torazulmi
Combustão Interna e Desejos Externos
O escritório de Torajo nunca pareceu tão pequeno quanto naquela tarde de terça-feira. O ar-condicionado zumbia em um tom monótono, tentando em vão dissipar o calor que emanava não apenas do sol lá fora, mas do próprio corpo do rapaz. Torajo estava sentado em sua cadeira ergonômica, os olhos fixos na tela do computador, onde linhas de código pareciam dançar uma valsa confusa. No entanto, sua mente não estava no trabalho. Sua mente, e infelizmente seu sistema digestivo, estavam focados em uma única coisa: o desastre iminente causado pelo excesso de café expresso e aquele burrito duvidoso que ele comeu no almoço.
Ele sentiu uma pontada aguda. Não era uma dor comum; era um aviso sísmico. Torajo apertou as bordas da mesa, o rosto empalidecendo enquanto tentava manter a compostura. Ele olhou ao redor, vendo seus colegas de trabalho imersos em suas próprias tarefas. O silêncio do escritório era o seu pior inimigo. Qualquer movimento em falso, qualquer relaxamento muscular, e ele se tornaria o protagonista de uma lenda urbana corporativa que ninguém jamais esqueceria.
— Só mais uma hora... — sussurrou para si mesmo, mas seu estômago respondeu com um ruído que soou como um trovão distante.
Ele percebeu que não conseguiria terminar o expediente. A pressão interna estava "a todo vapor", e a dignidade de Torajo estava por um fio. Com as mãos trêmulas, ele pegou o celular e discou o número de Zulmi. Ela também estava trabalhando, mas ele sabia que ela era a única pessoa no mundo que poderia salvá-lo daquela catástrofe iminente sem julgá-lo (ou talvez julgando-o apenas um pouquinho, com aquele humor ácido que ele tanto amava).
— Alô? Torajo? — A voz de Zulmi veio do outro lado, vibrante e cheia de vida, contrastando terrivelmente com o estado deplorável dele.
— Zulmi... — ele gemeu, a voz saindo em um fiapo de som. — Você precisa vir me buscar. Agora. É uma emergência de nível cinco.
— Emergência? O que aconteceu? Você foi demitido? O servidor explodiu? — A preocupação dela era genuína, mas Torajo podia ouvir o som de papéis sendo organizados ao fundo.
— Não... é pior. Meus gases... eles estão... eles estão fora de controle, Zulmi. Se eu me levantar dessa cadeira agora, eu posso causar um incidente diplomático. Por favor, venha me salvar.
Houve um segundo de silêncio do outro lado da linha, seguido por uma risada cristalina que fez Torajo fechar os olhos de vergonha.
— Ah, meu pobre viciado em café! Eu sabia que aquele terceiro expresso ia cobrar o preço. Fica firme, meu amor. Estou saindo do escritório agora. Me encontre no estacionamento em quinze minutos.
— Quinze minutos? Eu não sei se tenho quinze segundos! — Torajo desligou o telefone e começou a lenta e dolorosa caminhada até o elevador, movendo-se com a rigidez de um pinguim carregando um ovo de cristal.
Quando ele finalmente atravessou as portas de vidro do prédio e chegou ao meio-fio, o sol da tarde o atingiu. Mas nada brilhou tanto quanto o carro de Zulmi estacionando à sua frente. Quando a porta se abriu e ela desceu, Torajo esqueceu por um breve segundo que estava prestes a explodir.
Zulmi estava deslumbrante. Ela usava um conjunto de alfaiataria que abraçava suas curvas de maneira impecável, os cabelos levemente bagunçados pelo vento e um par de óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema saindo de um set. Ela sorriu para ele, uma mistura de diversão e carinho, e caminhou em sua direção com uma confiança que fazia o asfalto parecer uma passarela.
— Você está horrível, querido — disse ela, aproximando-se e sentindo o cheiro de suor frio que emanava dele. — Mas eu estou maravilhosa, não estou?
Torajo a encarou, o desejo lutando contra a cólica. A visão de Zulmi ali, tão perfeita e cheia de energia, disparou algo nele que não era apenas digestivo.
— Você está... perfeita — ele conseguiu dizer, enquanto entrava no banco do passageiro com um suspiro de alívio que quase foi perigoso. — Mas, Zulmi, eu não aguento chegar em casa. Eu preciso... eu preciso de uma distração. Agora.
Zulmi entrou no carro, ligando o motor e o ar-condicionado no máximo. Ela olhou para ele, notando o brilho de luxúria que, por incrível que pareça, tinha superado o desconforto físico nos olhos de Torajo.
— Distração? Torajo, você acabou de dizer que ia explodir! — Ela riu, engatando a marcha.
— Eu sei, mas ver você assim... — Ele estendeu a mão, tocando a coxa dela por cima do tecido fino da calça. — Mudou minhas prioridades. Vai ser aqui mesmo. No carro. Agora.
— Aqui? No estacionamento do seu trabalho? — Zulmi arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso dançando em seus lábios. — Você é louco, sabia?
— Louco por você. E se eu vou morrer de combustão espontânea, que seja nos seus braços.
Zulmi não precisou de mais incentivos. Ela manobrou o carro para um canto mais afastado do estacionamento, sob a sombra de uma árvore frondosa. O que se seguiu foi uma mistura caótica de urgência, risadas abafadas e uma paixão que parecia ignorar completamente as leis da biologia e do bom senso. O espaço apertado do carro só serviu para aumentar a intensidade, e por alguns minutos, Torajo esqueceu completamente do burrito e do café.
Algum tempo depois, com a respiração ainda ofegante e os vidros do carro levemente embaçados, Zulmi se ajeitou no banco, retocando o batom com um sorriso vitorioso. Torajo estava encostado no banco do passageiro, parecendo finalmente em paz, embora ainda um pouco pálido.
— Sabe... — disse Zulmi, dando partida no carro novamente — foi muito bom o que fizemos no carro, né? Deu até uma aliviada na sua tensão.
— Foi a melhor decisão da minha vida — Torajo respondeu, fechando os olhos enquanto ela dirigia em direção à casa deles. — Mas a trégua acabou. Acelera, Zulmi. A natureza está chamando novamente e ela não aceita "não" como resposta.
Assim que chegaram em casa, Torajo praticamente saltou do carro antes mesmo que Zulmi terminasse de estacionar. Ele correu para dentro, tropeçando nos próprios pés, e se trancou no banheiro do corredor com uma velocidade impressionante.
Zulmi entrou na casa calmamente, jogando as chaves na mesa e soltando um suspiro satisfeito. Ela foi até a cozinha, serviu-se de um copo de água e caminhou até a porta do banheiro, ouvindo os sons de agonia e alívio que vinham de lá de dentro.
— Torajo? Tudo bem aí? — perguntou ela, batendo levemente na madeira.
— Não entre! — a voz dele ecoou, abafada e desesperada. — Por tudo o que é mais sagrado, Zulmi, mantenha distância! É uma zona de guerra aqui dentro!
— Ah, deixa de bobagem! — ela provocou, encostando o ouvido na porta. — Depois do que fizemos naquele carro, não tem nada que eu não possa encarar. Deixa eu entrar, quero lavar o rosto.
— Não! Não mesmo! — Torajo gritou. — Vá para o banheiro da suíte! Este lugar está condenado!
Zulmi, sempre a extrovertida e teimosa, cruzou os braços.
— Se você não abrir essa porta agora, eu vou para a casa da minha prima passar a noite! Eu não vou ficar em uma casa onde meu próprio namorado me proíbe de entrar em um cômodo!
Houve um silêncio tenso. Torajo sabia que Zulmi não estava brincando sobre a prima, e ele odiava ficar sozinho, especialmente quando se sentia vulnerável.
— Tudo bem! — ele exclamou. — Mas eu avisei! O seguro não cobre danos psicológicos!
A tranca girou e a porta se abriu apenas uma fresta. Zulmi, esperando encontrar apenas um Torajo descabelado e um cheiro desagradável, empurrou a porta com tudo. No entanto, o que ela viu a fez parar abruptamente, os olhos arregalados.
Torajo estava sentado, mas não exatamente da maneira que ela esperava. Ele estava segurando o que parecia ser um enorme boneco de pelúcia em formato de grão de café — um presente que ela mesma tinha dado a ele meses atrás — apertando-o contra a barriga como se sua vida dependesse disso. Mas não foi o boneco que chamou a atenção dela.
Ao lado do vaso sanitário, caído no chão em meio ao pânico de Torajo, estava o "moço" do Torajo — ou melhor, o seu fiel assistente robótico de limpeza que ele apelidara carinhosamente de "Moço", que agora estava preso em um tapete, girando em falso e emitindo um bipe triste e repetitivo.
— Torajo... — Zulmi começou, tentando segurar o riso enquanto olhava para a cena caótica: o namorado abraçado a um grão de café gigante, o robô de limpeza agonizando no chão e o aroma que, de fato, justificava o aviso de perigo.
— Eu disse para não entrar... — Torajo lamentou, escondendo o rosto atrás da pelúcia. — O Moço tentou me ajudar, mas ele sucumbiu ao caos.
Zulmi não aguentou. Ela soltou uma gargalhada tão alta que provavelmente os vizinhos ouviram. Ela se aproximou, desligou o robô e olhou para Torajo com uma ternura infinita, apesar da situação deplorável.
— Você é um desastre, Torajo. Mas é o meu desastre favorito. Agora termina logo isso, toma um banho e vem para a sala. Eu vou preparar um chá... e nada de café para você pelos próximos dez anos.
Torajo apenas assentiu, derrotado pela realidade e pelo amor. Ele sabia que, não importa o quão embaraçosa fosse a situação, com Zulmi ao seu lado, até o pior dos dias terminava com um sorriso — e talvez, se ele tivesse sorte, com mais uma daquelas "distrações" no sofá, longe de qualquer robô de limpeza.