabado de mudar seu mundo.