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O Castelo de Areia e a Disputa Invisível
A manhã em Mykonos despertou com um céu de um azul tão límpido que parecia pintado à mão. O aroma de pães frescos e frutas cítricas inundava o terraço da vila, onde a família Piastri se reunia para o primeiro café da manhã em solo grego. Oscar, que normalmente aproveitava as manhãs de férias para dormir um pouco mais, fora o primeiro a se levantar. Ele tinha um plano. Passara parte da madrugada pesquisando — não sobre pressões de pneus ou zonas de DRS —, mas sobre como construir o castelo de areia perfeito e quais eram as personagens atuais da franquia Barbie.
Lily observava o marido com um misto de ternura e expectativa. Oscar estava visivelmente esforçado. Ele vestia uma bermuda clara e uma camiseta de linho, parecendo o epítome do pai relaxado, mas seus olhos buscavam constantemente os de Anna, que comia seu iogurte com mel em um silêncio contido, sentada ao lado da mãe.
— Então, pessoal — começou Oscar, tentando manter a voz leve e casual —, o mar hoje parece perfeito. Eu estava pensando que, assim que chegarmos à praia, poderíamos começar um projeto grande.
Alex, que já estava com o rosto sujo de geleia de morango, deu um pulo na cadeira.
— Um projeto? Tipo um carro de corrida de areia, papai? Podemos fazer o MCL38! Eu faço os pneus!
Oscar sentiu o olhar de Lily sobre ele, um lembrete silencioso da conversa da noite anterior. Ele pigarreou, sorrindo para o filho, mas voltando sua atenção imediatamente para a pequena à sua esquerda.
— Na verdade, Alex, eu estava pensando em algo diferente hoje. Anna, eu lembro que você falou sobre um castelo rosa. O que você acha de construirmos o maior castelo de Mykonos? Podemos usar conchas para decorar as torres.
Anna levantou os olhos do prato. Por um segundo, uma faísca de interesse brilhou em suas pupilas claras, um pequeno vislumbre da animação que costumava ser sua marca registrada.
— Com torres de verdade, papai? — perguntou ela, a voz ainda um pouco tímida.
— As maiores que a engenharia permitir — afirmou Oscar com seriedade, piscando para ela. — Eu até trouxe uns moldes especiais que comprei na lojinha do hotel agora cedo.
— Eba! — Alex gritou, batendo as mãos na mesa. — E o meu carro vai ficar no estacionamento do castelo, né, papai? A gente pode fazer uma pista em volta das torres!
Anna murchou visivelmente. O brilho em seus olhos desapareceu tão rápido quanto surgira, substituído por aquela sombra de resignação que Lily tanto temia. A menina voltou a mexer no iogurte, a colher batendo ritmicamente contra a cerâmica.
— Não precisa, Alex — murmurou Anna. — Pode fazer o seu carro. Eu brinco com a mamãe na água.
— Nada disso — interveio Lily, tentando salvar a situação. — O papai quer construir o castelo com você, Anna. O Alex pode nos ajudar ou fazer a pista dele um pouco mais longe, para não derrubar as torres.
Oscar sentiu uma pontada de ansiedade. Ele não era bom em lidar com essas nuances emocionais complexas em tempo real; no cockpit, as decisões eram lógicas e rápidas. Ali, ele sentia que qualquer movimento errado poderia causar uma colisão emocional.
— Isso mesmo — reforçou Oscar. — Hoje o foco é o castelo, Alex. Você é o meu assistente de arquitetura para a Anna.
— Tá bom! — Alex concordou, embora estivesse claro que ele não entendia bem a hierarquia daquela missão. Para ele, qualquer tempo com Oscar era uma extensão de sua parceria habitual.
Uma hora depois, a família estava instalada em uma enseada privativa, onde a areia era fina e o mar lambia a costa com preguiça. Oscar se ajoelhou na areia úmida, ignorando o conforto das espreguiçadeiras de luxo. Ele começou a cavar, chamando Anna com um gesto.
— Venha, Anna. Preciso da sua ajuda para decidir onde vai ficar o portão principal.
Anna aproximou-se lentamente, segurando seu balde rosa. Ela começou a se sentar ao lado do pai, e por um momento, a paz parecia ter sido restaurada. Oscar explicava como a umidade da areia era crucial para a estabilidade da estrutura, usando uma linguagem simples, mas dedicada.
— Olha, papai! Olha o que eu achei! — Alex surgiu do nada, mergulhando entre os dois e jogando uma braçada de algas e pedras sobre o local onde Oscar estava nivelando a areia. — São os motores! A gente pode colocar aqui e fingir que o castelo voa!
— Alex, cuidado — pediu Oscar, tentando afastar as algas gentilmente. — Estamos tentando nivelar o chão primeiro. Anna, o que você acha de colocarmos essa concha aqui em cima?
Anna estendeu a mão para pegar a concha, mas Alex, em sua energia incontrolável de quatro anos, agarrou a mão do pai para puxá-lo em direção ao mar.
— Papai, vem ver o peixe! Tem um peixe azul ali! Rápido, antes que ele suma! Você disse que ia mergulhar comigo!
Oscar olhou para Alex, depois para Anna. Ele estava dividido.
— Alex, agora eu estou com a sua irmã. Daqui a pouco nós vamos ver o peixe, prometo.
— Mas ele vai sumir, papai! — Alex começou a pular, a voz subindo de tom, beirando uma birra de excitação. — É um peixe de corrida, ele é muito rápido! Vem, vem, vem!
Oscar, querendo evitar um escândalo na praia e achando que poderia resolver a situação rapidamente, levantou-se por um segundo.
— Anna, querida, o papai vai só olhar o peixe com o Alex por um minuto e já volta para terminarmos a torre, tá bom? Não saia daí.
Anna não respondeu. Ela ficou ali, ajoelhada na areia, observando as costas do pai enquanto ele se afastava segurando a mão de Alex. O "um minuto" de Oscar, como era de se esperar com uma criança enérgica como Alex, transformou-se em cinco, depois em dez. Alex encontrou uma estrela-do-mar, depois quis mostrar como sabia nadar com os braços, e Oscar, envolvido na alegria barulhenta do filho, acabou se distraindo por tempo demais.
Lily, que observava tudo de sua espreguiçadeira, sentiu o coração apertar. Ela viu o momento exato em que a postura de Anna mudou. A menina soltou a concha que segurava, levantou-se e começou a caminhar em direção à mãe. Seus passos eram pesados, e ela não olhou para trás nem uma vez.
— Mamãe — disse Anna, parando diante de Lily. Seus olhos estavam secos, mas havia uma frieza neles que era muito mais preocupante do que as lágrimas do avião. — Eu quero ir para o quarto. Não gosto mais de praia.
— Mas meu amor, o papai já está voltando — tentou Lily, sentando-se e puxando a filha para perto. — Ele só foi ver o peixe com o Alex.
— Ele sempre vai ver o peixe, mamãe — Anna respondeu, a voz desprovida de emoção. — O Alex é o peixe azul. Eu sou só a areia. A areia fica parada e ninguém liga.
Lily sentiu um calafrio. Aquela metáfora, vinda de uma criança tão pequena, era um grito de socorro silencioso.
— Anna, não diga isso...
— Eu quero ir embora — insistiu a menina, sua voz agora subindo de tom, carregada de uma teimosia que ela raramente mostrava. — Agora, mamãe! Por favor!
Nesse momento, Oscar voltou, secando o rosto com as mãos, Alex correndo à sua frente e gritando sobre tubarões imaginários.
— Pronto, Anna! O peixe era incrível, você devia ter visto — disse Oscar, ainda ofegante, com um sorriso que desapareceu assim que ele notou a expressão no rosto da esposa e da filha. — O que houve? Vamos continuar o castelo?
Anna olhou para o pai. Não era um olhar de raiva, era algo pior: era indiferença.
— Pode fazer com o Alex, papai — disse ela, pegando sua toalha. — Ele gosta mais de você. Eu vou com a mamãe ler livro lá dentro.
— Mas Anna, eu comprei os moldes... eu queria passar esse tempo com você — Oscar deu um passo à frente, tentando tocar o ombro da filha, mas ela se esquivou, escondendo-se atrás das pernas de Lily.
— Você já passou tempo comigo — retrucou a menina. — Você disse "um minuto" e demorou mil horas. O Alex sempre ganha, papai. Você é o juiz da corrida e o Alex sempre ganha.
Oscar recuou, como se tivesse levado um soco no estômago. Ele olhou para Lily, buscando ajuda, mas Lily apenas suspirou, balançando a cabeça negativamente.
— Eu vou levá-la para cima, Oscar — disse Lily em voz baixa. — Ela precisa de um tempo.
— Eu vou com vocês! — Oscar se prontificou, já pegando as bolsas.
— Não — Anna gritou, surpreendendo a todos. — Eu quero só a mamãe! Fica aí com o Alex e os carros dele!
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som das ondas. Oscar ficou parado na areia, cercado por baldes, pás e moldes de castelo rosa que ele nunca chegou a usar. Alex, percebendo que o clima mudara, ficou quieto ao lado do pai, segurando sua mão com força.
— Papai? — Alex chamou baixinho. — A Anna está brava porque eu vi o peixe?
Oscar não respondeu de imediato. Ele observou Lily e Anna se afastarem pela passarela de madeira, a pequena figura de Anna parecendo tão frágil e, ao mesmo tempo, tão decidida em seu isolamento.
— Não, Alex — Oscar finalmente disse, sua voz rouca de emoção. — A Anna não está brava com você. Ela está triste com o papai. Porque o papai esqueceu como se faz uma parada nos boxes para ela.
Oscar sentou-se pesadamente na areia. Ele olhou para o início do castelo que haviam começado juntos. Estava incompleto, uma fundação sem torres, exatamente como ele se sentia naquele momento em relação à filha.
— Papai, a gente pode terminar o castelo para ela? — sugeriu Alex, tentando ajudar. — Aí quando ela voltar, ela vai ver que é bonito.
Oscar olhou para o filho. Alex tinha as melhores intenções, mas Oscar percebeu que esse era justamente o problema. Ele passara tanto tempo integrando Alex em tudo o que fazia que não deixara espaço para Anna ser a única protagonista de qualquer momento.
— Não, Alex. A gente não vai terminar o castelo. — Oscar levantou-se, limpando a areia dos joelhos. — A gente vai deixar o castelo assim. Incompleto. Para o papai lembrar que, se ele não prestar atenção, ele perde o que é mais importante.
Oscar passou o resto da manhã no terraço, observando a porta do quarto onde Lily e Anna estavam trancadas. Ele tentou entrar uma vez, levando um copo de suco de laranja natural, mas Lily apareceu na fresta da porta, negando com a cabeça.
— Ela adormeceu chorando, Oscar — sussurrou Lily. — Ela disse que você não a ama porque ela não é "rápida". Ela acha que você só tem olhos para o que se move depressa, e ela gosta de coisas que ficam paradas, como as bonecas e os livros.
— Lily, eu... eu não sei o que fazer — admitiu Oscar, o homem que tomava decisões a 300 km/h sentindo-se completamente perdido em um corredor silencioso. — Eu tentei. Eu juro que tentei hoje. Mas o Alex... ele exige tanto, e é tão natural estar com ele.
— Eu sei que é natural, Oscar. Mas ser pai de dois não é sobre o que é fácil, é sobre o que é necessário. E agora, a Anna precisa sentir que ela é a sua prioridade número um, sem o Alex por perto, sem carros, sem distrações.
— Como eu conserto isso? Ela nem quer me ver.
Lily tocou o rosto do marido, vendo a angústia em seus olhos. Oscar Piastri, o "Iceman" da nova geração, estava derretendo sob o peso da rejeição da própria filha.
— Você vai ter que ser persistente, Oscar. Mais persistente do que você é em uma pista molhada. Você vai ter que mostrar a ela que o mundo dela, o mundo devagar e doce, é um lugar onde você quer morar também.
Oscar assentiu, encostando a testa na porta do quarto. Do outro lado, o silêncio de Anna era um ruído ensurdecedor em seus ouvidos. Ele percebeu que a Grécia não seria a colônia de férias fácil que ele imaginara. Seria uma maratona de reconquista.
— Eu não vou desistir, Lily — prometeu ele. — Mesmo que eu tenha que construir mil castelos e ser o convidado de honra em dez mil chás de boneca. Eu vou trazer a minha menina de volta.
Lily sorriu tristemente e fechou a porta. Oscar ficou ali, no corredor, sozinho com seus pensamentos. Ele sabia que Alex estava lá fora, esperando para brincar, mas pela primeira vez em muito tempo, Oscar não foi até ele. Ele ficou ali, guardando a porta do quarto de Anna, como um sentinela que finalmente entendeu o valor do tesouro que estava sob seu cuidado.
A tarde caiu sobre Mykonos, e enquanto o sol começava sua descida, Oscar Piastri começou sua própria jornada de aprendizado. Ele pegou um dos livros da Barbie que Anna deixara na sala e sentou-se no chão, começando a ler. Ele precisava aprender a história. Precisava conhecer os personagens. Porque na próxima vez que Anna lhe desse uma chance, ele não seria apenas o piloto da McLaren. Ele seria o pai que finalmente aprendeu a desacelerar para caminhar ao lado dela.
Mas o caminho seria longo. Anna, em seu pequeno coração ferido, havia decidido que o pódio do papai só tinha lugar para um. E ela estava cansada de ficar na arquibancada. Cabeça de Oscar latejava com a preocupação; ele sabia que a inteligência emocional de uma criança de quatro anos era um labirinto muito mais complexo do que qualquer circuito de rua do calendário da F1. E ele estava desesperado para encontrar a saída.