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Sussurros de um Passado Inconveniente

O trajeto até o aeroporto de Nice era feito em um silêncio confortável dentro do Rolls-Royce blindado. O interior do veículo cheirava a couro novo e ao perfume amadeirado e caro de Oscar. Através dos vidros escurecidos, a paisagem da Côte d'Azur passava como um borrão de azul e dourado. Oscar, sempre atento, estava inclinado para a frente, conversando em voz baixa com o motorista e chefe de sua segurança pessoal sobre a logística de desembarque em Ibiza e a escolta que os aguardaria na pista privativa.

— Certifique-se de que a equipe de apoio já esteja na villa antes de pousarmos — instruía Oscar, sua voz mantendo aquele tom de autoridade calma que não admitia falhas. — Não quero Lily esperando por bagagens ou trâmites burocráticos. Tudo deve estar pronto.

Lily observava o perfil do marido. Mesmo em um momento de lazer, a mente de Oscar trabalhava como uma máquina de precisão, sempre focada em protegê-la e em garantir que o mundo ao redor dela funcionasse sem atritos. Ela sorriu, sentindo uma onda de carinho, e buscou seu celular na bolsa de mão da Hermès para conferir o horário.

Foi então que o aparelho vibrou em sua palma. O nome na tela fez seu coração errar uma batida: "Mãe".

Lily sentiu uma súbita rigidez nos ombros. Sua relação com Anny era um campo minado de emoções contraditórias. Ela amava a mãe, mas a mágoa por Anny ter escolhido permanecer ao lado do homem que transformara a infância de Lily em um pesadelo era uma ferida que nunca cicatrizava completamente. Lily ajudava a mãe financeiramente — enviava uma mesada generosa todos os meses, garantia que ela tivesse assistência médica e conforto —, mas com a condição estrita de que nem um centavo chegasse às mãos dele.

Ela hesitou, olhando para Oscar. Ele ainda estava distraído com os detalhes da segurança. Com um suspiro contido, Lily deslizou o dedo pela tela e atendeu, baixando a voz.

— Oi, mãe.

— Lily? Oh, querida, que bom que você atendeu — a voz de Anny soou trêmula e ansiosa do outro lado da linha, o barulho de fundo sugerindo que ela estava em algum lugar barulhento, talvez na cozinha da casa que Oscar comprara para ela, longe de Mônaco.

— O que aconteceu? — perguntou Lily, sentindo a ansiedade começar a subir por sua garganta. — Eu estou a caminho do aeroporto, mãe. Oscar e eu estamos saindo de férias.

— Eu sei, eu sei... eu só... eu precisava ouvir sua voz — Anny fez uma pausa, e Lily pôde ouvir o som de um suspiro pesado. — As coisas estão difíceis aqui, Lily. Ele... ele está de mau humor de novo. A conta de luz veio alta e ele começou a gritar sobre como você nos despreza, como você vive como uma rainha enquanto nós...

Lily fechou os olhos com força, sentindo uma pontada de náusea.

— Mãe, eu já disse. Eu não ajudo "vocês". Eu ajudo você. Se ele está reclamando, o problema é dele. Por que você ainda o escuta? Por que você ainda está aí?

— Não é tão simples, querida — sussurrou Anny, e Lily podia imaginar a mãe encolhida, a mesma postura de derrota que ela mesma costumava ter anos atrás. — Ele não tem para onde ir. E eu... eu não consigo simplesmente deixá-lo.

— Você consegue, mãe. Você só não quer — a voz de Lily saiu mais fria do que ela pretendia. — Eu ofereci tudo a você. Um apartamento em Londres, em Paris, onde você quisesse. Mas você escolhe ficar com o homem que...

Ela parou, incapaz de terminar a frase. A lembrança do pesadelo da noite anterior voltou com força total, a sensação das mãos ásperas e o cheiro de álcool.

— Ele mudou, Lily. Ele só está estressado — Anny tentou defender, uma mentira que ela contava a si mesma há décadas. — Ele só precisava de um pouco mais de dinheiro este mês, para o conserto do carro...

— Não. Nem mais um centavo. — O tom de Lily era final. — Se eu souber que você deu dinheiro a ele, eu vou cortar a sua mesada, mãe. Eu estou falando sério. Eu não vou financiar o homem que destruiu a minha paz.

Do outro lado, Anny começou a soluçar baixinho, um som que sempre desarmava Lily e a fazia se sentir a pior filha do mundo, apesar de ser ela a vítima da história.

— Você é tão dura, Lily... o dinheiro mudou você. Você e esse seu marido bilionário... vocês não entendem o que é ser humano.

Aquelas palavras doeram. Lily sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.

— O dinheiro não me mudou, mãe. O trauma me mudou. E o Oscar... o Oscar foi o único que me tratou como um ser humano de verdade. Eu preciso desligar.

Lily encerrou a chamada antes que a mãe pudesse responder. Ela guardou o celular na bolsa com as mãos trêmulas, tentando controlar a respiração. Ela não queria que Oscar percebesse. Não queria estragar o início das férias com o peso morto de seu passado.

No entanto, nada escapava a Oscar Piastri.

Ele terminou a conversa com o motorista e voltou sua atenção para a esposa. Bastou um olhar para ver a palidez no rosto dela e o brilho úmido em seus olhos. A expressão de Oscar endureceu instantaneamente, a calma profissional sendo substituída por uma proteção possessiva.

Ele se aproximou dela no banco traseiro espaçoso, pegando as mãos frias de Lily entre as suas.

— Era ela, não era? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.

Lily tentou desviar o olhar, mas Oscar gentilmente tocou seu queixo, forçando-a a olhá-lo.

— Sim — admitiu ela em um sussurro. — Ela ligou para pedir mais dinheiro. Para ele.

Os nós dos dedos de Oscar ficaram brancos enquanto ele apertava a mão de Lily, não de forma a machucá-la, mas como se estivesse tentando transferir sua própria força para ela.

— O que eu te disse sobre atender as ligações dela quando estamos prestes a viajar? — Ele não estava dando uma bronca; era uma pergunta carregada de preocupação. — Ela sabe exatamente como te manipular, Lily.

— Ela é minha mãe, Oscar... eu não consigo simplesmente ignorar.

— Ela é a mulher que permite que aquele monstro viva sob o teto que eu pago — rebateu Oscar, os olhos claros faiscando de uma fúria contida. — Lily, eu já disse e vou repetir: se você quiser, eu posso cortar todo o contato. Eu posso garantir que ela tenha tudo o que precisa sem que você precise ouvir uma única palavra de vitimização dela.

— Não, eu não posso fazer isso — Lily balançou a cabeça, uma lágrima finalmente escapando e rolando por sua bochecha. — Eu me sentiria culpada.

Oscar suspirou, puxando-a para o seu peito. Ele a abraçou com força, escondendo o rosto no pescoço dela.

— Você tem o coração mais gentil que eu já conheci, e é por isso que eu te amo. Mas esse coração te faz sofrer por pessoas que não merecem uma gota das suas lágrimas.

Ele se afastou um pouco e olhou nos olhos dela, sua expressão suavizando para aquela ternura profunda que ele reservava apenas para os momentos de intimidade.

— Ouça-me. Estamos indo para Ibiza. Pelos próximos dez dias, o mundo exterior não existe. Não haverá ligações da sua mãe, não haverá pedidos de dinheiro e, certamente, não haverá menções àquele homem. Eu vou pedir ao Marcus para filtrar todas as suas chamadas. Se for uma emergência real, ele me avisará. Caso contrário, você não vai tocar nesse telefone.

— Oscar, você não pode simplesmente...

— Eu posso e eu vou — interrompeu ele, com uma determinação inabalável. — Eu não trabalhei dezesseis horas por dia nas últimas semanas para ver você chorar no banco de trás de um carro por causa de pessoas que só querem tirar proveito de você. Este é o nosso aniversário, Lily. Quatro anos de nós. E eu não vou deixar o passado roubar isso de você.

Lily sentiu um imenso alívio lavar sua alma. A autoridade de Oscar, que às vezes podia parecer excessiva para outros, era exatamente o que ela precisava para se sentir protegida. Ele era o muro entre ela e o caos.

— Tudo bem — ela cedeu, deixando os ombros relaxarem. — Você venceu. Sem telefone.

— Ótimo — Oscar sorriu, um sorriso pequeno e vitorioso, e beijou a ponta do nariz dela. — Agora, limpe essas lágrimas. Minha esposa é bonita demais para ficar triste.

O carro entrou na área privativa do aeroporto, parando diretamente ao lado do jato executivo da Piastri Global. A aeronave branca e elegante brilhava sob o sol do meio-dia, com a tripulação já posicionada ao lado da escada.

Oscar desceu primeiro, oferecendo a mão para Lily com a elegância de um cavalheiro de outra época. Enquanto caminhavam em direção ao avião, ele manteve o braço firmemente em volta da cintura dela, um sinal claro para qualquer um que estivesse observando de que ela era o seu tesouro mais precioso.

Ao subirem a escada, o comissário de bordo os cumprimentou com uma reverência respeitosa.

— Bem-vindos a bordo, senhor e senhora Piastri. O champanhe favorito da senhora já está no gelo e o almoço será servido assim que atingirmos a altitude de cruzeiro.

— Obrigado, Julian — respondeu Oscar, conduzindo Lily para as poltronas de couro creme da cabine luxuosa.

Assim que se sentaram e o avião começou a taxiar, Oscar pegou o celular de Lily da mão dela.

— Com licença — disse ele, com um brilho divertido nos olhos.

Ele caminhou até o pequeno cofre embutido na parede da cabine, colocou o aparelho lá dentro e trancou a porta digital.

— Agora — disse ele, voltando para o lado dela e pegando a taça de champanhe que o comissário oferecia —, as férias começaram oficialmente.

Lily riu, sentindo o peso do mundo diminuir a cada metro que o jato ganhava de altitude. Ela olhou pela janela, vendo a costa de Mônaco se tornar pequena lá embaixo.

— Você é impossível, Oscar Piastri.

— Eu sou um homem prático, Lily — ele brindou com ela, o cristal das taças produzindo um som límpido. — E a minha prática favorita é garantir que você seja feliz.

— Você consegue fazer isso muito bem — admitiu ela, tomando um gole da bebida gelada e sentindo as bolhas dançarem em sua língua.

— Eu tenho motivação de sobra — ele respondeu, sua voz baixando para aquele tom rouco e sexy que sempre a fazia arrepiar. — Quatro anos de casamento é apenas o aquecimento. Em Ibiza, eu vou te lembrar por que você disse "sim" para um CEO teimoso e controlador como eu.

— Eu não preciso de lembretes, Oscar. Eu sei exatamente o porquê.

Ela se inclinou e o beijou, um beijo que carregava toda a gratidão e o amor que sentia. Oscar respondeu com intensidade, suas mãos subindo para o rosto dela, segurando-a como se ela fosse feita de vidro fino.

Enquanto o jato cruzava os céus em direção às Ilhas Baleares, o drama familiar e as sombras do passado pareciam pertencer a outra vida. Ali, naquela bolha de luxo e devoção, Lily Piastri não era a menina assustada ou a filha sobrecarregada. Ela era a mulher de Oscar, a rainha de seu império e a única pessoa capaz de desarmar o homem mais poderoso que ela já conhecera.

Oscar olhou para ela, vendo o brilho retornar aos seus olhos, e sentiu uma satisfação profunda. Ele faria qualquer coisa para manter aquele brilho. Se fosse necessário comprar o silêncio do mundo inteiro para que Lily pudesse sorrir, ele o faria sem hesitar.

— O que você está pensando? — perguntou ela, notando a expressão séria dele.

— Estou pensando que Ibiza nunca viu nada tão bonito quanto você sob a luz da lua — respondeu ele, a sinceridade em sua voz desarmando qualquer dúvida.

Lily corou, encostando a cabeça no ombro dele.

— Você sempre sabe o que dizer.

— Eu só digo a verdade, Lily. Sempre.

O avião seguiu seu curso firme, rasgando as nuvens, deixando para trás as complicações de Mônaco e as ligações indesejadas. O paraíso os esperava, e Oscar Piastri estava determinado a garantir que nada, absolutamente nada, estragasse o momento deles.

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