tudo por voce
O Silêncio de Ouro e a Promessa de Sal
A brisa de Ibiza, que antes parecia um convite ao paraíso, agora soprava contra as janelas da vila com um som sibilante que irritava os nervos de Lily. O quarto de hóspedes da ala leste, embora decorado com o mesmo luxo minimalista e tecidos orgânicos que o resto da propriedade, parecia uma cela de isolamento. Ela havia trancado a porta dupla de carvalho claro e se recusava a responder a qualquer chamado.
Lily estava sentada no divã de linho, olhando para o horizonte onde o azul do mar se fundia com o do céu, mas sua mente estava em Mônaco, na secretária que a ignorou, na ligação da mãe que a extorquiu e, principalmente, na imagem de Oscar com o celular colado ao ouvido, priorizando números em vez de sentimentos. A TPM apenas amplificava a sensação de que ela era um acessório caro na vida de um homem poderoso — algo a ser exibido e cuidado, mas deixado na prateleira quando o trabalho real começava.
Do outro lado da porta, o som de passos pesados e decididos anunciou a chegada dele.
— Lily? — A voz de Oscar era baixa, mas carregada daquela autoridade calma que ele usava para acalmar investidores em pânico. — Por favor, abra a porta. Já terminei tudo. Marcus tem o controle. Eu sou todo seu agora.
Lily não respondeu. Ela abraçou os joelhos, escondendo o rosto entre eles.
— Lily, eu sei que você está me ouvindo — continuou ele, e ela pôde ouvir o suspiro pesado dele encostado na madeira da porta. — Eu sinto muito. Eu sei que prometi. Eu sei que o timing foi horrível. Mas eu não posso consertar nada se você se trancar longe de mim.
— Você já consertou o que era importante para você, Oscar! — gritou ela, a voz saindo abafada pelo choro. — Os seus bilhões estão seguros. Agora me deixe em paz com a minha insignificância.
Houve um silêncio tenso no corredor. Oscar Piastri não era um homem acostumado a ser rejeitado, mas com Lily, ele nunca usava sua força ou sua influência. Ele era paciente, mas até a paciência de um estrategista tinha limites quando o coração estava em jogo.
— Eu não vou embora, Lily. Mas não vou forçar você a sair. Se você precisa de espaço, eu vou respeitar. Mas saiba que nada do que eu conquistei faz sentido se eu tiver que jantar sozinho nesta mesa.
Ela ouviu os passos dele se afastarem. Uma parte dela sentiu um alívio amargo, a outra, um vazio desesperador. Lily passou as horas seguintes mergulhada em uma melancolia profunda. Agatha tentou trazer um lanche, deixando-o na porta após Lily gritar que não estava com fome. O sol começou a baixar, tingindo o quarto de tons alaranjados e roxos, e o silêncio da vila tornou-se absoluto.
Por volta das sete da noite, um som diferente começou a ecoar. Não eram passos, nem a voz de Oscar. Era música.
Lily franziu a testa. Era uma melodia suave, tocada em um violão acústico, vinda do jardim privativo que ficava logo abaixo da varanda do quarto de hóspedes. Curiosa apesar de sua raiva, ela se levantou e caminhou lentamente até a sacada.
Ao olhar para baixo, seu coração deu um solavanco.
O jardim da vila havia sido transformado. Centenas de velas flutuantes iluminavam a piscina, e lanternas de papel pendiam das oliveiras centenárias. No centro de um círculo de flores brancas — gardênias, as suas favoritas —, Oscar estava sentado em uma cadeira simples, sem terno, sem sapatos, vestindo apenas uma calça de linho e uma camisa branca com as mangas dobradas.
Ele não estava tocando o violão; havia um músico local contratado em um canto discreto, mas Oscar segurava algo nas mãos: um pequeno caderno de couro desgastado.
Ao notar a presença dela na varanda, ele se levantou. A luz das velas refletia em seus olhos claros, dando-lhe uma aparência quase mística, mas o que Lily viu foi a vulnerabilidade crua em seu rosto.
— Eu não sou um homem de muitas palavras, Lily — disse ele, a voz projetada para que ela pudesse ouvir claramente acima do som do mar. — E as palavras que eu uso, geralmente são para fechar negócios ou dar ordens. Mas há quatro anos, eu escrevi algo que nunca tive coragem de ler em voz alta fora do nosso altar.
Lily segurou o parapeito de mármore, sentindo o vento bagunçar seus cabelos.
— Oscar, o que você está fazendo? — perguntou ela, a voz falhando.
— Estou tentando lembrar a mim mesmo, e a você, quem eu sou quando o CEO morre e apenas o homem resta — ele abriu o caderno. — "Para Lily, no dia em que o mundo finalmente fizer sentido". Isso foi o que escrevi na noite antes do nosso casamento.
Oscar começou a ler. Não eram promessas genéricas de fidelidade. Eram observações minuciosas que só alguém profundamente devoto notaria. Ele leu sobre como o jeito que ela ajeitava o cabelo quando estava nervosa o fazia querer protegê-la de tudo. Sobre como a risada dela era o único som que conseguia silenciar o barulho das máquinas e das planilhas em sua cabeça.
— Eu escrevi que meu maior medo não era perder minha fortuna, mas acordar um dia e perceber que eu tinha me tornado o tipo de homem que você não reconheceria — Oscar parou de ler e olhou diretamente para ela. — Hoje, quando vi você se trancando naquele quarto, eu percebi que esse medo se tornou real. Eu deixei o ruído do mundo ser mais alto que a sua voz.
Lily sentiu as lágrimas escorrerem, mas desta vez não eram de raiva. Era a desconstrução de sua armadura.
— Você não é insignificante, Lily — continuou ele, dando um passo em direção à varanda, embora estivesse um andar abaixo. — Você é o eixo. Sem você, eu sou apenas um homem rico cercado de coisas vazias. Eu não quero os três bilhões se o preço for o brilho nos seus olhos.
Ele sinalizou para Agatha, que apareceu ao lado de Lily na varanda, segurando uma pequena caixa de veludo e um controle remoto.
— O Sr. Piastri pediu para lhe entregar isto, senhora — disse a assistente com um sorriso cúmplice.
Lily abriu a caixa. Dentro, não havia um diamante ou uma joia de grife. Havia uma chave antiga, de ferro, e um pequeno pedaço de papel com uma coordenada geográfica.
— O que é isso? — Lily perguntou, olhando para baixo.
— É a chave de uma pequena cabana na costa oeste da ilha — explicou Oscar. — Eu a comprei em seu nome há dois meses. Não tem sinal de celular. Não tem internet. Não tem funcionários. Só tem o mar, o sol e nós dois. Eu já enviei nossas malas para lá. O barco está esperando na doca da vila.
Ele estendeu a mão, a palma voltada para cima, em um convite silencioso.
— Eu demiti o CEO por duas semanas, Lily. Ele não é bem-vindo na nossa cabana. Só o Oscar que ama você está convidado. Você vem comigo?
Lily olhou para a chave, depois para o homem que havia movido céus e terra para derrubar as paredes que ela mesma erguera. A raiva que parecia tão sólida horas atrás agora era apenas fumaça. Ela percebeu que Oscar não era perfeito, e que a vida deles sempre seria uma batalha contra as demandas do império dele, mas ele estava disposto a lutar essa batalha ao lado dela, e não contra ela.
— Espere — disse ela, voltando para dentro do quarto.
Oscar esperou, o coração batendo mais rápido do que em qualquer fusão bilionária. Alguns minutos depois, a porta da varanda se abriu novamente e Lily apareceu, já sem a manta, vestindo um vestido leve de seda que dançava com o vento. Ela desceu as escadas do jardim correndo, os pés descalços na grama úmida.
Quando ela chegou ao círculo de velas, não parou para falar. Ela se lançou nos braços dele. Oscar a segurou com força, tirando-a do chão, escondendo o rosto em seu pescoço e respirando o perfume dela como se fosse oxigênio após um afogamento.
— Me desculpe — sussurrou ela contra a pele dele. — A minha cabeça... as coisas da minha mãe... eu me senti tão sozinha.
— Eu sei, meu amor. Eu sei — Oscar a colocou no chão, mas manteve as mãos firmes em sua cintura. — Eu nunca mais vou deixar você sentir que está em segundo lugar. Eu vou cuidar da sua mãe, eu vou cuidar daquele homem para que ele nunca mais chegue perto de você, e eu vou cuidar de nós.
— Você realmente desligou o celular? — perguntou ela, olhando-o nos olhos.
Oscar pegou o aparelho do bolso da calça e, sem hesitar, caminhou até a borda da piscina e o soltou. O som do "splash" foi a música mais bonita que Lily ouviu naquela noite.
— Onde vamos não precisamos de tecnologia — disse ele com um sorriso audacioso.
— Então leve-me para essa cabana, Oscar Piastri. Antes que eu mude de ideia e peça um anel novo para compensar o estresse.
Ele riu, uma risada aberta e genuína, e a beijou com uma paixão que selava o novo acordo entre eles.
Eles caminharam de mãos dadas até o cais privativo da vila, onde um iate menor e mais ágil os esperava. A tripulação já havia recebido ordens de apenas levá-los ao destino e partir. Enquanto o barco cortava as águas escuras do Mediterrâneo sob a luz da lua, Lily se encostou no peito de Oscar, sentindo a vibração do motor e a segurança dos braços dele.
A cabana era exatamente o que ele prometera: um refúgio de pedra e madeira, isolado em uma enseada onde apenas o som das gaivotas e das ondas quebrava o silêncio. Não havia luxo ostensivo, apenas o essencial: uma cama confortável, uma lareira e a imensidão do mar à porta.
Naquela noite, sob o teto de madeira e longe dos flashes de Mônaco ou das pressões de sua fortuna, eles se redescobriram. Não havia Lily, a esposa do CEO, nem Oscar, o prodígio dos negócios. Havia apenas dois jovens que se amavam, tentando navegar pelas complexidades de suas próprias histórias.
— Feliz quatro anos, Lily — sussurrou Oscar na penumbra da cabana, enquanto a puxava para baixo dos lençóis.
— Feliz quatro anos, Oscar.
Na manhã seguinte, Lily acordou com o som do mar, mas desta vez, não havia medo. Ela olhou para o lado e viu Oscar dormindo, o rosto relaxado, sem nenhum dispositivo eletrônico por perto. Ela sorriu, sabendo que a batalha contra o mundo exterior continuaria assim que as férias terminassem, mas que, por agora, o império de Oscar Piastri consistia apenas em uma pequena cabana e na mulher que ele amava. E isso, ela percebeu, era mais do que suficiente.