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Time bomb

O Teatro das Bonecas de Vidro

O sábado amanheceu com um céu de um azul tão límpido que parecia artificial, como se Piltover tivesse sido pintada à mão para receber sua filha favorita. Na mansão da família, o ar estava impregnado com o cheiro de lavanda e cera de móveis cara. Jinx estava sentada na ponta da cama, as mãos postas sobre o colo, enquanto a mãe terminava de ajustar o laço do novo vestido de seda.

— Você está deslumbrante, Powder — disse a mulher, sua voz transbordando uma doçura que fazia o estômago de Jinx se contrair. — Esse azul realça a sua pureza. Sua irmã vai ficar tão orgulhosa de ver como você se tornou uma moça centrada e obediente.

Jinx olhou para o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro. O vestido era impecável, cobrindo cada centímetro de pele que pudesse carregar algum vestígio do "cuidado" da mãe. Ela parecia uma estatueta de porcelana, pronta para ser colocada em uma vitrine. O estimulante matinal já estava fazendo seu coração disparar, mas sua mente ainda se sentia lenta, uma névoa persistente que nunca se dissipava totalmente.

Quando o som do carro de Vi ecoou no cascalho da entrada, a mãe de Jinx pareceu iluminar-se. Elas desceram as escadas juntas, e Jinx sentiu a mão da mãe apertar levemente seu ombro — um lembrete silencioso de que o espetáculo estava prestes a começar.

A porta se abriu e Vi entrou, carregando uma mochila de viagem e exalando uma energia que parecia grande demais para as paredes austeras daquela casa.

— Cheguei! — exclamou Vi, jogando a mochila no chão e abrindo os braços.

A mãe correu para abraçá-la, o rosto transfigurado em uma expressão de amor e orgulho genuínos.

— Minha querida! Que saudade! — A mulher beijou as bochechas de Vi, rindo com uma leveza que Jinx nunca recebia. — Você parece tão forte, tão independente. Piltover sentiu sua falta.

Jinx observava a cena de um degrau acima. Um aperto doloroso surgiu em seu peito. Por que com Vi era tudo tão fácil? Por que a mãe olhava para a irmã mais velha como se ela fosse um sol, enquanto olhava para ela como se fosse um problema a ser resolvido? "Talvez o problema seja realmente eu", pensou Jinx, sentindo uma lágrima solitária queimar no fundo dos olhos. "Talvez eu seja tão quebrada que só a dor possa me consertar."

Vi finalmente olhou para ela, soltando-se da mãe.

— Ei, tampinha! — Vi subiu os degraus e envolveu Jinx em um abraço de urso. — Olha só pra você... toda arrumadinha. Esse vestido é novo?

— É... presente da mamãe — respondeu Jinx, tentando retribuir o abraço, mas sentindo-se rígida.

O jantar foi uma exibição de perfeição doméstica. A mãe serviu os pratos favoritos de Vi, mantendo uma conversa animada sobre a universidade e o futuro. Jinx comia em silêncio, sentindo o peso do olhar da mãe toda vez que sua postura vacilava minimamente.

Ao final da refeição, Vi limpou a boca com o guardanapo de linho e olhou para a irmã menor.

— Sabe de uma coisa? Eu senti falta de sair com a minha irmãzinha. Mãe, você se importa se eu levar a Jinx para dar uma volta? Quero mostrar pra ela umas coisas novas que vi na cidade.

Jinx sentiu o ar sumir dos pulmões. Ela não respondeu. Seus olhos dispararam imediatamente para a cabeceira da mesa, esperando o veredito.

A mãe sorriu, uma expressão de benevolência absoluta.

— Acho uma ideia maravilhosa, Vi. Powder tem se dedicado tanto aos estudos, ela merece um pouco de diversão com a irmã. Vá, querida. Aproveite.

Jinx levantou-se, mas antes de sair da sala, sentiu o olhar da mãe cravar-se em suas costas. Ao se virar por um segundo, viu o sorriso da mulher permanecer intacto, mas seus olhos eram lâminas de gelo que diziam claramente: "Lembre-se do que eu te disse. Nem uma palavra."

Assim que entraram no carro de Vi e se afastaram alguns quarteirões da mansão, o silêncio confortável foi quebrado pela voz rouca da mais velha.

— Certo, agora me diz: o que você realmente, realmente quer fazer? — Vi olhou para Jinx de relance. — Porque você está esquisita, maninha. Você nunca foi de usar esses vestidinhos de boneca sem reclamar. Parece que você virou uma estátua de porcelana.

Jinx mexeu nas unhas, o peito subindo e descendo com ansiedade.

— Eu só estou tentando ser boa, Vi. A mamãe fica feliz quando eu sou assim.

Vi suspirou, batendo levemente no volante.

— Escuta, eu vou ser sincera com você. Eu tenho planos para hoje. A Caitlyn está me esperando e eu pretendo passar a noite com ela. Eu te chamei pra sair porque sabia que a mamãe não me negaria nada, e assim eu te tiro daquela casa e você me ajuda a encobrir meu rastro. O que acha? Você me ajuda e eu te ajudo.

Jinx olhou para a irmã, o coração batendo forte. O medo da mãe descobrir era uma pressão física em sua garganta, mas a ideia de ficar livre daquela vigilância por algumas horas era tentadora demais.

— Tudo bem — sussurrou Jinx. — Eu ajudo.

— Ótimo! — Vi sorriu, genuína. — Você tem alguém pra quem ligar? Algum lugar pra ficar até amanhã cedo? Eu te busco antes de voltarmos pra casa.

Jinx pegou o celular, os dedos trêmulos. Havia apenas um nome que ela queria chamar.

***

Ekko estava sentado no sofá de sua sala, cercado por peças de relógio e diagramas de engenharia. Seus pais estavam viajando a trabalho, e a casa parecia grande e vazia demais. Quando o celular vibrou com o nome de Jinx, ele atendeu no primeiro toque.

— Jinx? Está tudo bem?

— Ekko... você está ocupado? — A voz dela estava pequena, abafada pelo som do vento no carro. — A Vi me tirou de casa, mas ela vai encontrar a Caitlyn. Eu preciso de um lugar pra ficar até amanhã. Eu posso... eu posso ir aí?

— Claro. Vou te buscar agora. Onde você está?

Vinte minutos depois, Ekko estacionava diante de uma lanchonete de luzes neon onde Vi havia deixado a irmã. Quando Jinx entrou no carro dele, Ekko sentiu um aperto no coração. Ela ainda usava o vestido azul de seda, mas parecia tão deslocada nele quanto um pássaro ferido em uma gaiola de ouro.

— Você está bem? — perguntou ele enquanto dirigia para casa.

— Eu não sei — admitiu ela, encostando a cabeça no vidro frio. — Sinto que se eu me mexer muito rápido, eu vou quebrar em mil pedaços.

Ao chegarem na casa de Ekko, o ambiente era o oposto da mansão de Jinx. Havia ferramentas espalhadas, cheiro de graxa e uma sensação de que as coisas podiam ser bagunçadas sem que o mundo acabasse.

Eles se sentaram no sofá e, por um longo tempo, apenas o som do relógio de parede preenchia o espaço. Jinx começou a falar, as palavras saindo em um fluxo desordenado. Ela contou sobre o jantar, sobre o modo como a mãe olhava para Vi, sobre o medo constante de ser "consertada" e sobre como o leite da noite anterior ainda parecia pesar em seu sangue.

— Ela me trata como se eu fosse um projeto estragado, Ekko — disse Jinx, os olhos fixos nas próprias mãos. — E a Vi... a Vi é o projeto que deu certo. Eu só queria que alguém me visse sem querer me mudar.

— Eu te vejo, Jinx — disse Ekko, aproximando-se. — Eu sempre te vi.

A noite avançou e o cansaço começou a cobrar seu preço. O efeito dos estimulantes que a mãe lhe dera pela manhã estava desaparecendo, deixando para trás apenas o vazio exausto dos sedativos acumulados em seu sistema. Jinx começou a dar pequenas apagadas, sua cabeça pendendo para frente.

— Ei... — Ekko murmurou, passando o braço pelos ombros dela. — Pode descansar. Você está segura aqui.

Jinx olhou para ele, os olhos azuis nublados pelo sono e pelo trauma. Sem dizer nada, ela se inclinou para o lado. Ekko a puxou para mais perto, e ela acomodou a cabeça no ombro dele, envolvendo o pescoço do rapaz com os braços em um gesto de puro desespero e busca por proteção.

— Não me deixa voltar agora — sussurrou ela, a voz sumindo.

— Eu não vou deixar nada te acontecer esta noite — prometeu ele, encostando o rosto no topo da cabeça dela.

Jinx fechou os olhos. Ali, no colo de Ekko, rodeada pelo cheiro de metal e pela batida constante do coração dele, a névoa finalmente pareceu se dissipar um pouco. Ela não era a boneca de porcelana da mãe, nem a irmã problemática de Vi. Ela era apenas Jinx, e pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não era uma ameaça, mas um refúgio. Ela adormeceu profundamente, segurando-se a ele como se Ekko fosse a única coisa sólida em um mundo feito de vidro moído.

Ekko permaneceu imóvel, vigiando o sono dela enquanto a madrugada avançava. Ele sabia que o domingo traria a volta para a mansão e para as máscaras, mas ali, naquele sofá, ele jurou a si mesmo que encontraria uma forma de quebrar as correntes de seda que prendiam Powder, antes que não sobrasse mais nada dela para salvar.