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Sombras do Passado no Paraíso de Cristal
A noite em Mônaco era de um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo zumbido quase imperceptível do sistema de climatização da cobertura. No quarto principal, a vastidão da cama king-size parecia um oceano de lençóis de algodão egípcio de mil fios. Lily estava aninhada contra o corpo de Oscar, sua cabeça repousando no peitoral largo e firme do marido. O ritmo constante do coração dele era sua canção de ninar favorita; a batida forte e compassada de um homem que, para o mundo, era uma fortaleza inabalável, mas que para ela era apenas o seu porto seguro.
Oscar dormia profundamente, um braço musculoso envolvendo a cintura de Lily de forma protetora, mesmo em meio ao sono. Seus dedos estavam levemente entrelaçados nos cabelos dela. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas de seda, desenhando o contorno da mandíbula forte de Oscar e a serenidade de seu rosto jovem, agora desprovido da tensão das reuniões de diretoria.
Tudo estava perfeito. As malas para Ibiza estavam prontas, os contratos assinados, e o aniversário de quatro anos de casamento batia à porta. Lily, antes de fechar os olhos, sentira uma gratidão imensa. Ela era a Sra. Piastri. Ela era amada. Ela estava salva.
Mas o subconsciente não respeita coberturas de luxo ou contas bancárias bilionárias.
No abismo do sono, o cenário mudou. O perfume caro de Oscar desapareceu, substituído pelo cheiro acre de álcool barato e tabaco velho. O mármore de Mônaco transformou-se em tábuas de chão rangentes de uma casa que Lily tentara apagar da memória. Ela não era mais a mulher elegante que jantava com príncipes; ela era a menina encolhida no canto de um quarto escuro, ouvindo o som pesado de passos se aproximando.
— Você achou que podia fugir, Lily? — A voz era um sussurro viscoso, arrastado, que fazia sua pele queimar de repulsa.
Ela tentou gritar, mas sua voz estava presa em sua garganta. Ela sentiu mãos ásperas, mãos que não tinham o carinho ou a reverência de Oscar, mas sim a brutalidade da posse. O rosto de seu padrasto surgiu na escuridão, um espectro de dor e trauma que ela acreditava ter enterrado sob camadas de terapia e o amor devoto de seu marido.
— Você é minha, pequena Lily. Sempre será minha.
O toque dele era como brasa. Lily sentiu o pânico subir como uma maré, sufocando-a, tirando seu oxigênio até que o mundo girasse em um vórtice de terror.
Lily despertou com um sobressalto violento, o corpo coberto por um suor frio e a respiração saindo em espasmos curtos e desesperados. Seus olhos se arregalaram na penumbra do quarto, mas, por alguns segundos, ela ainda via as sombras do pesadelo dançando nos cantos das paredes.
— Não... por favor, não... — ela murmurou, a voz falhando, as mãos tremendo descontroladamente enquanto ela tentava se afastar de algo que não estava lá.
O movimento brusco e o som do choro contido acordaram Oscar instantaneamente. Como um predador alerta, ele passou do sono profundo para a consciência total em um milésimo de segundo. Ele sentou-se na cama, o rosto tenso, os olhos claros buscando a fonte do perigo.
— Lily? — A voz dele era um trovão baixo, carregada de preocupação.
Ele a viu encolhida na ponta da cama, abraçando os próprios joelhos, balançando-se levemente. A vulnerabilidade dela atingiu Oscar como um soco no estômago. Ele sabia o que era aquilo. Ele conhecia os demônios que habitavam o passado de sua esposa, embora eles raramente ousassem aparecer agora que ela estava sob sua guarda.
— Lily, olhe para mim. — Oscar moveu-se com cautela, aproximando-se dela como se estivesse lidando com uma criatura ferida. — Querida, você está segura. Eu estou aqui.
— Ele estava aqui, Oscar... — ela soluçou, escondendo o rosto entre as mãos. — Ele me tocou... eu senti o cheiro dele...
Oscar sentiu uma onda de fúria fria percorrer sua espinha. A ideia de que alguém, mesmo em um sonho, pudesse ferir a pureza de Lily fazia seu sangue ferver. Mas ele suprimiu a raiva; Lily não precisava do CEO implacável agora, ela precisava do marido.
— Não, Lily. Ninguém está aqui além de nós. — Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza infinita, tocou o ombro dela.
Lily deu um pequeno pulo, mas ao sentir o calor da palma de Oscar, a firmeza e a segurança que só ele emanava, ela finalmente levantou o olhar. Suas bochechas estavam manchadas de lágrimas, e seus olhos grandes, geralmente tão doces, estavam nublados pelo horror.
— Oscar... — Ela se jogou nos braços dele, enterrando o rosto em seu pescoço.
Ele a envolveu imediatamente, puxando-a para o seu colo, envolvendo-a com seus braços longos e protetores. Ele a apertou contra si, permitindo que ela sentisse a solidez de seus músculos e a realidade de sua presença.
— Respire, Lily. Siga o meu ritmo — comandou ele baixinho, encostando os lábios na têmpora dela. — Inspira... expira... Isso, meu amor. Eu não vou deixar nada acontecer. Nunca mais. Aquele homem nunca mais chegará perto de você. Eu destruiria o mundo antes de permitir isso.
Lily chorou baixinho, soluços que sacudiam seus ombros pequenos. Oscar não tentou impedi-la; ele apenas a segurou, sendo a rocha que ela precisava para não ser levada pela correnteza do trauma. Ele acariciava suas costas, subindo e descendo, um movimento rítmico que visava acalmá-la.
— Eu odeio isso — ela conseguiu dizer depois de alguns minutos, a voz abafada contra a pele dele. — Eu odeio que ele ainda tenha esse poder sobre mim. Depois de tantos anos... depois de tudo o que você me deu...
Oscar se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela com as duas mãos. Ele a forçou a encará-lo, a intensidade de seu olhar azul-claro agindo como uma âncora.
— Escute-me bem, Lily Piastri. Você é a mulher mais forte que eu conheço. O que aconteceu no passado foi uma crueldade que você não merecia, mas ele não tem poder aqui. Esta casa é sua. Eu sou seu. Você está cercada por pessoas que dariam a vida por você, e eu sou o primeiro da fila.
— Eu sei, eu sei... — ela fungou, tentando limpar as lágrimas com as costas das mãos. — É só que... parecia tão real.
— Eu sei que parecia. Mas olhe ao redor. — Oscar gesticulou para o quarto luxuoso, para a vista das luzes de Mônaco lá fora. — Você está no nosso santuário. Amanhã estaremos em Ibiza, sob o sol, longe de tudo isso. Eu vou cuidar de você, Lily. Cada segundo do dia.
Ele a puxou de volta para baixo dos lençóis, mas desta vez não a deixou apenas deitar ao seu lado. Ele a manteve em seus braços, com a cabeça dela descansando em seu braço e o corpo dela colado ao dele.
— Quer que eu chame alguém? Água? Um chá? — perguntou ele, a voz cheia de uma ternura que faria seus rivais de negócios caírem da cadeira de espanto.
— Não... — ela murmurou, sentindo o calor dele começar a dissipar o frio do pesadelo. — Só não me solte. Por favor, Oscar.
— Nunca — prometeu ele, beijando a testa dela com reverência. — Eu nunca vou soltar você.
Oscar ficou acordado por muito tempo depois que a respiração de Lily voltou ao normal e ela finalmente caiu em um sono sem sonhos. Ele a observava, os olhos fixos em seu rosto sereno, sentindo uma determinação renovada. Ele sabia que a riqueza não podia comprar a paz de espírito, mas ele usaria cada centavo e cada grama de sua influência para garantir que Lily se sentisse a mulher mais segura do planeta.
Ele pensou no padrasto dela, um homem que ele já havia se certificado de que estivesse apodrecendo na obscuridade e na miséria, longe de qualquer possibilidade de contato. Se dependesse de Oscar, aquele homem nunca mais respiraria o mesmo ar que sua esposa.
Quando o primeiro raio de sol começou a despontar no horizonte de Mônaco, tingindo o céu de rosa e laranja, Oscar ainda estava lá, servindo de escudo para a mulher que amava.
Lily acordou com o toque suave do sol em seu rosto. Por um momento, a lembrança da noite anterior trouxe uma pontada de tristeza, mas ao sentir a mão de Oscar acariciando seu cabelo, a sensação desapareceu.
— Bom dia, minha rainha — disse ele, a voz rouca pelo sono e pela vigília.
Lily sorriu, um sorriso genuíno que iluminou o quarto.
— Bom dia, Oscar. Obrigada por... você sabe.
— Não precisa agradecer por eu ser seu marido, Lily. É o meu maior privilégio. — Ele se inclinou e a beijou suavemente nos lábios. — Agora, o jato nos espera. Ibiza está nos chamando, e eu pretendo fazer você esquecer que qualquer sombra um dia existiu.
Lily levantou-se, sentindo-se renovada. Ela caminhou até a janela, observando o mar Mediterrâneo. Agatha entrou logo depois, após uma batida discreta na porta.
— Bom dia, senhora Piastri. Bom dia, senhor. O café da manhã está servido no terraço do quarto andar, e os motoristas já estão carregando as últimas malas.
— Obrigada, Agatha — disse Lily, a voz firme e doce novamente. — Estaremos lá em dez minutos.
Oscar levantou-se da cama, sua estatura imponente dominando o ambiente. Ele vestiu um robe de seda escura e caminhou até Lily, parando atrás dela e envolvendo-a em um abraço por trás.
— Pronta para as nossas férias? — perguntou ele, sussurrando em seu ouvido.
— Com você? Sempre — respondeu ela, encostando a cabeça no ombro dele.
Enquanto desciam para o café da manhã, a cobertura de cinco andares fervilhava com a eficiência silenciosa de seus funcionários. Mas para o casal, o mundo era apenas o toque de suas mãos dadas. O trauma de Lily era uma cicatriz, mas com Oscar ao seu lado, ela sabia que cicatrizes eram apenas lembretes de que ela havia sobrevivido e que, agora, ela florescia.
No terraço, uma mesa farta os esperava, com frutas frescas, pães artesanais e o café preferido de Oscar. Eles comeram enquanto observavam os iates saindo da marina lá embaixo. O ar estava carregado com a promessa de celebração.
— Quatro anos — disse Oscar, levantando sua xícara de café como em um brinde. — Os melhores quatro anos da minha vida.
— E os meus também — concordou Lily, os olhos brilhando. — Apesar dos pesadelos e das secretárias mal-humoradas.
Oscar riu, aquele som raro que Lily tanto amava.
— As secretárias eu resolvo com um memorando. Os pesadelos... eu resolvo com o meu amor.
Eles terminaram o desjejum e, pouco depois, estavam no elevador privativo que os levaria à garagem, onde uma frota de carros pretos blindados os aguardava. Oscar não deixava nada ao acaso quando se tratava da segurança de Lily.
Ao entrarem no carro, Lily olhou para a cobertura uma última vez antes de partirem. Ela se sentia leve. O peso da noite havia sido carregado pelos ombros largos de Oscar, deixando-a livre para aproveitar o que estava por vir.
— Ibiza nos espera — disse Oscar, apertando a mão dela enquanto o carro deslizava suavemente pelas ruas de Mônaco em direção ao aeroporto.
A viagem estava apenas começando, e Lily sabia que, não importava quais sombras tentassem persegui-la, a luz da devoção de Oscar Piastri sempre seria mais forte. Ele era seu marido rico, seu CEO implacável, seu protetor silencioso. Mas, acima de tudo, ele era o homem que a amava o suficiente para lutar contra seus fantasmas, mesmo no meio da noite.