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Sombras no Paraíso de Cristal
A mansão em Ibiza era uma obra-prima da arquitetura contemporânea, incrustada em um penhasco particular que parecia mergulhar diretamente nas águas escuras e cintilantes do Mediterrâneo. Quando o helicóptero privativo da Piastri Global pousou no heliponto da propriedade, a noite já havia caído, trazendo consigo uma brisa quente e perfumada com o sal do mar e o aroma de jasmins.
Funcionários impecavelmente trajados em uniformes de linho branco aguardavam em fila, movendo-se com a eficiência invisível que Oscar exigia. As malas foram levadas para a suíte principal antes mesmo que o casal cruzasse o hall de entrada de mármore translúcido, iluminado por lustres que pareciam gotas de chuva congeladas.
Lily caminhava ao lado de Oscar, sentindo o cansaço da viagem e a tensão acumulada do dia pesarem em seus ombros. O luxo ao seu redor era estonteante, mas sua mente ainda divagava para a ligação interrompida no carro. Oscar, percebendo o silêncio dela, apertou sua mão com firmeza enquanto subiam a escadaria de vidro.
— Vá tomar um banho demorado, querida — disse ele, a voz baixa e aveludada, enquanto entravam na suíte master, onde as portas de correr já estavam abertas para o terraço privativo com piscina de borda infinita. — Eu vou pedir para servirem o jantar aqui no quarto. Algo leve, para podermos descansar.
Lily forçou um sorriso, grata pela sensibilidade dele.
— Obrigada, Oscar. Eu realmente preciso de um momento para relaxar.
— Tire o tempo que precisar — ele respondeu, depositando um beijo casto em sua testa. — Eu estarei aqui quando você sair.
Lily pegou um robe de seda e desapareceu no banheiro, um santuário de mármore com uma banheira de imersão que oferecia uma vista panorâmica para o oceano escuro.
Do lado de fora, no quarto, Oscar desfez o nó da gravata e a jogou sobre uma poltrona de design. Ele caminhou até o cofre portátil onde havia guardado o celular de Lily. Por um momento, hesitou. Ele queria dar a ela paz total, mas algo em seu instinto de proteção — ou talvez sua natureza controladora de CEO — o fez abrir o cofre.
Assim que a tela se iluminou, o visor mostrava dezessete chamadas perdidas. Todas de Anny.
Oscar sentiu o maxilar travar. O telefone começou a vibrar novamente em sua mão. O nome "Mãe" brilhava insistentemente. Ele olhou para a porta fechada do banheiro, de onde vinha o som da água correndo, e tomou uma decisão.
Ele atendeu, mas não levou o aparelho ao ouvido imediatamente. Saiu para o terraço, onde o som das ondas abafaria sua voz.
— Alô? Lily? Por favor, não desliga! — A voz de Anny veio em um turbilhão de desespero e choro.
— Não é a Lily, Anny. É o Oscar — disse ele, o tom de voz gélido como o aço.
Houve um silêncio súbito do outro lado da linha, seguido por um soluço abafado.
— Oscar... oh, graças a Deus. Por favor, eu preciso falar com ela. É urgente.
— Ela está tomando banho. E, francamente, mesmo que não estivesse, eu não permitiria que ela falasse com você agora — declarou Oscar, caminhando até a beirada do terraço, observando o reflexo da lua na água. — Você sabe que dia é amanhã? É o nosso aniversário. E você passou o dia inteiro tentando sabotar a estabilidade emocional da sua filha.
— Você não entende, Oscar! — Anny exclamou, a voz subindo uma oitava. — Ele está fora de si. Ele quebrou a televisão, disse que se a Lily não enviar o dinheiro para a dívida do jogo dele até amanhã, ele vai... ele vai vir atrás de nós. Ele disse que sabe onde vocês moram em Mônaco!
Oscar soltou uma risada curta e sem humor, um som que faria qualquer subordinado seu tremer.
— Deixe que ele tente. Meus seguranças ficariam encantados em ter um alvo para praticar. Anny, você tem noção do que está fazendo? Você está usando o medo para extorquir a sua própria filha, que já te dá uma vida que você nunca sonhou ter.
— Eu só quero paz, Oscar! — ela gritou, chorando abertamente agora. — Por favor, é só desta vez. São cinquenta mil euros. Para você isso não é nada! É o preço de um relógio seu! Ajude-o, por favor, ou ele vai me matar!
— Cinquenta mil euros para um homem que abusou da minha esposa? — Oscar perguntou, cada palavra pronunciada com uma lentidão letal. — Eu não daria um centavo para vê-lo vivo, Anny. Eu daria milhões para garantir que ele nunca mais respirasse.
— Por favor... — implorou a mulher. — Lily nunca se perdoaria se algo acontecesse comigo. Você sabe como ela é. Ela tem o coração mole.
Oscar fechou os olhos, sentindo uma fúria cega. Ele odiava como aquelas pessoas usavam a bondade de Lily como uma arma contra ela mesma. Ele estava prestes a desligar e bloquear o número permanentemente quando ouviu um som vindo de dentro do quarto.
Ele se virou e viu Lily.
Ela estava parada junto à porta de vidro, envolta no robe branco, o cabelo úmido caindo sobre os ombros. Mas não era a visão da beleza dela que o paralisou; era o fato de que ela estava chorando. Silenciosamente. As lágrimas escorriam por seu rosto pálido, e ela tinha a mão sobre a boca, tentando conter os soluços.
Ela tinha ouvido. Talvez não tudo, mas o suficiente.
Oscar sentiu seu coração se despedaçar. Ver Lily chorar era a única coisa no mundo capaz de dobrar sua vontade de ferro. Ele desligou o telefone sem dizer mais nada a Anny e caminhou rapidamente até a esposa.
— Lily... — ele começou, estendendo os braços.
Ela desmoronou contra o peito dele, chorando com uma angústia que parecia vir do fundo de sua alma. Oscar a segurou com força, sentindo a fragilidade de seu corpo contra o dele.
— Eu não aguento mais, Oscar — ela soluçou contra a sua camisa social. — Eu me sinto tão culpada... e tão suja por ter que lidar com isso. Eu só queria que eles me deixassem ser feliz com você.
Oscar a conduziu até a cama, sentando-se com ela em seu colo, ninando-a como se ela fosse o tesouro mais raro do mundo. Ele beijou o topo de sua cabeça, sentindo o cheiro de shampoo de flores cítricas, um contraste cruel com a dor que ela estava sentindo.
— Shhh, eu estou aqui. Eu cuido disso — ele sussurrou, a voz agora carregada de uma promessa solene.
— Não dê o dinheiro, Oscar — ela disse, afastando-se para olhá-lo, os olhos vermelhos e inchados. — Por favor, não ceda. Ele não merece.
Oscar olhou para ela, vendo a exaustão em seu rosto. Ele sabia que, racionalmente, Lily estava certa. Mas ele também sabia que, se não resolvesse aquilo, Lily passaria as férias inteiras em agonia, esperando o próximo desastre, o próximo pesadelo, a próxima ameaça contra a mãe.
Ele não suportava vê-la sofrer.
— Deite-se um pouco — pediu ele, a voz suave mas firme. — Tente descansar. Eu vou resolver tudo. Eu prometo que, quando você acordar amanhã, esse assunto estará encerrado para sempre.
— O que você vai fazer? — perguntou ela, a voz fraca.
— O que eu faço de melhor, querida. Vou gerenciar o risco.
Oscar esperou que ela se acomodasse entre os travesseiros de plumas. Ele permaneceu ao lado dela, acariciando sua mão até que a respiração dela se tornasse pesada e regular, o cansaço finalmente vencendo a ansiedade.
Somente quando teve certeza de que ela dormia, Oscar levantou-se. Ele pegou seu próprio telefone, um modelo criptografado, e saiu novamente para o terraço. O rosto dele, antes suave para Lily, agora era uma máscara de frieza absoluta.
Ele discou um número internacional.
— Marcus? — disse ele, assim que a chamada foi atendida no primeiro toque.
— Sim, senhor Piastri. Algum problema em Ibiza?
— Um problema persistente. A conta é da Anny Zneimer. Transfira setenta e cinco mil euros para a conta dela imediatamente.
Houve uma pequena pausa do outro lado. Marcus conhecia o histórico.
— O senhor tem certeza? A última instrução foi de não ceder a extorsões.
— Eu vi minha esposa chorar, Marcus — disse Oscar, e sua voz era como o gelo quebrando sob pressão. — Isso muda qualquer instrução anterior. Mas ouça bem: eu quero que esse dinheiro venha com uma mensagem. Envie dois dos nossos "consultores" de segurança em Nice para fazerem uma visita pessoal a ele.
— Quais são as ordens para a visita, senhor?
— Diga a ele que este é o último centavo que ele verá na vida. Diga que, se ele ligar para a Lily, se ele ameaçar a Anny, ou se ele sequer pronunciar o nome Piastri novamente, eu não vou usar advogados. Eu vou usar o meu patrimônio para garantir que ele desapareça da face da terra de uma maneira muito lenta e dolorosa. Fui claro?
— Perfeitamente, senhor. Vou providenciar o pagamento e a visita agora mesmo.
— E Marcus... — Oscar acrescentou, olhando para o horizonte escuro — certifique-se de que a Anny entenda que, se ela facilitar outro contato desses, a casa dela será vendida e ela será realocada para um lugar onde não há sinal de telefone. Eu cansei de ser benevolente.
— Entendido, senhor. Boa noite.
Oscar desligou o telefone e o guardou no bolso. Ele sentiu um peso sair de seus ombros, embora a raiva ainda borbulhasse sob a superfície. Ele odiava ter que pagar aquele homem, mas o preço da paz de Lily era algo que ele pagaria mil vezes sem pestanejar. Para ele, o dinheiro era apenas uma ferramenta; e se a ferramenta servia para limpar as lágrimas de sua esposa, então era um dinheiro bem gasto.
Ele voltou para o quarto, movendo-se silenciosamente. Lily havia se virado durante o sono, abraçando um dos travesseiros. Oscar despiu-se e deitou-se ao lado dela, puxando-a para perto.
Lily murmurou algo em sonhos e se encaixou no abraço dele, o corpo relaxando instantaneamente ao sentir o toque familiar.
— Acabou, Lily — sussurrou ele contra o cabelo dela. — Eu cuidei de tudo.
Naquela noite, o CEO bilionário não pensou em ações, fusões ou lucros. Ele pensou apenas na mulher em seus braços. Ele sabia que o mundo lá fora a via como a "esposa sortuda" de um homem rico, mas a verdade era que ele era o sortudo. Ela era sua bússola moral, sua doçura em um mundo de tubarões.
Quando o sol começou a nascer sobre as falésias de Ibiza, tingindo o quarto de um dourado suave, Lily abriu os olhos. Ela se sentia estranhamente leve. Olhou para Oscar, que já estava acordado, observando-a com uma adoração que nunca diminuía.
— Bom dia — disse ele, a voz rouca e carinhosa.
— Bom dia — ela respondeu, esticando-se. — Eu dormi tão bem...
— Eu disse que resolveria — ele sorriu, acariciando o rosto dela. — Feliz aniversário de quatro anos, meu amor.
Lily sentou-se na cama, notando que o celular dela não estava em lugar nenhum. Ela olhou para Oscar, uma pergunta silenciosa em seus olhos.
— O assunto foi encerrado — afirmou ele, respondendo à pergunta não feita. — Ninguém vai nos incomodar. A sua mãe está bem, e aquele homem... bem, ele recebeu um aviso que não poderá ignorar.
Lily sentiu uma lágrima de gratidão brotar. Ela sabia que Oscar tinha usado seu poder, e embora ela detestasse a violência do mundo dele, ela amava a forma como ele usava esse poder para ser seu escudo.
— Obrigada, Oscar. Por tudo.
— Não me agradeça — ele disse, puxando-a para um beijo profundo e apaixonado. — Apenas aproveite o dia. Hoje, o mundo pertence a você.
Eles tomaram o café da manhã no terraço, rindo e planejando os dias de sol e mar que viriam. Para quem olhasse de longe, eram apenas dois jovens ricos em uma mansão cinematográfica. Mas, por trás das paredes de vidro e do luxo obsceno, havia um pacto de sangue e devoção.
Oscar Piastri podia ser o homem mais frio do mundo dos negócios, mas para Lily, ele era o fogo que queimava qualquer sombra que ousasse tocar sua luz. E enquanto estivessem juntos, Ibiza — e o resto do mundo — seria apenas o cenário para o seu amor indestrutível.