Theo new girl
O Reflexo no Papel e o Eco no Peito
A luz do sol de quinta-feira entrava pelas janelas da sala de aula em feixes empoeirados, iluminando o pó de giz que flutuava no ar. O professor de matemática escrevia equações complexas no quadro, o som do giz batendo na lousa criando um ritmo monótono que era o convite perfeito para o desinteresse geral.
Mizi estava sentada em sua carteira, com a bochecha apoiada na palma da mão, observando o movimento da sala. Ela não estava nem aí para o valor de X ou Y. Seus olhos amarelos, brilhantes como ouro polido, estavam fixos na nuca de Ivan, ou melhor, no que estava acontecendo um pouco mais à frente.
Ivan estava ocupado demais jogando bolinhas de papel na nuca de Till. O garoto de cabelos cinzas estava com a cabeça baixa sobre a mesa, os braços cruzados servindo de travesseiro, tentando ignorar a existência do mundo e, principalmente, a de Ivan.
— Dá pra parar, seu imbecil? — Till resmungou, sem levantar a cabeça, a voz abafada pelos braços.
— O que foi, Till? O sono tá tão pesado que não aguenta um carinho? — Ivan provocou, com aquele sorriso sarcástico que fazia qualquer um querer socá-lo, embora, no fundo, ele só quisesse a atenção do outro.
Ao lado deles, Hyuna e Luka eram os únicos que pareciam estar em dimensões diferentes. Hyuna tentava, sem sucesso, entender o que Luka explicava em sussurros rápidos.
— Não, Hyuna, a lógica é simples. Se você isolar a variável antes de aplicar o logaritmo, o resultado é uma progressão aritmética clara — Luka dizia, ajeitando os óculos com o dedo indicador, a expressão séria de quem estava discutindo o destino da humanidade.
— Luka, meu anjo, você fala grego — Hyuna suspirou, jogando a caneta sobre o caderno. — Eu só queria saber se vou passar de ano ou se vou ter que vender arte na praia.
Enquanto isso, Sua estava em seu próprio universo. Ela alternava o olhar entre o quadro e o caderno de desenho escondido sob o livro de matemática. Seus dedos pálidos moviam o grafite com uma precisão quase cirúrgica. Ela estava finalizando um esboço que vinha ocupando sua mente desde a tarde anterior. No papel, as linhas formavam um rosto familiar: cabelos longos, um olhar dourado que parecia desafiar quem o visse, e um sorriso de canto, perigoso e magnético.
Sua sentia as mãos levemente suadas. Ela nunca fora boa com palavras, mas nos traços, ela conseguia expressar o que o frio na barriga causava.
O sinal tocou, estridente, quebrando o transe de todos.
— Finalmente! — Hyuna exclamou, levantando-se e espreguiçando-se. — Luka, por favor, me leva pra biblioteca e tenta me explicar isso como se eu tivesse cinco anos.
— Eu farei o possível, embora a simplificação excessiva possa comprometer o rigor acadêmico — Luka respondeu, já guardando seus livros de forma milimétrica.
Till levantou-se num pulo, querendo sair dali antes que Ivan abrisse a boca, mas o moreno foi mais rápido, seguindo-o como uma sombra irritante.
— Aonde vai com tanta pressa, estressadinho? O banheiro é pro outro lado — Ivan disse, passando o braço pelo pescoço de Till, que tentou se desvencilhar com um rosnado.
Mizi observou o grupo se dispersar. Ela viu Sua fechar o caderno com pressa e caminhar em direção ao pátio, com a cabeça baixa e os ombros levemente encolhidos. Mizi sorriu. Era a chance que ela queria.
O pátio estava movimentado, mas Sua encontrou seu refúgio habitual: um banco de pedra afastado, sob a sombra de uma árvore cujas folhas começavam a ganhar tons de outono. Ela se sentou, abraçando o caderno contra o peito, respirando o ar fresco para tentar acalmar o coração que insistia em bater fora de ritmo.
— Esse lugar é bom, né? Dá pra ver todo mundo sem ser vista.
Sua deu um pequeno pulo, o coração quase saindo pela boca. Mizi estava ali, em pé, com as mãos nos bolsos e aquele sorriso que parecia iluminar até as sombras mais profundas da melancolia de Sua.
— Posso? — Mizi apontou para o espaço vazio no banco.
— Pode... claro — Sua murmurou, afastando-se um pouco para dar espaço.
Mizi sentou-se, esticando as pernas e jogando a cabeça para trás, olhando para a copa da árvore.
— O Ivan é um pé no saco, né? — Mizi começou, rindo baixo. — Eu vi ele irritando o Till na aula. Às vezes eu acho que ele faz aquilo só pra não ter que admitir que gosta do cara.
— Eles são complicados — Sua respondeu, a voz baixa. — O Ivan não sabe lidar com o que sente. Ele acha que ser agressivo é mais seguro do que ser honesto.
— É, tem muita gente assim por aí — Mizi virou o rosto para olhar para Sua. O sol passava entre as folhas, criando pontos de luz nos olhos dourados de Mizi. — Mas e você? Você parece ser o oposto. Parece que sente tudo de uma vez e guarda num potinho.
Sua sentiu o rosto esquentar. Ela apertou o caderno com mais força.
— Eu não sou muito boa falando.
— Eu sei. Por isso que eu fiquei curiosa com o que você disse ontem — Mizi inclinou-se um pouco mais para perto, o cheiro de chiclete de morango e algo fresco emanando dela. — Sobre os seus desenhos. Você disse que eu podia ver, lembra?
Sua hesitou. Seus desenhos eram sua alma exposta. Eram seus segredos, seus medos e suas admirações silenciosas. Mas havia algo no olhar de Mizi que passava segurança, uma aceitação que Sua raramente encontrava, especialmente dentro de casa, onde o clima com Ivan era sempre tenso.
— Tudo bem — Sua disse, entregando o caderno com mãos ligeiramente trêmulas. — Mas não repara... são só estudos.
Mizi pegou o caderno como se fosse um tesouro. Ela começou a folhear devagar, com um respeito que surpreendeu Sua.
— Caraca, Sua... isso aqui é incrível — Mizi comentou, os olhos brilhando enquanto passava por desenhos de paisagens urbanas melancólicas, detalhes de mãos, e esboços de Hyuna rindo. — Você tem um talento absurdo. É como se você visse coisas que ninguém mais vê.
Sua observava a expressão de Mizi, sentindo uma mistura de orgulho e ansiedade. Mizi continuou passando as páginas, comentando sobre a luz e as sombras, até que o silêncio se tornou abrupto.
Mizi parou em uma página específica.
Sua sentiu o sangue congelar nas veias. Ela tinha esquecido. Na pressa de sair da sala, ela simplesmente fechou o caderno, esquecendo que o último desenho, aquele que ela tinha terminado minutos atrás, era o retrato de Mizi.
No papel, Mizi não era apenas a garota nova e descolada. Ela era etérea. Sua tinha capturado a intensidade do olhar dourado, a curvatura perfeita do sorriso "perigoso" e a maneira como o cabelo rosa e azul parecia ter vida própria. Era um desenho carregado de uma admiração que beirava o devocional.
Mizi ficou em silêncio por longos segundos, os olhos fixos na imagem. Sua sentiu vontade de sumir, de correr até o armário e se trancar lá dentro até o fim do ensino médio.
— Você me desenhou — Mizi disse, a voz num tom diferente, mais baixo, quase um sussurro.
— Eu... eu estava praticando rostos — Sua começou a justificar, a voz saindo atropelada. — E você tem traços muito marcantes, então eu achei que seria um bom exercício... desculpa, eu devia ter pedido permissão, eu não queria ser estranha...
Mizi fechou o caderno devagar, mas não o devolveu. Ela se virou completamente para Sua, aproximando-se o suficiente para que seus joelhos se tocassem.
— Estranha? — Mizi riu, mas não era uma risada de deboche. Era uma risada de quem estava genuinamente encantada. — Sua, ninguém nunca me viu desse jeito.
— Desse jeito como? — perguntou Sua, quase sem fôlego.
— Com tanto carinho — Mizi estendeu a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua personalidade vibrante, afastou uma mecha do cabelo preto de Sua que caía sobre os olhos roxos. — No desenho, eu pareço alguém... especial. Alguém que vale a pena olhar por muito tempo.
Sua sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, uma reação emocional que ela não conseguiu controlar.
— Porque você é — Sua confessou, a voz mal saindo da garganta. — Desde que você entrou naquela sala, tudo pareceu ter mais cor. Eu não sabia como lidar com isso, então eu só... desenhei.
Mizi sorriu, e desta vez não era o sorriso de quem ia aprontar uma pegadinha com o Ivan. Era um sorriso doce, aberto, que fez o coração de Sua dar um solavanco.
— Sabe o que eu acho? — Mizi perguntou, aproximando o rosto do de Sua. — Eu acho que a Lexy não tem a menor chance. Porque nenhuma mensagem de texto ou convite pra sair chega perto do jeito que você me olha através desse lápis.
Sua sentiu o mundo ao redor desaparecer. O barulho dos outros alunos, o vento nas árvores, as preocupações com o irmão ou com as notas... tudo sumiu. Só existia o dourado dos olhos de Mizi e a sensação de que, pela primeira vez, ela não estava sozinha em sua melancolia.
— Você realmente gostou? — Sua perguntou, ainda insegura.
— Eu amei — Mizi respondeu, e antes que Sua pudesse dizer mais nada, Mizi depositou um beijo rápido e suave na bochecha dela, logo acima da maçã do rosto que estava em chamas. — Mas agora eu quero ver o resto. Me conta o que você estava sentindo quando desenhou essa sombra aqui.
Mizi abriu o caderno novamente, colocando-o sobre os joelhos das duas, unindo-as naquele pequeno espaço de pedra. E ali, no pátio da escola, entre fofocas e equações de matemática, Sua começou a falar. Ela falou sobre as cores que via em Mizi, sobre como o rosa do cabelo dela parecia um pôr do sol e como o azul das pontas lembrava o mar profundo.
Mizi ouvia tudo com uma atenção absoluta, ocasionalmente fazendo uma piada para descontrair, mas nunca desviando o olhar de Sua por muito tempo.
Longe dali, na biblioteca, Luka observava Hyuna tentar resolver uma conta, enquanto sua mente divagava sobre como as relações humanas eram imprevisíveis. No banheiro, os gritos de Till mandando Ivan "ir para o inferno" ecoavam pelas paredes de azulejo, um ciclo sem fim de negação e provocação.
Mas ali, sob a árvore, o tempo parecia ter parado.
— Ei, Sua — Mizi chamou, quando o sinal para a próxima aula estava prestes a tocar.
— Oi?
— Amanhã, depois da aula... você quer ir na minha casa? — Mizi perguntou, coçando a nuca, um pouco de timidez aparecendo pela primeira vez. — Meus pais... bom, eu moro sozinha, então é tranquilo. A gente pode comer pizza e você pode me ensinar a desenhar. Ou só ficar lá. Sem o Ivan pra encher o saco.
Sua sentiu uma onda de felicidade tão intensa que sentiu que poderia flutuar.
— Eu adoraria.
Mizi levantou-se e estendeu a mão para ajudar Sua a levantar. Quando as mãos se tocaram, um choque elétrico percorreu o braço de ambas. Elas caminharam de volta para o prédio principal, lado a lado.
Mizi ainda carregava o caderno de Sua, recusando-se a devolvê-lo até chegarem na porta da sala.
— Te entrego na saída — Mizi piscou. — Quero olhar mais um pouco praquela garota bonita que você desenhou. Acho que estou começando a gostar muito dela.
Sua sorriu, um sorriso verdadeiro que iluminou seu rosto pálido.
— Eu também gosto dela — Sua sussurrou, entrando na sala.
O terceiro ano estava apenas começando, e as equações de matemática continuariam difíceis, mas para Sua, o mundo não era mais apenas uma sucessão de tons de cinza e silêncios melancólicos. Tinha rosa, tinha azul e, acima de tudo, tinha o dourado mais brilhante que ela já vira. E aquele desenho, escondido entre páginas de álgebra, era apenas o primeiro traço de uma história que as duas estavam começando a pintar juntas.