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Todos loucos, incluindo eu

O Labirinto de Seda e Aço

O silêncio do quarto luxuoso era interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Kageyama, que permanecia sentado aos pés da cama, observando Izabelle comer. O risoto já havia terminado, mas a tensão no ar — uma mistura de medo instintivo e uma atração proibida — continuava a vibrar entre os dois. Izabelle deixou o prato de lado e se ajeitou nos lençóis de seda, sentindo o peso do olhar dele sobre cada movimento seu.

Ela não queria ser aquela garota arrogante que desafiava tudo com sarcasmo o tempo todo. A verdade era que, por baixo da carapaça de personalidade forte, seu coração estava disparado. Ela olhou para as mãos de Kageyama, as mãos que manejavam o florete com uma precisão mortal, e sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o sedativo.

— Por que você está me olhando assim, Tobio? — perguntou ela, a voz saindo mais suave do que pretendia, perdendo a rispidez do momento anterior.

Kageyama se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. A luz do abajur criava sombras dramáticas em seu rosto esculpido, destacando a intensidade quase febril de seus olhos azuis.

— Porque eu ainda não consigo acreditar que você está aqui. Realmente aqui — ele sussurrou, a voz carregada de uma reverência sombria. — Eu passei meses imaginando como seria ter você sob o meu teto, respirando o mesmo ar que eu, sem que houvesse outras pessoas por perto para roubarem sua atenção.

Ele se levantou e, com uma lentidão deliberada, aproximou-se dela. Izabelle não recuou. Ela sentia que deveria estar gritando, tentando quebrar as janelas lacradas, mas a presença dele era como um ímã. Quando ele se sentou na beirada da cama, o colchão afundou sob seu peso, e o aroma de sândalo e metal frio inundou os sentidos dela.

— Você está com medo? — ele perguntou, estendendo a mão.

Os dedos longos e gélidos de Kageyama tocaram a bochecha de Izabelle, subindo lentamente até os fios curtos de seu cabelo. O toque era leve, quase hesitante, contrastando com a violência do que ele havia feito.

— Eu deveria estar — admitiu Izabelle, fechando os olhos por um segundo e apreciando o carinho, apesar de saber que aquilo era errado. — O que você fez... me trazer para cá, me trancar... isso é crime, Tobio. É loucura.

— Eu sei — ele murmurou, deslizando a mão para a nuca dela, puxando-a gentilmente para mais perto. — Mas a ideia de ver você com outro, de ver você saindo daquela academia e seguindo uma vida onde eu era apenas "o colega esquisito", era uma tortura que eu não podia mais suportar. Eu prefiro ser o seu vilão do que ser nada para você.

Izabelle sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando ele se inclinou e depositou um beijo casto em sua testa. A pele dele estava quente contra a dela. Ela abriu os olhos e encontrou os dele, tão próximos que conseguia ver os pequenos pontos de luz nas pupilas dele.

— Você nunca foi "nada" para mim — confessou ela, a voz falhando. — Eu sempre te observei. Eu gostava do jeito que você se concentrava, do jeito que parecia ignorar o mundo... eu só não sabia que o mundo que você ignorava incluía as leis da sociedade.

Kageyama soltou um riso baixo e rouco, um som que fez o estômago de Izabelle dar voltas.

— Então não me odeie tanto por querer você só para mim.

Ele desceu os beijos para as pálpebras dela, depois para a ponta do nariz, antes de parar a milímetros dos lábios dela. Izabelle conseguia sentir o calor da respiração dele. Ela estava dividida entre o horror da situação e o desejo avassalador que sentia por aquele homem quebrado e obsessivo. Antes que ela pudesse processar qualquer pensamento coerente, Kageyama selou seus lábios nos dela.

O beijo não foi bruto. Foi desesperado, faminto, como se ele estivesse tentando absorver a própria alma dela. Kageyama a abraçou com força, uma das mãos espalmada em suas costas, pressionando-a contra seu peito sólido. Izabelle soltou um suspiro abafado e, cedendo ao impulso que tentava reprimir, passou os braços pelo pescoço dele, puxando-o para mais perto.

Era um beijo que alternava entre a doçura de um primeiro amor e a possessividade de um captor. Quando se afastaram para buscar ar, os olhos de Kageyama estavam turvos de desejo.

— Iza... — ele sussurrou contra os lábios dela, a voz trêmula. — Você é tão macia. Eu sonhei com isso todas as noites.

Ele começou a beijar o pescoço dela, exatamente onde a pele era mais sensível. Izabelle inclinou a cabeça para trás, sentindo as mãos dele subirem pelas suas costelas, parando perigosamente perto da curva de seus seios. O toque dele era possessivo, marcando território, e ela se odiava por achar aquilo tão atraente.

— Tobio, isso é... a gente não pode... — ela tentou dizer, mas as palavras perderam a força quando ele mordiscou levemente o lóbulo de sua orelha.

— Shhh... — ele sibilou, a voz doce e perigosa. — Aqui dentro, as regras de fora não existem. Só existe o que eu sinto por você e o que você sente por mim. Você me quer, Iza. Eu sinto seu coração batendo contra o meu. Ele está acelerado. Você não está fugindo.

Ele se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela de novo. A mão dele subiu e acariciou o contorno de seu rosto com uma adoração que beirava o religioso.

— Eu vou cuidar de você como ninguém jamais cuidou. Você terá os melhores ingredientes, os melhores livros, as roupas mais finas. Tudo o que você pedir será seu. Só peço uma coisa em troca.

— O quê? — perguntou ela, a voz em um sussurro.

— Que você nunca tente me deixar. Porque se você tentar... — o olhar dele escureceu, um lampejo do horror que ele escondia sob a superfície — ...eu terei que ser muito menos gentil. E eu não quero machucar o que eu mais amo no mundo.

Izabelle sentiu o peso daquela ameaça velada, mas, estranhamente, o medo foi sufocado pela intensidade do afeto dele. Era como se ela estivesse sendo envolvida por um manto de veludo que, embora a protegesse, também a sufocava.

— Você é um monstro, Tobio — disse ela, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma triste aceitação.

— Eu sou o seu monstro — corrigiu ele, com um sorriso pequeno e sombrio.

Ele a puxou para deitar com ele nos lençóis de seda. Kageyama a envolveu em seus braços, prendendo-a contra seu corpo como se ela fosse um tesouro precioso que pudesse desaparecer a qualquer momento. Ele começou a traçar desenhos imaginários no braço dela, seus dedos movendo-se com uma delicadeza que fazia Izabelle querer chorar e beijá-lo ao mesmo tempo.

— Você está com fome de novo? Posso pedir para trazerem qualquer coisa — ele ofereceu, o tom de voz agora carinhoso, como se não a tivesse sequestrado horas antes.

— Não... eu só... — Izabelle suspirou, encostando a cabeça no peito dele. Ela conseguia ouvir as batidas fortes e constantes do coração de Kageyama. — Eu só preciso entender como minha vida mudou tanto em um dia. Eu estava na aula de gastronomia, Tobio. Eu estava pensando em como fazer o macaron perfeito. E agora eu estou aqui.

Kageyama beijou o topo da cabeça dela, aspirando o perfume de baunilha que ainda emanava de seus cabelos.

— A vida é feita de momentos decisivos, Iza. Você me seguiu. Você abriu aquela porta. Você escolheu entrar no meu mundo. Eu só fechei a porta atrás de você para que nada de ruim pudesse entrar.

— Você é o "ruim", Tobio — ela murmurou, sentindo o sono começar a atingi-la novamente, o estresse emocional exaurindo suas energias.

— Talvez — ele concordou, apertando o abraço. — Mas eu sou o "ruim" que vai te amar para sempre.

Ele continuou a acariciá-la, beijando seus ombros, suas mãos, cada centímetro de pele que conseguia alcançar sem desrespeitar o limite que ela ainda impunha, mesmo que inconscientemente. Para Izabelle, aquele era um pesadelo pintado com cores de romance. Ela sabia que precisava de ajuda, que sua mente estava pregando peças ao fazê-la se sentir segura nos braços de seu captor.

Mas, enquanto Kageyama sussurrava promessas de um futuro onde ela seria sua rainha em um castelo de sombras, Izabelle se permitiu fechar os olhos. O horror da situação estava lá, escondido nos cantos escuros do quarto e nas janelas trancadas, mas, por enquanto, o calor dos beijos de Kageyama e a segurança de seus braços eram as únicas coisas que pareciam reais.

— Durma, Iza — ele sussurrou, a voz como um acalanto sombrio. — Eu estarei aqui quando você acordar. Eu sempre estarei aqui.

Izabelle adormeceu sentindo os lábios dele pressionados contra sua nuca, um beijo que era ao mesmo tempo uma promessa e uma sentença. Ela sabia que, ao acordar, o mundo lá fora continuaria a procurá-la, mas dentro daquele quarto, sob a guarda de Kageyama Tobio, ela estava começando a esquecer que um dia desejou estar em qualquer outro lugar. A loucura dele era um oceano, e ela, sem perceber, estava começando a gostar de afundar.