Todos loucos, incluindo eu
O Banquete das Sombras e o Alívio do Aço
O som do clique da porta ecoou pelo quarto luxuoso, um lembrete metálico de que, apesar da seda e do perfume, eu ainda era uma prisioneira. Kageyama havia saído cedo. Ele tinha treinos, tinha a fachada de aluno prodígio da Academia Royale para manter, e precisava garantir que ninguém suspeitasse do desaparecimento da "estudante de gastronomia". Enquanto ele vestia o uniforme de esgrima diante do espelho, agindo como se fosse apenas mais uma terça-feira comum, eu o observava da cama, em silêncio. Ele se despediu com um beijo possessivo na minha testa e um aviso sussurrado: "Não tente as janelas, Iza. Elas são reforçadas. Volto para o jantar".
As horas se arrastaram. Aquele quarto era uma gaiola dourada, mas minha curiosidade e minha fome logo superaram o torpor de ser uma sequestrada. Levantei-me, testando a maçaneta da porta do quarto. Para minha surpresa, estava aberta. Tobio confiava que eu não teria para onde ir, ou talvez quisesse que eu explorasse o "lar" que ele havia construído para nós.
Caminhei pelo corredor silencioso daquela casa isolada. Tudo era impecável, minimalista e frio, exatamente como a personalidade pública dele. Mas, quando cheguei à cozinha, meu coração deu um salto. Não era apenas uma cozinha; era um santuário gastronômico. Fogão industrial, facas de cerâmica afiadas, temperos de todos os cantos do mundo e uma despensa abastecida com o que havia de melhor. Ele realmente me conhecia. Sabia que, para me manter calma, precisava me dar algo para cortar, temperar e flambar.
— Misericórdia, Tobio... — murmurei, passando os dedos por um conjunto de panelas de cobre. — Você é um psicopata, mas tem um gosto impecável para utensílios.
Passei a tarde ali. Era o meu jeito de não enlouquecer. Preparei um *boeuf bourguignon* que exigia horas de cozimento lento, o aroma do vinho tinto e das ervas frescas preenchendo o vazio da casa. Fiz também pequenas entradas de massa folhada e uma sobremesa de chocolate amargo com flor de sal. Eu queria que, quando ele voltasse, encontrasse a prova de que eu era mais do que uma boneca em uma prateleira; eu era a mestre daquele domínio.
Mas o sol se pôs. As sombras se alongaram pelas paredes da sala de jantar, onde eu havia posto a mesa com velas e cristais. E Kageyama não chegava.
Uma hora. Duas horas. A comida, que eu havia preparado com tanto esmero, começou a esfriar. O brilho do molho se tornou opaco, e minha paciência se transformou em uma mistura de irritação e uma preocupação que eu me odiava por sentir. Por que eu estava preocupada com o homem que me trancou aqui?
— Ai, que ódio de mim — resmunguei, sentada à cabeceira da mesa, batendo as unhas no tampo de madeira. — Eu devia estar tentando cavar um buraco na parede com uma colher, e estou aqui agindo como uma esposa de comercial dos anos 50. Preciso de um psicólogo urgente.
Finalmente, ouvi o som da porta da frente sendo aberta com uma força desnecessária. O estrondo ecoou pelo hall. Passos pesados e rápidos se aproximaram. Quando Kageyama entrou na sala de jantar, ele parecia um anjo caído que acabou de sair de uma guerra. O cabelo escuro estava desalinhado, a camisa do uniforme levemente aberta e seus olhos... seus olhos eram puro gelo e tempestade.
Ele nem olhou para a mesa posta. Ele chutou uma cadeira para o lado, a respiração vindo em arfadas curtas.
— Tobio? — chamei, levantando-me lentamente. — A comida esfriou. O que aconteceu?
Ele fixou o olhar em mim, e por um segundo, senti um calafrio. Não era o olhar carinhoso da noite anterior; era algo bruto, carregado de uma pressão psicológica que parecia saturar o oxigênio do ambiente.
— Aquele imbecil do clube de esgrima... — ele começou, a voz rouca, vibrando de ódio. — O capitão do time da escola rival. Ele passou o treino inteiro tentando me provocar. Falando que eu sou apenas um robô, que não tenho alma, que minha técnica é vazia.
— E você ligou para o que um invejoso diz? — perguntei, tentando me aproximar, mas ele começou a andar de um lado para o outro como um predador enjaulado.
— Ele não sabe de nada! — Kageyama explodiu, golpeando a palma da mão com o punho fechado. — Ele ficou se gabando das garotas que o perseguem, dizendo que eu morreria sozinho porque ninguém suporta ficar perto de mim por mais de cinco minutos. Ele não sabe que eu tenho você. Ele não sabe que eu tenho o que há de mais precioso escondido onde ninguém pode tocar.
Ele parou de repente, seus olhos varrendo meu corpo, desde o meu cabelo curto até o avental que eu ainda usava sobre as roupas. A raiva em seu rosto começou a se transformar em algo mais perigoso: necessidade. Uma necessidade voraz e absoluta.
— Eu quase perdi o controle, Iza. Eu quase usei o florete para atravessar a garganta dele. Tive que me segurar para não estragar tudo, para não atrair a polícia antes da hora. — Ele deu um passo em minha direção, reduzindo a distância em um segundo. — Eu passei o dia inteiro sendo testado, sendo provocado, e a única coisa que me impediu de cometer um assassinato foi pensar em você.
— A comida está fria, Tobio — eu disse, tentando desviar do assunto, embora meu coração estivesse batendo contra minhas costelas como um pássaro desesperado. — Posso esquentar se você quiser...
— Eu não quero a comida — ele interrompeu, segurando meus ombros com uma força que não chegava a machucar, mas que deixava claro que eu não iria a lugar nenhum. — Eu preciso de você. Agora. Você é a minha paz, Iza. Você é a única coisa que acalma esse barulho infernal na minha cabeça.
Antes que eu pudesse responder, ele me puxou para si. O beijo foi um ataque. Não houve a delicadeza da noite anterior; foi um roubo de fôlego, um encontro de dentes e urgência. Ele me pressionou contra a mesa de jantar, ignorando os pratos e os talheres que tilintaram com o impacto.
Suas mãos, grandes e habilidosas, subiram pelo meu corpo com uma possessividade que me fez perder o chão. Ele beijava meu pescoço, minha clavícula, deixando marcas que seriam lembretes constantes de quem eu pertencia agora.
— Tobio... — eu gemi, minha cabeça caindo para trás.
Minha personalidade forte me dizia para empurrá-lo, para exigir respeito, para reclamar do jantar que ele ignorou. Mas meu corpo... ah, meu corpo era um traidor. Eu sentia aquela eletricidade correndo por mim, aquele desejo sombrio de ser desejada com tamanha intensidade. Era atraente. Era lindo de um jeito distorcido. A forma como ele me olhava, como se eu fosse sua única salvação, era um vício que eu não sabia que tinha.
— Diga que você é minha — ele ordenou contra a minha pele, a voz vibrando no meu pescoço. — Diga que você não quer estar em nenhum outro lugar.
Eu o puxei pelos cabelos, forçando-o a me olhar nos olhos. Ele estava vulnerável em sua loucura, e eu, mesmo sendo a prisioneira, senti que tinha o controle naquele momento.
— Você é um doido obsessivo, Tobio Kageyama — eu disse, a respiração ofegante, meus olhos verdes/mel fixos nos azuis profundos dele. — E eu sou uma completa idiota por não querer ir embora. Mas se você quer aliviar essa tensão, pare de falar e faça alguma coisa.
Um brilho de surpresa e puro triunfo cruzou o rosto dele. Ele soltou uma risada curta, predatória, e me pegou no colo como se eu não pesasse nada. Eu envolvi minhas pernas em sua cintura, sentindo a firmeza de seus músculos através do uniforme de esgrima.
Ele me carregou de volta para o quarto, mas não houve hesitação desta vez. Ele me jogou na cama de seda e se posicionou sobre mim, as mãos prendendo meus pulsos acima da cabeça por um momento, apenas para que ele pudesse me observar.
— Você é tão cheirosa — ele murmurou, mergulhando o rosto na curva do meu ombro. — Baunilha, vinho e algo que é só seu. Eu poderia passar a eternidade apenas sentindo seu cheiro.
— Então passe — eu desafiei, soltando meus pulsos de seu aperto leve e puxando sua camisa, abrindo os botões com uma pressa que me surpreendeu.
Kageyama parou por um segundo, seus olhos brilhando com uma intensidade que parecia queimar.
— Você tem certeza, Iza? Se passarmos desse ponto... não haverá volta. Eu nunca, jamais, deixarei você sair desta casa. Você entende o que isso significa?
Eu olhei para ele, para o homem lindo e quebrado que me amava de um jeito que a sociedade chamaria de doença, mas que para mim, naquele momento, parecia a única verdade absoluta. Eu sabia que precisava de um psicólogo. Sabia que aquilo era perigoso. Mas a adrenalina e o desejo eram um banquete muito mais tentador do que qualquer liberdade lá fora.
— Eu entendo — respondi, minha voz firme, minha mão subindo para acariciar o rosto dele, descendo pelo pescoço até o peito forte. — Eu já disse que sou mais doida que você, não disse? Agora cale a boca e me mostre que esse estresse do treino valeu a pena.
Kageyama não precisou que eu falasse duas vezes. Ele me atacou novamente com beijos que agora eram carregados de uma promessa de entrega total. Suas mãos exploravam minhas curvas com uma adoração quase dolorosa, e cada toque dele me fazia esquecer o mundo exterior.
A noite lá fora era silenciosa e escura, mas dentro daquele quarto, o ar estava carregado de eletricidade e do aroma da nossa obsessão mútua. Tobio era carinhoso de um jeito possessivo, alternando entre a força bruta de um esgrimista e a delicadeza de quem segura um tesouro de cristal. Ele me roubava beijos, sussurrava palavras de amor que soavam como sentenças, e eu retribuía cada gesto com a mesma intensidade.
Eu queria ir até o final. Queria ver até onde aquela loucura nos levaria. Se eu ia ser prisioneira de alguém, que fosse dele, o homem que me olhava como se eu fosse o centro do universo.
Enquanto ele se perdia em mim, e eu me perdia naquela sensação avassaladora de pertencer a alguém tão intensamente, um pensamento rápido cruzou minha mente: "Misericórdia, Iza, você realmente perdeu o juízo". Mas, logo em seguida, quando ele me puxou para mais perto e sussurrou meu nome com uma voz que transbordava desejo puro, eu apenas sorri e o puxei para mais um beijo.
O jantar frio ficou esquecido na sala. As janelas lacradas não importavam mais. Naquela noite, o labirinto de seda e aço de Kageyama Tobio não era mais uma prisão; era o único lugar no mundo onde eu queria estar. E, se isso significava que eu era tão louca quanto ele, então que o mundo nos deixasse em paz em nossa própria e sombria perfeição.