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Time bomb

Bonecas de Porcelana e Vidro Moído

A luz da manhã de sexta-feira parecia mais agressiva do que o normal, atravessando as janelas do Colégio de Piltover como lâminas de vidro. Jinx caminhava pelo corredor principal sentindo que o chão não era sólido. Cada passo exigia uma concentração hercúlea, como se ela estivesse tentando equilibrar o próprio peso em cima de uma corda bamba invisível. Sua visão periférica estava borrada, e o som das conversas dos outros alunos chegava aos seus ouvidos como se estivesse debaixo d'água.

Ekko a avistou de longe. Ele estava encostado no seu armário, observando o fluxo de pessoas, mas seus olhos focaram nela instantaneamente. O modo como ela se movia — lenta, incerta, com os ombros excessivamente caídos — fez o sinal de alerta disparar em sua mente. Ele se aproximou rápido, interceptando-a antes que ela chegasse à sala de aula.

— Jinx? — Ele parou na frente dela, tentando capturar o olhar fugidio da garota. — Ei, olha para mim.

Jinx levantou o rosto devagar. A palidez de sua pele era quase translúcida, destacando as veias azuladas sob as têmporas e o brilho vidrado de suas pupilas. Ela parecia uma folha de papel prestes a rasgar.

— Oi, Ekko — sussurrou ela. Sua voz estava mole, as palavras arrastadas como se a língua pesasse o dobro do normal.

— Você está horrível — disse ele, sem rodeios, a preocupação sobrepondo qualquer tentativa de cortesia. — Está mais pálida que ontem. O que aconteceu? Você dormiu?

— Eu estou bem... — Ela forçou um sorriso que não chegou aos olhos, apenas repuxou os cantos dos lábios de forma mecânica. — Só... um pouco de sono. Minha mãe me deu umas vitaminas novas. Para eu ficar calma.

— Vitaminas não deixam ninguém assim, Jinx. Você mal consegue manter a cabeça reta.

— Está tudo bem, sério. — Ela deu um passo para o lado, tentando desviar dele, mas cambaleou levemente.

Ekko estendeu a mão para segurar o braço dela, mas parou no meio do caminho, lembrando-se da reação de pavor que ela tivera no dia anterior. Ele cerrou o punho e suspirou, observando-a se afastar com passos vacilantes. Algo estava muito errado, e o "remédio" que a mãe dela fornecia parecia ser o verdadeiro veneno.

O dia arrastou-se como um pesadelo em câmera lenta. No intervalo do almoço, enquanto a maioria dos alunos se reunia no refeitório barulhento, Ekko foi direto para o estacionamento anexo. Ele sabia que a encontraria lá. Era o único lugar onde ela se sentia segura para desmoronar.

Lá estava ela, sentada no mesmo banco de madeira descascada, sob a sombra da coluna de concreto. Jinx segurava um sanduíche intocado, seus olhos fixos em um ponto inexistente no asfalto.

— Jinx? — Ekko chamou suavemente enquanto se aproximava.

Ela não respondeu de imediato. Começou a piscar devagar, as pálpebras pesando como se tivessem chumbo. O corpo dela pendeu perigosamente para a frente, o tronco inclinando-se até que o equilíbrio fosse perdido.

— Opa! — Ekko saltou à frente e a segurou pelos ombros antes que ela atingisse o chão. — Jinx! Acorda!

Ela deu um solavanco, abrindo os olhos com esforço, mas sua cabeça caiu para o lado, encostando no braço dele.

— Ekko... está tudo girando — murmurou ela, a respiração curta.

— Chega disso. Você não tem condições de ficar aqui fora no calor. — Ele a olhou com uma urgência protetora. — Quer entrar no carro? Tem ar-condicionado, você pode deitar um pouco.

Jinx apenas assentiu com um movimento quase imperceptível de cabeça. Ela não tinha mais forças para fingir ou lutar.

Ekko a pegou no colo com cuidado. Ela era assustadoramente leve, como se fosse feita de ar e ossos ocos. Ele a levou até o SUV preto, abriu a porta traseira e a acomodou no banco de couro. Em seguida, entrou e sentou-se ao lado dela, fechando a porta para isolar o mundo exterior.

Jinx tentou se recompor, sentando-se e ajeitando o casaco, mas seu corpo simplesmente não obedecia. Ela era como uma boneca de pano cujas costuras estavam se desfazendo. Devagar, sem conseguir evitar, ela foi escorregando para o lado até que sua cabeça pousasse no colo de Ekko.

— Desculpa... — balbuciou ela, tentando se levantar novamente.

— Fica aí, Jinx. Não precisa se desculpar. — Ekko colocou a mão suavemente sobre o ombro dela, impedindo-a de fazer mais esforço. — Só descansa.

— Eu não posso... o sinal vai bater... — Ela tentou abrir os olhos, mas eles se fecharam quase instantaneamente. — Ela vai saber...

— Eu estou aqui. Eu cuido do tempo — disse ele, sua voz baixando para um tom reconfortante. — Pode dormir. Eu te acordo antes da aula começar.

Ekko começou a passar a mão pelos cabelos azuis dela, um carinho rítmico e calmo. Jinx soltou um suspiro longo, o primeiro suspiro de verdadeiro relaxamento que tivera em dias, e mergulhou em um sono pesado e artificial. Era o sono de quem estava dopada, um mergulho profundo onde os sonhos eram confusos e o corpo parecia se desconectar da mente.

Enquanto ela dormia, Ekko observava o rosto dela. Sem a máscara de sarcasmo ou o pânico constante, ela parecia muito jovem. Muito parecida com a Powder que ele costumava proteger nos becos de Zaun.

A curiosidade e a aflição falaram mais alto. Ele precisava saber se o banho de ontem tinha deixado marcas novas. Com movimentos milimetricamente cuidadosos, ele segurou a borda da manga do casaco dela e a puxou para cima. Deslizou a bandagem que cobria o antebraço.

Não havia marcas novas. Os hematomas de antes ainda estavam lá, em tons de amarelo e verde, mas não havia cortes ou novos roxos.

Ekko franziu o cenho, sentindo uma inquietação crescer em seu peito. Se não havia marcas físicas novas, por que ela estava naquele estado de letargia extrema? O pensamento de que a mãe dela estava usando substâncias químicas para controlá-la tornou-se uma certeza amarga. Era uma tortura diferente; não deixava cicatrizes na pele, mas corroía a mente e a vontade de viver.

Ele cobriu o braço dela novamente e continuou o carinho, sentindo uma fúria silenciosa queimar por trás de seus olhos. Piltover era uma cidade de progresso, mas escondia monstros em mansões de mármore.

O tempo passou rápido demais. Quando faltavam dez minutos para o fim do intervalo, Ekko começou a chamá-la.

— Jinx... acorda. Precisamos ir.

Ela demorou a reagir. Gemeu baixinho, tentando se desvencilhar do abraço do sono químico. Quando finalmente abriu os olhos, parecia desorientada, sem saber onde estava por alguns segundos.

— Ekko? — Ela se sentou devagar, esfregando o rosto.

— O sinal vai bater. Eu vou te levar até o portão mais próximo da sua sala com o carro, assim você não precisa andar tanto. Você ainda está muito fraca.

Ela não protestou. Ekko dirigiu pelo estacionamento, deixando-a o mais perto possível do prédio das salas de aula.

— Tenta beber água, Jinx. Muita água — recomendou ele antes de ela sair.

— Vou tentar. Obrigada, Ekko. De verdade.

Ele a viu entrar no prédio, caminhando como se estivesse atravessando um nevoeiro.

O resto do dia passou como um borrão para Jinx. Ela não se lembrava das aulas, apenas de manter a cabeça baixa e a caneta se movendo aleatoriamente sobre o papel. Quando o sinal final tocou, ela caminhou até a calçada, onde o SUV preto de sua mãe já a esperava, brilhando sob o sol da tarde.

Ao entrar no carro, Jinx preparou-se para o interrogatório ou para a frieza cortante, mas foi surpreendida.

— Minha querida Powder! — A mãe sorriu para ela com uma doçura radiante, quase angelical. — Você parece cansada, pobre anjinho. Mas tenho uma surpresa para você.

Ela estendeu uma sacola de uma loja de grife caríssima. Dentro, havia um vestido de seda novo, em um tom de azul profundo que Jinx sempre admirara nas vitrines.

— Um presente, porque você tem sido uma menina tão boa e obediente ultimamente. Sua irmã vai adorar ver você usando isso no jantar de amanhã.

— É lindo, mamãe. Obrigada — disse Jinx, sua voz soando vazia mesmo para seus próprios ouvidos. O presente parecia mais uma corrente de ouro do que um gesto de afeto.

Chegando em casa, a mansão estava silenciosa e impecável. A mãe a acompanhou até o quarto, ajudando-a a trocar de roupa com uma delicadeza que beirava o teatral.

— Agora, para a cama — disse a mulher, ajeitando os travesseiros. — Você precisa estar descansada.

Ela trouxe o copo de leite morno. Jinx o aceitou, bebendo cada gota sob o olhar satisfeito da mãe. O sabor metálico estava lá, mas Jinx já não se importava. Era o preço da paz. Era o preço para não ser afogada ou chicoteada.

— Durma bem, minha bonequinha — sussurrou a mãe, beijando sua testa antes de apagar a luz e trancar a porta.

No escuro, Jinx sentiu a névoa subindo novamente. Ela pensou no carro de Ekko, no calor do colo dele e no som de sua voz dizendo que ela podia dormir. Aquela era a única verdade que ela ainda possuía. O resto — o vestido novo, o leite morno, as paredes de mármore — era apenas o cenário de uma peça de teatro que ela era obrigada a encenar até que as cortinas finalmente caíssem. E, enquanto o sono a levava, ela só conseguia torcer para que, quando acordasse, o mundo não fosse mais feito de porcelana.