Time bomb
O Veneno sob a Pele
Do lado de fora da cortina, Ekko ainda estava paralisado, sentindo o peso do silêncio que se seguiu aos soluços de Jinx. No entanto, a calmaria foi interrompida pelo som de passos firmes da enfermeira retornando ao leito.
— Jinx, querida, eu já preenchi o relatório — disse a enfermeira, sua voz profissional, mas carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — Como houve perda de consciência, as normas do colégio são claras. Eu acabei de ligar para a sua mãe. Ela está vindo buscar você.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um arquejo agudo, um som de puro terror que fez os pelos do braço de Ekko se arrepiarem.
— Não! — A voz de Jinx saiu rasgada, aguda, desprovida de qualquer traço daquela indiferença que ela ostentava nos corredores. — Por favor, não precisa. Eu estou bem, eu já acordei. Foi só o calor, ou a bola... eu juro que estou bem! Não liga para ela!
— Sinto muito, mas é o protocolo — respondeu a enfermeira, indiferente ao pânico crescente na voz da menina. — Você não tem condições de voltar para a aula e nem de ir para casa sozinha. Vou terminar de organizar sua ficha na recepção. Lux, você pode ficar com ela mais alguns minutos?
— Claro, eu cuido dela — respondeu Lux, sua voz doce agora tingida de uma profunda preocupação.
Assim que a enfermeira saiu, o choro de Jinx intensificou-se, transformando-se em algo histérico. Ekko, ainda escondido atrás da porta entreaberta, sentiu o estômago revirar. Ele nunca a tinha ouvido assim. Nem quando eram crianças e ela caía e ralava os joelhos.
— Ela vai me matar, Lux... ela vai me matar — Jinx repetia, as palavras saindo entrecortadas por respirações erráticas.
— Shhh, não diga isso, Jinx — Lux tentava acalmá-la, e Ekko podia imaginar a garota loira abraçando os ombros magros de Jinx. — É a sua mãe. Ela vai ficar preocupada, só isso. Ela vai te levar para casa para você descansar.
— Você não entende... — soluçou Jinx. — Você não conhece ela.
Ekko apertou os punhos. Ele se lembrava vagamente da mãe de Jinx, uma mulher que sempre pareceu elegante e impecável nas reuniões de pais, o oposto completo do caos que Jinx se tornara. Para o mundo, ela era uma mãe exemplar. Mas o terror na voz de sua antiga amiga sugeria uma realidade que ninguém em Piltover ousava imaginar.
Cerca de vinte minutos depois, o som de saltos altos ecoou pelo corredor. Era um ritmo constante, gélido e preciso. Ekko se encolheu nas sombras de um armário próximo quando a porta da enfermaria se abriu novamente.
Uma mulher alta, com cabelos presos em um coque perfeito e um vestido que exalava sofisticação, entrou na sala. O rosto dela era uma máscara de preocupação maternal quando viu a enfermeira.
— Oh, meu Deus! Onde está minha pequena? — a voz dela era melodiosa, cheia de uma doçura que parecia quase ensaiada. — Disseram que ela desmaiou. Eu vim o mais rápido que pude!
— Ela está logo ali, senhora — indicou a enfermeira, visivelmente impressionada com a "devoção" da mãe.
Ekko viu, através da fresta, o momento em que a mulher afastou a cortina. Jinx estava sentada na beira da maca, encolhida, os olhos vermelhos e inchados. No momento em que seus olhos encontraram os da mãe, ela pareceu murchar, tornando-se ainda menor do que já era.
— Minha querida Powder... — a mãe disse, usando o nome que Jinx tanto tentava esquecer, enquanto a envolvia em um abraço que parecia apertado demais. — Que susto você me deu. Vamos para casa, sim? Mamãe vai cuidar de tudo.
Lux observava a cena, parecendo aliviada por ver Jinx "em boas mãos", mas Jinx não retribuiu o olhar da amiga. Ela apenas se levantou, as pernas ainda trêmulas, e seguiu a mãe como um animal sendo levado ao abate.
Assim que cruzaram o limiar da escola e entraram no carro luxuoso, a máscara caiu.
O silêncio dentro do veículo era sufocante. Jinx mantinha as mãos unidas no colo, as unhas coloridas cravando-se na própria pele. Ela não ousava olhar para o lado.
— Desmaiar na frente de todos, Powder? — a voz da mãe não era mais doce. Era uma lâmina afiada, fria e precisa. — Você tem ideia da vergonha que me faz passar? Ter que sair do meu compromisso porque minha filha resolveu dar um espetáculo de fraqueza no meio da quadra?
— Eu... eu não me senti bem... — Jinx tentou dizer, sua voz falhando.
— Cale a boca — a mulher ordenou, sem alterar o tom de voz, mantendo os olhos fixos na estrada. — Você é patética. Sempre chamando atenção da maneira errada. Espere até chegarmos em casa.
O trajeto pareceu durar uma eternidade. Quando finalmente entraram na residência impecável, a mãe de Jinx a empurrou levemente em direção às escadas.
— Para o seu quarto. Agora.
Jinx obedeceu, o coração martelando contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela entrou no quarto e sentou-se na beira da cama, os olhos fixos no tapete caro. Segundos depois, a porta se abriu e a mãe entrou, fechando-a com um clique sinistro.
— Tire o casaco — ordenou a mulher, caminhando até a cômoda.
— Mãe, por favor... foi o menino, ele jogou a bola com força... — Jinx começou a chorar novamente, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido.
— Eu disse para tirar o casaco! — o grito súbito fez Jinx sobressaltar-se.
Com as mãos trêmulas, ela removeu o casaco oversized que era seu único escudo contra o mundo. Ficou apenas com a camiseta de educação física, sentindo o frio do quarto arrepiar sua pele.
A mãe abriu a gaveta superior da cômoda e retirou um cinto de couro escuro. O som do metal da fivela batendo contra o couro ecoou no quarto como um tiro.
— Você precisa aprender a ser forte — disse a mulher, aproximando-se com uma calma aterrorizante. — Se você não consegue nem aguentar uma brincadeira de escola sem desfalecer, eu terei que ensinar seu corpo a resistir à dor.
O primeiro golpe atingiu as costas de Jinx com uma força brutal, jogando-a para fora da cama. Ela soltou um grito abafado, caindo de joelhos no chão.
— Levanta! — a mãe sibilou.
Jinx não conseguia. Ela apenas se encolheu em posição fetal, tentando proteger o rosto enquanto os golpes continuavam a cair. Cada chicotada do cinto deixava uma marca ardente, uma linha de fogo que atravessava sua pele branca. Ela soluçava, pedindo perdão por crimes que não entendia, por uma culpa que não era sua.
— Você é minha bonequinha, Powder — a mãe dizia entre um golpe e outro, sua respiração ficando pesada pelo esforço. — E bonecas estragadas precisam ser consertadas.
Depois de alguns minutos que pareceram horas, a agressão parou. O silêncio voltou a reinar, quebrado apenas pelos soluços convulsivos de Jinx no chão.
Subitamente, a atmosfera mudou. A mãe de Jinx ajoelhou-se ao lado dela, o rosto transfigurado novamente em uma expressão de ternura infinita. Ela jogou o cinto de lado e passou as mãos suavemente pelos cabelos azuis da filha.
— Oh, minha pequena... olha o que você me obrigou a fazer — ela murmurou, a voz transbordando de um amor doentio. — Dói em mim mais do que em você, sabia?
Ela inclinou-se e beijou a testa de Jinx, que permanecia imóvel, em choque.
— Shhh, já passou. Mamãe está aqui agora. Vou cuidar de você.
Com uma força surpreendente, ela levantou Jinx do chão e a levou até o banheiro. Lá, como se estivesse manipulando um objeto inanimado, ela despiu a filha e começou a limpar as marcas vermelhas com uma esponja macia e água morna. Jinx não reagia. Seus olhos azuis estavam fixos no vazio, a mente fugindo para um lugar onde a dor não pudesse alcançá-la.
— Vamos deixar você linda de novo — dizia a mãe, sorrindo.
Ela escovou os cabelos ondulados de Jinx com movimentos rítmicos, quase hipnóticos. Vestiu-a com uma camisola de seda limpa, branca como a neve, escondendo as marcas que ela mesma havia criado. Jinx era, naquele momento, exatamente o que a mãe queria: uma boneca silenciosa, maleável e sem vontade própria.
Depois de colocá-la de volta na cama, a mulher saiu por um instante e retornou com um copo de leite morno.
— Beba tudo, querida. Vai ajudar você a dormir e a esquecer esse dia horrível.
Jinx aceitou o copo com as mãos ainda trêmulas. O leite tinha um gosto levemente metálico, mas ela bebeu cada gota sob o olhar vigilante da mãe.
O que Jinx não sabia — e o que explicava seus lapsos de memória e os desmaios frequentes — era que aquele leite continha uma dose generosa de um sedativo potente, um remédio que a mãe administrava regularmente para mantê-la "calma", para garantir que a versão caótica e barulhenta de Jinx nunca tivesse força total para emergir.
— Durma agora, minha vida — sussurrou a mulher, apagando a luz e saindo do quarto.
No escuro, Jinx sentiu o peso do remédio começando a agir. Seu corpo doía, as marcas do cinto pulsavam contra o lençol, mas sua mente estava ficando nublada, envolta em uma névoa cinzenta.
Enquanto isso, a quilômetros dali, Ekko estava sentado no telhado de sua casa, olhando para as luzes de Piltover. Ele ainda conseguia ouvir o choro dela na enfermaria. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que arremessaram aquela bola com tanta raiva.
Ele queria ter quebrado o orgulho dela. Mas, por algum motivo, sentia que tinha ajudado a quebrar algo muito mais frágil, algo que ele nem sabia que ainda existia. E o pior de tudo era a incerteza: por que ela estava tão apavorada com a própria mãe?
Ekko não sabia, mas aquela noite seria apenas o começo de uma descoberta que mudaria tudo o que ele pensava saber sobre a garota que um dia ele chamou de Powder. E Jinx, mergulhada em um sono induzido, sonhava com engrenagens quebradas e vozes que gritavam seu nome na escuridão, sem saber que o verdadeiro monstro não estava debaixo de sua cama, mas sim fechando a porta do seu quarto com um beijo de boa noite.