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Time bomb

O Veneno do Silêncio

A luz da manhã infiltrava-se pelas frestas das cortinas de seda, desenhando linhas douradas e precisas sobre o tapete do quarto. Jinx sentiu a consciência retornar lentamente, como se estivesse subindo de uma profundeza abissal e viscosa. Sua cabeça pesava e seus olhos pareciam colados.

— Acorde, minha vida. Já é hora de brilhar para o mundo. — A voz da mãe era um sussurro melódico, acompanhado pelo toque suave de uma mão em seus cabelos.

Jinx piscou, tentando focar a imagem da mulher à sua frente. A mãe já estava perfeitamente arrumada, exalando um perfume floral caro que, naquele momento, embrulhava o estômago da menina. Por um segundo, a memória dos golpes de cinto e do choro desesperado da noite anterior lampejou em sua mente, mas a sensação foi rapidamente sufocada por uma névoa de confusão. Ela se sentia exausta, como se não tivesse dormido um minuto sequer, embora soubesse que tinha apagado assim que terminou o leite.

— Vamos, Powder. Eu preparei tudo para você. — A mulher ajudou-a a se sentar, ignorando o gemido de dor que escapou dos lábios da filha quando o movimento repuxou a pele das costas.

Sobre a cômoda, um kit de primeiros socorros já estava aberto. Com uma eficiência cirúrgica, a mãe começou a aplicar uma pomada fria sobre os hematomas arroxeados nos braços de Jinx. O remédio tinha um cheiro forte de cânfora, projetado para acelerar a circulação e apagar as evidências da "disciplina".

— Isso vai evitar que as marcas apareçam, querida. Ninguém precisa saber das suas falhas, não é? — Enquanto falava, a mulher envolvia o antebraço de Jinx com gazes limpas, prendendo-as com fita micropore branca de forma firme. — Se alguém perguntar, você caiu durante o desmaio de ontem. É uma explicação simples e elegante.

Jinx apenas assentiu. Sua língua parecia inchada dentro da boca. Ela se sentia como se estivesse assistindo a própria vida através de uma tela de cinema embaçada. A mãe a ajudou a vestir uma blusa de mangas compridas sob o casaco da escola, garantindo que cada centímetro de pele marcada estivesse oculto.

— Tome suas vitaminas — ordenou a mulher, entregando-lhe dois comprimidos coloridos e um copo de água.

Jinx engoliu sem questionar. Ela não sabia que aquelas "vitaminas" eram, na verdade, estimulantes leves para compensar a letargia causada pelo sedativo da noite anterior, criando um ciclo perpétuo de dependência química e exaustão mental que a mantinha dócil.

— Tenha um bom dia, meu anjo. Lembre-se: porte e silêncio.

***

O Colégio de Piltover estava estranhamente calmo naquela tarde. Como os professores estavam em uma reunião pedagógica de última hora, os alunos tinham o período livre. A maioria estava no pátio ou no ginásio, mas Jinx buscou o único lugar onde o silêncio não parecia uma ameaça: a biblioteca.

Ela estava sentada em uma mesa nos fundos, cercada por pilhas de livros de mecânica avançada e química orgânica. Ela tentava ler sobre a estabilidade de compostos voláteis, mas as letras pareciam dançar diante de seus olhos. Sua visão borrava, e ela precisava piscar várias vezes para recuperar o foco. O cansaço era uma pressão física atrás de seus globos oculares.

"Eu preciso me concentrar... eu preciso ser... o que ela quer...", pensava Jinx, a caneta tremendo entre seus dedos pintados de rosa e azul.

Depois de quase uma hora sem conseguir absorver uma única linha, ela desistiu. A náusea estava voltando, e o ar da biblioteca parecia rarefeito. Ela recolheu seus pertences de forma desajeitada, guardando o caderno na mochila com movimentos lentos e pesados. Ela precisava de água. Ou talvez apenas de um lugar onde pudesse fechar os olhos sem que o mundo girasse.

Enquanto isso, do outro lado do campus, Ekko saía do vestiário masculino. Seu corpo ainda fumegava após o treino intenso de basquete, e o cabelo, com os dreads brancos presos para trás, estava úmido. Ele tinha tomado um banho rápido, tentando lavar a sensação de culpa que o perseguia desde o incidente na quadra.

Ele decidiu ir à biblioteca. Precisava de um livro de referência sobre termodinâmica para o projeto final de ciências, mas, no fundo, era apenas uma desculpa para ocupar a mente. Ele não conseguia parar de pensar no som do choro de Jinx na enfermaria. Aquilo tinha cutucado uma ferida que ele jurava já estar cicatrizada.

Ele caminhou pelos corredores silenciosos, o som de seus tênis ecoando no piso de mármore. Ao chegar à porta pesada de madeira da biblioteca, ele a empurrou com força, bem no momento em que alguém tentava sair pelo outro lado.

O impacto foi inevitável.

— Opa! — exclamou Ekko, sentindo um corpo pequeno e frágil colidir contra seu peito.

Jinx, que já estava tonta, perdeu completamente o equilíbrio. Seus joelhos, enfraquecidos pelo efeito residual dos remédios, cederam instantaneamente. Ela teria desabado no chão se Ekko não tivesse reagido com reflexos de atleta.

Ele estendeu as mãos e segurou-a firmemente pelos braços, servindo como um pilar de sustentação.

— Ei, ei! Calma aí! — disse ele, a voz carregada de surpresa.

Jinx ficou imóvel por um segundo, o rosto enterrado no peito dele. O cheiro de sabonete e suor recente de Ekko era tão familiar que, por um instante terrível, ela se sentiu de volta aos dez anos de idade, escondida com ele em algum beco de Zaun.

— Desculpa... — a voz dela saiu num fio, quase inaudível.

Ela tentou se afastar, mas cambaleou novamente. Ekko não a soltou. Ele franziu o cenho, notando a palidez extrema do rosto dela e as olheiras profundas que nem a maquiagem conseguia esconder totalmente.

— Você está bem? — perguntou ele, suavizando o tom. — Você parece que vai desmaiar de novo.

Jinx finalmente conseguiu firmar os pés e se desvencilhou do aperto dele, recuando um passo. Ela puxou as mangas do casaco para baixo, escondendo as gazes que começavam a aparecer nos pulsos.

— Eu estou bem. Só não vi a porta. — Ela não olhou nos olhos dele. Sua atenção parecia focada em um ponto qualquer no chão.

Ekko suspirou, encostando-se no batente da porta e bloqueando parcialmente a passagem. Ele não queria deixá-la ir assim, não sem dizer o que estava entalado em sua garganta.

— Escuta, Jinx... — Ele hesitou, coçando a nuca. — Sobre ontem. No jogo. Eu... eu queria pedir desculpas. Eu não devia ter jogado aquela bola com tanta força. Eu estava com raiva, mas não queria te machucar desse jeito.

Ele esperava uma resposta ácida, um xingamento ou até mesmo que ela risse da cara dele. Mas Jinx permaneceu em silêncio. Ela olhava para ele, mas seus olhos azuis pareciam vidrados, como se ela estivesse processando as palavras em câmera lenta.

— Jinx? — ele chamou, estranhando a falta de reação.

Ela piscou, as longas pestanas batendo devagar.

— A bola... — ela murmurou, como se estivesse puxando uma memória de muito longe. — Ah. Tudo bem. Eu nem senti.

Ekko deu um passo à frente, intrigado. Ele levantou o braço direito, pretendendo se apoiar no canto superior da porta para ficar mais confortável na conversa, mas o movimento foi rápido.

A reação de Jinx foi instintiva e devastadora.

No momento em que o braço dele subiu, ela se encolheu violentamente, arqueando os ombros e levantando as mãos em um gesto de proteção, fechando os olhos com força. Foi uma reação de puro terror, um reflexo de quem está acostumado a ser atingido.

Ekko congelou no lugar, o braço parado no ar. O coração dele deu um solavanco.

— Ei... — ele disse baixo, a voz agora tingida de um choque genuíno. — O que foi isso?

Jinx abriu os olhos lentamente, percebendo o que tinha feito. Ela baixou os braços rápido demais, tentando recuperar a postura, mas o tremor em suas mãos era evidente.

— Nada. Eu... eu me assustei. — Ela tentou dar um passo para o lado, mas ele bloqueou o caminho novamente, agora com uma expressão séria e preocupada.

— Você se assustou? Jinx, você se encolheu como se eu fosse te dar uma surra. — Ele olhou para ela de cima a baixo, notando o jeito que ela protegia o próprio corpo. — Você está com medo de mim? Ou aconteceu alguma outra coisa?

— Não aconteceu nada, Ekko! — Ela tentou soar agressiva, mas a voz saiu quebrada, sem força. — Eu só estou cansada. Muita lição, poucas horas de sono. Coisa de Piltover, sabe?

— Não, eu não sei. — Ele cruzou os braços, analisando-a. — Você está diferente. Ontem na quadra você já estava estranha, mas agora... você mal consegue ficar em pé. E essas faixas no seu braço?

Ele apontou para o pulso dela, onde a fita branca aparecia sob a manga do casaco. Jinx rapidamente puxou o tecido de volta.

— Eu caí quando desmaiei. A enfermeira disse que eu ralei os braços. Não é nada.

— Você é uma péssima mentirosa, Powder. — O uso do nome antigo foi como um choque elétrico.

Jinx finalmente levantou o olhar para o dele. Havia uma dor tão profunda e uma exaustão tão latente naqueles olhos azuis que Ekko sentiu vontade de abraçá-la e não soltar mais. Mas ela apenas balançou a cabeça negativamente.

— Não me chama assim. Aquela menina não existe mais.

— Ela existe. Eu estou vendo ela agora, escondida atrás desse casaco e desse silêncio esquisito. — Ekko deu mais um passo, diminuindo a distância entre eles. — O que está acontecendo na sua casa, Jinx? Sua mãe... ela parecia tão preocupada ontem, mas você parecia aterrorizada.

Jinx sentiu um nó górdio se fechar em sua garganta. Ela queria falar. Por um breve segundo, a névoa do remédio pareceu se dissipar, e ela sentiu uma vontade avassaladora de contar a Ekko sobre o cinto, sobre o leite com gosto de metal, sobre o quarto que era uma prisão de seda. Mas então, a imagem do rosto gélido da mãe surgiu em sua mente. "Porte e silêncio".

— Minha mãe é perfeita — disse Jinx, as palavras saindo mecânicas, como se tivessem sido gravadas em sua mente. — Ela cuida de mim. Eu sou o problema. Eu sou sempre o problema.

— Isso é ridículo e você sabe disso — rebateu Ekko, a frustração crescendo. — Ninguém é "o problema" a ponto de ficar nesse estado. Você está dopada? Suas pupilas estão enormes.

Jinx não respondeu. Ela apenas encostou a cabeça na parede ao lado da porta, fechando os olhos por um momento. O esforço de manter uma conversa estava drenando suas últimas reservas de energia.

— Eu só quero ir embora, Ekko. Por favor.

Ekko a observou por longos segundos. Ele via a Jinx que o provocava nos corredores, a Jinx que criava o caos para se sentir viva, mas agora, tudo o que restava era uma casca vazia e quebradiça. A raiva que ele sentia dela por ter "mudado" evaporou, sendo substituída por uma percepção sombria: ela não tinha mudado porque quis. Ela tinha sido moldada pelo medo.

— Tudo bem — disse ele, finalmente se afastando da porta. — Mas eu não vou fingir que não vi isso.

Jinx passou por ele sem dizer mais nada. Seus passos eram curtos, cautelosos. Ekko ficou parado no corredor, assistindo-a se afastar até que a silhueta azul desaparecesse na curva do corredor.

Ele olhou para a própria mão, a mesma que ela temeu que a atingisse. Ele sabia que algo estava muito errado na vida "perfeita" que a mãe de Jinx ostentava. E, pela primeira vez em anos, Ekko não sentia vontade de lutar contra Jinx.

Ele sentia vontade de salvá-la.

Mas, enquanto caminhava de volta para o vestiário, uma pergunta não saía de sua cabeça: como salvar alguém que já se convenceu de que merece ser destruído?

Jinx, por sua vez, chegou ao banheiro feminino e trancou-se em uma cabine. Ela sentou no chão, abraçando os joelhos, e sentiu o efeito do estimulante começar a passar, deixando apenas o vazio e a dor nas costas. Ela olhou para as unhas rosa e azul, as únicas cores que a mãe ainda permitia que ela usasse, porque pareciam "excentricidades inofensivas de adolescente".

Ela encostou a testa nos joelhos e, no silêncio do banheiro, permitiu-se uma única lágrima.

— Eu sinto falta de Zaun — sussurrou ela para a escuridão da cabine. — Eu sinto falta de quando a dor era só um joelho ralado e não o som de um cinto batendo no chão.

Lá fora, o sinal tocou, anunciando o fim do período livre. O mundo de Piltover continuava a girar, impecável e cruel, enquanto Jinx se preparava para vestir sua máscara novamente, sem saber que, pela primeira vez, alguém tinha visto o que havia por baixo dela.