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torazulmi

Entre Lençóis e Promessas de Sol

A penumbra do quarto era quebrada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava as frestas da cortina, desenhando listras de prata sobre o edredom bagunçado. O silêncio da madrugada, antes preenchido pelo borbulhar da cafeteira, agora era ocupado apenas pelo som das respirações sincronizadas. Torajo sentia o peso leve e reconfortante de Zulmi contra seu peito, o calor da pele dela agindo como um calmante mais poderoso do que qualquer infusão que ele pudesse preparar.

Zulmi traçava círculos imaginários nos ombros de Torajo, sentindo a textura da pele dele sob seus dedos. Ela era uma explosão de energia durante o dia, mas ali, naquele ninho que haviam construído, ela se permitia ser apenas vulnerável e entrega. A extroversão dava lugar a uma doçura profunda, um carinho que transbordava em cada toque.

— Sabe, Torajo... — começou ela, a voz saindo como um sussurro abafado contra o ombro dele. — Às vezes eu me pergunto como você consegue ser tão paciente comigo. Eu sei que eu falo demais, que eu ocupo muito espaço.

Torajo sentiu um aperto no peito, não de dor, mas de um afeto tão grande que mal cabia dentro de si. Ele apertou o abraço, enterrando o rosto nos cabelos dela, que ainda mantinham aquele perfume floral característico.

— Você não ocupa espaço, Zulmi — ele murmurou, a voz grave vibrando contra ela. — Você preenche o vazio. Antes de você, minha vida era apenas silêncio e cafeína. Era funcional, mas era cinza. Você é a cor que eu não sabia que estava faltando.

Zulmi levantou o rosto, os olhos brilhando na semi-escuridão. Um sorriso radiante, mesmo que contido pela sonolência, iluminou suas feições.

— Isso foi a coisa mais romântica que você já disse — ela brincou, dando um leve tapinha no peito dele. — O café realmente está perdendo o posto de prioridade nesta casa.

— Não se acostume — riu Torajo, beijando a ponta do nariz dela. — Amanhã cedo, quando o despertador tocar, eu provavelmente vou correr para a cozinha antes mesmo de te dar bom dia.

— Ah, eu duvido — desafiou ela, aproximando os lábios dos dele. — Eu tenho meus métodos para garantir que você fique na cama por mais cinco minutos. Ou dez. Ou uma hora.

O beijo que se seguiu foi lento, carregado de uma promessa de pertencimento. Torajo era carinhoso por natureza, mas com Zulmi, esse carinho ganhava uma camada de proteção. Ele queria cuidar dela, garantir que aquela alegria contagiante nunca fosse apagada pelas dificuldades do mundo lá fora.

— Você já pensou no que vamos fazer amanhã? — perguntou Zulmi, após se separar minimamente dele, ainda mantendo os rostos colados.

— Além de beber três litros de café e tentar terminar aquele projeto? — Torajo suspirou, fechando os olhos por um momento. — Não pensei muito além disso.

— Vamos sair — decretou ela, a animação típica voltando a dar as caras. — Tem aquele parque novo que abriu perto do centro. Eles têm um quiosque que serve um expresso duplo que, segundo as fofocas, é o melhor da cidade.

Torajo abriu um dos olhos, arqueando a sobrancelha.

— Você está me subornando com café para me tirar de casa, Zulmi? — Ele exibiu um sorriso convencido. — Isso é golpe baixo. Você sabe que eu sou um homem simples e fácil de manipular quando o assunto é grão torrado.

— Eu não chamaria de manipulação — disse ela, rindo e rolando para ficar por cima dele, apoiando os cotovelos no peito de Torajo. — Eu chamaria de "conhecer bem o meu público". E além disso, eu quero ver o pôr do sol com você. Sem telas, sem teclados, apenas nós dois.

Torajo passou as mãos pelo rosto de Zulmi, afastando algumas mechas de cabelo que teimavam em cair sobre os olhos dela. A expressão dele suavizou, perdendo qualquer traço de brincadeira.

— Tudo bem — cedeu ele. — O parque, o pôr do sol e o café suspeito. Se você estiver lá, qualquer lugar serve.

Zulmi se inclinou e o abraçou apertado, escondendo o rosto em seu pescoço. Ela amava a forma como ele sempre cedia aos seus caprichos, não por fraqueza, mas por um desejo genuíno de vê-la feliz. Torajo era o seu porto seguro, o equilíbrio para sua intensidade.

— Eu te amo tanto, sabia? — sussurrou ela.

— Eu sei — respondeu ele, a voz carregada de emoção. — E eu te amo mais do que a última xícara do dia. E você sabe o quanto isso significa vindo de mim.

Eles ficaram ali, emaranhados um no outro, enquanto o tempo parecia esticar-se para acomodar aquele momento de paz. O cansaço finalmente começou a vencer a adrenalina da paixão, e os olhos de ambos pesaram.

— Torajo... — chamou ela uma última vez, já quase pegando no sono.

— Oi, meu amor?

— Não esquece de desligar a cafeteira... se é que você já não desligou.

Torajo soltou uma risada curta e anasalada, sentindo o sono finalmente levá-lo também.

— Ela já terminou, Zulmi. Mas agora, a única coisa que eu quero que me mantenha acordado é o som da sua respiração. Boa noite.

— Boa noite, meu viciado favorito...

O quarto mergulhou em um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo vento suave que balançava as cortinas. Na cozinha, a jarra de café repousava fria e esquecida, um testamento silencioso de que, naquela noite, o calor humano havia vencido o aroma do grão. Zulmi e Torajo dormiam o sono dos que se encontraram em meio ao caos, prontos para enfrentar o sol que, em poucas horas, surgiria no horizonte para começar tudo de novo.