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O Preço do Império

A manhã em Ibiza surgiu como uma pintura em aquarela, com o sol refletindo nas águas azul-turquesa que banhavam a encosta da vila privativa. Lily acordou sentindo-se estranhamente leve. O peso da madrugada anterior em Mônaco parecia ter se dissipado sob o toque constante de Oscar e o som relaxante das ondas. Ela se espreguiçou nos lençóis de mil fios, sentindo o calor do corpo do marido ao seu lado. Oscar ainda dormia, a expressão séria de CEO substituída por uma serenidade juvenil que poucos tinham o privilégio de ver.

Ela ficou ali, observando-o. As costas largas de Oscar, marcadas pela musculatura definida de quem mantinha a disciplina até nos momentos de lazer, subiam e desciam ritmadamente. Lily sentiu uma onda de gratidão. Ele era o seu porto seguro, o homem que, apesar de comandar bilhões, parava tudo para cuidar de suas cólicas e de seus medos.

— Bom dia, minha doce Lily — murmurou Oscar, a voz rouca pelo sono, sem abrir os olhos. Ele tateou a cama até encontrar a cintura dela, puxando-a para mais perto.

— Bom dia, Sr. Piastri — respondeu ela, rindo baixinho enquanto ele enterrava o rosto em seu pescoço, deixando beijos úmidos e preguiçosos. — Pensei que estivesse dormindo.

— Com você se movendo assim? Impossível não acordar para apreciar — ele finalmente abriu os olhos claros, que brilhavam com uma afeição profunda. — Como você está se sentindo? A dor passou?

— Muito melhor. Você é um enfermeiro excelente, sabia?

Oscar sorriu, aquele sorriso raro e sexy que fazia o coração de Lily dar saltos.

— Tenho motivação de sobra para garantir que você esteja bem. Hoje o dia é nosso. Sem reuniões, sem Marcus, sem problemas. Apenas o café da manhã no terraço e depois podemos levar o barco para uma cala deserta. O que acha?

— Acho que é exatamente o que eu preciso.

Eles passaram a hora seguinte em um "chamego" delicioso, como Lily costumava chamar. Entre risadas, carícias e planos para o dia, o mundo exterior parecia não existir. Oscar estava totalmente presente, devoto a cada palavra dela, fazendo-a esquecer completamente da ligação perturbadora de sua mãe e da angústia que a cercava.

No entanto, a bolha de perfeição estava prestes a ser perfurada.

Enquanto Lily se levantava para ir ao banheiro, o som estridente e insistente de um telefone começou a ecoar. Não era o celular pessoal de Oscar, que ele havia prometido manter em silêncio, mas o telefone de emergência da vila, conectado diretamente à linha segura de sua empresa.

Oscar congelou. O brilho em seus olhos foi substituído por uma tensão imediata. Lily parou na porta do banheiro, o coração acelerando.

— Oscar, não atenda — pediu ela, a voz quase um sussurro suplicante.

— Lily, essa linha só toca em caso de catástrofe — disse ele, já se levantando e pegando o robe de seda escura. — Pode ser algo na planta de produção ou um problema legal grave. Eu preciso saber o que é.

Ele atendeu no terceiro toque. Lily ficou parada, observando a transformação. Em segundos, o marido carinhoso desapareceu, dando lugar ao executivo implacável.

— Piastri falando. Relate — disse ele, a voz fria como gelo.

Lily não conseguia ouvir o que diziam do outro lado, mas viu a mandíbula de Oscar se travar. Ele começou a andar de um lado para o outro no quarto, a mão livre passando pelo cabelo castanho com um gesto de impaciência contida.

— Como isso é possível? Eu assinei as ordens de segurança pessoalmente. Se o Porto de Santos está bloqueado e a carga de semicondutores foi apreendida por irregularidades fiscais que não existem, isso é um ataque direcionado — Oscar falava rápido, o cérebro processando estratégias em alta velocidade. — Não, Marcus. Não espere até segunda-feira. Ligue para o ministro, agora. Diga que eu estou a caminho de uma videoconferência de emergência.

Ele desligou o telefone e olhou para Lily. Havia um conflito em seus olhos, mas a urgência da crise empresarial falava mais alto.

— Lily, eu sinto muito. Eu realmente sinto muito. Houve um problema crítico no Brasil. Se eu não intervier agora, perderemos um contrato de três bilhões e a reputação da empresa será manchada por uma acusação falsa de fraude.

— Três bilhões, Oscar? — Lily sentiu a irritação borbulhar, aquela sensibilidade da TPM voltando com força total. — E quanto vale o nosso aniversário? Quanto vale a promessa que você me fez há menos de uma hora?

— Meu amor, isso não é uma escolha simples — ele tentou se aproximar, mas ela recuou. — Milhares de empregos dependem dessa carga. Eu preciso resolver isso. Vai levar algumas horas, talvez a manhã toda, mas eu prometo compensar você.

— "Algumas horas" sempre se transformam no dia inteiro, Oscar! — gritou ela, as lágrimas de frustração começando a escorrer. — Eu preparei tudo. Eu aguentei a humilhação da sua secretária, eu aguentei a minha mãe me chantageando para não estragar o seu humor, e agora, no primeiro dia das nossas férias, você me abandona por causa de semicondutores?

Oscar suspirou, o peso da responsabilidade sobre seus ombros parecendo esmagador.

— Eu não estou te abandonando, Lily. Estou sendo o homem que mantém tudo isso funcionando. Por favor, tente entender.

— Eu entendo perfeitamente, Oscar. Eu entendo que eu sou a segunda prioridade na sua lista, logo depois do lucro trimestral — Lily caminhou até a mala que Agatha havia arrumado com tanto cuidado e pegou seu travesseiro e uma manta. — Não me procure no café da manhã.

— Lily, não faça isso. Fique aqui, vamos conversar depois que eu terminar a chamada...

— Não tem conversa, Oscar. Vá salvar o seu império. Eu vou para o quarto de hóspedes. Não quero ser acordada pelo som de você negociando bilhões enquanto eu tento processar o fato de que meu casamento é um contrato de conveniência para os seus horários vagos.

— Isso não é verdade e você sabe disso! — Oscar elevou um pouco a voz, a frustração transbordando. — Eu faço tudo por você, Lily! Cada centavo, cada medida de segurança, cada luxo nesta vila é para garantir que você nunca mais sofra como sofreu no passado!

— Então você falhou! — retrucou ela, a voz embargada. — Porque agora eu estou sofrendo por sua causa.

Lily saiu do quarto principal, batendo a porta com uma força que ecoou por toda a vila. Ela caminhou pelo corredor de mármore, as lágrimas embaçando sua visão, até chegar ao quarto de hóspedes no final do ala leste. Era um quarto magnífico, com vista para o jardim, mas parecia frio e desolado.

Ela se jogou na cama, abraçando o próprio corpo. A irritação da TPM a fazia sentir cada palavra de Oscar como uma facada. Ela sabia, no fundo, que ele tinha responsabilidades imensas, mas a criança ferida dentro dela, aquela que sempre fora deixada de lado pela mãe e abusada pelo padrasto, só conseguia sentir o abandono.

Enquanto isso, no quarto principal, Oscar permaneceu em silêncio por um minuto, com os punhos cerrados. Ele queria correr atrás dela, queria pegá-la nos braços e prometer que nada importava além dela. Mas o telefone tocou novamente. Era a realidade de sua vida. Ele era um rei em um trono de ouro, e o preço da coroa era a solidão daqueles que ele mais amava.

Ele caminhou até o escritório da vila, fechou a porta e abriu o laptop.

— Marcus? — a voz de Oscar estava mais dura do que nunca. — Prepare a sala virtual. E avise aos advogados: se alguém tentou nos sabotar, eu quero a cabeça deles em uma bandeja antes do pôr do sol.

As horas passaram de forma lenta e tortuosa. Lily permaneceu trancada no quarto de hóspedes. Agatha, que viajava em uma acomodação separada para funcionários, bateu à porta com uma bandeja de frutas e chá, mas Lily recusou. Ela passou o tempo alternando entre o choro e um silêncio profundo, olhando para o teto, sentindo-se pequena naquela imensidão de luxo.

Por volta das duas da tarde, o silêncio da vila foi interrompido pelo som de passos firmes no corredor. Lily reconheceria aquele andar em qualquer lugar. A porta do quarto de hóspedes se abriu lentamente. Oscar entrou, ainda usando o robe, mas seu rosto mostrava um cansaço extremo.

Ele não disse nada de imediato. Apenas caminhou até a cama e sentou-se na beira, olhando para Lily, que estava encolhida sob a manta.

— Está resolvido — disse ele, a voz baixa. — O bloqueio foi levantado. Os responsáveis pela denúncia falsa foram identificados e serão processados criminalmente ainda hoje.

Lily não se moveu.

— Fico feliz por você, Oscar. Agora você pode voltar a ser o CEO do ano.

Oscar soltou um suspiro pesado e deitou-se ao lado dela, por cima da colcha, puxando-a para perto, apesar da resistência inicial dela.

— Eu não quero ser o CEO do ano, Lily. Eu quero ser o homem que merece você.

— Você não entende, não é? — ela se virou para encará-lo, os olhos vermelhos. — Não é sobre o dinheiro ou a empresa. É sobre o fato de que eu nunca sinto que tenho você por inteiro. Eu sinto que estou sempre esperando por uma brecha na sua agenda para ser amada.

Oscar sentiu uma pontada de dor no peito. Ele a puxou para o seu abraço, e desta vez ela não recuou, embora seu corpo ainda estivesse tenso.

— Você tem razão em estar brava — admitiu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Eu me deixei levar pela urgência da batalha e esqueci que a guerra mais importante eu já venci quando você disse "sim" no altar. Eu fui um idiota.

— Foi mesmo — murmurou ela, o coração começando a amolecer diante da vulnerabilidade dele.

— Eu tomei uma decisão — continuou Oscar, acariciando o braço dela. — Liguei para o conselho administrativo. Marcus vai assumir as operações diárias pelas próximas duas semanas. Eu tirei o meu nome da lista de contatos de emergência. A menos que a sede física da empresa exploda, ninguém vai me encontrar.

Lily levantou a cabeça, olhando-o com descrença.

— Você fez isso?

— Fiz. Porque eu percebi que de nada serve ter três bilhões a mais na conta se a mulher que é a razão de tudo isso está chorando em outro quarto.

Ele a trouxe para mais perto, escondendo o rosto no cabelo dela.

— Perdoe-me, Lily. Eu sou um homem disciplinado, mas às vezes esqueço que a disciplina mais importante é cuidar do seu coração.

Lily soltou um longo suspiro, a raiva finalmente dando lugar ao cansaço emocional. Ela se aconchegou no peito dele, sentindo o ritmo familiar do coração de Oscar.

— Eu te amo, Oscar. Mas por favor... não me deixe sozinha de novo. Especialmente não aqui.

— Nunca mais — prometeu ele, a voz cheia de uma determinação inabalável. — Agora, que tal esquecermos esse quarto de hóspedes e voltarmos para onde deveríamos estar? O barco está esperando, e eu pretendo passar o resto do dia provando que você é a única prioridade da minha vida.

Lily sorriu fracamente, sentindo a segurança retornar. Ela sabia que a vida com Oscar Piastri sempre seria um desafio entre o mundo dos negócios e o mundo do amor, mas naquele momento, sob o sol de Ibiza e nos braços do homem que moveria montanhas por ela, ela escolheu acreditar na promessa dele.

Eles voltaram para o quarto principal de mãos dadas. O império de Oscar podia ser vasto e poderoso, mas ali, entre as paredes brancas daquela vila, ele era apenas um homem devoto à sua esposa, pronto para transformar cada lágrima dela em um motivo para sorrir. O resto do mundo teria que esperar. Oscar Piastri estava oficialmente fora de serviço.

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